É a partir desse ponto que iremos caminhando para o final da nossa discussão, com o aspecto ético- religioso da profecia de Amós. Está aí o diferencial ante os anseios por justiça presentes em escritos de povos vizinhos estendendo-se ao Egito e Mesopotâmia. A interpelação profética vai numa direção que estreita fé e justiça. Sua profecia é um discurso de Juízo sobre a perversão que se dá nesta relação, conforme vemos, Amós desmascarando culto e opressão social, combinando acusações e anúncios.
Enquanto profetas estatais como Amasias proclamavam, acima de tudo, a onipotência de Deus e postulavam exigências cultuais, Amós tinha uma concepção unitária das coisas. Havia na sua teologia, se podemos assim dizer, uma síntese entre política e ética, entre o
social e o religioso. Por isso, é que sua profecia defendia que, necessariamente, fé e justiça caminhariam juntas.
Embora na sua abordagem teológica não encontremos na boca de Amós palavras proferidas diretamente empregando o termo “aliança”, toda a sua profecia supõe esta.292 Ou
seja, a eleição, o êxodo e a aliança que são a referência da experiência de fé em Israel, são a base do juízo encontrado na profecia de Amós, pois a verdadeira Aliança com Javé deve traduzir-se na prática. Desse modo, os crimes sociais estavam implicados com o religioso. É nesse sentido que para Amós procurar a Deus, equivale a procurar o bem, que se traduz em estabelecer a justiça à Porta (5,15).
Para ele a presença de Deus não é incondicional, mas depende do grau de observância da justiça por parte do povo, nos negócios públicos ou privados. Assim, o destino de Israel será definido em função de sua atitude face ao direito, e não em função de ter sido escolhido por Deus.293 Em razão disso é que Amós denuncia a hipocrisia de um culto que é desmentido
diariamente pelas práticas (5,21-27). Os crimes sociais tornam-se, portanto, pecados religiosos, pois uma sociedade fundada na injustiça e na iniquidade não pode subsistir diante de Javé, pois perderam de vista que o servir a Javé é inseparável do servir ao próximo.294
Nesse sentido, trazemos à memória a história de Israel, enquanto povo abençoado, vivendo em uma terra que foi dádiva de Javé. Segundo a literatura profética, no meio deste não deveria se conhecer pobreza, pois isto seria uma incoerência, uma vez que Israel é constituído um povo de irmãos, vivendo numa terra abençoada que lhe foi presenteada. O que deveria aí prevalecer era a fraternidade e o persistente compromisso de fazer essa benção perdurar por meio da solidariedade, extinguindo qualquer relação que fosse geradora de pobreza.295 Entretanto, o povo de Israel acreditava serem suficientes seus rituais de
agradecimentos a Deus pelos bens que possui, deixando de lado a prática da justiça.
A escolha de Israel com o qual Deus fez aliança, antes de ser um privilégio, comportava uma responsabilidade ética que não foi assumida por um povo que se pretendia escolhido dentre todos os povos e nações. A partir dessa compreensão, Israel crê que, apesar do seu
292 Lacy, 1998, p.22.
293 SILVA, Aldina. 2001, p. 65. 294 AMSLER, 1992, p. 51. 295 SCHWANTES, 2013, p. 83.
abuso de poder, opressão sobre os pobres, e toda sorte de desmandos por ele praticados, Deus jamais retiraria seus favores do meio do seu povo eleito.
A crítica social de Amós e o anúncio do juízo divino articulam a visão de um Deus que se importa, que toma partido dos pobres e oprimidos. Um Deus que tem sentimentos, que pode sentir a alegria por causa dos atos humanos, assim como pode também sentir-se ofendido. Ele sente pena e alegria, piedade e cólera. A cólera de Deus é profunda quando alguém toca num de seus pequenos, que ele considera como “a menina de seus olhos” (Dt 32,10).296 A cólera divina decorre dos crimes – pecados em Israel, cuja atitude pode ser
resumida no desprezo pelo direito e no escárnio da justiça.
