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Chapter 2: Background

2.2 Problem area background

2.2.2 Use-cases

Fonte: Acervo da pesquisa, julho de 2009

O vento que bolia com a maré e trazia o som dos miritis batendo n’água, permanece ativo, graças às peripécias da meninada, mas, agora carregam a fumaça e o cheiro das queimadas. Os banhos periódicos retratos de uma alegria difícil de encontrar, em uma sociedade tão tecnológica, sobrepõe-se a uma realidade de contrastes temporais.

No Capim, como é comum que se encontre em outras porções da Amazônia, entre as populações pobres, economicamente falando, mas ricas em formas de resistência, como apresentaremos em relação ao arquipélago marajoara, seja em espaços urbanos ou rurais, os meninos mantém suas peripécias de criança, e viram homens muito cedo para ajudar no sustento das famílias.

Em relação à condição de vida das crianças, Alfredos que se tornam adultos muito cedo pude acompanhar, bem de perto, esta situação, em uma viajem de descida pelo rio Capim, que guardei comigo pela profundidade da experiência vivida.

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O caso se, lembro bem, aconteceu em outubro de 2009. O ponto de partida, o trapiche do Cai N’Água, pois, dentre as pessoas que vinham sempre por lá, acabei por estreitar o contato com um morador da beira do Capim, chamado de Guri, um homem com pouco mais de sessenta anos conhecido de cima a baixo no rio, por ser filho de um dono de embarcação, Raimundo Arubé, que vivia pra lá e pra cá, no rio Capim a bordo do “Iate Paulo Fernando”, comprando e vendendo mercadorias, como os regatões79 que cruzam a região. Com a morte do pai, Guri assumiu a função, trabalhando, por décadas, com esta atividade de comércio embarcado.

Ao Cai N’Água, vinha sempre, também, o filho José, enviado por Gurí, para entregar açaí fresquinho, tirado na margem do rio, encomendado com o peixe, uma farinha, a lista era extensa. Com estas visitas para entregar encomendas passei a comparar o José, que tinha à época nove anos, e era um fiel escudeiro do pai, ao menino Alfredo do Chove nos Campo de Cachoeira (Dalcídio Jurandir 1997), que se aborrecia com as idas diárias ao mercado, para apanhar carne, entregando um vale ao Seu Cristovão, o açougueiro, que também vendia arroz doce, mandado pelo pai o Major Alberto, enquanto sonhava em ir estudar, no Colégio Anglo- Saxônico, no Rio de Janeiro, ou se fosse o caso, em Belém, para fugir do arquipélago e do destino a que estava fadado em Cachoeira do Arari:

“Alfredo, a caminho do mercado, jogando a sua bolinha, olhava o moinho de vento parado, os quintais, as janelas da casa do Cel. [Coronel] Guilherme faiscantes no sol. Os algodoeiros brabos abriam as suas flores roxas para o vento. As batataranas balançavam de leve. O menino sentiu aborrecimento com aquela ida, todo dia, ao mercado. Todo dia tinha de levar o vale. O açougueiro com as mãos sujas de sangue a verificar o vale. Os quartos de carne pingando sangue. O montão de gente a gritar. A bolinha o levava para o Anglo-Brasileiro. Jogaria bola na praia. Não sentia a falta de duzentos réis para comprar o arroz doce do aparador do seu Cristóvão. Também era o que havia no aparador. Nos outros tinha banana, farinha. No do seu Cristóvão nada. Só o triste arroz que pouco vendia. Às vezes Mariana mandava buscar

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Corresponde aos marreteiros (comerciantes) que percorrem os furos e rios amazônicos em embarcações, em geral, denominadas de regatão, parando de porto em porto para comprar e vender mercadorias. Em contato ficcional do menino Alfredo em Santana do Arari, no arquipélago marajoara, com o Diretor da Festividade de São Sebastião, esta relação comercial vai ser referendada na trajetória de vida do velho Almerindo: “Aqui seja bem-vindo, sou o Almerindo Gonçalves de Sousa e Lima, criado ás ordens, antigo caldeireiro de ferro, criado na ferrugem, aprendiz em artes de pescaria em arpoagem e linha, cortei borracha, no regatão vendi por esses rios muita fazenda, muito perfume, muita fantasia, corri o Guamá, fumei nos tabocais do Moju, farinhei no Acará, dou conta de uma ladainha, marco regular uma quadrilha, cavoco na tabuada, um cristão de tão pouco préstimo, crente de que ganho indulgencia. O sr. meu filho, é filho do Major Alberto? Fina pessoa o seu pai. Muito me louvo conhecer seu pai. Aqui os fogos, o escrito do programa da festividade com imagem gravada, tudo em tipo de jornal, foi donativo do Major, uma especial deferência. Que em paga São Sebastião tenha sempre o seu pai na Secretaria Municipal, que é o posto dele por direito e boa escolha.

