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Resulta evidente, da análise dos códigos, que as categorias “Simbologias” (61), “Influenciadores de Consumo” (55) e “Razões e Lógicas” (52) correspondem aquelas com maiores registos captados (Quadro 6.5). Sendo estes valores sempre contingentes do modo de condução das entrevistas procurou-se, não obstante, usá-los dentro da proporcionalidade revelada.

Tal se deve, predominantemente, à riqueza da dinâmica discursiva gerada pelas temáticas em causa não sendo de descurar algum enviesamento resultante da condução dos Grupos Focais, por parte do investigador, com sobre atenção prestada às dimensões com maior potencial de revelação dos sentidos das práticas em análise. O GF das Mulheres destaca-se pela densidade de registos fruto, talvez, da homogeneidade do grupo, por comparação com os Grupos Mistos e de uma menor contenção verbal comparativamente ao Grupo dos Homens. Procede-se, nas páginas seguintes, à exploração analítica das categorias definidas.

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Quadro116.5 - Grelha de Segmentos apurados

Simbologias

Destaca-se no Grupo das Mulheres a preponderância da dimensão “Simbologias” e, no plano dos subcódigos, a relação estabelecida entre o uso dos alimentos funcionais e ingestão de medicamentos e/ou suplementos. São expressas subjetividades quanto ao papel do medicamento na gestão do quotidiano, habitualmente muito preenchido e, talvez por isso, menos disponíveis que os homens para a componente convivial da refeição e do ato alimentar:

“(…)Se pudesse tomar um comprimido e andar bem disposta e não ter de comer, eu andava bem. Acho que é uma perda de tempo; gosto de algum convívio à mesa mas a maior parte das vezes era capaz de fazer uma refeição por dia e o resto tomar um comprimido” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.67).

“Eu também digo isso passamos tanto tempo a comer, preferia tomar um comprimido. Assim era mais rápido” (conf Anexo B – GF Mulheres, p.71).

Verifica-se uma aceitação muito naturalizada do papel “quase como medicamento” que pode ser desempenhado pelo alimento funcional e as lógicas terapêuticas associadas nomeadamente o controlo de certos parâmetros (ex. colesterol) ou sintomas:

CÓDIGOS FG 1 Homens FG 2 Mulheres FG 3 Misto FG 4 Misto TOTAL Percepção de Resultados 8 12 6 10 36 Processos de Validação 7 3 10 7 27 Influenciadores de Consumo 9 26 9 11 55 Simbologias 14 30 4 13 61 Razões e Lógicas 12 25 7 8 52 Circunstâncias de Consumo 2 3 8 6 19 TOTAL 52 99 44 55 250

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“Danacol, também mostrou não foi? Consumo um bocado como medicamento, como não tomo medicamento para o colesterol e acabo por comprar aquilo como medicamento. Mas não me baixa o colesterol; não tem é aumentado (…)” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.74).

“O meu marido toma Danacol. Já tomou quase como medicamento e depois eu também tive com o colesterol mais elevado e também tomei quase como medicamento” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.76).

“Até me custa que como vejo como medicamento, é caro, não me sabe a nada, não dá prazer beber aquilo, nem aquece nem arrefece, por isso digo que é como medicamento, porque acho que me está a controlar o colesterol” (conf Anexo B – GF Mulheres, p.75).

“Acho que esses alimentos têm uma promessa, por acaso nunca tinha pensado nisso como medicamento mas tomo o Activia para funcionar os intestinos” (conf Anexo B – GF Mulheres, p.76).

O consumo naturalizado parece ser suportado numa certa bipolaridade cognitiva expressa, por um lado, na noção de fronteira entre os objetos alimento e medicamento (a verbalização do “quase” e o efeito saciante/nutritivo que os distingue) mas, por outro, na capacidade de substituição mútua, com significativa conveniência, sem que os fundamentos técnicos, para tal, sejam bem compreendidos prevalecendo a expectativa quanto aos resultados esperados:

“Se possível, tento com os alimentos fazer um bocadinho de medicamento” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.79).

“ Porque se temos que comprar o alimento então compramos o alimento já com medicamento…”(conf Anexo B - GF Mulheres, p.86).

