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SPARQL filter clauses

Chapter 2: Background

2.1 Technical background

2.1.2 SPARQL

2.1.2.1 SPARQL filter clauses

Fonte: Acervo da pesquisa, agosto de 2012

“Faz algum tempo que o sol raiou, invadindo a copa das castanheiras prisioneiras das fazendas, mas a neblina ainda se dissipa sobre a linha d’água, que corre lentamente para cima, em direção a nascente do rio Capim, levando em suspensão uma borra acinzentada que indica que a maré novamente começa a encher, botos e troncos de bubuia refazem o caminho

130 dos corpos de cabanos pyrajauaras e milicianos que tombaram na foz do igarapé, lembrando um “Tempo de Revolta”. (PANTOJA 2014).

Enquanto escovamos os dentes com a água do rio, percebemos que outra vez, a subida da maré chegou próximo de atingir o assoalho da casa do Cai N’Água. Dormimos todos com medo, que durante a noite a maré ultrapassasse a altura do assoalho, como demonstram as marcas amareladas, de outras subidas, nas tabuas da parede que assim apodreceram mais rápido, talvez por isso o sono sempre leve, quase um estado de topor, se fez presente. Lembramos assim, do Tenente Antônio de Sousa, no conto ‘A Feiticeira’ de Inglês de Sousa. Este personagem após confrontar-se ferozmente com a velha bruxa Maria Mucuim, no interior do casebre em que um bode preto dançava no telhado, retorna correndo ao sítio do Tenente Ribeiro nas margens do Paranamiri, acoitado pela tempestade ruidosa que vem em sem encalço, parecendo que as forças da natureza queriam castigar o homem da cidade que despreza os valores interioranos. Extenuado pela correria, ao chegar ao sítio, entorpece no fundo de uma rede e: “De repente, ouviu um leve ruído por baixo da rede e despertou da espécie de letargo em que caiu. Pôs um pé fora, procurando o chão, mas sentiu uma umidade. Olhou e viu que o quarto estava alagado. Levantou-se apressado. A água vinha enchendo o quarto, forçando a porta. Assustado correu para fora.

Um grito chegou-lhe aos ouvidos:

_ A cheia!”, (2005, p. 45), o rio Paranamiri vinha arrastando tudo em seu caminho, como a pororoca de São Domingos do Capim, que após o encontro das águas com o Guamá na frente da cidade, vinha refazendo, solapando as margens do Capim enquanto carregava árvores, embarcações, corpos de gente e bicho, chegando até a frente da Aproaga onde lambia a formação rochosa e o que estivesse na frente, salvo se os três pretinhos que vinham encabeçando a grande onda recebessem uma dose de cachaça para abrandar a fúria do movimento.

De fato a noite foi longa...

Com a chegada de alguns parentes que atravessaram o rio em suas pequenas canoas, dispondo-se a me acompanhar na procissão de Nossa Senhora de Sant’Ana, depois do café simples, dirigimo-nos para a DER71,

por uma estrada de terra, a época recém aterrada e intercalada por buracos e lama, motivo de desconforto para os que foram seguir o cortejo, e alvo das reclamações dos moradores em geral. Estrada de terra que mais recentemente, as vésperas do pleito eleitoral e as pressas para garantir a simpatia do eleitores da região pelo candidato da Prefeitura de Aurora do Pará, como outras vias da vila recebeu pavimentação asfaltica. O transcurso do Círio está prestes de começar, ao longe ouvi-se o tocar dos sinos da igreja matriz e à medida que nos aproximamos da casa do senhor Vavá Forrier, na DER, ponto de partida da procissão, fica mais intenso o estampido do foguetório, que anuncia o seu início, alguns poucos, correm para conseguir um bom lugar no conjunto de fiéis, que vão participar do evento, enquanto são feitos os últimos acertos. Lá vai um apressado diretor da Festividade tentando na última hora, colocar no entorno da berlinda, arrumada sobre uma camionete cinza, um pedaço de corda de cisal,

71 O DER, citado na narrativa anterior, corresponde a uma continuidade da vila de Sant’Ana do Capim, de

ocupação mais recente que se formou a partir de 1971, com a abertura de uma estrada vicinal, a atual PA-252, o nome do lugar é uma referência ao acampamento dos trabalhadores do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem - DNER, responsável pela abertura.

