Os 4 grupos focais realizados integraram um total de 24 participantes, divididos em grupos de 6, os quais foram antecedidos por um pré-teste com 4 participantes. As sessões tiveram uma duração total de 7h sendo que a sessão de pré-teste teve a duração de 1h e 45 minutos. O tempo médio por sessão foi de 1h e 45 minutos.
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A natureza do estudo ONAP, e a singularidade da obtenção de dados para a presente investigação, colocou desafios metodológicos, desde logo, quanto à forma de recrutamento de participantes, para os Grupos Focais, já que o investigador não esteve presente nos trabalhos de campo, do estudo ONAP, nem foi, pela equipa que conduziu os questionários, assegurada uma pool de potenciais respondentes disponíveis para processos de posterior exploração analítica. Este contexto obrigou à mobilização de empresa especializada, em organização e condução de Grupos Focais, a qual funciona numa lógica profissional e não académica, o que obrigou a rigoroso controlo metodológico, e ético, e uma clara identificação de perímetros de intervenção:
Investigador
Elaboração do Guião de Entrevista dos grupos focais
Elaboração da Ficha de recolha de dados sociodemográficos
Elaboração de Formulário para consentimento informado por parte dos participantes Critérios de seleção da amostra e condução das sessões
Construção de matriz de análise e posterior aplicação de técnicas de análise de conteúdo Financiamento da acessória técnica e do pagamento aos participantes
Assessoria Técnica de empresa
Recrutamento dos participantes (em função de grelha fornecida pelo investigador) Gravação e Transcrição (5 sessões)
Disponibilização de salas e material de apoio
Entrega formal aos participantes do incentivo em espécie
A singularidade deste projeto colocou dois outros desafios preliminares:
Sendo a base de recrutamento um painel de respondentes, de uma empresa especializada em estudos de mercado, que enviesamentos podem daí advir em particular pela eventual semiprofissionalização destes indivíduos em resposta a inquéritos, Grupos Focais e outras técnicas de recolha de informação? Pode tal ser minimizado pelo conteúdo das perguntas/filtro de seleção a ser utilizado? Sendo uma eventual limitação, impossível de eliminar, procurou-se minimizar os seus efeitos selecionando participantes que não tinham estado presentes, há pelo menos 6 meses, em iniciativas semelhantes. Considerando a especificidade do tema comprovou-se que nenhum dos participantes
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tinha alguma vez participado em grupos focais que abordassem o tema dos A. Funcionais.
Como garantir que a apresentação do objetivo inicial da sessão (neste caso um propósito académico) e o pagamento (cartão presente de uma insígnia de híper e supermercados) não condicione a espontaneidade da participação levando os participantes (ou pelo menos alguns) a dar respostas que antecipam como “agradáveis” para o entrevistador? Procurou-se limitar os eventuais impactos negativos seja pela entrega do incentivo (Cartão presente de cadeia de híper e supermercados, no valor de 35,00€) somente no final de cada sessão (entrega feita, não diretamente pelo investigador mas pelos serviços da empresa) assim como pela explicação, no início de cada sessão, do âmbito estritamente académico da iniciativa e ainda uma condução das sessões num registo que procurou estimular a emissão de opiniões livremente expressas tendo-se verificado uma pluralidade de registos afastados de uma uniformidade que poderia revelar auto - condicionamento das respostas. Apesar de questionamentos, de índole ética e metodológica, que podem ser colocados quanto à oferta de incentivos tal pode ser aceitável, segundo alguns autores, já que os participantes têm de estar presentes num local e hora da escolha do investigador, com gastos em deslocação, e desde que o incentivo seja em cupão de uma loja na lógica de um agradecimento (Green, 2007;117), sendo esta, aliás, uma prática standard contemplada em muitos protocolos de pesquisa que envolvem consumidores (McMahon et al., 2014:403).
De forma a afinar o instrumento de pesquisa o Guião teve uma primeira versão submetida a um pré-teste com 4 participantes (2 homens e 2 mulheres) o qual contou com a presença de um doutorado em sociologia, com experiência na condução de FG, para afinação do Guião e da técnica de condução. Os dados do Pré-teste não foram contemplados na análise categorial (grelha definitiva foi, naturalmente, concluída a posteriori) mas integrados na análise de discurso enquanto ilustrativos das retóricas utilizadas.
