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Implementation #3

Chapter 3: Implementation

3.1 Indexing RDF data with the FILT framework

3.1.1 Index structure

3.1.1.3 Implementation #3

Fonte: Acervo da pesquisa, outubro de 2014

Em seguida, acabamos por conversar sobre as mudanças e permanências nas condições estruturais da educação na vila e região, o que nos levou a observar uma parte da casa, recebida por indenização ao marido, pelos anos de serviço prestado à Osvaldo Tocantins, que serve como anexo de escola municipal84, “funcionando” para series iniciais.

83 Sobre esse fato em julho de 2008: “Ela contou-me em um final de tarde, sentados no sofá de sua casa, herdada

do antigo comerciante, após pendenga judicial, depois de um gostoso cafezinho, que me antecipei em degustar, mesmo antes que a xícara chegasse à sala: que o primeiro dono dessas terras, começou a desenvolver o hábito de ter visões, dores de cabeça, tonturas, e outros desconfortos, teria assim, recebido de sua filha o conselho de que deveria, quando das visões, fazer uma promessa de devoção para um santo. E que, certo dia, quando começaram as visões de seres sobrenaturais (diabos) que subiam pra terra, da direção do trapiche, ele fez uma promessa para Nossa Senhora de Sant’Ana. A mesma consistia em um pedido de cura para a doença físico-espiritual. Tendo a graça sido alcançada, ele mandou a filha buscar uma imagem da Santa na Bahia, seu Estado de origem. Cumprida a promessa, se iniciou a devoção com o erguimento de uma pequena capela, e a ocupação do lugar, com a construção das primeiras casas, especialmente, para novos devotos que solicitavam ao dono das terras e à Santa, permissão para ali se estabelecer, agregando-se ao mesmo tempo, ao dono da terra e à devoção católica”. (RABELO 2010, p. 27).

84 O funcionamento de anexos educacionais, normalmente, espaços subutilizados, improvisados para dar conta

da falta de vagas nas escolas consideradas pólo é garantido pela Resolução nº 813 de 11/12/2000 do Governo do Estado do Pará. Deste modo, todo serviço de secretaria e estatística, da trajetória educacional dos alunos destes espaços menores, os anexos escolares é atribuído e soma-se ao serviço da escola-polo.

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Em respeito a gente do rio Capim, optei por não descrever, analisar, ou publicar as imagens do espaço, em respeito a D. Bahia e a gente do Capim, basta registrar que, corresponde a uma das faces da precariedade educacional a que estão submetidos os meninos e meninas da região, através do padrão multisserial de turmas, formadas com alunos em idades distintas, separadas simbolicamente, por carteiras mesas ou antigas prateleiras da taberna, pensadas como paredes, presentes na dura realidade educacional da Amazônia paraense, em que o esforço condicional de professores e alunos reflete o cotidiano das escolas multisseriadas, sobretudo, as situadas nas regiões interioranas da Amazônia, conquanto esta lógica, segundo afirma Oliveira (2011, p.54), direciona a concepção de gestores e educadores, as práticas educativas, a configuração do espaço pedagógico e as relações entre educador (a) - educando (a) - educador (a), conforme:

