Chapter 2: Background
2.1 Technical background
2.1.1 RDF
Fonte: Acervo da Pesquisa, outubro de 2015
Espetáculo etnográfico que se colocava diante dos olhos do pesquisador, condensando passado e presente em um único instante, e se para muitos dos devotos era a resignificação do mito da cobra grande, ha todo momento, desfilavam em minha frente, os embates cabanos de agosto de 1835, juntamente com duas questões básicas: O que teria mobilizado os cabanos, a obedecerem Angelim e duelado de forma tão desprendida, determinada, no “- É morrer, matando!” (Chiavenato 1984, p.9) pelo domínio da capital, que marcará como nunca a história da região? E por consequência, qual a proximidade entre este momento cabano, e o de agora, quanto devotos se amontoam ao largo da parede do Trem de Guerra para ver a Santa passar?
Em certo sentido, que cada cena, há seu tempo e de forma peculiar, está condicionada, por histórias próprias de luta e resiliência, que se condensam em um preamar de esperanças por um mundo melhor. Em momentos de (que conduziu a)67
uma grande festa popular.
67 Segundo DI PAOLO (1985, p. 275), imediatamente após a vitória de 23 de agosto de 1835 que levou Eduardo
Angelim a presidência da província, apesar de ter havido excessos nos festejos: “Enquanto o comandante cabano iniciava as gestões com relação à presidência, os grupos revolucionários vencedores, verificada a ausência da força legalista na cidade, iniciaram os festejos da vitória: “abriram as igrejas, repicaram os sinos em
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O rio de gente, em sua imensidão segue lentamente, passando pelo Ver-o-Peso, “- Lá vai a imagem.” (Jurandir 2004, p. 468), com a cidade em festa, passando diante do Palácio do Governo, onde Angelim proclamou a vitória dos cabanos68
, e complementarmente em toda a região, na espreita da noite, devotos, cabanos pela similitude de esperança aguardam as primeiras horas do domingo, para que a massa infrene desperte “[...] a Santa do seu bom sono na Sé, trazendo a Berlinda, como num carro de terça-feira gorda>>”. (Dalcídio Jurandir 2004 p. 288). Para que o espetáculo recomece, e a cobra grande deslize no rumo da Basílica de Nazaré.
Ao pesquisador, enquanto a Nazica adormecia e a cidade estava em festa, restou pensar no exemplo dos devotos que vão seguir de pés descalços o caminho, procurando superar as dificuldades que se apresentam, na vida e no percurso que a Santa fará daqui a pouco, quando começar a clarear o dia, histórias de luta e resiliência serão reveladas enquanto o rio de gente, a maré enche e a correnteza segue no rumo da basílica.
Tendo a clareza dos limites da observação-participante e do pequeno passo dado na compreensão da identidade amazônica (Maués 2006), caracterizada pela luta e resiliência de um povo, que devemos considerar, para que se possa compreender, explicar e (re)vivenciar etnograficamente sua condição cabana, ligada a uma infinitude de horizontes hermenêuticos (Gadamer 2002), uma teia de significados, densamente entrelaçada, para lembrar o velho Geertz (1989), que ao destacar a superficialidade de nossos mergulhos etnográficos, na tentativa de interpretar as culturas, usa uma metáfora indiana: sobre um inglês (possivelmente
demonstração do regozijo, cantaram ladainha na catedral, deram salvas e vivas à liberdade, assim como morras ao governo, aos covardes fugitivos; acenderam girândolas, queimaram bombas, embandeiraram as ruas, saudaram o povo, felicitaram os seus chefes e dispersaram-se em magotes pela cidade... Durante três dias e três noites houve festas de toda a sorte, reuniões, discursos, hinos, serenatas, iluminações forçadas pelas casas, passeatas pelas ruas, tudo naturalmente para completar os festejos pelo triunfo solene da moralidade e justiça de tão santa causa...”. Registre-se que na mesma página, em nota de rodapé Di Paolo, informa a fonte da narrativa e comenta: ”Embora com objetivos irônicos, Raiol retrata com vivacidade o clima da vitória”.