“(…)um leite com cereais eu fico sem fome; o ovo eu fico sem fome; o Danacol não me tira a fome. Eu vejo mesmo como medicamento; se calhar se fosse maior e tivesse lá a mesma quantidade do que tem de ter, se calhar via como alimento” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.78).

“ (Danacol) é um alimento como outro, como por exemplo, neste momento, a beterraba é para mim, mas é um alimento que no fundo tem a componente medicamento, além de me saciar a

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fome. Para além de ser mais rico em vitamina, ou o quer que seja mas também o tomar ali qualquer coisa e evitar ir à farmácia” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.78).

Alguns discursos sugerem uma aceitação, inquestionável, do papel terapêutico do alimento refletindo sólidos processos de medicalização do ato alimentar, de natureza ascendente:

“Eu acho que a alimentação são os melhores medicamentos que podemos ter”(conf Anexo B – GF Mulheres, p. 76).

A distinção entre alimento funcional e medicamento é racionalizada tanto no plano da materialidade (natural vs. químico) como no plano da construção identitária e imagem social projetada para o outro. Sendo expectável que a inocuidade e ausência de efeitos secundários, associados ao alimento, pudessem constituir um elemento de diferenciação (subcódigo da dimensão “Simbologias”) tal não obteve relevância discursiva sendo que as experiências gustativas e sensoriais, ou ausência destas, (“ o medicamento é menos natural…é só beber água e engolir”, conf Anexo B - FG Mulheres, p. 86) ganham proeminência assim como a componente química a qual, embora aceite como sinalizador de diferença, suscita posicionamentos diferentes:

“ (o Medicamento)…é mais químico; nós se calhar achamos que é mais químico” (conf Anexo B - FG Mulheres, p.86).

“(…) se eu vou comprar o alimento, se tenho de o comprar para que é que a seguir tenho que ir ainda á farmácia? Vou só a um supermercado e trago tudo de uma vez. Porque para mim é exatamente igual, não acho mais químico ou menos químico. Acho exatamente igual. Acho que é como se me pusessem o medicamento dentro do frasco do leite” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.86).

A componente “química” do medicamento é predominantemente associada ao conceito de dependência, este gerador de perceções negativas, sendo expressos desejos de uma ideal substituição e, mesmo, exercícios de taxinomia leiga:

“Porque falando em medicamentos, química, as pessoas automaticamente pensam que são dependentes e efetivamente são mas se fosse chamado de alimento, como este colega disse,

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penso que alguma coisa se alterava, o bem-estar das pessoas era diferente”. (conf Anexo B - GF Homens, p.65).

“Este produto tem tudo, apesar de ser manipulado, tem tudo para dar certo (…) visto que é um alimento, é uma coisa que é preciso ingerir porque faz parte do ser, de nós, enquanto que tomar medicamentos não faz parte de nós, é antinatural, portanto se, automaticamente, um alimento pode vir a substituir a química isso era o ideal. Só acho é que isto, no fundo, que está a acontecer é que estamos a transformar alimentos em medicamentos, acho.” (conf Anexo B - GF Homens, p.65).

“Esses produtos (alimentos enriquecidos) têm sempre algo mais natural do que um comprimido que é somente químico” (conf Anexo B - GF Misto 1, Homem, p.113).

“(Danacol) porque é de origem vegetal o que põem lá e está cientificamente comprovado que reduz o colesterol, vou ver nas próximas análises, é algo que é extraído da natureza, não algo químico” (conf Anexo B - GF Misto 2, Mulher, p.127).

“(…) efetivamente, é funcional, tem uma função, mas é um alimento. Um medicamento também é funcional, mas em forma de medicamento, portanto um aproxima-se mais do natural, o outro mais do artificial. Um mais do natural portanto, vá lá, orgânico outro mais do natural químico” (conf Anexo B - GF Homens, p.62).

É interessante, ainda, verificar o domínio de vocabulário técnico, associado a uma cultura médica, e o que tal pode representar de penetração intersticial da medicalização:

“Para além que o comprimido é mais difícil de fazer depois o desmame” (conf Anexo B - GF Misto 1, Homem, p.113).