Alfredo, sem uma palavra, num temor de desapontar os tios, estes interessados em ouvir e ver o desembaraço do sobrinho, por ser de estudo, estudava em Belém”. (DALCÍDIO JURANDIR 1984, p. 257).

148 algum dinheiro. Seu Cristóvão respondia: — Se ainda não vendi um caneco que fosse! Nem o menino do Major Alberto comprou hoje!

— Mas era pra comprar sabão.

— Mas diz pra Mariana que, assim como o arroz doce veio, assim está. Não tenho um tostão, quanto mais... Paciência. Não posso botar isso na cabeça e gritar que tem arroz doce.

Já estava aborrecido com aquele mercado. Perdeu a bolinha numa toiça. Agora ia sem bolinha. Um quilo de carne. Todo dia isso. Também assim, sem uma esperança para Belém, ficaria perdido em Cachoeira”. ( p.12).

A qualquer hora, lá vinha o Alfredo do Capim, atravessando o rio, para encaminhar os mandados do Gurí, com o detalhe de nunca reclamar, sob o comando da companheira de sempre a “Fobléia”, uma rabeta de casco estreito e alongado e pequena cobertura recuada para a popa, que amenizava o sol e a chuva, quando o navegar era para porto distante. Impressionava-me a agilidade do moleque, muito pequeno, desenvolvia práticas cotidianas de um adulto, e apesar de empenhado, nestas, permanentemente, destacava-se na escola de Sant’Ana que freqüentava.

Tanto acompanhei aquele ancora e desembarca de José, Gurí e da “Fobléia”, que pretendendo descer o rio Capim, para chegar as ruínas do engenho “Taperuçu”, localizado a cerca de duas horas e meia de barco de Sant’Ana, resolvi contratar os serviços de Gurí, o que de pronto foi dispensado, tomado quase como ofensa, atinei para o fato de que, apesar da labuta diária, nem tudo envolve uma relação financeira, apesar de que, a descida seria aproveitada para colocar em prática o papel social herdado do pai, o velho “Raimundo Arubé”.

Acertados os detalhes, cedo estávamos descendo o rio, no rumo de São Domingos do Capim, além de Guri e José, acompanhava-me também um dos meus escudeiros, o Alumínio, que alertou-me, para a demora da viagem, daí a necessidade de levar proventos, a costumeira garrafa de café, água e biscoitos, para amenizar a fome quando esta chegasse. Guri, acostumado ao trajeto, preparou-se melhor, carregando dois isopores com frango congelado e formas de ovo, parte comprado em um dos comércios da DER, onde também foi adquirido o óleo (diesel) para abastecer o motor a combustão, cuja manutenção é feita por Gurí e José. Lá vai então a “Fobléia”, pelas águas do Capim, aproveitando a maré, carregada de mercadoria e de expectativas, no leme traseiro o menino Alfredo do Capim. Não demorou muito para encostarmos, no primeiro porto, uma estrutura alongada de madeira que avança para dentro rio, preparado para permitir o desembarque, durante a preamar ou a vazante, neste o menino-piloto conseguiu demonstrar o quanto estava preparado, apesar da pouca idade.

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Não é qualquer um que consegue fazer a aproximação do barco em relação ao trapiche, é preciso ter habilidade para trazer o flutuante, conforme correm as águas, se vier navegando favorável à correnteza, não se pode seguir reto em direção ao ponto de desembarque, nem demorar demais para fazer o contorno e seguir no rumo contrário à maré, desta forma, a embarcação consome muito combustível, estar atento aos troncos que estejam submersos, verificar o sentido e velocidade do vento, e o tempo exato de desligar o motor, para deixar somente a força do remanso carregar o barco até o ponto de ancoragem. Na dúvida, há sempre uma vara longa, que dependo do tamanho do barco segue em cima do toldo, ou amarrada na lateral, complementa este equipamento, um remo de madeira, instrumentos essenciais, sobretudo, se a maré estiver baixa ou se a aproximação do porto for rápida demais.

Com a habilidade de José, atracamos rapidamente no trapiche, a mesma que é preciso ter para desembarcar sem cair n’água, enquanto os moleques correm para ver quem chegou. Com o desembarque Guri entrou então em cena, com toda a sua capacidade de comerciante da beira do rio, o que vai se repetir, nos cerca de uma dúzia de portos, onde estivemos.

