Chapter 2: Background
2.1 Technical background
2.1.3 Apache Lucene
2.1.3.2 Querying documents with Lucene
Fonte: Acervo da pesquisa, julho de 2009
Após alguns registros fotográficos, sentados em um mocho no canto da sala, onde costumam se acomodar os acompanhantes daqueles, que são submetidos às sessões de cura, Bonifácio contou-me então, um pouco de sua própria história.
Reafirmou inicialmente, o fato de não gostar de ser chamado de pajé ou curador, para ele isso é coisa de feiticeiro, dizendo ser, alguém ligado à medicina natural, uma medicina da terra. Um dom recebido por Deus, para ajudar as pessoas com algum tipo de sofrimento, atuando quando o doente não obtém resultado na medicina tradicional: “aí já vem pro nosso lado pra descobrir o sofrimento”.
A descoberta do dom de cura e, sua iniciação nesta medicina natural ocorrera de maneira inusitada, como acontece, de modo geral, nestes casos. Segundo Bonifácio, o seu dom seria um dom de nascença75. Nascido no alto Capim, no lugar chamado Açaiteua, com três dias de vida, encontrava-se em estado de “dormência”: não chorava não se mexia, nem se alimentava estaria segundo pensavam os parentes, prestes a morrer. Preparou-se então a caixinha (pequeno caixão de madeira) para colocar o corpo do anjinho e as pessoas já
75 Sobre esta categoria ver o capítulo quinto, sobre Pajelança, em Galvão (1955), onde aparecem alguns relatos
de sua pesquisa, envolvendo está situação. Outra referência importante é a diferenciação que Maués (1990 p. 184), faz desta categoria relacionada ao pajé, diante do que chama de pajé-de-agrado.
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estavam se arrumando para levá-lo ao cemitério, àquela época76, como também ocorre nos dias atuais, espaços reservados, em áreas de relevo elevado, para sepultamento, em regra, sem o registro pela Polícia Civil e cartórios da região, todos choravam a sua perda certa. Foi então, que uma mulher, cumadre de sua mãe, que “conhecia um pouco da lida, disse: que a criança não estava morta, que se pedisse a Deus, tivesse fé, Deus abençoava!”.
A mulher teria feito um preparado com ervas especiais, alho, óleos naturais e passado em todo o seu adormecido corpo, ritual acompanhado de uma reza, e em seguida a criança reagiu, voltou a se movimentar, demonstrando que estava viva, mas, não livre de sofrimentos, impostos por companheiros, àqueles que são escolhidos para desenvolver o dom. Com oito anos de idade, para tentar conter os tais sofrimentos, Bonifácio foi levado por sua mãe, até um homem que tinha conhecimento e que descobriu o seu lado, ou nos termos de Galvão: levá-lo a um pajé experiente de modo a “endireitar os companheiros no corpo”, (1955, p. 92), ensinar-lhe a ver os espíritos e aprender a dominá-los e livrar-se do sofrimento, dentro de um longo processo de aprendizagem com este mundo de encantados.
Este processo de descoberta dos outros e de si mesmo, pelo necessário tratamento para endireitar os companheiros, no sentido em que me fora advertido por Bonifácio, guarda certas particularidades com um caso semelhante descrito por Galvão (p. 95):
“A história de Fortunato Pombo, um sacaca, ilustra a formação desses pajés. Com seis anos de idade, Fortunato tinha o costume de passear pela praia e atirar em camarões e peixinhos com arco e flecha. Um dia desapareceu. A mãe dando pela falta procurou em toda a beira do rio, mas só encontrou a camisinha de Fortunato enganchada em um pau junto ao trapiche. Ficou desesperada e chorou muito. Chamou pelo menino mas ele não apareceu. Fez promessa de oferecer o peso da criança em ouro “se ao menos aparecesse u’a mãozinha ou um pé” para ver. Passaram dois dias e ela sempre rezando na beira do rio. Ao terceiro dia, sem esperanças, teve a surpresa de encontrar Fortunato nuzinho, em cima das tábuas. Correu para ele, indagando ansiosa onde ficara todo esse tempo. Fortunato respondeu que não sabia e em casa não houve jeito de arrancar dele outra resposta. Três dias mais tarde foi que falou. Tinha ido ao fundo. Era tudo muito bonito e tinha muito povo. Convidaram para ficar. Se fumasse um cigarro bonito, todo pintado, e provasse da comida que ofereciam não voltava mais. Mas teve pena da mãe - “tu chorava muito e me chamava”. Voltou, então. Muito tempo passou sem acontecer nada de extraordinário, já haviam
76 Em minhas memórias de infância no alto rio Capim, está presente a lembrança de um caminho para o “centro”,
na área do igarapé Açaiteua, onde morou o meu bisavô até os seus últimos dias, por onde, vez por outra, passavam cortejos de sepultamento que conduziam o corpo do morto em um caixão de madeira ou rede, até um local onde os corpos eram enterrados, sendo este ponto identificado somente por cruzes de madeira. O Caminho era para as crianças um lugar a ser evitado, como para as moças o rio ou igarapé quando em seu “tempo”. Quanto a este cemitérios clandestinos faço aqui o registro de um exemplo desta situação, que tem relação direta com a memória da “Cabanagem” do rio Capim que abordarei ao final deste capítulo.