No Antigo Testamento, especialmente nos livros proféticos e nos textos legais há interpelações para que as pessoas ajam segundo um espírito humanitário e solidário. Estas são dirigidas a toda a Comunidade, mas querem atingir principalmente aos que têm recursos. Para que não retenham o manto penhorado do pobre, concedam-lhe empréstimos sem juros, respeitem o descanso ao oprimido, acolham o estrangeiro, façam a justiça correr como um rio. Tudo isso se reverterá em gratos votos de benção, não só para o que se beneficiam com esse agir, em conformidade com o projeto de Javé para seu povo, mas também para o sujeito desses atos. A ele é afiançado que seu comportamento condizente com a comunidade tem validade diante de Deus.297
Ora, o que vemos em Amós, ao que parece, é que tais atitudes, não só como prescrições mas, também, enquanto consciência solidária e fraterna não encontravam mais força em Israel. Os pobres e os fracos estavam expostos a toda sorte de desmandos das autoridades ou dos credores. É o que vemos na denúncia de Amós, essa mesma preocupação dos textos legais, em relação ao pequeno agricultor empobrecido e endividado, procurando sua defesa junto a quem competia fazê-lo (5,10-13), apesar de não ser atendido no seu direito de defesa e proteção.
A organização da vida e sociedade em Israel que Amós polemiza, está totalmente equivocada, porque os israelitas acreditavam que aumentar suas riquezas, entesourando-as era bênçãos divinas, quando, na verdade, esse bem estar econômico vai ser a causa de sua
296 SCHWANTES, 2013, p. 46. 297 Ibid., p. 72.
desgraça pela injustiça que o origina e não conduzem a Javé. Israel não se sente concernido pelas ameaças e julga que sua conduta não é susceptível de nenhuma censura, porque, afinal de contas, ele não fora escolhido por Javé? Em razão disto, não estaria, ao abrigo de qualquer condenação?298 Ora, justamente por causa disso seu desastre e destruição não podem ser
detidos, pois decorrem da sua prática, ou seja, da negligência para com o compromisso da sua fé em Javé.299 Amós desmascara essa postura de um povo que se julga abençoado em razão da
abundância e riqueza.
Amós destaca as consequências de tal segurança de Israel. Bem distante do tema da Eleição, é colocado o acento na responsabilização e punição da culpa, de modo a relativizar a posição privilegiada de Israel como povo escolhido. O livro de Amós revela-nos um Deus que não tolera a injustiça, sendo irrevogável na decisão de punir Israel, executando uma sentença de destruição inapelável.300
A crítica social feita por Amós e o anúncio do juízo divino, articulam a visão de um Deus que se importa, que toma partido dos pobres e oprimidos. A cólera divina decorre dos crimes – pecados em Israel, cuja atitude pode ser resumida no desprezo pelo direito e no escárnio da justiça. O Deus de Amós caracteriza-se pela sua justiça, por fazer com que seja respeitado o ético presente na aliança. Por isso, ele vai “ajustar contas” com Israel, derrubando o que parecia sólido, seja no que se refere ao poderio e estabilidade econômica, seja no aparato religioso. Javé, ironicamente, entoa um cântico fúnebre pelo povo dizimado!301
Por tudo isso é que passa a ser evidente na dialética da mensagem de Amós um juízo inevitável, porque Israel não somente deixa de transmitir a palavra de Javé pelo descumprimento do que é lei, mas até tenta impedi-la. Em Amós, o que se revela não é um grupo que está lutando por seus interesses, mas é o próprio Deus de Israel, lutando por “seu povo” e por seu sonho de uma sociedade justa e humanitária. Nesta, tem que valer, com parâmetros sociais, condições de vida para os pequenos agricultores e para os pobres, uma vez que essas pessoas são deterioradas drasticamente.
