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2.2 Empirical application of previous FCIs

O livro de Amós nos seus primeiros capítulos apresenta uma palavra de julgamento dirigida contra crimes cometidos por nações vizinhas a Israel, na qual Amós denuncia o maior crime de cada uma dessas nações, sobretudo nas suas ações bélicas. Acompanhando o que vai desenrolando-se, especialmente, na passagem que temos em Am 1,3-2,5, segundo comenta Balancin, para Israel até aí tudo bem, os ouvintes do profeta talvez estivessem tranquilos, pensando que Amós está aí só para falar mal dos outros, dos que lhe são inimigos. Porém, pouco a pouco, se vai apertando o cerco. A coisa começa a incomodar, quando Amós se dirige a Israel, dizendo: “E vocês pensam que escaparão do julgamento?”. A partir de então, são enumerados os crimes cometidos por Israel, que era considerado povo escolhido por Deus. Por isso mesmo seus crimes são mais graves.149

Desse modo, os ditos contra as nações equiparam Israel até em maior grau aos povos vizinhos em termos de culpa e condenação. Em face de todos esses crimes de Israel e todo esse clima de opressão e terror sobre os pobres, com uma simbologia negativa (3,9-10), Amós convida Asdode e Egito para serem juízes contra Israel, porque este foi mais perverso para com o seu povo do que os outros povos o foram. Convoca uma reunião de testemunhas para constatar dos montes da Samaria a autossuficiência dos desvios e avidez de Israel, para ver mais de perto, para ter uma visão e compreensão dos desvios desse povo. Amós condena toda imoralidade das classes dirigentes por não saberem caminhar na retidão, uma vez que exploraram mais seus próprios irmãos do que os outros povos.150

Enquanto profeta da justiça social, Amós tem como núcleo da sua denúncia a injustiça no que se refere às relações sociais manifestas na opressão e marginalização dos pobres e fracos da sociedade. Isto porque estes são ultrajados na sua condição de dignidade humana.

148 BONORA, 1983, p. 66.

149BALANCIN, Euclides; STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro de Amós – A denúncia da injustiça social. 2. Ed.

São Paulo: Paulinas, 1991.p. 18.

Ao lado disso, também é causa da denúncia de Amós a opressão que pesa sobre os pobres, o abuso sexual contra meninas jovens, além da exploração de negociantes que são “devoradores de pobres” (8,4-6) e credores que reduzem seus devedores a escravos (2,6), quando não, lhes tomando penhores (2,8). Não fosse pouco tudo isso, há ainda um silêncio prudente diante de tal estado de coisas, pois ninguém se atreve a acusar os delitos que conhece.151 ·.

Com relação à denúncia que é feita nas visões que encontramos nos capítulo 7-9 do livro de Amós, Amós nos permite identificar de imediato quem e o que está sendo ameaçado. O que está em risco é o sustento, a produção do pequeno agricultor, pelo confisco ou a tributação feita pelo rei por ocasião da primeira colheita. Além do agravante que é o período de estiagem e seca que assola o país, ameaçando o que restava para a sobrevivência das famílias do campo que era a segunda colheita. Aqui, como em todo o livro de Amós, Javé e o profeta se aliam em defesa dos lavradores e camponeses empobrecidos e espoliados.152

Nessa mensagem de Amós, cuja critica social enfatiza uma defesa dos pobres, encontramos duas questões centrais que são entrelaçadas: a contestação do templo e do Estado. Aqui nem ocorre intervenção por parte do profeta, na possibilidade de suspensão do aniquilamento anunciado. Sendo as ameaças irrevogáveis, recaindo sobre “meu povo Israel”. Buscando identificar a partir do texto quem é este “meu povo Israel”, de forma contextualizada, Milton Schwantes apresenta a possibilidade de encontrar aí um ambiente citadino, isto porque no cenário apresentado há alusões referentes ao palácio, à corte, ou seja, ao mundo palaciano com todo seu aparato. Depois, são colocados também em xeque os lugares altos, os santuários de Israel, que estavam profundamente atrelados aos interesses palacianos e citadinos. Temos, portanto, uma insistência da ruína total, que se refere ao templo com seus sacerdotes, por este desempenhar um papel fundamental no tributarismo, numa forma de repúdio ao templo, que é um dos refrões de Amós.153