68 Logo após a “Tomada do Trem de Guerra” Angelim lança proclamação em que se refere aos últimos
acontecimentos na capital e a vitória cabana, nos seguintes termos:”Corajosos paraenses, valentes defensores da Pátria e da liberdade! Depois de nove dias de fogo mortífero com outras tantas noites, estamos senhores da formosa Belém, capital da Província.... Com dor o digo, esta tão bela cidade, tão cheia de encantos, está reduzida a um montão de ruínas!... Seremos nós os responsáveis perante Deus por tantos males que hoje pesam sobre o Pará? Certamente que não. Os dois monstros e fugitivos estrangeiros Jorge e Taylor serão os únicos responsáveis diante do Ser Supremo e perante a história!...Seja cada um de vós o pai, um protetor da inocência desvalida! Procedendo assim bem teremos merecido da Pátria e das gerações futuras. Meus amados patrícios! Eu vos afiancei que o infame e opressor jugo estrangeiro havia de cair por terra e que seríamos os vencedores. Realizaram-se os nossos bons desejos e gratas esperanças. Vós sois dignos do nome paraense!... A nossa obra ainda não está concluída, ainda resta muito a fazer. Antes de tudo, peço-vos que modereis o vosso ardor guerreiro, e amanhã ou depois teremos que aclamar um presidente que mereça a nossa estima, confiança e respeito... Vivam os descendentes dos Ajuricabas e Neengahibas (“Anagaibas”)! Viva os paraenses livres! Viva o Pará” (RAIOL apud DI PAOLO 1985, p. 277).
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um etnógrafo) a quem contaram que o mundo repousava sobre uma plataforma apoiada nas costas de um elefante, o qual, por sua vez, apoiava-se nas costas de uma tartaruga, e que indagou: onde se apóia a tartaruga? Em outra tartaruga. E essa tartaruga? "Ah, "Sahib; depois dessa são só tartarugas até o fim". (p. 26).
Metaforicamente falando, ao refletir sobre a dimensão cultural da Festividade de Nazaré ou da memória da Cabanagem, como elementos de constituição da vida amazônica, penso agora, que estaremos sempre distantes dos elefantes... Ou do dorso da cobra grande, para usar uma imagem mais apropriada a cultura regional.
É preciso, portanto, estar atento e aguardar a próxima subida da maré, que nos levará de bubuia para (re)encontros, no vale do rio Capim, onde a Cabanagem tem a face de um passado/presente, resignificado pela Revolta do Capim de 1891.
123 CAPÍTULO III
(RE)ENCONTROS ÀS MARGENS DO RIO CAPIM: entre Santos, bons católicos e memórias cabanas
“Depois de cinco anos de luta, os cabanos criaram ódio aos brancos e às autoridades impostas, aprendendo a amar a aclamação popular e a revolução infinita. Cultuavam a beleza revolucionária, mas viveram outras mazelas: a fome, as doenças, as mortes e a instabilidade da guerra. Em um processo de fuga da escravidão, tal qual Moisés no Egito bíblico, os cabanos foram perseguidos e mortos, mas seus ideais não desapareceram completamente. Em busca de sua “terra prometida”, muitos revolucionários se embrenharam nos rios e nas matas da Amazônia, ampliando quilombos ou criando comunidades mistas de negros, índios e mestiços, exemplos ímpares no Brasil.
Em contraste com este universo das fugas, os cabanos que se voltaram para as grandes cidades e zonas produtoras de açúcar ou de gado tiveram outro destino. O pós-Cabanagem para eles significou mudanças na estrutura agrária, estimulando- se a criação de latifúndios ainda hoje tão presentes na Amazônia.
Os presos cabanos e muitos outros suspeitos de “cabanagem” foram recrutados forçosamente e engrossaram os chamados “corpos de trabalhadores”. Eram recrutas que foram os responsáveis pela reconstrução produtiva do campo e das cidades no pós-cabanagem, abrindo caminho para a tão comentada época da borracha na Amazônia. O certo é que à mortandade cabana se seguiu a dos corpos de trabalhadores. Ao lado disto, desde os anos de 1870, vieram outros migrantes nordestinos para a Amazônia. Durante os anos áureos da borracha, a Amazônia tornou-se internacional, recebendo todo tipo de pessoas, misturando culturas e criando novas identidades. Tudo parecia abafar as antigas lutas cabanas. Mas a cada nova crise política ou econômica, a memória cabana era acionada” (RICCI 2006, p.29).