298 SILVA, Aldina, 2001, p. 40. 299 LACY, 1998, p. 60.
300 SILVA, Aldina, op. cit. p. 40. 301 Idem.
Ora, a escolha de Israel como um povo não era senão para que esse desse testemunho de que em seu meio jamais cessaria o bem (3,1-2), a irmandade e a justiça. Quando na verdade o que acontece é contrário a isso. O privilégio, portanto, só aumentará a severidade do juízo, com o “Dia de Javé” (5,18-27) que será cumprido pela mão da Assíria, com a invasão do país. Tudo porque Israel vive na mentira, ligando a fé em Javé com regularidades cultuais e não à prática da justiça. Portanto, a denúncia que Amós faz em relação ao culto, não é feita porque o povo tenha se desviado do ritual prescrito, mas porque coloca juntos incenso e injustiça, prece e opressão, rito e alienação humana.302
A compreensão do “Dia de Javé” que havia em meio ao povo de Israel estaria ligada à celebração litúrgica baseada na memória salvífica de Deus na história de libertação vivida por Israel, dando base para um sentimento antecipatório escatológico. Mas, a partir do que temos em Am 5,18-20 é uma falsa esperança no “Dia do Senhor”, como um dia de vitória sobre os inimigos. Contudo, será sim um dia de vitória, mas para Deus e contra o seu povo.303
O núcleo central e característico da proclamação amosiana é, pois, o julgamento de Javé ou “o dia de Javé”, não aquele “dia” que Israel esperava como um tempo de triunfo e vitória, mas “que será o dia de Javé” (5,18). Será um nocaute para o povo de Deus, em que Jeroboão II, o seu Estado de injustiça e opressão, com todo o seu aparato e mecanismos de sustentação ruirão.304 O futuro proclamado por Amós desmascara a segurança altiva e arrogante de quem
diz: “A desgraça não nos atingirá” (Am 9,10).305
A verdade contida nessa mensagem plenamente nova, trazida por Amós, diante da tradição proclama com insuperável dureza o outro lado da misericórdia de Deus, de que falta de justiça, levará inevitavelmente a ruína. Mas afinal, quem é esse Javé a partir do qual pretende Amós que se entenda? Evidentemente é totalmente distinto do Deus das representações religiosas correntes que Amasias e tantos outros seguem, enquanto defensores da ordem religiosa estatal. O que Javé diz agora por meio de Amós entra em concorrência excludente com o anúncio de salvação que foi feito, até então em Israel.
302 BONORA, 1983, p. 23. 303 LACY, 1998, p. 64. 304 BONORA, op. cit. p. 80 305 Ibid., p.81.
Amós tira toda a segurança, aliás, desmascara a consciência religiosa de Israel, enumerando de maneira irônica uma larga série de sacrifícios, oferendas, solenidades e peregrinações feitas com interesse de satisfação própria, passando ao largo do que é justiça de Deus. Isso fez que surgisse ondas de protestos contra Amós, porque ele questionava o crer de Israel, uma vez que o refrão que se repetia, na sua consciência, era o de que Javé tirou Israel do Egito. Ou seja, a sua confissão de fé de que Deus liberta da escravidão, fazia que Israel se sentisse povo eleito, privilegiado sobre todas as nações, com um futuro garantido. Amós questionava que esse modo de crer não era mais tão seguro assim. Ele inverte as expectativas quanto a um tão sonhado “Dia de Jave”, pois este será um “dia mau” sobre os fortes de Israel, sobre o estado tributário, sobre suas instituições e seus agentes. 306Nas palavras do profeta,
Javé responde a Israel com um anti-Êxodo, não combaterá mais pelo seu povo, conforme fez no Egito, mas contra o seu povo, em um dia não de salvação, mas de ruína (9,4).307
Em suma, a sociedade é chamada a reconstruir suas relações baseada na justiça e no direito. Só assim, será possível escapar do juízo divino anunciado. Com certeza, para os transmissores das palavras de Amós, um Israel que continuava pisoteando o direito, estaria irremediavelmente perdido. A salvação aconteceria quando Israel praticasse o direito.