“Para mim, acho que o efeito secundário do comprimido será sempre pior que o do alimento suplementar” (conf Anexo B – GF Misto 1, Mulher, p.113)

O Grupo Focal dos Homens introduz um sistema classificatório dicotómico, associado a um quase julgamento moral, entre os conceitos de “manipulado”, associado a uma tecnologia positiva, e “processado” associado a uma tecnologia negativa. O conceito de “manipulado” associado ao alimento funcional (“é um produto acrescentado ou retirado”, conf

Anexo B - GF Homens, p.61) adota como suporte estruturante a integração de um aditivo ou uma

técnica a um alimento “normal” dotando-o de qualidades superiores tal como acontece com a integração de gaz carbónico na água, de cálcio no leite, de bactérias no iogurte (“o Activia é natural porque era natural e entraram algumas bactérias precisamente para a função”, conf Anexo B

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- GF Homens, p 59) ou a retirada de gordura para produção de leite magro, ou meio-gordo, em

contraste com o conceito de “processado” sobretudo associado a alimentos industriais, não pré-existentes na natureza (ex. margarinas), e a técnicas de conservação com utilização de aditivos químicos:

“Hoje fala-se muito nas carnes processadas, no peixe processado, várias qualidades de carnes ou peixes que são misturadas e resultam, depois, no produto final. Por exemplo as barrinhas de peixe, os hambúrgueres, as salchichas e fiambre, tudo isso é processado; agora o leite é homogeneizado” (conf Anexo B - GF Homens, p. 57).

“(o Actívia) é um produto que na realidade foi manipulado mas vai exercer uma função. Se fosse natural não fazia a função para a qual foi predestinado. Ali houve aquele aditivo, foi uma pastilha que se transformou; em vez de ir à farmácia, começa a usar” (conf Anexo B - GF Homens, p.59).

“(…) não me choca que no leite, aquele leite que no próprio leite meio-gordo ou magro eles têm de desnatar aquilo ou têm que lhe retirar a gordura, também é manipular (…) podemos pensar no manipulado dos cientistas do laboratório a injetar coisas ou podemos pensar no leite manipulado…”(conf Anexo B - GF Homens, p.61).

“As margarinas, é uma coisa horrorosa o que eles põem lá para dentro, portanto o melhor é nem pensar.” (conf Anexo B - GF Homens, p.61).

“(…) o processamento é mau, as pessoas têm uma ideia pré-concebida que é má; não, isto (A. Funcional) é manipulado, bem manipulado” (conf Anexo B - GF Homens, p.63).

Razões e Lógicas

Uma das lógicas de adesão ao alimento funcional, ou mais genericamente aos alimentos com fins/propriedades medicinais, particularmente expressa pelas mulheres (14 registos na categoria “Razões e Lógicas”), associa-se com a disponibilidade/vontade de substituição do medicamento por uma alternativa que atenue a dependência do regime médico materializada num calendário posológico que aprisiona e organiza o quotidiano realçando, a cada toma, perante o próprio e os outros, a doença enquanto marcador social que debilita a identidade:

“Como é que uma pessoa pode ficar fora ou pode apetecer fazer um fim-de-semana ou pode não sei quê e tem de ter sempre aquilo (medicamento)…..é um bocado….portanto se fosse com alimento” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.90).

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“Perante as outras pessoas quando estivermos, imagina, num jantar temos a caixa dos comprimidos, depois a gente olha (,,,). Enquanto se eu pedir: olhe, quero uma salada mas tem que ter beterraba tem que ter não sei o quê (…). E se tiver os medicamentos, o que é que tens? Estás doente? Sim estou com anemia. Anemia, mas porquê? Não é? Caso contrário nem dão por isso” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.90).

“Medicamento é doença mesmo” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.89).

Eventualmente exprimindo uma representação de potência terapêutica superior, associada ao medicamento, é sugerido para o A. Funcional um papel de retardador do uso do medicamento:

“Os alimentos funcionais são mais úteis naquela fase de atrasar ou evitar a medicação (…)” (conf Anexo B - GF Misto 2, Mulher, p.137).