140 esquecido a história de sua viagem ao fundo. Estava com doze anos quando foi com a mãe visitar um menino muito doente. Fortunato começou a rir no quarto da criança. A mãe ralhou com ele, que isso não eram modos. Mas Fortunato continuou a rir e explicou que o menino não ia morrer. Deixou a casa e foi para o mato de onde voltou com umas ervas para fazer um chá e dar ao doente. Com um pouco mais o menino estava bom. Daí por diante era alguém cair doente e logo chamavam Fortunato para curar. Com o tempo transformou-se em um dos pajés mais poderosos que Itá já teve”.
Para além desses processos iniciáticos, como, de certo, é o próprio trabalho de campo: a conversa desenvolveu-se em outro sentido, do qual Galvão também nos alertava, a concepção de que na vida religiosa do homem amazônico, existe, pelo menos na aparência, uma distinção entre o culto aos santos católicos, através de promessas e orações, que garantem a proteção destes aos seus devotos, embora, ao mesmo tempo, exista também a crença em fenômenos que escapam ao poder dos santos, como a panema, o assombro de bicho ou o ataque de boto, entre outros, que resultam em situações que requerem a atuação de um especialista, seja o pajé, curador ou benzedeira, constituindo-se em fator determinante para o retorno à normalidade.
Contudo, mesmo que, pensados em perspectivas distintas, podemos encontrar uma proximidade, entre a devoção aos santos, entendidos como católicos e a adoção de práticas xamanísticas da pajelança cabocla (Maués 2006, 2008) em que são incorporados companheiros do fundo, conhecidos como caruanas, estes elementos simbólicos, não podem ser pensados como forças opostas, fazendo parte do mesmo universo, de um mesmo ethos cultural.
Tanto que, na continuidade da conversa, Bonifácio fez questão de evidenciar a importância de uma vida regrada, segundo os preceitos da Igreja Católica, como a necessidade do batismo como elemento fundamental para a proteção das crianças pagãs, seja esta proteção espiritual, contra infortúnios como o quebranto ou mau olhado, ou de forma mais concreta, pela garantia de um “segundo pai”, que guie os caminhos da criança em uma vida de retidão cristã, no caso de ocorrer a ausência dos pais verdadeiros. Fez questão assim, de lembrar os seus trinta e poucos afilhados, e mais uns oito por ai, que estavam aguardando o momento do batismo, durante a Festividade de Nossa Senhora Sant’Ana.
E explicou mais uma vez, a razão de não gostar que o chamem de pajé ou curandeiro: segundo ele, são chamados assim os que trabalham nesta linha que, costumam mexer com bruxaria, dizendo não ser o seu caso, e que embora tenha conhecimento desta área, faz questão, de colocar em prática uma velha promessa feita a sua mãezinha, de atuar
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sempre na linha branca, para não correr o risco de “fazer o feitiço voltar contra o feiticeiro”, expressão que Maués (1990, p.234), também identifica, em relação, ao cuidado em se desfazer um determinado feitiço, nestes casos, seguindo o possível interesse da pessoa atingida pelo trabalho, o mesmo pode ser mandado de volta ao pajé que o enviou, com força dobrada.
