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1 Introduction

1.1 Specification of the problem thesis

113 FINKELSTEIN, 2003, p.289. 114 Ibid., p.290.

É no auge dessa prosperidade do Reino do Norte, sob o comando de Jeroboão II que surgem as primeiras vozes de protestos, como a voz de Amós, com denúncias e condenação fortes a respeito da aristocracia corrupta, da sua opulência e luxo. Com ásperas críticas, Amós condena o Estado imoral que impera em Israel e a iniquidade dos que acumulam riquezas na cidade, à custa do empobrecimento e miséria da população do campo.

Conforme dito por Schwantes e Mesters, a atuação dos profetas, como aqui o profeta Amós, tem hora e local, é concreta. A hora certa aqui era o auge da exploração, em que todo um povo se encontra “fraco”, já sem força para se defender dos seus opressores, sendo necessário que uma voz se levante em sua defesa. Essa atuação profética está relacionada a certo momento, a certas pessoas, a certas estruturas. Não sendo, pois, o discurso genérico o que os caracteriza. “Eles não são defensores de doutrinarismos, mas intérpretes da história são leitores da vida do povo. Através dos gestos e palavras do profeta, a história se torna transparente”.116 Desse modo, situamos a hora dos profetas no tempo dos reis. Segundo

Milton Schwantes a profecia é simultânea à monarquia. Profetas e reis são contemporâneos.117

A profecia de Amós surge como crítica aos desmandos do sistema monárquico instalado por Jeroboão II, sendo uma força de resistência em que se acentua o conflito entre profecia e monarquia onde irrompe o grito: “Disse Javé”.118 Esse conflito ocorre pelo modelo de

sociedade existente em Israel. A política dos reis defendia a cidade, o comércio, a especulação, a venda de terras, favorecimento dos negócios, a escravidão e exércitos fortes. Também defendia o culto suntuoso e centralizado. O movimento profético defendia o povo, as aldeias, o campo, a propriedade familiar da terra, o trabalho livre, os pequenos santuários que se caracterizavam pelo culto familiar.119

A crítica social presente em Amós mostra um grande êxito de Jeroboão II, por uma série de vitórias militares120 e ampliação do território do Reino do Norte, além de uma ascensão

comercial pelo domínio das rotas comerciais dentro dos territórios sob o domínio de Jeroboão.

116 SCHWANTES, Milton; MESTERS, Carlos. Profeta: Saudade e Esperança. Belo Horizonte: CEBI, 1989

(Série “A Palavra na Vida” – N. 17/18), p. 6.

117 Idem.

118 Das tribos à monarquia – Profetas anteriores. Roteiros para Reflexão III. São Leopoldo: Publicações CEBI,

1993, p. 62.

119 Ibid., p. 69.

120 DREHER, 1999, p. 49 – Comentando a respeito de Israel ter um aparato militar profissional Carlos Dreher

coloca: “Como se pode depreender de Am 2,14-16, em torno de 760 a.C., portanto, no início da segunda metade do reinado de Jeroboão II (787/86-747/46 a.C.), Israel já possuía novamente um poderoso exército, contando com carros de combate e arqueiros, o que deve indicar o retorno da supremacia dos soldados profissionais.

Em 2 Rs 14,25 transparecem as grandes conquistas de Jeroboão, reestabelecendo os limites de Israel, tendo inclusive incluído sob seu domínio territórios pertencentes a Judá (v.28), como resultado dos empreendimentos e triunfos de guerras. Com isso, houve grande prosperidade no país, conforme relata Schwantes, embora à custa de muitos massacres:

Jeroboão II é da dinastia de Jeú, um general que – com algumas boas intenções e por meio de muitos massacres (cf. Os 1.4; 3 Rs 9-10) – galgou o poder em 842. Jeroboão II mostrou serviço. Atesta-o seu longo governo de quarenta e um anos, desde 787 até 746. Os anais, citados em 2 Rs 14.23-29, nos dão uma ideia de seus grandes “sucessos”. Ampliou as fronteiras de Israel. Impôs o interesse do Estado israelita em Damasco e em Emat, vizinhos ao norte. No sul, alargou as fronteiras até o Mar Morto. Não é possível que os Estados de Damasco e Emat tenham sido mantidos sob ocupação, durante todo o governo de Jeroboão II. Afinal, de acordo com Am 1.3-13;6.13 houve lutas fronteiriças em Galaade (na Transjordânia). Nesses combates muitos civis foram massacrados, “trilhados com trilhos de ferro” (Am 1.3).121

Tendo sob seu controle o monopólio das principais vias pelas quais se davam as rotas comerciais, Jeroboão II garantia boa entrada de divisas, uma vez que comerciantes egípcios e mesopotâmicos necessariamente passavam pela planície de Jezreel, um verdadeiro entroncamento comercial, a fim estabelecerem seus negócios.122 Assim, o domínio territorial

retomado por Jeroboão II trazia como fonte de renda, além da tributação123, a cobrança

obrigatória de pedágios em razão do tráfego comercial entre o Norte ou países do Oriente e o Egito.

