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Kollektive og kollektivt

Nas sociedades modernas, desejo e utilidade dos objetos confundem-se na árvore de decisão dos consumidores. As necessidades materiais/biológicas estão infiltradas por uma paleta de códigos imateriais e este binómio organiza o quotidiano e constrói identidades individuais. O alimento, na modernidade, não escapa a esta fenomenologia sendo que a extensão da medicalização ao ato alimentar se corporiza na dimensão racional e significante que passou a enquadrar a ingestão de certos alimentos; “este alimento resume e transmite uma situação, ele constitui uma informação, ele é significativo” (Barthes, 1961: 980). Mais do que satisfazer necessidades biológicas, ou apelos sensoriais, comer passou a constituir, para muitos indivíduos, um processo de elevada seletividade, submetido a uma grelha analítica de atributos (saudável, dietético, nutritivo, funcional), enquadramento pericial (prescrição ou recomendação do médico, dietista ou nutricionista) e certificação regulamentar corporizada nas alegações de saúde, que estão oficialmente aprovadas, e na informação técnica que integra a rotulagem; a sociedade estrutura estes objetos a fim de os utilizar (Barthes, 1961:983).

O alimento e o ato alimentar sempre assumiram uma grande centralidade no quotidiano dos cidadãos, em particular nos tempos modernos, seja enquanto poderoso ecrã das dinâmicas sociais, envolvendo atores tão diversos quanto os consumidores e as indústrias farmacêutica e agroalimentar, seja enquanto instrumentos estruturantes dos processos identitários do homo consumens dominado pela coisificação (Bauman, 2006 [2003]) dos mais banais aspetos da vida social e a consequente reconfiguração dos consumos; em contexto de significativa densificação das redes sociais, significados, médica e nutricionalmente construídos, dispõem de uma via verde para a mente dos cidadãos. O que é novo, e ajuda a explicar a adesão de milhares de consumidores portugueses a uma miríade de soluções terapêuticas e proto – terapêuticas, é a progressiva atenuação, no plano das perceções sociais, do anterior eixo binário saúde – doença ao qual correspondia, num polo, um trajeto pessoal de ‘inação’ (“estou saudável, ainda bem; não há nada a fazer”) e, no outro, um trajeto pessoal de ação ‘controlada’ (estou doente; faço o que o médico determina”). Entre um estado de absoluto controlo individual, no qual predominam ações como a gestão do risco (fumar; ingestão de bebidas alcoólicas, desportos e atividades radicais, consumo de drogas leves e pesadas, adequadas horas de sono etc.), e a existência de uma doença crónica, ou aguda, ganham relevância estádios intermédios em que se afirmam iniciativas tais como o autodiagnóstico, monitorização de sinais e sintomas, gestão alimentar, consumos de performance, atividade física etc. e, eventualmente, reveladores de processos de

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autodeterminação, dos sujeitos, na gestão da respetiva saúde futura (McMahon et al., 2014: 402). Instalam-se e afirmam-se, como dinâmicas sociais, verdadeiros ‘corredores’ de possibilidades que, tal como numa habitação, fazem a ligação entre os distintos lugares mais do que estabelecer uma ligação direta entre a porta da entrada e a divisão mais afastada. Estes ‘corredores’ de intervenção corporal, ao albergar tão variadas possibilidades, tendem a diminuir as fronteiras entre: prevenção da doença futura e gestão do bem-estar imediato; autocuidado e automedicação; esforço e recompensa; novidade e ciência e saúde e nutrição. A análise de conteúdo dos Grupos Focais evidenciou que, nos consumidores de alimentos funcionais, uma atitude experimentalista se combina com processos de gratificação pessoal e representações sociais negativas, associadas ao Químico/Processado, e positivas, associadas ao medicamento/eficácia, que ajudam a compreender a aceitação destes produtos como novidades alimentares (Bäckström et al., 2003:299) e a sua mundanização nos “corredores” de fluidez terapêutica e preventiva que caracteriza a modernidade.