“[...] para organizar e desenvolver seu trabalho pedagógico, ela [professora] separou as séries: numa fileira a 2ª série; ao lado dessa, em outra fileira, ela colocou a 3ª série. Atrás dessas duas, num canto da sala, ela organizou mais uma fila para a 4ª. Á frente da 2ª e da 3ª, fica sua mesa, pequena, de madeira antiga vernizada. A sala possuía duas lousas, sendo uma dividida entre a 2ª e a 3ª séries e a outra ficava com a 4ª série, ou seja, os quadros eram postos em lugares opostos da sala, simbolizando as fronteiras entre níveis de aprendizagem-ensino, parece-me uma separação em forma de hierarquização entre os mais desenvolvidos e os menos desenvolvidos. A professora com o livro didático nas mãos, retirava dele os conteúdos e os transferia para a lousa para que os (as) educandos (as) copiassem. A disciplina era de português, mais o assuntos eram abordados de acordo com as séries. Os assuntos eram: “Plural e Singular; Sinônimo e Antônimo” para 2ª e 3ª séries; para a 4ª série “Estudos dos Artigos Definidos e Indefinidos”. Grande parte do tempo os (as) educandos (as) passaram copiando, em função, da grande quantidade de conteúdo que a professora expôs na lousa. Depois de passar o assunto e os (as educandos (as) copiarem ela passa um exercício para verificar se elas e eles aprenderam os assuntos. Novamente, ela enche os quadros de exercício com um texto “A Raposa e o Corvo”, retirado do livro didático do qual os alunos da 2ª e 3ª séries teriam de identificar palavras sinônimas e antônimas; passar, ainda, as seguintes palavras para o plural: “anzol; lençol e farol”. Já para os alunos da 4ª ela retirou algumas frases como: “Os ratos são inimigos dos ratos”, a fim de que eles identificassem os “artigos” empregados na frase. Esse exercício era um pré- teste, tendo em vista a prova da 3ª avaliação. Os alunos e alunas pareciam esperar pela professora, para ouvirem a resposta exata. Chega o momento da “correção”, ela pergunta e responde as questões quase que sozinha com a ajuda do livro didático. Os alunos fazem unicamente completar a resposta dela. Ao chamar a atenção de um aluno parar participar da aula, ela o adverte, indagando-lhe: “Quer trabalhar na roça como teus pais? Então, tem queestudar!.”.(CORRÊA apud OLIVEIRA 2011, p.54, 55) 85.

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Utilizei este trecho de Oliveira (2011) no resultado de material produzido durante participação no: PROJETO EDUCAÇÃO BÁSICA: DIREITO HUMANO E CAPITAL SOCIAL NA AMAZÔNIA PARAENSE, sob a coordenação da Professora Violeta Refkalefsky Loureiro, em que discuto esta condição de precariedade

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No caminhar pelo interior da casa, uma pergunta invadia meus pensamentos: Quais seriam as chances de José e de outros Alfredos da região, diante de tamanha precariedade? A saída seria migrar para a capital e agregar-se na casa de algum, parente para tentar acesso à pretensa educação de qualidade, como fez o Alfredo ficcional? José “optou” pela permanência em Sant’Ana.

Depois de visitar a área da casa que foi transformada em escola, para as séries iniciais, composta por turmas multisseriadas, a professora acabou narrando, sobre como era o seu trabalho, nos primeiros anos de magistério, em uma casa às proximidades do igarapé Caratateua, a cerca de uma hora, navegando-se de canoa ou rabeta, acima de Sant’Ana, na margem esquerda do rio, nas proximidades de onde localizam-se as ruínas do engenho Santo Antônio:

“Quando eu vim pra cá, em 54 é 1954, essa casa tava perfetinha, aí depois que eu me mudei pra cá. Eu morava lá em cima, defronte do Caratateua, depois que me mudei pra cá, eu trabalhava pelo são Domingos, lá do outro lado, defronte do Caratateua. Ai eu fui entregar o lugá, eu num quiria, mais trabalhar, aí eles perguntaro lá, por que eu ia entregar o lugá? aí me pergunto a senhora já enjoou de criança? Pra vê se eles me liberavam eu disse que sim. Há, então, a senhora já enjoou. Vai trabalhar, mas num vai mais cuidar de criança. Fui transfirida pra Santana aí fui que eu vim praqui. Mas inda fiquei dois anos com turma aqui, aí depois que me butaram pra cá, cumo axiliar de disciplina, mas eu inda fiquei cum turma. Insinei um ano aqui, nesse que é o bazar, que é essa casa. No outro ano já fui lá, nu colégio, era aí nessa casa era um salão bonito aí era só uma turma que tinha aí. A minha era a primeira série que eu insinava né, porque lá no colégio num tinha era colégio pequeno, agora não, que mandaro aumentar mais uma sala, lá pra trás, cozinha essas coisas. Mas nessa época era só um colegiozinho aí butaro uma turma pra cá, aí fui que eu tumei conta dessa turma. Depois me colocaro lá pro colégio de lá. Bem, aqui é do Estado lá é do Município, fui que, esse Zito, que era irmão do Candinho, me lembro, que ele era lá da foz do jabuti-maior, foi que ele já pediu a casa, pra ele tirar as telhas, que ele pediu né. Nós tinha um terreno muito grande lá era mais de mil metro sabe. A escola lá era aminha casa mesmo, porque pra lá num tinha professora tinha um professor, no aningal e aqui em Santana. Minha casa era lá defronte do Caratateua. Você já num ouviu falar no Nenem Rosa? Ele tem uma comunidade lá em frente. A nossa casa ficava mais abaixo era uma casa grande era uma casa que tinha umas quantas salas, a varanda grande da frente tinha a capela tinha o salão de dança, que agente festejava santo Antônio”. (entrevista aberta, outubro de 2014).