131 comprado naquela hora no comércio do Zé Azul. À frente segue o fogueteiro, responsável por anunciar com o seu fazer de estampidos a passagem da imagem e o chamamento dos devotos para a procissão, juntamente com três crianças vestidas com longos mantos brancos, representando os discípulos em sua caminhada sacerdotal, o que vai ao centro, carrega em suas mãos um grande crucifixo de madeira, como um porta-estandarte, entrelaçado por fitas coloridas e um pano branco, a alegoria faz referência ao sacrifício do filho de Deus pela salvação da humanidade, caminham sempre com a orientação de um dos lideres da festividade, alertando-os sobre os momentos de parada durante o percurso e a necessária postura devocional.

Logo em seguida, a berlinda da santa (imagem peregrina) cuidadosamente acondicionada na pequena camionete, envolvida em flores de predominância mais clara e ladeada por duas bandeiras vermelhas, com predominância das vestimentas tingidas de muruxí que os cabanos trajavam em certa altura de suas batalhas. A berlinda vem arrumada em altura peculiar à visualização da imagem por todos, ou pelo menos por aqueles que se dispuseram a abrir as suas casas após o chamamento do fogueteiro. Seguem ainda, ordenadamente no cortejo, diretores da festa e leigos em geral, sendo reservado aos primeiros uma maior proximidade da berlinda, como forma de identificação dentre do grupo devotos estes usam camisetas brancas com imagens e frases de louvação à Sant’Ana. A procissão avança sobre o piso de terra avermelhada, enquanto canta-se com fervor o hino oficial da “Gloriosa Sant’Ana”:

“Oh! Minha Santa padroeira gloriosa Sant’Ana És uma santa milagrosa que se viu gloriosa Matriz da margem do rio [...]”.

Intercalando o cântico local com o hino oficial do Círio de Nazaré: o “O Virgem Mãe Amorosa”.

Louvores revezados com outros cânticos devocionais, católicos ou não: de tempos em tempos realizam-se paradas para reflexão, orientadas por um membro da diretoria, que faz a leitura de trechos bíblicos previamente selecionados, a fim de promover meditações sobre fé, devoção, superação de dificuldades materiais, entre outros, que envolvem uma propensa dedicação a estes paradigmas católicos como possibilidade de que “a gloriosa”, intervenha nas condições sócio-espaciais da vila, como a violência, a beberagem e o consumismo que se impõem aos jovens do lugar. Dentre estas dificuldades materiais é relevante a percepção de que as ruas próximas da área central da vila, com destaque para aquelas destinadas ao comércio mais dinâmico da atualidade, reproduzem o modelo de caracterização de moradia que Galvão (1955) identificou pelas ruas de Gurupá (Itá) no Baixo-Amazonas.

Conforme nos afastamos da área central a condição das moradias se torna mais precária, literalmente, reproduzindo as moradias de indígenas, tapuios, negros e brancos pobres (cabanos em sua condição histórica de exploração social, política e econômica) que deram origem ao movimento cabano. Situação que é agravada pela dificuldade de acesso à terras onde possam trabalhar, para com a produção subsidiar o sustento da família. É fato recorrente entre os moradores da região que com a chegada dos grandes latifúndios, as atividades de cunho coletivo, como a agricultura familiar perderam espaço para o gado, o pasto e as cercas. O que condicionou a migração de muitas famílias para novas áreas de ocupação, com latente carência de infraestrutura e serviços públicos. A sensação

132 imediata é de que pouca coisa mudou entre as condições sociais que mobilizaram o levante cabano e a situação atual.

Retomando a procissão, à medida que caminhamos, realizam-se outras paradas diante de algumas casas, nas quais se arrumam pequenos altares improvisados, em que são colocadas imagens de santos, frutos produzidos nos roças ainda existentes no entorno, a bíblia sagrada ou folhetos com representações das imagens de santo e papéis de oração. Todos estão envoltos em rituais de agradecimento à padroeira, que são reforçados por estas paradas, onde se proclamam os nomes as famílias e as graças alcançadas: boa colheita, cura de doenças, melhoria social ou a longevidade dos velhos. Estes últimos, alguns assentados diante das casas, estendem as mãos em direção à berlinda com a santa, enquanto outros, amparados por parentes ou amigos, andam com dificuldade em direção à berlinda para tocá-la, o que é percebido com aplausos e lágrimas entre os que assistem ao esforço gestual.