Bonifácio confessa temer estas trocas, que ocorreriam de maneira semelhante a uma flechada, que vai e volta, seguindo esta lógica, na sétima flechada trocada, o pajé estaria sujeito à morte, pela atuação de forças sobrenaturais que acompanham estes trabalhos.
Deste modo, da mesma forma em que demonstra grande prazer na prática da medicina natural, nosso personagem sabe dos riscos de confrontar as forças sobrenaturais atuantes. E concomitantemente, é figura marcante nos eventos que envolvem a devoção a Nossa Senhora de Sant’Ana ou em outras procissões católicas da vila e região:
Foto 20: Procissão de Nossa Senhora de Nazaré, que sai da igreja de Nossa Senhora Sant’Ana, passando pela DER, rumo a pequena Capela de Nazaré, sob a camionete, Bonifácio segurando a berlinda como um
gurdião da Santa
Fonte: Acervo da pesquisa, novembro de 2014
Neste sentido, as notícias sobre seu envolvimento em casos de feitiçaria, que na região de Sant’Ana circulam na mesma velocidade, que as supostas flechadas, poderiam inviabilizar a credibilidade do homem, perante os representantes da Igreja Oficial, em Sant’Ana do Capim. De fato, se é possível colocá-lo dentro de uma categoria conceitual, ele é o que Galvão (1955, p. 5) e Maués (2008, p. 122) referindo-se aos pajés do vale amazônico, chamaram de “bom católico”, categorização que cabe a um capiense que frequenta
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continuamente, tanto as igrejas e procissões católicas como a cidade encantada do fundo do rio.
Como o dia havia se escondido há algum tempo os seus últimos raios de sol, resolvi voltar ao Cai N’água, me despedindo da “tia Joana”, que durante toda a prosa, manteve-se sentada no assoalho do compartimento ao lado do Congá, juntamente com Alumínio e Tiradentes, meus fies escudeiros de campo, que lá estavam. Descemos assim, em direção ao porto, para embarcarmos juntos na montaria, pois, Bonifácio fez questão de me acompanhar na travessia de retorno até o meu refúgio.
A experiência vivenciada com este mundo mágico-religioso não houvera de cessar, pois, na medida em que nos afastávamos da beirada, tive a estranha sensação de que éramos observados. Aparentemente, era fácil explicar esta situação: durante toda permanência na casa da beira do rio, escutei inúmeras casos que envolvem esta convivência com um imaginário, carregado de elementos mágicos, associava-se a este contexto, o frio da brisa que pairava sobre a linha d’água, a sensação de estarmos em uma pequena e frágil canoa, sobre uma densa massa hídrica, a noite escura e a própria fala de Bonifácio, que priorizava, neste instante, suas idas e vindas à cidade do fundo e a possibilidade de viajar rapidamente entre longas distâncias, seja pelo fundo do rio, na casca de uma Cobra Grande, como os pajés de Itá, ou sobre o dorso de um grande pássaro noturno, que lembra a Matintaperera77.
Penso hoje, que esta foi a mais longa das travessias que fiz no rio Capim. Ao desembarcar no trapiche, senti vontade de perguntar aos meus parceiros, se tiveram as mesmas sensações. A minha inquietação foi satisfeita, porém, de outra maneira.
Depois da travessia, sentados, no trapiche do Cai N’Água agora rodeados por outras pessoas, alguns parentes, que me aguardavam para o nosso costumeiro prosear, regado por um bom cafezinho, que o cheiro, o vento trazia da cozinha. Algumas vezes, os companheiros de prosa , traziam algum tipo de pescado, Tucunaré, Tambaqui, Acará, entre outros. Estes me eram oferecidos, para comprar, o mais comum, porém, era trazê-los por amizade, como também, por vezes, traziam para degustarmos um vinho de qualidade duvidosa. Poucos momentos, como este de compartilhar o vinho me gerava tanta angústia. Era necessário separar o cientista do nativo relativo (Viveiro de Castro 2002 p. 1). Esta não era uma tarefa fácil de ser colocada em prática, era preciso lidar com as regras do jogo de alteridade:
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Sobre o imaginário regional em torno da Matintaperera ver: FARES, Josebel Akel. A Matintaperera no imaginário amazônico in Pajelanças e Religiões Africanas na Amazônia. EDUFPA, Belém, 2008.