O Círio de Nazaré, como ensina a memória consagrada, sobre o evento, se origina do gesto simples do achado da imagem da Santa, no igarapé Murucutu e do retorno permanente da Nazica, ao local de origem, resignificando o imaginário regional, sobre a Cobra Grande que vive e caminha entre a Basílica de Nazaré e a Catedral da Sé e apesar das polêmicas, que envolvem o Carnaval Devoto (Alves 1980), o evento profano-religioso, conseguiu ao longo de mais de dois séculos de história, agregar um número cada vez maior de romeiros, devotos e expressões de fé. A tal ponto que, em setembro de 2004, foi considerado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN como patrimônio cultural imaterial. Por retratar “[...] dias sim, de um intenso, por vezes dramático, encontro que envolve fé, alegria, festejos e sentimentos profundos”. (Alves 2005, p. 315), que se reproduz em diferentes escalas e em calendários próprios, levados pelas águas dos rios, (hoje também pelas estradas), nas vilas e cidades da região69, em um ciclo de Círios pelo interior amazônico, que potencializa a participação popular no Círio da capital.
69 O Círio como representação da identidade amazônica, cada vez mais se reproduz em diferentes pontos da
Amazônia e para fora da região, conforme registrou ISIDORO ALVES (2005 p. 72): “O Círio reproduz-se em outras partes do Brasil. Eu tive experiências muito interessantes porque também acompanhei o Círio no Rio de
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A Cabanagem, que explode em Belém, em janeiro de 1835, em comparação com o elemento identitário anterior, também foi levada de bubuia, pelos rios sinuosos da Amazônia: “Populações inteiras de índios e quilombolas foram chamadas à luta armada, em um movimento tão vasto e complexo, que só pode ser entendido dentro de uma perspectiva internacional” Ricci (2006, p.28), e após anos de perseguição empreendida, pelo governo provinciano, a memória subterrânea do movimento, não foi destruída pela repressão, apesar de parcialmente esquecida pela história oficial.
Indo repousar nas margens meandrantes e memoriais de diferentes espaços geográficos, como entre os velhos das antigas (Rabelo 2010), do vale do rio Capim, com os quais mantive contato, para a elaboração minha dissertação de mestrado, dentro de um projeto de compreensão da identidade amazônica (Maués 2006). Memória que, contemporaneamente, está atrelada aos rumos de um movimento, de reconfiguração e valorização relativo “A Memória Coletiva” (Halbwachs 1990), agregada a uma identidade Quilombola, na qual, a noção de populações tradicionais, “o sentido de “terras tradicionalmente ocupadas” e suas implicações encontra-se, entretanto, implícito”. (Almeida 2004, p. 27). Que por ora procuro reinterpretar, em um (re)encontro, com o vale do rio Capim, sua gente e suas memórias, como parte de uma circularidade hermenêutica de compreensão infinita (Gadamer 2002), do espaço onde há pouco tempo havíamos encontrado, narrativas de festas de santo, botos encantados e uma Cabanagem ocorrida em 1891.
3.1- O Retorno ao Vale do Rio Capim: a infinitude do círculo hermenêutico do trapiche do Cai N’Água
As tessituras fundamentais do pensamento hermenêutico moderno estão agregadas as concepções de compreensão de mundo e círculo hermenêutico, desenvolvidas por Hans- Georg Gadamer, em sua obra fundante - Verdade e Método: Elementos de uma Hermenêutica Filosófica (2002), onde o filósofo alemão apresenta-nos uma revisão crítica da estética
Janeiro, promovida pela chamada “colônia paraense”. É comovente ver como as pessoas são capazes de reproduzir vivências pessoais e referências simbólicas, além de festejar suas relações pessoais. Todos se encontram naquele dia, não para simplesmente acompanhar uma procissão, mas se encontram porque são paraenses, para reviver laços comunitários que não vivem no dia-a-dia, ainda mais vivendo fora do Estado. É um exemplo típico de um momento ritual em que os participantes se reapropriam de suas próprias identidades. É uma característica que nenhuma outra festa religiosa no Brasil tem. O Círio de Nazaré é realizado em diversas cidades do Brasil. Onde houver paraenses pode-se ter certeza de que ali vai haver uma reprodução do Círio, em maior ou menor escala. É um momento de reprodução do formas identitárias só percebidas nesses momentos especiais. E os paraenses lá fora não deixam de comer o pato no tucupi ou a maniçoba”.