O AF, embora possa ser considerado uma tecnologia de saúde, parece, de acordo com a presente investigação, integrar o universo do ‘natural’, mesmo que, nalguns casos, se verifique uma relação produto-dependente (como é o caso dos ovos enriquecidos com ómega- 3), o que está de acordo com alguma literatura internacional (Urala & Lähteenmäki, 2007:10), gerador de perceções de maior inocuidade, quando comparado com as opções medicamentosas, tornando-se assim um território propício ao maior experimentalismo terapêutico por parte dos consumidores mais ativistas. As novas culturas terapêuticas estimulam o experimentalismo indulgente, dínamo de múltiplas soluções personalizadas: o indivíduo seleciona, a partir de opções existentes, as que mais se adequam e combina-as de forma única e singular. Processando distintos fluxos de informação, em articulação com as simbologias curativas, em particular aquelas associadas ao medicamento (Van der Geest & White, 1989) que penetram o respetivo quotidiano, os consumidores vão revalorizando as promessas de benefícios e “incremento saudável” (Verbeke, 2005) de alguns alimentos, concedendo-lhes um estatuto dual: simultaneamente alimento e mercadoria ostentativa associada a determinadas expectativas. A opção por alimentos funcionais, versão moderna de um recurso antigo, pode assim funcionar como cartão-de-visita social de consumidores dotados de um conhecimento diferenciado e sinalizador de um estilo de vida mais vanguardista e social e ambientalmente responsável (por demarcação do medicamento “químico). O alimento transformado em objeto terapêutico sinaliza, assim, a geração de novos desejos e formas de conhecimento, a concretização de novos modelos de reflexão sobre o valor do binómio saúde-doença (Watson et al, 2009), e da diluição de fronteiras entre o

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natural e o artificial, assim como a crescente intervenção no corpo e intolerância à doença, valorizando respostas rápidas que recuperem os indivíduos para o normal funcionamento social (Helman, 1994).

O consumo dos designados tecno-alimentos revela expressão crescente, em Portugal, demonstrada pela evidência empírica, tornando-se um exemplo da mercantilização dos produtos alimentares desenhados para uma vida saudável sendo estes, predominantemente, apropriados por mulheres de meia-idade, enquanto investimento na qualidade de vida no momento presente e na prevenção de doenças crónicas ou patologias agudas no futuro. É agora possível caracterizar, com maior robustez, os padrões sociográficos dos consumidores portugueses de alimentos funcionais, os quais, no que respeita ao sexo, idade, escolaridade e rendimento se alinham com os perfis descritos na bibliografia internacional publicada.

Aqui chegados importa responder à pergunta de partida: Quais as razões, num contexto de proliferação de soluções medicamentosas, para os indivíduos aderirem aos alimentos funcionais?

Duas explicações, sustentadas na exploração analítica dos discursos nos Grupos Focais, emergem como possíveis: (i) Substituição do medicamento e (ii) complementaridade com o medicamento. A noção de substituição remete para a avaliação valorativa de riscos associados a qualquer uma das opções sendo de admitir, em tese, duas hipóteses:

 Que o itinerário terapêutico se iniciou com o medicamento e que, em determinada fase, aquele foi interrompido (in)voluindo, num ranking terapêutico, de uma solução prescrita por um médico, ou farmacêutico, para uma outra, eventualmente, mais autónoma e menos medicalizada o que se afigura como hipótese pouco plausível considerando a significativa dependência da jurisdição médica nos casos de doença aguda ou crónica.

 Que o itinerário terapêutico se inicia com o alimento funcional, em alternativa ao medicamento, por iniciativa própria ou sob orientação técnica, na lógica de mais do que prevenir, retardar, a ingestão do medicamento, momento que muitos dos participantes nos Grupos Focais consideram mais ou menos inevitável, a médio ou longo prazo, considerando ser o corpo inescapável à degradação biológica e/ou à interação com o meio externo e aos contextos de doença que daí decorrem.

A segunda explicação remete para lógicas de simultaneidade ou alternância o que supõe, igualmente, algum controlo pericial ou a promessa de um efeito adicional, por vias da dieta, sem que tal corresponda a um incremento dos efeitos secundários, supostamente

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imputável a um incremento da dose terapêutica do medicamento, se tal fosse a opção. A utilização como instrumento coadjuvante na lógica da diminuição das doses, ou da quantidade de medicamentos, que o doente toma já foi igualmente mencionada por outros autores (Stratton, et al., 2015:139). O cumprimento de um papel seja de retardador do contacto com o medicamento, ou de adjuvante da ação deste, seja nos sintomas mais evidentes, e de curto prazo, como o controlo do trânsito intestinal ou naqueles verificáveis somente a médio prazo, como é o controlo do colesterol, coloca o alimento funcional na mesma ‘caixa de ferramentas’ na qual se encontra o medicamento promovendo aquilo que pode ser descrito como um fenómeno de circularidade: a medicalização da sociedade favorece a aceitação, por parte dos indivíduos, de expedientes/soluções que intervêm no mesmo plano corporal que o medicamento (compostos bioativos, invisíveis) e dispensam investimentos, materiais e cognitivos, na alteração dos estilos de vida; os alimentos funcionais, antecipadamente ingeridos como objetos com limitado ‘prazo de validade’ terapêutica, posicionam-se nos primeiros degraus da escada terapêutica legitimando o uso mais tardio de soluções medicamentosas.

A presente investigação revelou como o consumo de alimentos funcionais integra, de forma natural, os hábitos alimentares de muitos portugueses expondo as subjetividades “subterrâneas”, associadas às disposições para o consumo de AF, e de como estas combinam o reflexivo com o espontâneo: as lógicas da prevenção convivem com a busca de resultados imediatos (saúde intestinal e os valores do colesterol); as lógicas do atrasar a toma de medicamentos interligam-se com a busca da gratificação pessoal; as lógicas da recusa/tensão da negatividade associada ao “químico” e “processado” não excluem a crença na evidência científica; a legitimação conferida por entidades e especialistas não renega a confiança nas redes de proximidade. A presente investigação permite comprovar a grande hipótese de que os alimentos funcionais, quando usados como instrumento terapêutico, por parte de consumidores com razoável nível informacional, integram o processo contemporâneo de “medicalização” da vida social, mesmo materializando-se aquele em práticas proto- medicalizadas, pois são utilizados enquanto agentes dotados de capacidades terapêuticas/preventivas mesmo que não diretamente sujeitos à jurisdição médica tradicional. Em muitos casos o diagnóstico classifica os sinais e sintomas, sem necessidade do discurso pericial legitimador, as tabelas nutricionais e as alegações de saúde dos alimentos substituem as tradicionais bulas dos medicamentos, a publicidade veicula mensagens que tomam doenças concretas como alvo e o micronutriente substitui o medicamento ambos atuando, de forma invisível, no interior do corpo humano.

187 Hibridismo alimentar e experimentalismo terapêutico

A fenomenologia do alimento funcional constrói-se, desde o início, pela afirmação de um potencial do alimento, inexplorado pela ciência, e até aí exclusivamente dedicado ao medicamento: o papel de compostos bioativos, ou metabolitos secundários, com efeitos fisiológicos, clinicamente testados. O Alimento funcional é, neste contexto, um produto que resulta da fusão da ciência alimentar, nutrição e medicina (Martirosyan & Singh, 2015:210). O alimento funcional na sua configuração múltipla, de crença na ciência, plasticidade no uso e gratificação na gestão dos itinerários quotidianos, abriu caminho à revalorização do alimento nos últimos 35 anos contribuindo para uma leitura mais global da modernidade alimentar: do alimento natural, ao qual se adicionam propriedades, ao alimento natural, no qual se descobrem novas propriedades. O alimento funcional impõe-se como um dos objetos constitutivos do atual hibridismo alimentar, o qual é uma das consequências sociais da progressiva especialização institucional do domínio alimentar. Este hibridismo, cada vez mais, despojado de momentos ritualizados constitui, para vários autores, um dos mais evidentes sinais da transformação da cultura alimentar: da refeição familiar tradicional aos designados ‘envolvimentos orais secundários’82