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“O ‘antropólogo’ é alguém que discorre sobre o discurso de um ‘nativo’. O nativo não precisa ser especialmente selvagem, ou tradicionalista, tampouco natural do lugar onde o antropólogo o encontra; o antropólogo não carece ser excessivamente civilizado, ou modernista, sequer estrangeiro ao povo sobre o qual discorre. Os discursos, o do antropólogo e sobretudo o do nativo, não são forçosamente textos: são quaisquer práticas de sentido. O essencial é que o discurso do antropólogo (o ‘observador’) estabeleça uma certa relação com o discurso do nativo (o ‘observado’). Essa relação é uma relação de sentido, ou, como se diz quando o primeiro discurso pretende à Ciência, uma relação de conhecimento. Mas o conhecimento antropológico é imediatamente uma relação social, pois é o efeito das relações que constituem reciprocamente o sujeito que conhece e o sujeito que ele conhece, e a causa de uma transformação (toda relação é uma transformação) na constituição relacional de ambos”.
Quando então, o café foi servido, diferente do que seria habitual, não foi o cheiro saboroso que predominou no ambiente. Sentia-se outro muito forte, que lembrava o odor da aninga, (vegetação predominante nas áreas de várzea, dos compostos ciliares das margens hídricas), cheiro misturado ao sentir lamacento, que caracteriza o barranco dos rios, era o mesmo cheiro que senti durante a travessia. Por um momento: pairou o silêncio! Todos se olhavam desconfiados, faces curiosas, foi então, que resolvi tentar satisfazer minha condição e indaguei: se alguém estava sentindo a pretensa catinga?
A resposta com o balançar de cabeças confirmava minhas suspeitas. Bonifácio interveio com a tranqüilidade que lhe é própria, dizendo assim: “Este pixé não é de peixe, a catinga não é de aninga; é dos três botos que me acompanham onde quer que eu vá, eles vão sempre comigo, na minha ilharga. São os meus companheiros”.
Tal situação se assemelha muito, a um caso registrado por Galvão, (1955, p. 69), no qual indica a presença, de uma “catinga dos companheiros do fundo”:
“Raimundo, outro morador de Itá, revela uma experiência que ele e a família tiveram com um boto. Residiam nesse tempo em um barracão de comércio, situado na beira do Amazonas, pouco acima de Itá. Uma noite ouviram um assobio como se alguém estivesse chamando do lado de fora. A irmã, que dormia no quarto dos fundos, começou a cantar uma cantiga estranha. Não se percebia o sentido das palavras. Suspeitaram que fosse uma catinga do fundo (própria dos companheiros do fundo), despertados pelo fato dos assobios. Correram ao quarto, justamente, a tempo de agarrar a jovem que se preparava para atirar-se à água. Ela fez tudo para livrar-se. Seu corpo, desnudo, estava escorregadio como peixe. Só deixou de resistir quando lhe esfregaram alho. Raimundo e o irmão foram olhar fora do barracão e perceberam alguém correndo pela praia para logo cair no rio. Parecia um homem vestido de branco, mas, era um boto, porque saiu bufando. A moça passou a sofrer de ataques, durante os quais, entoava cantigas que agora todos sabiam ser dos companheiros do fundo. Um pajé tentou inutilmente curá-la. Morreu alguns anos depois daquela noite”.
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Entre os presentes no trapiche, chegou-se a reivindicar a necessidade de pegar, alho e pimenta, a fim de espantar os botos. Bonifácio interveio novamente, explicando não ser necessário, apesar de serem encantados, não seriam malignos, funcionavam como uma espécie de guardiões, de presença positiva que lhe acompanha. A conversa durou quase toda a noite e a catinga, apesar de atenuada, somente desapareceu quando o morador da outra margem, a bordo de uma canoa, desapareceu na imensidão da noite.