Desde o início do livro de Amós (2,6s) temos, de forma ampla e detalhada, as denúncias feitas por Amós contra Israel pelos abusos cometidos pelas classes privilegiadas,

151 LACY, 1998, p.25.

152SCHWANTES, Milton. Jacó é pequeno – Visões em Am 7-9. In: Revista de Interpretação Bíblica Latino –

Americana (RIBLA). n.1. Por uma hermenêutica da libertação na América Latina, 1988 / 1.A partir deste ensaio feito por Milton Schwantes o que transparece no conjunto das visões que temos no livro de Amós se refere ao conflito entre campo e cidade.

que faz coexistir festas e luxo, ao mesmo tempo, com maus tratos sobre os fracos e os pobres. Amós vai especificando e vai mais a fundo, particularmente, a respeito de que modos se dão esses abusos, a começar pelo mal que parte dos tribunais que, ao invés de garantir o direito, faz é desprezá-lo pela prática do suborno, que faz com que haja a condenação de inocentes pelo suborno dos juízes no seu exercício junto ao Portão, não fazendo o que é reto (2,6-8: 5,10-12). Em função dessa justiça fraudulenta, os camponeses perdiam seus recursos, sendo paulatinamente empobrecidos. Amós aponta delitos concretos decorrentes dos antagonismos sociais existentes no Reino do Norte, a partir das condições políticas e econômicas internas, como das injustiças sociais. Denuncia em primeiro plano a distorção do direito (5,10. 12) e o descaso com a justiça.

De forma central, constatamos, a partir do nosso objeto de pesquisa, que é Am 5,10-13, que a denúncia de Amós recai sobre a prática da injustiça instalada oficialmente na instância que deveria ser o principal canal de mediação e garantia de defesa do direito dos que na sociedade são os mais fracos e indefesos: a jurisprudência que em Israel encontra-se corrompida. A partir de então, levantamos as seguintes questões: Qual, afinal, o eixo das denúncias apontadas em Amós, especialmente na perícope Am 5,10-13? Concretamente, quais pessoas ou grupos que estariam por trás desses crimes cometidos no lugar onde deveria ser garantido o direito e a justiça? A quem Amós nomeia como agentes opressores, situando especificamente o seu grito profético no portão? De que modo e quais as mediações por estes utilizadas? Todas essas questões serão desdobradas no terceiro capítulo, a partir de uma análise que terá como foco Am 5,10-13.

CAPÍTULO III

O direito é torcido à Porta

A exegese feita no primeiro capítulo do nosso trabalho, bem como a análise semântica das principais expressões contidas na perícope Am 5,10-13 possibilitou-nos uma apreensão da realidade que se encontra por trás dessas expressões. Uma vez definidos tais conceitos, retomaremos no presente capítulo o que aí foi trabalhado, a fim de percebermos sua importância e força dentro de uma crítica social, como é a profecia de Amós. Trabalharemos, num primeiro momento, o significado de justiça e de direito ligados à expressão Porta / Portão, a partir da perícope em questão.

Em seguida, faremos uma abordagem referente ao exercício do direito e da justiça em Israel, no período compreendido ao contexto que ora nos detemos, nos ocupando, sobretudo, do que diz respeito ao Portão no Antigo Israel, lugar em que a justiça e o direito eram administrados.154 Isto será feito, segundo o que pudemos perceber na contextualização

histórica trabalhada no capítulo anterior, e, especialmente, por uma análise do conteúdo da perícope Am 5,10-13, aprofundando tais dimensões conforme transparece no texto. Desse modo, vamos direcionando nossa discussão para o eixo central da nossa temática, que é o direito e a justiça na profecia de Amós, a partir de Am 5,10-13.

De posse da perícope, trabalharemos a justiça social presente entre os países e povos do Antigo Oriente Médio, a fim de buscarmos uma aproximação entre elementos de defesa do direito do pobre, nele presente, e o texto de Am 5,10-13. Verificaremos possíveis aproximações e, ao mesmo tempo, o que há de distinção entre Amós e escritos do Antigo Oriente Médio, principalmente no que se refere às implicações e exigências éticas e religiosas da profecia de Amós.