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moderna e da teoria da compreensão histórica, com ênfase nas concepções heideggerianas, bem como, uma nova hermenêutica filosófica baseada na ontologia da linguagem. (Palmer 1969, p. 167).
De fato, Gadamer proporcionou a corrente de pensamento chamada hermenêutica, um projeto primordial, o que poderia explicar, em parte, uma confusão recorrente quanto à identificação do filósofo, como precursor, no uso deste termo em sua obra principal, o livro Verdade e Método. Entretanto, “o termo já era muito conhecido no âmbito acadêmico alemão”. (Casanova 2010, p. 66).
Neste contexto, Casanova refere-se ao que Gadamer conceitua de milagre da compreensão, fundamentado em uma abertura para requisições soberanas do texto que se desenvolve em meio a uma correspondência de significação, e ganha sentido quando o texto começa a falar por nós, produzindo uma inserção do intérprete no horizonte de realização do compreender. Uma hermenêutica verdadeiramente filosófica, que leva-nos ao abandono de nossas concepções prévias, que podem se mostrar como incompletas, dentro de um movimento contínuo de compreensão do mundo a nossa volta, e de sí mesmo como ser do mundo, num jogo envolvente entre as tessituras memoriais.
Em síntese, a compreensão para Gadamer, sempre trás consigo o requisito de uma oxigenação permanente na sua dinâmica de realização, se projetando na definição de que nunca partimos de um ponto zero de compreensão, mas de potencialidades que vão sendo descobertas, com a aproximação de algo que procuramos entendimento, em um trabalho inesgotável em torno da linguagem, objetos e paisagens, com as quais nos deparamos em diferentes momentos.
No contexto de circularidade compreensiva como ponto de ancoragem teórico- metodológica, a revisitação de uma experiência etnográfica (Peirano 1995), (permeada pela oralidade), permitiu-me a releitura desta, vivenciada às margens do rio Capim. Este é ponto fundante, da retomada da pesquisa etnográfica, ocorrida a partir do final do primeiro semestre de 2012.
Neste retorno ao Capim, o primeiro passo era tentar verificar até que ponto, as condições para permanência na vila de Santa’Ana, no município de Aurora do Pará na região Nordeste do Estado, foram modificadas, pois, no tempo primeiro de pesquisa, o ponto de ancoragem era a casa apelidada de Cai N’Água, alcunha que lhe fora dada pelos moradores da vila, por ter sido em outra época, um grande comércio à beira do rio, onde se realizavam
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concorridos bailes, em que as desavenças eram resolvidas no braço, e aqueles que não suportassem a peleja tinham com alternativa cair na água, saltando da cabeça do trapiche para empreender fuga a nado.
Casa que pertencia a um dos filhos, da terceira mulher, de meu avô materno, nascido e criado no rio Capim, que se tornou figura conhecida nesta beirada, por ter sido picado duas vezes por cobras venenosas, o que lhe rendeu uma alcunha, que complementava o nome principal, o Domingos Ivo, virou Domingos Cobra.
D. Figênia faleceu ainda em 2008 e a casa ficou sob a tutela de outro filho, Alumínio, um dos meus fiéis escudeiros, durante as incursões etnográficas. Pouco depois de encerramos a pesquisa de campo, no final de 2009, a casa foi vendida. Apesar disso, o fato de ter vários tios residindo na região, facilitou o retorno. Passei então, a hospedar-me na casa de uma tia, construída em alvenaria, na beira da Rodovia PA-252, próximo à ponte recém inaugurada, pelo Governo do Estado.
Contudo, em comparação com o espaço do Cai N’Água, para a pesquisa, a mudança foi significativa, pois uma casa com este padrão de construção configurava algo estranho, em relação a primeira hospedagem toda em madeira bruta; se na estrada as noites eram invadidas pelo barulho de carros, motos e caminhões e sons de aparelhagem, no Cai N’Água o que quebrava a rotina do sono era o barulho do motor de uma ou outra embarcação, ou a ansiedade com a preamar, que poderia invadir a casa subitamente - subida da maré que marcava o tempo da gente - que vinha até lá, em qualquer horário, mas, especialmente no final da tarde, quando a mulecada fazia acrobacias no banho de rio, e inicio da noite, quando as canoas traziam a gente do Capim, entre muitos aparentados, para conversas, que se arrastavam até as primeiras horas da madrugada.