Fogos, cânticos e devoção interagem continuamente enquanto o cordel segue engrossando, no ritmo da berlinda, quanto nos aproximamos do centro da vila, uma parada estratégica em frente a uma das mais antiga igrejas evangélicas, onde estão assentados alguns evangélicos que observam a passagem da procissão, marcando a diferença, pela fala dos diretores no sermão proferido naquele ponto, entre uns e outros. Apontando um conflito latente em toda a região amazônica, conforme o avanço das igrejas evangélicas, que pregam a repulsa a adoração de imagens e o acreditar, ainda que possam falar destes em particular, em seres encantados como a Cobra Grande, o boto e outras malinesas. Assim, uma vida toda de socialização em torno da margem do rio deve ser “esquecida” em nome da conversão religiosa e o santo deve ser ‘jogado n’água’ 72.

O caminhar a passos lentos avança em direção a igreja de Nossa Senhora Sant’Ana, posicionada ao centro da área mais antiga da vila, ladeada pelo casario de origem portuguesa, antigas casas comerciais, e a praça matriz, onde muitos se posicionam para aguardar a chegada da imagem. Entre estas casas antigas podemos visualizar o salão onde o boto, atraído pelo sangue das meninas-moças lavado dos panos quarados na proximidade dos rios, veio vestido de branco e chapéu de aba, bailar com a dama mais sedutora da festa, reproduzindo uma cena carregada de mistérios por este desafio dos encantados em estado de liminaridade com o mundo real: Novamente o foguetório se intensifica, agora, mais próximo, soma-se aos badalos do sino e aos gritos de ‘salve Sant’Ana’, no trapiche um número considerável de pequenas embarcações estão aproados. Entre correrias para conseguir um bom assento, saudações, lágrimas e vivas, a imagem soberana adentra a igreja carregada pelo padre, agora um ambiente de faces estremecidas, velas e expectativa, até que o sacerdote-visitante dá início ao cerimonial da missa.

Diretores da Festividade, comerciantes e autoridades locais, assentam-se nos lugares primeiros, e outros são reservados aos que se dispõem a participar do evento final cumprindo promessas, reconhecidas coletivamente. O cerimonial segue a mesma perspectiva da procissão, com uma participação mais intensa dos devotos, empenhados em demonstrar a sua fé: cânticos, louvores de adoração.

72 O termo “jogar o santo n’água” é usado comumente no vale do rio Capim, ao referir-se a situações em que

pessoas conhecidas por sua devoção católica, por promoverem festas de santo, por exemplo, convertem-se a religião evangélica e, em tese, abandonam estas práticas do catolicismo popular.

133 O sermão do padre segue o tripé: fé, oração e obediência, demonstrando uma aparente afinidade entre o representante da igreja oficial e o discurso que se desenvolveu pelas lideranças da festa, ao longo das novenas que pudemos acompanhar, e assim segue o ritual, com a entrega das hóstias, os dízimos, os testemunhos de intercessão da “gloriosa”. Entre estes chama a atenção o caminhar de joelhos de uma devota vestida de branco e segurando nas mãos um pequeno coração de cera, sobreposto por uma vela, um ato de agradecimento por uma graça alcançada por pessoa da família, bem como, destaca-se a grande quantidade de crianças vestidas de ‘anjinhos’ que acompanhadas de seus pais vem agradecer alguma graça. É neste ritmo de reafirmação da fé em torno da devoção a Sant’Ana que a missa de encerramento da festividade é realizada até que chegamos saudação de encerramento em que “todos” se dão aos mãos e declama-se o “Pai Nosso”, e em seguida, canta-se o “Gloriosa Sant’Ana”. Este é sempre um momento tenso, oferecidas as mãos para proferir coletivamente as orações, sentimo-nos como Geertz (1989,) em a briga de galo, sem ter como correr para fora da igreja, acabando por participar sim, do rito final, sob os olhares desconfiados de que nos ofereceu as mãos. Segue a cerimônia religiosa com o batismo de crianças pequenas que recebem a benção dos pais e padrinhos, responsáveis pelo encaminhamento destas na vida cristã. Realizados os agradecimentos nominais aos que contribuíram financeiramente com a festividade e os avisos finais, entre eles sobre os festejos a serem realizadas nos próximos períodos em comunidades que vêm participar da Festividade de Sant’Ana, considerada a maior da região, e que realizam as festividades dos santos padroeiros de cada comunidade, funcionando como momentos mobilizadores da agregação em torno de Nossa Senhora de Sant’Ana. Encerrada a cerimônia muitos vão em direção a imagem da santa (cada um para aquela de sua preferência)73 para beijar

