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Indexing process

Chapter 3: Implementation

3.1 Indexing RDF data with the FILT framework

3.1.2 Indexing process

Fonte: Acervo da pesquisa, julho de 2009

A marola chegou muito rapidamente à borda da “Cachacinha”, nos atingindo com força, uma, duas, três vezes, mal deu tempo de aproximarmos um pouco da margem e a água invadiu a embarcação, alagada ficou boiando, rapidamente, saltamos n’água, ficando a esposa, o filho, e Bonifácio tariando (controlando o equilíbrio do barco) reduzindo o peso e permitindo que a rabeta continuasse de bubuia, enquanto a água era retirada e buscávamos a beira, faltava-nos, porém, uma cuia, uma vasilha qualquer, que pudesse auxiliar na retirada de água, reduzindo o desespero.

A saída encontrada foi peculiar, cortar o garrafão de vinho, para ter a vasilha, diante da situação, os tripulantes do Capim, rapidamente a esvaziaram, tomando em goles generosos, sem deixar perder uma gota do vinho. Só então o garrafão foi partido ao meio, com o auxílio de um terçado, e o barco foi desaguado, trabalho que se completou, quando encostamos, na margem, para um rápido respiro e retomada da viagem a bordo da “Cachacinha”, que carregava agora, além dos tripulantes encharcados, a experiência de ter podido ver de perto a frieza, a capacidade de resiliência desta gente do Capim, diante de uma situação tão adversa.

Experiência de luta e resiliência, que no navegar seguinte, está entrelaçada, pela perspectiva de reconstrução do passado, através da interface, entre memória individual e coletiva de Halbwachs (1990), onde a memória, no sentido primeiro do termo, é a presença do

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passado, resultante de um processo de construção grupal, pois, nossa memória pensada como individual, recebe contribuições permanentes dos grupos em que estão enraizados nossos processos socializantes, proporcionando uma intuição sensível, distinta “das percepções em que entram alguns elementos do pensamento social”, (p. 42). Ao conceber o processo de interação entre memória individual e coletiva, Halbwachs propõe que sempre recorremos a testemunhos para reforçar, enfraquecer e também para completar o que sabemos de um determinado evento, sobre o qual já temos alguma informação, embora, provavelmente, muitas circunstâncias ainda permaneçam obscuras para nós.

A caminhada por este entreleçamento memorial é tão labiríntico, quanto à proposição meândrica do tema inicial, que nos conduziu quase de bubuia a uma Cabanagem, presente na memória de alguns poucos velhos das antigas, do vale do rio Capim. Esse é o nosso processo navegar nas águas turvas do rio Capim.

3.4- O Vale do Rio Capim: memórias cabanas de um passado/presente

“Ah! O Aproaga era bonito, o Aproaga era assim tinha sete sala, e eu murava numa [Morava em Uma] como as empregada, os meus irmão [Irmão] era empregado lá no Aproaga, ai depuis [Depois] já que eu crescir mais meu pai troce aqui pro outro lado ficaram só Jacó, com doutor Pinheiro, dona, dona, aquela esquecir [Esquecer] nome dela dona Amaria que era a chefe mesmo né? Ficaram lá depois doutor Pinheiro veio embora troce a mulher.Ai ficar mesmo só os empregado, ai empregado olhe vá [Val] o professor lá ai, depois dês [ Desses] desempregado [Dos Empregado] ai já foram saindo tudo né? Não ficou mais ninguém, ai o Aproaga foi ficando destruiu tudo, tinha aquelas arve [Árvore] de, de plantação lá pra traz [Incompreensão] tinha o muro grande lá atrás hoje só tem pouquinho ... Daquele como é? Aquele nergocio [Negocio] aquilo bem alto que tem? O muro né? Pois éh::: ? Aquilo bem alto que tinha. Eu conhecer um bucado [Bocado] das coisa lá tinha comercio, lá embaixo, lá em cima era outra sete sala assim do lado da boca agente lá ajudava já trabalhei muito no Aproaga... Trabalhei também de empregada fazia as coisas lá pra eles... Mais depois agente crescendo meu pai virou