Além disto, havia um desenvolvimento na área agrícola, considerando que a região montanhosa nas cercanias da Samaria prestava-se ao cultivo de olivais para a produção de azeite, com fins de comercialização. A esse respeito, podemos citar o comentário de Finkelstein sobre os óstracos de Samaria. Segundo ele, “os famosos óstracos de Samaria - uma coleção de 63 cacos de cerâmicas inscritos com tinta em hebraico e datados, admite-se, da época de Jeroboão II – registram o carregamento e o embarque de azeite e de vinho pelas aldeias ao redor da cidade de Samaria, a capital”.124

Embora haja esse crescimento do comércio exterior com a exportação de produtos agrícolas por parte de Israel, a exemplo da comercialização da produção do azeite, temos em

121 SCHWANTES, 2004, p. 15. 122 Ibid., p. 21.

123 Cf. DREHER, 1999, p. 132. Na arrecadação desses tributos, as forças das armas garantia a autoridade dos

“tomadores” de tributos.

contrapartida a importação de outros produtos, inclusive artigos de luxo, realidade que pode ser constatada nas denúncias de Amós. Não era pouca a pressão exercida sobre a população responsável pela produção agrícola, para responder a uma demanda de importação de artigos de luxo requerida pelo nível social dos que viviam na capital ou, de modo geral, à classe abastada espalhada no país, nos seus palácios e casas de luxo ou nas suas casas de veraneio. A esse respeito Milton Schwantes descreve:

A realidade das pessoas era exatamente o inverso do esplendor das elites e dos que usufruíam as benesses dos centros urbanos de então. A gente do campo era convocada a gerar, com seu suor e sua fome, os produtos e as riquezas necessários para o expansionismo comercial e militar. A realidade do povo era, pois, marcada por dura exploração.125

O reino de Israel tem, a partir daí, suas riquezas aumentadas consideravelmente, graças a esse comércio quer com a Arábia, a Fenícia, como, também, com o Mar Vermelho. Sem falar nas minas de ferro de Arabah, além das atividades têxteis florescentes.126 Esse período

de desenvolvimento colocando o reino do norte em condições prósperas, desfrutando de certo progresso manifesto por um modelo de Estado organizado, é bem expresso por Finkelstein, ao dizer que, “é no auge da prosperidade do reino do norte, sob o governo de Jeroboão II, que nós podemos identificar, afinal, a totalidade dos critérios do Estado organizado: alfabetização, administração burocrática, produção econômica especializada e um exército profissional.” 127

Tudo isso tem um preço. A partir desse desenvolvimento econômico surgem profundas tensões sociais. Isso acontece à medida que na cidade se desenvolve uma espécie de capitalismo urbano, baseado na obtenção e retenção do lucro por parte de uma minoria. É esta parcela da população que detém grande parte das riquezas e dos bens, em benefício do seu bem-estar material à custa do suor e da miséria da maioria, especialmente da população do campo, paulatinamente empobrecida.128

Desse modo, podemos verificar em tais circunstâncias testemunhadas por Amós, elementos apontados em Am 5,10-13, bem como em outras citações do livro de Amós, cuja análise semântica dos seus principais vocábulos feita no final do capítulo anterior, nos remetem a tal quadro social. Conforme verificamos, a profecia de Amós surge em razão da

125 SCHWANTES, 2004, p.22.

126 SILVA, Aldina. Amós: um profeta politicamente incorreto. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 15. 127 FINKELSTEIN, 2003, p.291.

necessidade de denunciar, de imprimir um caráter de contestação diante desse modelo de sociedade que cada vez mais foi se firmando sob o comando de Jeroboão. Amós não poupou condenação às instituições religiosas, políticas e jurídicas que sustentavam o modelo social e político vigente, pautado numa economia exploradora e opressora. Isto se dava em razão da exigência de mudanças radicais nas estruturas da sociedade em Israel, contida no grito profético de Amós.

Neste quadro conjuntural, o profeta é porta voz das dores do povo, decorrentes do senhorio de Samaria e do conflito entre cidade e campo. Toda a situação vivida pelo povo e aí expressa, encontra-se apoiada num regime fundado em uma economia tributarista e comercial fortemente exploradora. Esses elementos são encontrados nas entrelinhas das “palavras de Amós”, conforme veremos de forma expressa a seguir, no conteúdo que contém a profecia de Amós.