as fitas entrelaçadas, tomar a ‘bença’ da santa e reforçar os pedidos (os votos). Enquanto outras retiram-se do templo, saudando todos aqueles quanto possível, especialmente os conhecidos, alguns destes não residentes, devotos que vieram participar do ritual, reforçando a importância da vila, como local de agregação católica. É como se essa fosse a festa mais intensa, o ponto de reunião, de encontro de devotos das mais distantes comunidades da região. Muito embora, outras festividades realizadas na própria vila reproduzam em escala menor os conflitos e as devoções a Nossa Senhora Sant’Ana, como a Festividade de Nossa Senhora de Nazaré, que ocorre durante o mês de novembro e onde um dos primeiros a chegar, descendo a rua paralela a igreja Matriz de Sant’Ana, seja o bom católico Bonifácio. Enquanto isso, outros se dispersam rapidamente. Sinos e foguetório unem- se mais uma vez, para anunciar o final simbólico da festividade. É hora das famílias reunirem-se para o tradicional almoço, embora, sem que se use necessariamente o mesmo cardápio do Círio da Capital, o importante, de fato, é reunir os capienses para vivenciar o encontro e experimentar, por alguns momentos, um mundo melhor”, (adap. RABELO 2010, p. 79 a 83).

73 Esta coexistência entre imagens diferentes da mesma Santa, no espaço de pesquisa é uma constante. Pois,

percebe-se a devoção a duas imagens de Nossa Senhora Sant’Ana, durante muito tempo a primeira imagem da Santa, foi esquecida na parte superior da igreja. É a partir de uma promessa paga que se restaura a imagem, que passa então, a ser sobreposta em um pequeno altar na igreja, juntamente com a outra que ali estava.

134 Foto 18: Chegada da procissão a igreja de Nossa Senhora Sant’Ana, no fundo o trapiche da vila

Fonte: Acervo da pesquisa, julho de 2009

Durante a pesquisa etnográfica inicial na ânsia de compreender, explicar o momento vivenciado entre os bons católicos do Capim, procurei fazer uma aproximação de interfaces da identidade amazônica, conforme realidades antropológicas e literárias, segundo a proposta de Maués (2007), foi quando percebi o quanto estive imerso e, literalmente, como mergulhei profundamente na proposição gadameriana de circularidade hermenêutica, vejamos, por exemplo, a cena dalcidiana seguinte:

“O tempo anunciava chuva. O arco-íris sobre a mata, caindo no rio onde bandos de curumins nadavam até o meio entre as montarias, pendurando-se na borda das canoas.

Guita, indiferente as moças que brincavam e riam alto, permanecia recostada ao parapeito do trapiche, junto à escada, certa de que Rafael, seu padrinho, não lhe daria a Coroa para carregar até a igreja, pedira com tanta insistência. As moças da alta não permitiriam sem dúvida. Fique sossegada, lhe dissera o padrinho, isso não a convenceu.

Pássaros num vôo vagaroso atravessam o rio, o arco-íris, a voz dos sinos espalhada, alegremente na tarde chove-não-chove. O arco-íris se fez mais luminoso, o grito dos meninos no rio era como o grito de meninos que se afogassem.

Em silêncio, sentado na beira do trapiche. Tenório contemplava o estirão por onde havia de surgir a embarcação da santa. Tristeza de folião extremamente sujo e maltrapilho que perdeu a viagem, nunca mais tirou folia, ficou sem a companhia dos santos. Felicidade tinha sido a morte de Marcelino, e o rosto quase transfigurado de Orminda74. Santo Ivo jazia no fundo do aningal. A

mulher bebida teria atirado a Cabeça no encantado onde os peixes adquirem

74 Sobre este personagem emblemático de Dalcídio Jurandir (2008) ver: RABELO, Eleni Bonifácio. Questões de

135 poder para flechar os homens, endoidecer as mulheres, furtar criança nos jiraus”. (JURANDIR 2008, p. 226).