Amós provocou no pensar religioso uma verdadeira revolução, diante da ideia de preferência, apontando Deus como aquele que é Deus também dos tidos como inimigos de Israel, considerados fora dos benefícios trazidos somente para Israel seu eleito. É por aí que o autor demonstra de que modo Amós faz uma crítica da autoconsciência religiosa. Desse modo, anúncio do juízo com a ruína, segundo Amós, e a destruição do Estado com todo o seu aparato, inclusive o religioso, fundamenta-se na culpa, em uma série de injustiças cometidas por Israel e, por isso mesmo, este será deportado a começar pela aristocracia, a parte alta, a cúpula da sociedade que vive de cumprir seus desejos elitistas. Em Israel, guerreia-se contra os pobres e, como resposta, Javé fará guerra contra os que guerreiam contra os pobres o os aniquilam. É a concepção de um Deus que não é neutro diante do mal dessa sociedade, não tolerando a maldade, mas combatendo-a a fim de salvar seus “sonhos divinos” de uma realidade que espelhe sua bondade e fidelidade. Uma sociedade onde as pessoas possam usufruir as dádivas da terra e o resultado do seu trabalho.
306 MOREIRA, 2012, p. 58. 307 BONORA, 1983, p. 76.
Finalmente, no eixo da perícope aqui tratada, Am 5,10-13, esse emparelhamento do binômio “direito” e “justiça” resume as responsabilidades de Israel, em relação à aliança. Exatamente porque o juízo e a justiça são atividades essenciais de Javé, eles devem, por sua vez, passar a ser as responsabilidades fundamentais de seu povo, de modo especial dos líderes. Essas duas palavras giram em torno da ação na defesa dos pobres e marginalizados. E, conforme Amós, onde isso não acontecer, a experiência de fé seria considerada sem valor (Am 5,21-24). Portanto, a prática religiosa tem no seu propósito, conhecer bem a Deus, de modo que o que Ele é e aquilo que ele faz tornem-se realidades concretas na vida e comportamento do seu povo.
Conclusão
O longo percurso feito a partir da análise exegética de Am 5,10-13 trouxe à luz elementos de compreensão do sentido de direito e justiça, cujo binômio está presente na denúncia feita por Amós, em relação à opressão praticada no Portão. Na análise semântica, aos poucos fomos percebendo com toda a sua força, um conjunto de elementos revelados pelos vocábulos e expressões analisadas como “pobre”, “fraco”, “justo”, que nos remeteram necessariamente ao contexto histórico, social, econômico e político de Israel no qual se encontram inseridas as “palavras de Amós”.
A realidade vivida no Reino do Norte, partindo da “análise de conjuntura” presente na profecia de Amós, é um estado alarmante de injustiça e opressão instalado em Israel, “nos dias de Jeroboão II” (787-747 a.C.). Nas palavras de desgraças proferidas por Amós, há uma condenação a toda sorte de desmandos e abusos de um Estado tributário opressor e corrupto. Há também uma denúncia sobre o comportamento imoral e antiético das autoridades locais responsáveis pela jurisprudência, bem como das classes abastadas de Israel compostas por grandes comerciantes e latifundiários, que viviam no luxo e ostentação à custa do suor e fome da população empobrecida, especialmente da classe camponesa. É no auge da prosperidade e do desenvolvimento econômico em Israel que surgem as primeiras vozes de protestos, como a voz de Amós, com fortes denúncias e condenações a respeito dessa aristocracia corrupta, da sua opulência e opressão.
Sua profecia é porta-voz do descontentamento popular, passando a ser uma força crítica e de resistência que revelava o conflito entre profecia e monarquia. Tal conflito decorria do modelo de sociedade vivido em Israel. De um lado, a monarquia defendia uma política que favorecia a cidade, o comércio, a especulação, a venda de terras, o favorecimento dos negócios, a escravidão, os exércitos coercitivos e um culto suntuoso e centralizado. Do outro, o movimento profético defendia o povo, as aldeias, o campo, a propriedade familiar da terra, o trabalho livre, os pequenos santuários que se caracterizavam pelo culto familiar.
Conforme fomos percebendo, Amós condena o desenvolvimento paradoxal implantado em Israel, gerador de profundas tensões sociais, à medida que na cidade se desenvolve uma espécie de capitalismo urbano. Este se baseia na obtenção e retenção do lucro por parte de uma minoria que detém grande parte das riquezas e dos bens, em benefício do seu bem estar material. Enquanto alguns vivem bem nutridos, a maioria da população vai tomando as feições do fraco, nos seus corpos desnutridos.