[Incompreensão da palavra] veio saindo ai nós atravessamos já presse [Para Esse] lado , lá da, daí da Santa Maria da Taperinha vendeiro pra outros, pra outros pessoal né? Ai meu pai atravessou já presse [Para esse] lado nos fiquemos pra ai... Nós não genheimos [Ganhamos] nada de lá só mesmo era de ser escravo, eles e nós todos, só de ser escravo, ai o que ele ainda puderam dá pra ele foi esse terreno, que ainda passaram hoje pra ai mais ainda deram o terreno né? Disse esse terreno e pra vocês trabalharem, ai foi que nós fiquemos nesse terreno que nós estamos até hoje ... E isso que éh::: Ai sempre quando pessoal vai lá pergunta, eu digo não o caso era isso, meu pai contava, eu ainda melembro [Me Lembro] eu melembro [Me Lembro] doutor Pinheiro, da dona, dona Lalá que era mulher dele tudo só não melembro [Me Lembro] bem do doutor Pedro Miranda e mulher dele por que nesse tempo, eu tava mais pra criança a minha. Mais a minha mãe mesmo contava que eles, era empregado deles, eles só davam coisas, pra eles, roupa pro meu pai, minha mãe cortava cana, junta cana pra moerem nos farinha, moerem no engenho, no engenho bonito lá de moer cana ... Bandalhou tudo né?”. (D. Maria América dos Santos, entrevista cedida a BARBOSA in ACEVEDO MARIN et all 2013, p. 234).

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Durante o mês de junho de 2015, fui informado pela gente da Casa do Batata, sobre a necessidade de entrar em contato urgente com os representantes da Associação Quilombola Unidos do Rio Capim – AQURC, para tomar ciência de um evento que seria promovido pela entidade, feita a comunicação, com o Presidente da AQURC, o Senhor Manoel Coutinho da Luz foi esclarecido que tratava-se do lançamento de duas publicações relacionadas a memórias de gente valente: o povo do Aproaga (Rabelo 2010, p. 116)) e do conjunto de povos tradicionais do rio Capim.

A primeira relativa ao álbum “Patrimônio, Cultura e Territorialidade dos Quilombolas do Rio Capim” de autoria dos professores Rosa Elizabeth Acevedo Marin, Eliana Ramos Ferreira e Fernando Luiz Tavares Marques, resultado da parceria entre as comunidades locais e o Instituto de Patrimônio Histórico Artístico Nacional – IPHAN.

E um Boletim Informativo: com a manchete de capa “Guerra do Dendê”, abordando a expansão desta monocultura e suas consequências para as comunidades Quilombolas, publicação realizada pelo projeto de Pesquisa Mapeamento Social como Instrumento de Gestão Territorial Contra O Desmatamento e a Devastação Processo de Capacitação de Povos e Comunidades Tradicionais (UEA/INCS/BNDES/FUNDO AMAZONIA)86.

O evento público realizado ao pé da ponte que cruza o rio Capim, na área da Sub- sede do “Centro Cultural Luciane dos Santos”, localizado na comunidade de Benevides, posicionada na margem do rio, onde se instalou na década de 1960 uma grande serraria que atuava na região, com todas as consequências ambientais deste empreendimento. O lançamento festivo contou com a presença de quase uma centena de convidados, entre descendentes do Aproaga, lideres de comunidades de diferentes pontos do rio Capim, políticos de São Domingos do Capim, Ipixuna e Aurora do Pará, pesquisadores e alunos de escolas públicas, que puderam assistir, além das explicações sobre os caminhos e as razões das publicações, também receber exemplares destes, e acompanhar a “Exposição Povos do Capim: Território, memória, patrimônio”, que também resultou das pesquisas de cerca de dois anos, pelas águas do vale do rio Capim.

Um evento festivo, em que a estrela principal era D. América, que emprestou a imagem de suas mãos, para embelezar a capa da primeira coletânea, suas memórias de

86 Fonte das informações complementares: http://novacartografiasocial.com/aqurc-promove-lancamentos-do-

boletim-informativo-no-9-quilombolas-atingidos-pela-expansao-do-dende-no-para-guerra-do-dende-e-album- patrimonio-cultura-e-territorialidade-dos-quilombolas-d/

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infância sobre o engenho Aproaga e a Revolta do Capim de 1891, e como outros velhos das antigas, como Vergino, Joaozito, doaram suas vidas a um projeto de mudança social coletiva, que se vê ameaçada por uma avalanche capitalista, intensificado, no pós década de 1960, corporificado na figura da ponte de concreto, das fazendas com suas castanheiras esquecidas no pasto ressequido, em projetos minerais e monoculturas de dendê, faces de um amplo processo de degradação socioambiental, que avança sobre rios e florestas da região amazônica.

Foto 32: D. América recebe do Presidente da AQURC, exemplar do Álbum: “Patrimônio, Cultura e