Não era possível incorporar fisicamente Tenório, mas se seguirmos a orientação de Maués (2007), é como se esta possibilidade se concretizasse espiritualmente diante dos olhos: após mergulhar nas águas memoriais do Capim, estamos sentados em silêncio, na cabeça do trapiche do Cai N’água, nas proximidades do núcleo principal da vila de Sant’Ana do Capim: o barulho dos frutos de miriti, penetram a água, crianças, como de costume atentam os barqueiros, saltam acrobaticamente dos toldos dos barcos, mergulham na água, tentam morcegar as pequenas embarcações ou o tronco que passa de bubuia, lembrando os corpos dos cabanos que flutuavam por estas águas, a Cobra Grande, ou um jacaré-acú que possa vim fazer uma malinesa com quem faz muito barulho ou não respeita a hora apropriada, segundo o imaginário local de descer ao rio, sem que por lá encontre estes encantes ou a mãe d’água descansando sobre um tronco deslizante.

De vez em quando, lainvem (lá vem) alguma menina-mulher lavar roupa ou louça sobre o trapiche, que interliga a margem e o rio, trazendo sempre um bando de crianças, curumins cabanos, filhos e aparentados, na sua ilharga, que aproveitam para banhar, não sem lembrar dos encantados que habitam o fundo do rio, entre eles o boto, cujo o interesse maior é a mulher em período menstrual. Em relação a esta situação, ao destacar as proibições de ordem sobrenatural que condicionam o comportamento feminino em estado de liminaridade, MOTTA-MAUÉS (1993, p. 119, 120) afirma que:

“A mulher, em certas fases de sua vida, torna-se mais vulnerável às investidas de agentes sobrenaturais e, por isso, ela deve evitar situações que as propiciem. As entidades que podem causar mal à mulher nos seus “tempos” são os “bichos” ou “encantados-do-fundo”. Eles costumam habitar ou freqüentar certos locais como o mangal, o porto, os rios e igarapés, que por isso devem ser evitados pela mulher naquela situação, desse modo, ela não deve “passar água”, isto é, atravessar um rio ou igarapé, nem chegar próximo ao porto e, principalmente, deve se afastar do mangal, considerado o lugar mais perigoso.

Entre os chamados “bichos-do-fundo” ou “encantados” estão as oiaras e o boto, que são considerados mais danosos para a mulher menstruada, sendo que o boto pode prejudicá-la mesmo em qualquer ocasião. Na menstruação, porém, essas entidades são como que atraídas inconsequentemente pela mulher, que deve então estar prevenida contra elas.

As oiaras podem provocar uma doença não-natural na mulher, que passará a sofrer de “corrente-do-fundo”, isto é, ataques periódicos que são uma manifestação dessas entidades (que, neste contexto, surgem como caruanas) e, durante os quais, a pessoa perde o controle sobre os seus atos, ficando fora de si (fenômeno de possessão). Nesses casos, é necessária a intervenção de

136 um pajé ou curador, para afastar a entidade, eliminando as consequências do ataque de que a mulher foi vítima.

Dos bichos-do-fundo, o boto apresenta uma característica peculiar, pois, enquanto todos os outros podem eventualmente atacar qualquer pessoa, independentemente de sexo ou idade, ele só o faz em relação a mulher e, além disso, enquanto ela esteja gozando da plenitude de sua capacidade reprodutiva ou seja, desde a menarca até a ocorrência da menopausa. O boto é perigoso porque pode, segundo acreditam os itapuaenses, assumir a forma humana, conseguindo desse modo aproximar-se mais facilmente de suas vítimas”.

Nestas situações de liminaridade, conforme destacado, pela Antropóloga, ao se referir aos tempos da mulher, dois momentos tem especial atração, quando se trata de encantamento pelos bichos-do-fundo, notoriamente, durante a menstruação e o resguardo, pois, o quadragésimo dia de resguardo, seria um momento potencialmente arriscado para a mulher, em que além dos cuidados de ordem natural, outros que envolvem este risco de