Pudemos constatar, a partir do nosso objeto de pesquisa (Am 5,10-13), que a denúncia de Amós recai principalmente sobre a prática da injustiça instalada oficialmente. Isso porque o tribunal, enquanto instância que deveria ser o principal canal de mediação e garantia de defesa do direito dos mais fracos e indefesos, se encontra corrompido e num estado de falência. De forma detalhada Amós detém-se, particularmente, sobre o descaso com a justiça, a exploração e a corrupção fazendo com que haja a condenação de inocentes pelo suborno dos juízes no seu exercício junto ao Portão, não fazendo o que é reto, e pela perseguição contra aqueles que denunciavam a opressão sobre os pobres. Em função dessa justiça fraudulenta, os camponeses perdiam seus recursos, sendo paulatinamente empobrecidos.
Vimos claramente que a jurisprudência junto ao Portão não estava sendo cumprida em relação aos pobres, a partir dos direitos que lhes assiste. Ao instaurar um processo judicial os pobres eram derrotados de antemão através de subornos (5,12b). Desse modo a justiça, bem como a prática do direito de forma imparcial era impedida de ser praticada, em razão do poder e do dinheiro, por parte daqueles que estão à frente da administração da justiça. É provável que estes fossem detentores além do poder judiciário, também das riquezas, representando famílias ou grupos sociais que detinham a força econômica. A partir de Am 5,10-13, temos portanto a denuncia e condenação do desvio do direito dos pobres no Portão, pelo descaso diante da apelação da causa do pobre trazida à instância judiciária.
Partindo dessa preocupação com o direito e a justiça típica da profecia em Israel, a pesquisa que aqui realizamos procurou também fazer uma aproximação entre todo esse interesse de Amós com as questões de ordem social em defesa do pobre, e a preocupação com a justiça social presente no Antigo Oriente Médio. Tivemos como resultado alguns traços comuns entre escritos encontrados nesses povos das regiões no entorno do antigo Israel e a perícope aqui analisada.
Tomando esses elementos comuns e procurando pelas motivações e interesses que estavam na base de um como de outro, vimos que há um diferencial da compreensão da profecia em Israel, sobre o que representa a justiça e o direito. O que aí está em questão é a vida dos pobres, e os seus direitos. O que tinha por trás de uma gama de escritos, decretos e leis na Mesopotâmia, Egito e outras regiões vizinhas, em que era recorrente a ideia de proteção a categorias como a viúva, o órfão, o pobre, divergia do que encontramos na profecia de Amós. Enquanto nos escritos do Antigo Oriente constatamos uma série de interesses, e uma visão utilitarista da justiça, como garantia de vida longa, riquezas, reconhecimentos, honrarias, vantagens pessoais para os que se diziam defensores dos fracos e oprimidos, no caso de Amós o que vemos é o avesso.
Até onde somos informados pelo próprio livro de Amós, este não tinha como profissão uma posição de político que tivesse o interesse de ganhar popularidade em vista de se manter em altos cargos ou de sobreviver à custa disso. Nem também tinha uma pregação religiosa que atraísse simpatizantes. Prova disso é que foi banido do Santuário de Betel e da cidade. A interpretação de Amasias de que Amós pudesse estar em concorrência com o rei enquanto ameaça de tomar o poder era totalmente equivocada. Portanto, seus interesses estavam distantes de fazer qualquer propaganda de si usando os pobres enquanto plataforma política.
Pelo que pudemos compreender o acento principal da mensagem de Amós se encontra no anúncio de um juízo divino iminente sobre o Estado com todos os setores que lhe sustentam, pela perversão e falta do direito e da justiça na “casa de Israel”. É em razão da utilização da ordem jurídica vigente, servindo exclusivamente à expansão do poder, das posses e do lucro, da elite de Israel, que haverá esse juízo. Por isso mesmo a casa de Israel passará a ser uma casa mortuária, sobre a qual o profeta tem de entoar o lamento fúnebre, uma vez que a Porta, o Templo e Palácio real fracassaram como “casa do direito”, e passaram a ser o contrário, “casa da injustiça”. A profecia de Amós é prenúncio de uma condenação irrevogável por parte de Javé, porque Israel não seguiu os caminhos da justiça.