(Falk, 1994:30;31), na lógica de uma progressiva, e concomitante, individualização (personalização - o que se ingere) e individualismo (momento de consumo – como se ingere). Lupton (1996: 23) apesar de questionar a abordagem de Falk (1994:29) quanto ao carácter “não-ritual” (práticas comunitárias) da ingestão de substâncias “não-nutritivas”, com propósitos predominantemente gratificantes, e sensoriais, e não nutricionais (ex. doces, refrigerantes, álcool), reconhece o potencial heurístico dos designados ‘envolvimentos orais secundários’ para capturar alguns dos novos consumos típicos da modernidade alimentar. Não sendo esta classificação diretamente exportável para o alimento funcional, já que, embora, partilhando este com as guloseimas ou as pastilhas elásticas a componente gratificante, afasta-se no entanto pela presença de uma função simbólica vs. a função sensorial, no caso daqueles produtos, ela permite delimitar um campo analítico de objetos os quais, mais do que consumidos, são incorporados (porque ingeridos) tornando-se parte do self físico ou mental (Falk, 1994:38). Se admitirmos, como propõe Margaret Archer (2013:6), que os indivíduos perseguem projetos particulares de forma a responder às suas preocupações (‘concerns’) pessoais então o consumo de alimentos funcionais, enquanto integrante de processos de reprodução, reconfiguração ou redesenho identitário, constitui um exemplo de que o sentido

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do self se constrói na relação com objetos que contribuem para a ancoragem material, dos indivíduos, ao mundo social. Os AF constituem-se como objeto privilegiado para a exploração analítica das dinâmicas observáveis, no consumo reflexivo do alimento vs. consumo vulgar, e da emergência de uma pluralidade de subculturas alimentares (Miele, 2006:344) tais como a produção local, orgânico e slow-food, para citar algumas. Estas refletem uma crescente hibridez nas práticas de consumo alimentar à medida que os sujeitos procuram combinar uma alimentação saudável com preocupações ambientais e estéticas, frequentemente modulados por constrangimentos económicos, numa negociação permanente entre desejos e contingências do quotidiano (Miele, 2006:345) ou, como refere Berger, entre desejos e necessidades (ex. alimento) sendo o papel dos agentes do marketing e da publicidade a manufatura do desejo e a tradução de coisas que desejamos em coisas que sentimos que necessitamos (Berger, 2010:52). O atual hibridismo alimentar escora-se, entre outros contributos, no experimentalismo terapêutico i.e. na permeabilidade dos sujeitos às mensagens veiculadas pela publicidade e a vontade, concomitante, de encontrar a ‘solução mágica’, personalizada, “numa sociedade de hiperconsumo circunstancialmente dopante mas estruturalmente perseguida pelas preocupações de prevenção e de ‘manutenção sanitária’” (Lipovetsky, 2009:246). A proliferação de alegações de saúde e nutricionais, associadas a uma pletora de alimentos, em particular os designados de funcionais, acoplada ao desejo de manipulação corporal, a caminho de um estado de ‘bem-estar’ permanente, estimulam processos de ‘tentativa-erro’ nomeadamente em territórios, como o alimentar, nos quais o risco é percecionado como baixo e a recompensa, a existir, meritória. A publicidade, por parte da indústria agroalimentar, desempenha, aqui, um papel de relevo tendo sido a Kellogg’s, em 1984, a primeira companhia a utilizar alegações de saúde (Kim et al., 2009: 529). A promoção/publicidade ativa das ‘qualidades’ dos alimentos funcionais, e das respetivas marcas com ressonâncias terapêuticas (tema abordado no capítulo 2), mas não de um estatuto classificativo autónomo, contribui para a sua perceção difusa, predominantemente como mais um iogurte ou mais uma margarina, com propriedades diferentes dos produtos “light” e, por via destas últimas, consumidos primariamente numa lógica funcionalista e não hedónica. Na prateleira do hipermercado, em Portugal, os AF não são objeto de classificação e organização espacial segregada. Enquanto, por exemplo, é visível, no corredor dos iogurtes, a organização destes por tipologias (ex. magros, líquidos etc.) não existe qualquer referência a “Funcionais” sendo que nalguns casos existe a indicação “Probióticos” a qual não é, genericamente, percecionada em associação com a designação ‘Funcional’. A generalidade dos utilizadores de AF tende a não considerar estes como um grupo homogéneo mas como um segmento de

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uma determinada categoria de produtos (Urala & Lähteenmäki, 2003:158) dentro da qual apresentam propriedades com potencial de promoção da saúde e da performance, sendo este um fator de escolha multidimensional (Urala & Lähteenmäki, 2003:157).

A significativa variabilidade nos registos discursivos revela a pluralidade das relações estabelecidas entre os participantes dos grupos focais e os alimentos funcionais. Embora não tenha sido explorado, no decurso das sessões, é de admitir que os modos plurais de relação sejam, também, consequência de os AF não constituírem uma entidade associada a códigos e designações públicas como é o caso, por exemplo, dos produtos biológicos. A circunstância de os produtos biológicos estarem associados a processos de certificação, materializada num logotipo com enorme notoriedade pública, assim como a uma nomenclatura de carácter normativo (‘bio’, ‘biológico’; produção biológica’) estimula/facilita um consumo mais ‘ideologizado’ com motivações aspiracionais (ex. preocupações ambientais) associadas às motivações instrumentais (responder a necessidades nutricionais e/ou de saúde) enquanto no caso dos AF prevalecem exclusivamente as dimensões instrumentais numa lógica de relação com o produto individual e não com a categoria.

Esta relação, dessincronizada, entre produto e categoria, que o integra, pode igualmente ser observada no plano digital recorrendo-se, novamente ao Google Trends. A Fig. 1.7 evidencia a maior notoriedade digital de 3 dos principais AF, consumidos em Portugal, em comparação com a designação categorial o que não será, seguramente, alheio à publicidade de que aqueles são objeto contrariamente ao termo ‘alimento funcional’ de utilização mais circunscrita, sobretudo, em círculos esotéricos.

Figura261.7 - Tendências de Pesquisa - Produtos Fonte: Google Trends. Acedido em 05.12.2017

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De acordo com a amostra (participantes dos grupos focais) os consumidores portugueses, com registos de consumo esporádico ou regular, ao ingerir um produto como o Actívia fazem-no, eventualmente, na lógica de uma relação exclusiva com aquele produto específico e não numa lógica ‘inclusiva’ de arrastamento para aquisição de outros produtos funcionais, para outros fins. O consumidor parece adquirir o Actívia enquanto mais um iogurte (existem aqueles com aromas, com pedaços e também com Bifidus…) e não porque integra uma categoria associada a um conjunto particular de atributos; este comportamento é exemplificado pela relutância de alguns consumidores de Actívia ou Danacol de aceitarem os ovos enriquecidos com Ómega 3. A normalização do consumo pode assim ser explicada pela vulgarização, não do conceito (e das representações sociais correlatas), que não existe, mas do valor de uso dos produtos, individualmente, considerados. Os registos discursivos permitem, pois, inferir que os AF são consumidos não em consequência da adesão a um qualquer estatuto que integre a ‘lexicografia’ leiga (termo só integra o ‘dicionário’ de estritos círculos esotéricos) mas como resultado de heurísticas múltiplas de ‘usabilidade’83

que desafiam eventuais tentações epistémicas de enquadrar o consumo de AF em contextos de determinismo causal.A merecer futura exploração analítica é, no entanto, ainda de crer que a ausência de um processo de etiquetagem pública destes produtos contribua, igualmente, para explicar a perceção de baixo risco que lhes está associada e o correspondente uso “desdramatizado” em contexto da vida quotidiana.