No caso de doenças crónicas, de facto, os doentes são confrontados com duas alternativas, eventualmente complementares, mas ambas com reconhecido impacto no respetivo quotidiano: uma dieta habitualmente restritiva e/ou diferente da habitual, e daquela que rege o restante agregado familiar, e regime medicamentoso diário, e para o resto da vida. Nos casos de doentes com hiperlipidemia (colesterol elevado) o alimento funcional (ex. margarina ou creme de barrar) pode constituir uma alternativa apelativa (Patch egt al., 2004:26):

“Se me encontrar um alimento que substitui a medicação eu substituo, completamente. Não tenho que andar com o medicamento atrás” (conf Anexo B – GF Mulheres, p. 88).

As narrativas verbalizadas sublinham a natureza quase ontológica associada às perceções do “estar doente” versus o “ter cuidado” e como estas modelam os processos de (re)construção identitária:

“Porque o medicamento sabe-me a doença…é uma obrigação, é estar a envelhecer, é estar dependente, é…eu não sou contra envelhecer…acho que até é…mas eu quero envelhecer como deve ser…bem…” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.95).

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“Eu faço(…), principalmente agora no Verão, retenção de líquidos, tensão alta e não sei quê. Eu faço chá e bebo perfeitamente. Agora se tivesse de tomar o comprimido por causa da retenção de líquidos, e eu andasse todos os dias, aquilo para mim já era doença” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.91-92).

O ‘bem-estar’ é um constructo complexo e multidimensional (Ares et al., 2014:66) e uma construção social que procura idealizar um referencial-tipo de ator social remetendo para a articulação entre corpos saudáveis, socialmente aceites, refletindo poder e controlo sobre o contexto (acesso a cuidados de saúde) e variáveis, em particular as nutricionais, e a componente psicológica a qual incorpora avaliações cognitivas e afetivas de “satisfação com a vida” (McMahon et al., 2014:405). Constitui um conceito que adquire significações distintas em função dos investimentos pessoais realizados, em particular no que respeita as escolhas alimentares, para otimizar o estado global da saúde. As retóricas utilizadas pelos participantes dos Grupos Focais sugerem que o consumo de alimentos funcionais partilha pressupostos aspiracionais com o conceito de ‘bem-estar’ (McMahon et al., 2014:408) subsumindo lógicas de autorrealização estruturadas em volta de um núcleo de ‘cuidados’ de gestão corporal:

“Por isso é que eu acho que todas estas coisas do Danacol, e do Actívia, é estar a cuidar de mim, porque é estar a fazer com que o colesterol não suba (…) e isto para mim é uma forma de evitar mais medicamento (…)” (conf Anexo B - G F Mulheres, p.90).

“(associo o alimento funcional) mais a cuidados que nós temos connosco” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.89).

“É mais, se calhar, uma forma preventiva da doença, um cuidado que a pessoa tem” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.89).

“Lá está, porque é mais preventivo que remédio” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.91). “E não é doença. É cuidado” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.92).

“Vamos evitar ao máximo, enquanto pudermos, de não tomar medicação” (conf Anexo B - GF Misto 2, Homem, p.136).

“É como prevenção para se evitar males maiores” (conf Anexo B - GF Misto 2, Mulher, p.129).

Os discursos sobre saúde em muitos países, incluindo Portugal, integram, de forma recorrente, apelos aos indivíduos para que façam “escolhas inteligentes” no que respeita a

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dieta, o exercício e o bem-estar emocional (Petersen et al., 2010:391). Se pode ser invocada uma racionalidade neoliberal quanto á forma como a designada ‘promoção da saúde’, e os ‘imperativos’ individuais daí decorrentes, está ideologicamente impregnada não pode ser ignorada a emergência de novas formas de cidadania e conceções do self que emergem na vida social (Petersen et al., 2010:392). No quotidiano a construção do self apoia-se em Guiões que combinam um ativismo experimentalista e lógicas de construção de contextos de autonomia, e gratificação pessoal, seja numa perspetiva mais imediatista (compensação) ou mais a prazo (prevenção):

“(…) já me aconteceu sair do ginásio às 11h da noite e chegar a casa e comer feijoada e depois ir-me deitar (…).Depois tenho de compensar de alguma forma. Eu recorro aos Actívia frequentemente. (…) Portanto tento ir por aí; se calhar para compensar outros excessos que às vezes cometo.”(conf Anexo B - GF Homens, p.51-52).