Depois do acontecido, compreendi o quanto esta experiência com os bichos visagentos, em especial, os companheiros do fundo, exemplificados pelo boto encantado, é sim um elemento fundamental, de acordo com a perspectiva de Maués (2006), para que se compreenda esta identidade amazônica, própria desta Amazônia de predominância ribeirinha, com características culturais bem peculiares, como as crenças na devoção a um santo que mobiliza toda uma região em torno de uma festa, que como o Círio da capital, tem características de um Carnaval Devoto (1980), bem como, recorrem paralelamente às práticas de cura de um pajé, um bom católico que segue a procissão, como o seguem os botos companheiros, que ao emergir do fundo do rio lembram a Cobra Grande, ou o corpo de um cabano, que passa de bubuia, e que não morreu na Cabanagem oficial, mas em uma que é mobilizada pelos descendentes de homens e mulheres que foram escravizados no engenho Aproaga, moradores da curva grande do rio Capim, que a seu modo reagem frente a um de expansão agropecuária que se intensifica na região a partir da década de 1960.
Agora que a maré subiu e retornei ao vale do Capim, passo a refletir sobre estas transformações na paisagem socioespacial da região, para em seguida, descer o rio e (re)encontrar a memória de outra Cabanagem, foco principal desta etapa da pesquisa.
3.3- O Vale do Rio Capim: lugar de memórias, mudanças e permanências locais/regionais
Da Casa do Batata, meu refúgio para encontrar os contatos da época da primeira incursão a campo, onde rememorávamos boas lembranças no começo da noite, era possível perceber durante as horas do dia o cenário de intensas modificações da paisagem socioespacial do entorno, transformações, que afetam a Amazônia Legal, e a área desta, concomitante ao vale do rio Capim e o Nordeste do Estado do Pará, que chegam em uma velocidade, que supera, em intensidade, a proporcionalidade de preamar e vazante, que condiciona a vida das populações locais, afetando significativamente o seu modo de vida.
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Apesar deste entrave de modernização, é possível perceber que os capienses, procuram manter suas práticas cotidianas, como forma de resistir a um tempo violento, que lhes é estranho.
Ao longe, avista-se, vez por outra, uma rabeta veloz ou uma canoa que atravessa lentamente o rio carregando pacotes de farinha, peixe, pencas de banana, que são levadas a igreja de Sant’Ana para pagar uma promessa, uma dívida com um parente ou simplesmente para ajudá-lo, trazer ou levar notícias do cotidiano e conversar sobre aqueles amigos ou parentes que estão tentando a sorte em outro lugar, lembrados pelos quadros velhos, dependurados na parede da sala.
Quando a maré sobe é intenso este movimento de pequenas embarcações. Já não são tantos os barcos de grande e médio calado, como os correios78, que por ali navegam, os ônibus, os caminhões, a estrada pavimentada, trouxeram na ilharga a ideia de modernidade, estes, se juntam à paisagem das fazendas avistadas daqui, marca da pressão latifundiária, onde estão recruzas aos pastos e as cercas de arame, as velhas árvores de castanheira, símbolos de um tempo em que estas alimentavam, juntamente com a produção de farinha, famílias inteiras, enchendo a barriga dos moleques inchados pela desnutrição, misturando a um só tempo farinha de mandioca e Castanha-do-pará, no mingau que, de modo geral, era servido coletivamente nas casas de farinha.
Contudo, mesmo que pressionados é possível perceber a manutenção de antigas práticas cotidianas, sem a pressa que o capitalismo modernizante procura impor a região, e que contrastam, estão sobrepostas por um turbilhão de imagens memoriais e a lembrança de um Tempo de Menino, em que saltávamos da cabeça dos trapiches, vivendo como um Alfredo do Capim, condição assemelhada a que aparece em trechos de uma descrição poética de um membro da aristocracia de pé no chão amazônico-marajoara:
“[...]Ao entardecer no tempo de inverno. O quintal de casa
Cheio dágua,
Para minha alegria de menino levado,
doidinho pela água como filhote de pato brabo. Alegria de brincar com meus barquinhos de miriti E de espantar as sardinhas.[...].
Pensava nas canoinhas de miriti bubuiando nas águas... Nos cabelos verdes da mãe dágua...
78 Os correios ou barco de linha correspondem a embarcações de médio e grande calado, que realizam o
transporte de passageiros e cargas entre as cidades ribeirinhas amazônicas. Esta denominação está associada,