Organização grupal

Em estreita conexão com as reflexões, atrás desenvolvidas, revela-se que os consumidores de alimentos funcionais não buscam modos de inclusão grupal (inexistência de formatos de associação específicos, homogeneização discursiva ou praticas reguladas por códigos de conduta) nem integram comunidades alimentares que partilham as mesmas “alimentalities” (BildtgArd, 2008:107;110). Não é, sequer, legítima a generalização das características dos seus utilizadores já que existem claras diferenças entre utilizadores de diferentes AF, de acordo com bibliografia disponível (Urala & Lähteenmäki, 2007:2). Conforme abordado no capítulo 5 constituem grupos desprovidos de pertenças ideológicas. Enquanto nos movimentos sociais contemporâneos, ligados à alimentação, como as associações de vegans e

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Termo aqui importado da ciência computacional (Jakob Nielsen, 1990;1994) que identificou 10 princípios com potencial explicativo para os processos cognitivos facilitados na relação entre utilizador e objetos ou sistemas. Disponível em: https://dl.acm.org/citation.cfm?id=191729

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vegetarianos, movimentos a favor do comércio justo, ou do bem-estar animal, ou da produção local, se pode observar uma certa apropriação moral ou, como refere Sage, a recuperação de um sentido de moralidade no sector alimentar e agrícola (Sage, 2003:49), os consumidores de alimentos funcionais não integram redes alimentares alternativas valorativas de conceitos morais e ideológicos associados ao ‘bom alimento’nem se envolvem em práticas discursivas, no domínio público, a propósito dos méritos relativos a cada tipologia de alimento (Sage, 2003:49). A ausência de conexões sistémicas, entre os utilizadores de AF, revela dinâmicas de consumo individualizadas, de carácter privado e portanto ‘apolíticas’ (Goodman & Dupuis, 2002:17) enquanto desengajadas de movimentos sociais formais, de afirmação ou resistência, no âmbito do sistema alimentar. Enquanto o resultado de um consumo reflexivo, mesmo se socio demograficamente estratificado (Ward et al., 2011:15), os alimentos funcionais são uma expressão dos processos de agência de sujeitos comprometidos com objetivos individuais de saúde e bem-estar correspondendo a modos de ação social ‘capilares’ e difusos (Goodman & Dupuis, 2002:19).

Cidadania Responsável

As opiniões formuladas no decurso dos grupos focais deverão, naturalmente, ser interpretadas enquanto expressões fragmentadas de narrativas mais substantivas. Estas refletem os impactos, no plano das subjetividades reflexivas, da mitologia neoliberal e do seu proselitismo sobre as responsabilidades partilhadas (Griesler & Veresiu, 2014: 842) e das dinâmicas sociais, por ela desencadeadas, como resposta a alterações históricas e societais gigantescas: (i) incremento da esperança média de vida; (ii) incapacidade dos sistemas de segurança social de suportar, de forma sustentável, os encargos com a saúde e bem-estar dos cidadãos e (iii) desenvolvimento, sem precedentes, das tecnologias de informação e do respetivo potencial para induzir processos de capacitação e autonomização dos cidadãos. Procurando, de forma controlada, assegurar um progressivo processo de delegação de responsabilidades, do estado e corporações para os indivíduos, a ideologia neoliberal procura afirmar um ideal-tipo de cidadão do 3º milénio: informado, responsável, moralmente