“ (porque é que consome?) Porque experimentei e gostei e ficou; são os tais hábitos. Epá pronto.” (conf Anexo B - GF Homens, p.54).

“Nós somos muito curiosas, mais que não fosse comprar para experimentar e se nos saciasse ou nós víssemos alguma evolução ou melhorar, porque não?” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.93).

“(…) eu vou aos alimentos funcionais se vir que preciso de dar ali um input maior nalguma coisa.”(conf Anexo B - GF Misto 2, Mulher, p. 132).

“Se houvesse um alimento com magnésio, eu comprava, porque eu vou atrás de um alimento funcional se tiver a precisar daquela substância em concreto.” (conf Anexo B - GF Misto 2, Mulher, p.138).

“Vai ser a minha atitude com todo o tipo de produtos que tem uma aplicação funcional, vai ser essa, vai ser de me convencer a mim próprio, agora se tiver efeito ou não… Se tiver boa sorte a minha, se não tiver, paciência”( conf Anexo B - GF Misto 2, Homem, p.140).

“O nosso psicológico para nós ficarmos bem tinha de fazer um esforço e tínhamos lá que…(…).Tínhamos que ir experimentar (alimento funcional com sabor menos agradável). (conf Anexo B - GF Mulheres, p.95).

“(…) Ao menos dá-me a sensação de estar a fazer algo diferente, independentemente de depois chegar ao médico e ter ali alguma questão. Porque ao menos penso: eu consumo estes produtos e tenho ainda colesterol; o que seria se não os tomasse?” (conf Anexo B - GF Homens, p.56).

156 Perceção de Resultados

A perceção de resultados constitui a dimensão com registos mais fluídos nos quais se combinam distintas perceções e graus de verificação da eficácia dos alimentos funcionais. Mesmo nos casos em que não é possível verificar qualquer melhoria na situação, sob intervenção, exprime-se a perceção de que alguma ação terá pois não existe agravamento de sinais e sintomas:

“(…) eu consumo os iogurtes Actívia e aquilo realmente, eu acho que aquilo funciona.” (conf Anexo B - GF Homens, p.51).

“Agora eu vou à procura desses produtos na perspetiva de não agravar nada (…) não sei se reduzirá, mas pelo menos não agrava.” (conf Anexo B – GF Homens, p.55).

“Os Actívias, eu consumo todos os dias, faz funcionar os intestinos; também há águas com ómega 3 e bebo, e como estou na idade em que os ómegas 3 ajudam a não ter calor é as duas coisas, as águas não sei mas os Activias funcionam, uma vez por dia..” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.72).

“(…) Os Danacol já comprei para o meu marido, por causa do colesterol, e acho que até funcionou (…).” (conf Anexo B - GF Mulheres, p.73).

“ (…) Actívia, consumo há anos e anos (…) se faz efeito ou não, não consigo avaliar porque já tomo há muitos anos, não sei.” (conf Anexo B – GF Mulheres, p.73).

“Se o colesterol não subir.” (conf Anexo B – GF Mulheres, p.77).

“Eu não consigo medir muito a eficácia. Se calhar se deixasse…Olhe se calhar por curiosidade poderia fazer isso: deixar de consumir para tentar perceber o bem que me estaria a fazer.” (conf Anexo B – GF Mulheres, p.81).

“Tomo o Danacol (…) porque sei que tomando um por dia consigo equilibrar abaixo dos 220; nas últimas análises tinha 214 e fiquei contente.” (conf Anexo B – GF Misto 1, Mulher, p.108). “Tenho um tio com 75 anos que provou que o Danacol lhe baixava o colesterol porque, continuava a comer o toucinho frito, tudo o que era mau, toma Danacol foi à médica e estava mais baixo” (conf Anexo b - GF Misto 1, Mulher, p.108).