socioeducacional na capital: “As escolas da capital: retratos da desigualdade social na Amazônia” e no Lago- Grande Curuai, na região tapajônica: “Entre Águas Tapajônicas: (in)visibilidades socioeducacionais no vale amazônico, prsquisas que aguardam publicação.

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Como em diferentes momentos, havíamos conversado sobre esta casa do Caratateua, que D. Bahia tinha trabalhado como professora, atendendo a um pedido feito em contato anterior, ela me entregou um desenho em que reproduz sua imagem memorial sobre o lugar:

Figura 4: Desenho da casa, onde funcionava a escola, produzido por D. Bahia

Fonte: Acervo da pesquisa, outubro de 2014

Em seguida veio a tona, o rememorar sobre as celebrações da Festividade de Santo Antônio, e dos tesouros enterrados na área do engenho Santo Antônio, localizado na margem oposto do rio Capim em relação à boca do igarapé Caratateua, que reapresento parcialmente aqui:

“Naquele tempo, é que uma pessoa muita rica, às vezes ele tem muito ouro, dinheiro, que nessa época tinha aquele dinheiro que eles enterravam [...] e assim acontece:

No tempo da escravatura, ali no Santo Antonio, lá perto de onde eu morava era um engenho.

Eu: Ainda é? Não tem mais nem descendentes?

Não, não tem mais descendente, os últimos já morreram. Esse era um engenho que tinha muitos escravos, já perto da libertação dos escravos, tinha muito lá né. Tinha uma senhora chamada Tereza! Que ela era mãe dos avós de um cumpadre meu... cumpadre já de idade, ela era mãe, da mãe, dos avós do meu cumpadre. Ela era cozinheira da casa grande e essas cozinheiras que trabalhavam dentro, eles davam um pagamento no fim do mês né. Eles davam e aquele dinheiro que eles iam dando pra ela, aquelas moeda... era um ouro que eles davam, aquela coisa e ela guardando. Ela botava num negócio e enterrava... quando foi que teve a libertação dos escravos ela... foi embora, levaram ela não sei pra onde. Quando foi uns tempos, muitos anos atrás , que ela voltou pra ih! Ela tinha uma menina que quando foi da libertação dos escravos ela tava menina ainda essa ai. E essa D. Tereza era mais de idade, ela foi na casa dessa menina que ela era escrava também, era filha de escravo. Foi lá, parece que o nome era Rosa. __ Ela disse: Rosa, tu sabe onde é as imediação da cozinha da casa grande?

168 __ Rosa disse: Há! Minha vó, eu sei onde é. __ então vamô lá.

Ai foro pra lá andaro, andaro, lá nessa fazenda. Tinha boi, não! Depois que acabou a fazenda que colocaram boi lá. Já outro pessoal, colocaram boi lá. Ela disse: olhe minha vó é aqui nessa imediação, disse: por aqui [...] ai elas foram andando, foram andando, a menina foi na frente e disse: __minha vó, venha, espia aqui uma coisa.

