De que forma as atitudes, perante o regime alimentar e saúde, constituem preditores do consumo de alimentos funcionais? Que familiaridade com o conceito e qual a perceção do seu
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efeito? Qual a relação entre a auto - perceção de recompensa pessoal resultante da ingestão de alimentos funcionais, o interesse genérico em produtos naturais e a gestão do estado de saúde? De que forma o consumo se associa com:
Crença no efeito dos produtos
Consumo paralelo de suplementos alimentares
Existência de um distúrbio relacionado com o regime alimentar (próprio ou de familiar próximo)
Níveis educacionais
Estes questionamentos parecem sublinhar que o conceito de alimento funcional responde à crescente individualização do ato alimentar, à perspetiva da seleção do alimento como uma escolha de estilo de vida e, principalmente, à perceção de saúde como princípio organizador do ato alimentar (Niva, 2006:14). Vários autores têm evidenciado a existência de uma correlação positiva entre a crença nos efeitos positivos (eficácia) sobre a saúde e os níveis de aceitação dos AF por parte dos consumidores (Verbeke, 2005:54) e que, mais do que as características sociodemográficas, são os fatores cognitivos, afetivos e situacionais que emergem como determinantes da aceitação dos alimentos funcionais (Verbeke, 2005:52) mas que, apesar disto, dificilmente aceitarão um compromisso com um sabor desagradável (Verbeke, 2006:130). Pesquisa qualitativa (Entrevistas estruturadas) revelou que a amostra valorizou, enquanto fator determinante, o sabor e a qualidade sensorial na maioria das categorias em análise com exceção daquelas (ex. cremes para redução do colesterol) em que a variável ‘efeito esperado’ dominou as razões de escolha (Urala & Lähteenmäki, 2003:158).
É extensa a bibliografia relativa às variáveis associadas à utilização de alimentos funcionais apresentando esta, contudo, considerável variabilidade a qual sugere que as atitudes, relativamente a esta categoria especial de alimentos, ainda estão em processo de formação (Lähteenmäki, 2013: 199). Alguns autores sublinham a aceitação crescente, por parte dos consumidores, da relação intrínseca entre regime alimentar e padrões de saúde, e a perceção de salubridade como a principal razão para adesão aos alimentos funcionais (Annunziata & Vecchio, 2011), enquanto outros sugerem ser a crença, nos publicitados benefícios de saúde, o principal detonador cognitivo (Verbeke, 2005) sendo aquela reforçada quando o alimento funcional integra um produto “veículo” com uma positiva perceção/imagem de saúde (ex. iogurte) e mais valorizada por aqueles consumidores que manifestam confiança na indústria alimentar (Siegrist et al., 2008). Alguma pesquisa mostra que a aceitação dos alimentos funcionais está dependente do produto-base que atua enquanto
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“transportador” do ingrediente funcional (Ares & Gámbaro, 2007) enquanto outra sugere que a maioria dos consumidores não está disposta a adquirir um produto funcional que apresente pior sabor que o seu “espelho” não funcional (Bech-Larsen & Scholderer, 2007). Não é completamente consistente a relação entre variáveis sociodemográficas e padrões de consumo de alimentos funcionais. Se diversas pesquisas identificaram associações entre o sexo, nomeadamente feminino, idade, educação e posição ocupacional superiores, assim como esforços para a condução de um estilo de vida saudável, e a predição de uso de alimentos funcionais (Niva, 2006), outras sugerem que somente a escolaridade emerge como a variável com a associação mais robusta já que os níveis de escolaridade mais elevada (universitária) são mais propensos ao consumo de alimentos funcionais com próbióticos (Landstöm et al., 2007:1066). Estes resultados convivem com pesquisa que evidencia que os benefícios percecionados são género-dependentes: alegações sobre saúde óssea e cálcio percecionadas mais positivamente pelas mulheres e aquelas sobre redução dos níveis de colesterol, pelos homens (Ares & Gámbaro, 2007). Igualmente a merecer particular atenção a observação de dois possíveis efeitos na construção de subjetividades individuais: (i) o efeito “recompensa” alimentado pela convicção de que o uso desta tipologia de produtos reflete um autocuidado responsável; (ii) o efeito “relevância” alimentado pela existência de doença num familiar ou no próprio (Lähteenmäki, 2013; 199). Algumas pesquisas sugerem a disponibilidade dos consumidores de pagarem um pouco mais por alimentos percecionados enquanto portadores de efeitos positivos na saúde, estabelecendo 4 categorias de atitudes: (i) “consumidores desinformados” – desconhecem estes produtos; (ii) consumidores “não conscientes” sobre saúde – conhecem os produtos em consequência da publicidade mas, não obstante, nunca os adquiriram; (iii) “Consumidores preocupados” com a respetiva saúde – acreditam na necessidade de suplementar, com nutrientes, uma dieta adequada; (iv)”consumidores conscientes” – firmemente convencidos dos benefícios dos alimentos funcionais (Di Pasquale et al., 2011).
O consumo de alimentos funcionais, e a constelação de dimensões que o suporta (permeabilidade à ideologia preventiva, regime de crenças, literacia nutricional, permeabilidade ao discurso técnico-científico), parece configurar um subsistema cultural contemporâneo com alguma heterogeneidade no que respeita as expressões de consumo nos vários países europeus (Özen et al., 2014: 477) podendo tal ser relacionado com os diferentes regimes alimentares, sistemas regulatórios, alegações de saúde e nutricionais e apoio governamental que caracterizam o espaço europeu (Özen et al., 2014: 476).
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Diversos autores têm procurado relacionar a utilização de alimentos funcionais com racionalidades valorativas de um estilo de vida, socialmente responsável e comprometido com crenças e valores, em particular a ‘consciência de saúde’70
, mais do que com variáveis sociodemográficas (Landstöm et al, 2007: 1067). Chen (2013:E6) procura correlacionar a consciência de saúde, entendida pelo autor como uma orientação consciente para ganhos de saúde, com preocupações modernas (ex. segurança ambiental no lar, poluição ambiental, segurança médica) e o uso de alimentos funcionais sublinhando os diversos estudos que revelam a existência de uma elevada correlação entre a disposição dos indivíduos de empreender ações saudáveis e uma atitude positiva perante os alimentos funcionais (Chen, 2013:E2). Um estudo realizado em 972 suecos vai na mesma direção ao evidenciar uma correlação positiva entre um sentimento de recompensa pessoal pela ingestão de alimentos funcionais, um interesse em produtos naturais e um interesse em saúde no geral. Destes, somente 25% que consumiram um alimento funcional percecionaram um efeito direto; 45% não percecionaram qualquer efeito e 30% não esperavam, sequer, que o alimento ingerido tivesse qualquer efeito (Landstöm, 2007:1061) sendo pois que a reduzida expressão daqueles que verificaram um efeito direto não permite reconhecer a eficácia como fator explicativo do consumo. Estudos prévios parecem sugerir que o consumo de alimentos funcionais não surge, portanto, como um ato isolado mas antes integra um leque alargado de lógicas, que se cruzam e interagem tais como: (i) interesse em produtos ‘light’; (ii) utilização de suplementos alimentares; (iii) interesse em produtos naturais e (iv) interesse na saúde no geral (Landstöm, 2007: 1066).
Do lado dos especialistas, desde o seu surgimento que os alimentos funcionais suscitam os mais diversos questionamentos e graus de adesão, entre proponentes e céticos, extremando-se posições entre aqueles que os consideram uma opção cómoda para prevenir doenças e aqueles que os consideram uma apelativa proposta de marketing por parte de empresas que procuram inovar num mercado alimentar saturado (Lang, 2007:1015):
Proponentes
A linha divisória entre alimentos e medicamentos é progressivamente mais ténue. A adição de certas substâncias, aos alimentos, pode oferecer benefícios reais em
particular ao serviço de estratégias, de saúde pública, de intervenção/prevenção de determinadas patologias associadas a deficiências de nutrientes específicos; exemplo
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típico foi a adição de iodo ao sal em 1924 nos EUA o que contribuiu, de forma decisiva, para a erradicação do bócio ou a ainda corrente adição de vitamina D no leite consumido nos EUA71.
A ingestão de alimentos funcionais permite, sem alteração radical da dieta alimentar, que os indivíduos obtenham ganhos de saúde.
Céticos
Adição de ingredientes insuficientemente testada
Evidência científica insuficiente para suportar determinadas alegações
Debilidade dos sistemas regulatórios nacionais na gestão de objetos ‘de fronteira’
É evidente, numa perspetiva diacrónica, que após demonstração da sua eficácia o conceito foi transmutado pela indústria agroalimentar para aplicação não de forma massiva, como nos exemplos acima mencionados, mas de forma segmentada (utilizando alimentos básicos como os iogurtes e alegando benefícios em patologias com elevada expressão social como as doenças cardiovasculares) e utilizando poderosas ferramentas de marketing. Talvez por esta razão muitos autores, associados à área alimentar, mantêm sérias reservas quanto aos alimentos funcionais admitindo que estes têm mais que ver com marketing do que com saúde72 pois são as mesmas companhias agroalimentares, que nos trouxeram os alimentos carregados de gorduras saturadas, sal e açúcar, que agora se procuram afirmar como as campeãs dos nutrientes saudáveis73. As mesmas que, através da composição dos seus produtos, massivamente processados e brilhantemente promovidos, contribuíram para algumas das atuais ansiedades e frustrações alimentares, às quais os alimentos funcionais procuram responder74. Já em 1999 se questionava se os alimentos funcionais constituíam uma “significativa dádiva ou uma nova geração de charlatanice (…) já que, infelizmente, as autoridades regulatórias, em todo o mundo, encontram-se a anos-luz dos criadores do
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“Is food fortification necessary? A historical perspective”; 2014. Acessível em
www.foodinsight.org/Newsletter/Detail.aspx%3Ftopic%3Is_Food_Fortification_Necessary_A_Hist orical_Perspective
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Marion Nestle. “The latest functional foods!”; 2009. Acessível em www.foodpolitics.com/2009/06/the-latest-functional -foods/
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Marion Nestle. “Detox in a box and other functional foods”.
2007. Acessível em www.foodpolitics.com/2007/12/detox-in-a-box-and-other-functional -foods/
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Alex Renton. “I’ll have what she’s having”. 2007. Acessível em https://www.the guardian.com/lifeandstyle/2007/dec/16/foodanddrink.features7
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marketing” (Jacobson & Silverglade, 1999:205). Esta dúvida fundamental, de como pode ser salvaguardada a verdade das alegações apresentadas, tem permanecido ao longo dos anos sobretudo no que respeita a adição de ingredientes não-nutritivos (ex. bactérias pró - bióticas) em particular porque os fabricantes sofisticaram as suas competências na exploração das zonas de penumbra da legislação nomeadamente na formulação de alegações que sugerem um benefício de saúde sem, de facto, nomearem uma doença (Katan, 2004:181). Alguns autores, da comunidade médica, sublinham ainda a componente ‘segurança’ quando da ingestão destes produtos pelo facto de, contrariamente aos medicamentos, e em certa medida, mais ténue, aos suplementos, não existir, de forma generalizada75, uma ‘dose’ padrão para os alimentos funcionais (Kamerow, 2004:70), assim como se conhecer muito pouco sobre efeitos a médio e longo prazo, segurança em contexto de utilização não controlada e ainda se, e de que forma, existem interações entre o alimento funcional e o medicamento utilizados para o mesmo fim terapêutico ou a inexistência de análises sistemáticas da relação custo-benefício (Jong, et al., 2007:1038).
Desde o início que a antecipada capacidade das sofisticadas técnicas de marketing de explorarem territórios emergentes, insuficientemente regulados, projetou o alimento funcional, enquanto objeto, para a dimensão das perceções sociais integrando-os na mesma galáxia cognitiva de que fazem parte os designados medicamentos de estilo-de-vida, na fronteira entre os desejos de um determinado estilo de vida e necessidades concretas de saúde, como sejam os medicamentos para a disfunção eréctil, os supressores do apetite ou os produtos para a desabituação tabágica (Jong, et al., 2007: 1037). Nesta mesma ordem de ideias pode ser argumentado que, para além de procurar responder às ‘disposições’, por parte dos consumidores, de aceitar soluções alimentares percecionadas como mais saudáveis, os alimentos funcionais permitem aos consumidores “comprar saúde e beleza enquanto permanecem no Sofá”⁶¹. Apesar de tudo a controvérsia tem, de algum modo, permanecido contida em círculos mais esotéricos de especialistas, e autores da área da nutrição ,não tendo a suspeição alcançado as periferias exotéricas dos consumidores empenhados em investir em ganhos de saúde (Chen, 2013:E2).
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Única exceção conhecida são os produtos Benecol e Danacol (leites fermentados) que recomendam 1 garrafa/dia. Cada garrafa contém 2 g de estanol vegetal. Acessível em www.benecol.pt/5
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