O pré-teste permitiu, ainda, refinar o Guião e a matriz de Análise (Quadro 3.5) pois, para além das categorias inicialmente definidas, resultantes da reflexão teórica anterior, suscitou a criação de novas categorias as quais procuraram “capturar” novas expressões, dotadas de sentido, das lógicas, simbologias e fatores contextuais associados ao uso de alimentos funcionais. Importa sublinhar que a metodologia qualitativa seguida adotou o método indutivo já que, embora a reflexão teórica tenha determinado a moldura analítica de partida, imperou o princípio da identificação “das lógicas e racionalidades dos atores
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confrontando-as com o modelo de referência. A consequência imediata é que o trabalho de construção do objeto, da análise e das hipóteses, é contínuo desde o início até ao final da pesquisa” (Guerra, 2006; 22); foi o contacto do investigador com os participantes dos Grupos Focais, e a dinâmica aí estabelecida, que sugeriu a arquitetura final da matriz de análise fazendo emergir os “Influenciadores de Consumo” e os “Processos de Validação” e dotando- os de estatuto categorial.
DIMENSÕES
1 SIMBOLOGIAS
Inocuidade e ausência de efeitos secundários associados aos produtos naturais
Aproximação ao medicamento/Suplemento Relação entre o natural e o processado/manipulado Estar doente vs. ter cuidado com a saúde/estilo de vida
2 RAZÕES E LÓGICAS
Eficácia associada à modernidade e tecnologia utilizadas no enriquecimento dos produtos
Complementaridade/alternância terapêutica
Crença nas promessas/alegações de saúde veiculadas pela rotulagem dos produtos e o Marketing/Publicidade que promove o respetivo consumo Gratificação Pessoal (“Faço algo por mim/pela minha saúde)
Substituir/evitar/atrasar medicamento/suplemento
3 CIRCUNSTÂNCIAS DE CONSUMO
Que contexto determina(ou) a opção (ex. prevenir, controlar) Nestas circunstâncias porque não optou pelo medicamento ou suplemento
Integra sistema alargado e práticas promotoras de saúde
4 PERCEPÇÃO DE RESULTADOS
Visibilidade dos resultados Admissibilidade de futuro abandono
5 PROCESSOS DE VALIDAÇÃO
Selo de garantia/aconselhamento médico Aconselhamento de Nutricionista Rede social de apoio
Redes sociais Leitura/”evidência científica” 6 INFLUENCIADORES DE CONSUMO Hábito/Moda Sabor Acesso Preço/Promoção Experimentação
Uso prático; substitui alimento “normal”
Quadro83.5 - Matriz para Análise de Conteúdo das entrevistas dos Grupos Focais
Não sendo os resultados dos Grupos Focais imunes ao modo como os mesmos são conduzidos (Bender & Ewbank, 1994:65) importou assegurar, no início de cada um, a diminuição de possíveis enviesamentos em particular pelo alinhamento dos participantes com o objeto em apreciação, e a designação institucional do mesmo (alimento funcional), já que os participantes foram recrutados em função do consumo de alimentos específicos (ex. iogurtes
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para reduzir o colesterol ou para regular o trânsito intestinal) e não em função do consumo de ‘alimentos funcionais’ conceito não necessariamente familiar e compreendido pelo universo de consumidores, fonte do recrutamento. Assim, antes do início do diálogo sobre os alimentos funcionais, foram os participantes confrontados com sete blocos de imagens (conf Anexo A 6.1), representando os segmentos mais consumidos em Portugal, tendo sido sublinhado que se tratavam de alimentos aos quais tinham sido adicionados elementos bioativos, em alinhamento com as práticas seguidas em outras pesquisas envolvendo alimentos funcionais (Stratton, et al., 2015:134). Sendo que uma das primeiras tarefas do facilitador do Grupo Focal é o de assegurar um ambiente não-avaliativo, e capaz de estimular opiniões contrastantes (Bender & Ewbank, 1994:66), o autor da tese procurou, no início de cada sessão (conf. Anexo B - Transcrições) explicar as regras-base e criar um ambiente de empatia que eliminasse eventuais desconfortos prosseguindo com uma abordagem não-diretiva (Bender & Ewbank, 1994:67).