“O Actívia comigo dá resultado; numa semana fico bem” (conf Anexo B – GF Misto1, Mulher, p.116).

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Predomina, no consumo de alimentos funcionais, uma lógica de baixo investimento emocional e corporal materializado, sobretudo, em processos de autovigilância e autodisciplina e o estabelecimento de normas subjetivas transformando o alimento funcional em objeto terapêutico e o corpo em instrumento da experiência já que, sobretudo nas fases iniciais de adesão, os sujeitos não se conseguem remover da experiência mesclando experimentalismo com empirismo (conhecimento como proveniente, sobretudo, da experiência sensorial).

“(…)Se for uma coisa nova vamos experimentar; se correr bem…”(conf Anexo B - GF Misto 2, Homem, p.147).

“Eu tento sempre ir aos alimentos buscar o que preciso mas já me aconteceu, na altura em que estava com problemas de pele, devido à imunidade, fui comprar o mangustão. Lá está, eu experimento” (conf Anexo B - GF Pré-teste, Mulher, p.18).

“(…) Eu já houve coisas que experimentei e disse: Meu Deus é péssimo” (conf Anexo B - GF Misto 2, Mulher, p.147).

“Em primeiro experimento e depois é que pesquiso” (conf Anexo B – GF Pré-teste, Mulher, p. 8).

“ A água (enriquecida) já comecei mas não sei se funciona. Fiz o mês de Julho, vou fazer o mês de Agosto; se não funcionar vai ao ar” (conf Anexo B – GF Mulheres, p. 72).

Vivemos em sociedades reflexivas e do conhecimento nas quais o ‘saber’ vai substituindo o poder legitimador da tradição. Esta dinâmica social manifesta-se, na área da saúde, pelo consumo de recursos numa lógica de ‘banda larga’ i.e. expansão das opções disponíveis: da medicina convencional às MCA’s (medicinas complementares e alternativas); dos medicamentos aos produtos ditos naturais; dos suplementos aos alimentos funcionais com incursões, com distintos graus de continuidade, pela designada dieta saudável ou novas formas de adição como o Ginásio ou a meditação. Impera pois o que se poderia designar por uma ´triangulação terapêutica’ conceito aqui, metaforicamente, importado (Kelle, 2001:5) como o recurso a estratégias distintas, ou múltiplas ferramentas e técnicas, com o objectivo de melhorar o resultado final. No caso do alimento funcional este processo de ‘triangulação’ é facilitado pelo percepcionado baixo risco que lhe está associado e pela simplicidade de manuseio:

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A normalização do consumo ocorre, de acordo com alguns relatos, de forma tranquila e sequencial:

“Pois lá está, às vezes caio a comprar estas coisas porque, bem deixa lá experimentar que dizem que faz bem aqui ou ali; uma pessoa compra e por vezes até entra na rotina” (conf. Anexo B – GF Misto 2, Homem, p.144).

Processos de Validação

Quais os processos cognitivos mobilizados para as escolhas alimentares que os consumidores leigos efetuam? Como se combinam o processamento de informação com a avaliação do risco daqui resultando os distintos graus de confiança depositados em opções alternativas? Existe abundante literatura sobre os impactos, erosivos, que os recorrentes ‘pânicos’ alimentares (ex. vacas loucas, nitrofuranos nas aves ou a recente contaminação dos ovos com um pesticida tóxico – Fipronil), temporalmente datados, ou receios mais difusos, sobre a utilização de fitoquímicos na cadeia alimentar, provocam na relação do consumidor com o sistema alimentar (Ward, et al., 2011:2; Buchler, et al., 2010:356) estando tal dependente de características sociodemográficas e da tipologia de risco: se este é tradicional (contaminação) ou moderno (aditivos) (Buchler, et al., 2010:367). Se, como argumentam alguns autores, a gestão do risco alimentar, a nível individual, é condicionada pela existência de recursos (sociais, económicos e culturais) associados a possibilidades de exercer controlo, e poder, sobre as fontes do risco (Buchler et al., 2010:370) afirma-se, então, como um fenómeno social, a generalizada vulnerabilidade dos leigos, perante a dimensão das variáveis com que