Contudo, não se chega simplesmente oferecendo as mercadorias que estão no porto, o ponto inicial dos contatos, é a saudação, entre os que desembarcaram e os que estão em terra, somente o pesquisador fica “afastado” das primeiras conversas, para usar um termo que Geertz (1989, p.185) toma emprestado de Margareth Mead e Gregory Bateson, para configurar a indiferença dos balineses em relação ao interpretativista e sua esposa nos primeiros contatos na Indonésia, em abril de 1958, e que reforça a condição de invisibilidade do pesquisador, assim:

“Enquanto caminhávamos sem destino, incertos, ansiosos, dispostos a agradar, as pessoas pareciam olhar através de nós, focalizando o olhar a alguma distância, sobre uma pedra ou uma árvore, mais reais do que nós. Praticamente ninguém nos cumprimentava, mas também ninguém nos ameaçava ou dizia algo desagradável, o que seria até mais agradável do que ser ignorado. Quando nos arriscávamos a abordar alguém (e numa atmosfera como essa a pessoa sente-se terrivelmente inibida para isso), essa pessoa se afastava, negligente, mas definitivamente. Se ela estivesse sentada ou apoiando-se a uma parede e não se pudesse afastar, simplesmente não falava nada ou murmurava aquilo que representa para o balinês uma não-palavra — "yes". A indiferença, sem dúvida, era estudada; os aldeões vigiavam cada movimento que fazíamos e dispunham de uma quantidade enorme de informações bastante corretas sobre quem éramos e o que pretendíamos fazer. Mas eles agiam como se nós simplesmente não existíssemos e esse comportamento era para nos informar que de fato nós não existíamos, ou ainda não existíamos”.

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Rapidamente, entendi que neste deslocamento pelo rio Capim seguíamos o ritmo da maré, primeiro era preciso colocar a conversa em dia, comentar os últimos acontecimentos na região, a dificuldade dos Alfredos do Capim, para chegar à escola, que por serem distantes, em geral não permitem o caminhar até o local onde está instalada, é preciso aguardar a passagem, de uma das embarcações, que são contratadas pela Prefeitura Municipal de São Domingos do Capim, ou de Aurora do Pará, para fazer o transporte dos alunos, a prefeitura que oferece o serviço, depende do ponto da fronteira entre os municípios em que a moradia está localizada.

Destacam-se os casos de pessoas conhecidas que estejam adoecidas, a carência na infraestrutura, para fazer chegá-las a sede municipal e para conseguir atendimento. Quem consegue se aposentar, como reconhecimento, por uma vida de trabalho, as festividades religiosas da região e por ai vai, até que finalmente, se chega ao açaí, esta é a deixa para que Guri pergunte sobre a disponibilidade do produto para venda, como está no tempo de colheita, seguem-se perguntas sobre a qualidade, a redução da safra, proporcional a extração de palmito, e, finalmente, o valor da rasa e de outros produtos que estejam prontos para comercializar.

Garantida a disponibilidade de açaí, peixe, farinha de mandioca, banana, é acertado, um escambo, entre os produtos do morador e as mercadorias na “Fobléia”. A falta de produtos não quer dizer que o negócio não venha a ser concretizado, neste caso, acertasse o valor dos frangos e as formas de ovo e a possível data de passagem, pelo porto, para resgatar a dívida do morador.

Entre os acertos do escambo ou o valor das mercadorias, para retomar Geertz (1989, p. 186), como que em um momento mágico, que não se consegue explicar, que para alguns pode levar horas, dias, meses, e para outros nunca chega, supera-se a sua condição de invisibilidade, de “afastado” da conversa e: “você é pelo menos visto como ser humano em vez de uma nuvem ou um sopro de vento”. E a relação de contato muda drasticamente, passando a ser cordial, o sinal desta mudança é o cafezinho, que o cheiro chega primeiro, ao compartimento reservado para receber a visita, normalmente uma sala, com bancos e cadeiras por todos os lados.

Tomado o café e definidos os últimos acertos, para a concretização do negócio, a conversa ainda demora um pouco, até porque é momento do dono da casa conhecer melhor quem é o estranho, que até agora a pouco estava invisibilizado e estabelece-se uma relação

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gentil, e brincalhona, pois até piadas ou casos jocosos são contados, cordialidade que está associada a presença de Alumínio, que ao se declarar como meu tio, registrando a mútua condição de descendente da gente do rio Capim, abre-me portas e sorrisos.

Chegava a hora de embarcar na “Fobléia” e partir, e como no Capim a notícia corre rápido, no porto seguinte, a destreza para ancoragem se repetia, juntamente, como boa parte do havíamos vivenciado anteriormente, com o adendo de que, sendo o porto não muito distante, os agora visitados já sabiam de nossa presença, inclusive do “professor de Belém” que vinha na “Fobleia”.

Como no tempo cabano, uma rede de informações circulava muito rapidamente entre os rios e furos, basta lembrar de como esta situação foi fundamental para resposta aos acontecimentos que acabaram levando ao ataque ao “Trem de Guerra” da Vigia. Era como se estivéssemos sendo vigiados, tanto que em alguns dos portos seguintes, as rasas de açaí descansavam no trapiche, em outros, os moleques apanhavam os cachos trepados na várzea. Cena que também registrei em outros momentos da pesquisa:

Foto 22: Diante de trapiche na área de várzea do rio Capim, menino Alfredo inicia subida em açaizeiro,