Mais do que o aspecto estrutural, na beira da estrada os contatos, se restringiam aos moradores da casa, e a um ou outro visitante, que vinha até lá conversar, enquanto aproveitava para comprar farinha, tucupi, ouriços de castanha (na época da safra), molho de pimenta e urucum, e outros produtos que a tia Tereza comercializa, sem um ponto de venda, para complementar a renda da família. Venda potencializada, durante o período final de construção da ponte que cruza o rio Capim, quando dezenas de trabalhadores, empregados na obra permaneciam alojados, em um prédio da construtora, carecendo cotidianamente de tais produtos, o que ajudou a concretizar o sonho da casa própria, na área da antiga Serraria “Benevides”, que dá nome ao lugarejo.
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A casa configurou-se mais como ponto de hospedagem, para ter maior contato com a gente da beira do rio, quando não tinha nenhuma visita agendada, o que é feito normalmente mandando avisar o morador, por alguém que sobe ou desce o rio, enfatizando o dia e hora da visita, a fim de evitar algum imprevisto, como chegar na casa e o proprietário estar para a roça ou em viagem, para alguma outra localidade. Procurava ficar durante o dia e as primeiras horas da noite, na “casa do Batata”, localizada na margem do rio Capim, contígua a Benevides, em área de antigo castanhal livre, cujo uso coletivo era mediado pela permissão de acesso, concedida, em linhas gerais, pelos velhos das antigas, e que, atualmente, com a instalação de grandes fazendas pecuárias, e conflitos familiares, pelo direito de uso dos espaços restantes vivencia um estado de forte tensão fundiária70.
A moradia do Batata retratava o título da obra Três Casas e um Rio de (Dalcídio Jurandir 1994), correspondendo, de fato, a três pequenas estruturas, posicionadas na beira do rio Capim, cada uma com funções bem definidas, a primeira, um quarto de madeira, com chão batido, coberta com telha de um lado e cavaco (lasca de madeira) do outro e partes de lona, onde se destaca um jirau, para preparo do peixe, lavagem da louça e a garrafa de café, que é reabastecida durante todo o dia, para bem receber os visitantes, ao centro um fogaréu de pedras feito para assar ou cozinhar o alimento diário, e o aquecimento contínuo da água do café. O local funcionava como uma cozinha.
A segunda é feita de taipa (enchimento de barro), protegida a frente com uma lona e coberta com palha de najazeiro, sendo a única que dispõe de um bico de energia, até porque é onde ficam reservados uns poucos eletrodomésticos, é o espaço dormitório de Batata, Maria e do filho caçula dela, o menino chamado por todos de Parente. Finalmente, a terceira estrutura é uma casa de farinha tradicional, local da labuta, complementada por um pequeno chiqueiro,
70 Em razão da redução das terras de uso coletivo na região do Capim, processo relacionado a ampliação da
fronteira agrária e a total ausência do Estado, os casos envolvendo disputas de terra foram falas recorrentes durante a pesquisa de campo e parte do cotidiano do lugar, tanto que, na visita a campo seguinte, o Tio Batata, após sucessivas amaeaças quanto a sua permanência em faixa de terra, que esteve sob a posse do pai, o velho Domingos Cobra, por mais de quatro décadas, acabou se vendo obrigado a adquirir em prestações a perder de vista, um outro terreno, também na margem do rio, mais próximo em relação a ponte e a PA-252, onde construiu uma pequena casa de madeira, para onde transferi meu espaço de contato. Quanto as ameaças relacionadas a posse do terreno inicial, se estenderam para outros membros do grupo familiar em diferentes momentos da pesquisa. Situação que pude observar também em outros pontos do vale do rio Capim, como durante uma das visitas de campo em zona de fronteira entre a área dos descendestes dos negros do Aproaga e ocupação recente em antiga fazenda, quando cheguei a ser interpelado e confundido com agente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, e também como policial civil, durante acalorada discussão entre as partes envolvidas. Nas proximidades desta faixa de fronteira, em razão das disputas, certa de