[...] foi a D. Tereza que voltou para ir pegar, só não aquilo ali... não ia ficar na terra tinha que uma pessoa sonhar ou virem dizer assim, em visão. Porque negócio de ouro não fica assim no pé da terra.

Esse mesmo neto, dessa Tereza, ele caçava desse lado daqui e lá agora é até um comercio, dessa onde ele sai pra ir caçar, ele morava daquele lado e ele caçava desse lado. Esse meu cumpadre, com o pai dele, ele era menino [...] Quando passou muitos anos, muitos anos, o pai desse meu cumpadre morreu e esse meu cumpadre casou, teve filhos, ele já tava com um outro filho, que este filho mora em Belém [...] hoje ele passa no mesmo lugar, o pau já tava torto.

A corrente ainda tava lá, a corrente tava esticada, mas só que eles ficaram com medo de cavar, e o que tinha lá, eu digo quem sabe não era a boca de um tacho, que tava lá... que tinha muito dinheiro. Dinheiro não, que o dinheiro perdeu valor, que ouro [...] e se nessa época que ele apareceu lá , o que fazer? __ derrubava a arvore e cavava e via qual era o mistério que tinha lá [...] eles não tiveram coragem de fazê[...]”. (entrevista aberta, julho de 2008).

E continuou contando, enquanto mais um cafezinho era servido...

Durante as primeiras pesquisas no Capim, como muitas pessoas repetiam as falas de D. Bahia sobre a possibilidade de tesouros enterrados na área das ruínas, do engenho Santo Antônio, e dos resquícios de um antigo casarão, na foz do igarapé Caratateua acabei por vivenciar uma aventura antropológica, no sentido extremo do termo, que se repetiu mais recentemente, nas águas do rio Arari, no arquipélago do Marajó.

Sabedor da necessidade de, subir o rio, fiz alguns contatos e consegui acertar a viagem com Bonifácio, que tinha há época, uma rabeta, de bom tamanho, a contrapartida, era o pagamento do combustível, e cerca de dois litros e meio de vinho, que foi medido e colocado cuidadosamente em uma garrafa plástica, de cinco litros, bebida que seria degustada durante o percurso. Partimos muito cedo, na rabeta, sugestivamente denominada de “Cachacinha” que era pilotada, pelo bom católico, completava a tripulação, meus escudeiros, Alumínio e Tiradentes, minha esposa e meu filho mais velho, este, com aproximadamente dez anos. Fiz questão da presença dos dois últimos, por entender ser importante, que estes pudessem ver de perto um pouco da história do Capim.

Como estávamos a favor da correnteza, não demorou muito e chegamos a foz do igarapé Caratateua, nas ruínas do engenho, embora mais perto, encostaríamos na volta. Bonifácio demonstrou habilidade para encostar o barco, em um dos lados da estreita saída,

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logo que desembarcamos, destacaram-se elementos da paisagem físico-social, bem peculiar, à Amazônia das águas, uma casa de madeira avarandada, totalmente fechada, batemos palmas, por alguns momentos, até que, uma menina assustada com a chegada de estranhos, aparentando ter menos idade que meu filho, abriu uma fresta da janela, por onde foi possível ver uma penca de Alfredos, que estavam sob os seus cuidados, os adultos tinham bem cedo ido para o “centro”, forma de denominar os espaços de plantio ou caça, para dentro da mata, mais afastados, em relação a margem do rio, onde se estabelecem os retiros de farinha. Como no caso de José, ficava evidente, ao observar, esta situação, da foz do Caratateua, a perspectiva de que as crianças no Capim como acontece, na Amazônia, em relação aos grupos sociais desfavorecidos de modo geral viram adultos antes da hora.

Paralela a moradia familiar, uma casa de farinha desativada, o que teria condicionado o deslocamento dos adultos para o “centro”, através de caminho por terra, por isso, na enseada próximo a foz do igarapé descansa a embarcação “Caipira do Capim”: