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Outro conteúdo que acompanhou a gestão pedagógica foi a compreensão da perspectiva de gestão compartilhada ao longo de todas as fases destinadas à dupla gestora do programa A Rede em rede.

O compartilhamento dessa gestão, segundo as publicações do programa, deveria se dar através da corresponsabilização e comprometimento de professores, gestores, funcionários e famílias nos processos de aprendizagens das crianças.

Para as diretoras entrevistadas é forte a imagem de que o diretor não dirige a unidade educacional sozinho. Que essa gestão deve se dar a partir da participação de toda a comunidade escolar. É comum nos discursos das diretoras afirmações como:

O diretor não é gestor sozinho. Gestão compartilhada é uma gestão ouvida, uma gestão que ouve: eu vou ouvir o coordenador, eu vou ouvir os professores, ouvir e considerar. Não é ouvir por ouvir. É ouvir e considerar porque essas pessoas sempre têm – dos lugares onde elas estão – coisas importantes a dizer. (Diretora do CEI A)

Embora as afirmações das diretoras estejam pautadas na ideia de uma gestão compartilhada com todos, nas considerações que fazem ao longo das entrevistas, revelam que se sentem sozinhas no papel de gestoras. As quatro diretoras fazem essa afirmação durante a entrevista, em algum momento de suas considerações. A síntese desse sentimento de solidão pode ser entendida na declaração da diretora do CEI B quando afirma “que às vezes a gente se sente sozinha” e da diretora da EMEI A ao considerar que “ser diretor é estar um tanto sozinho, pois o seu colega [outro diretor] está a dois quilômetros de distância”.

Embora a solidão do diretor apareça nos discursos sobre gestão, prevalece nas considerações das duplas entrevistadas a ideia deque o compartilhamento da ação gestora é necessário.

Um dos destaques para essa concepção de gestão compartilhada se verifica na incoerência entre o que os gestores e os demais membros da comunidade escolar compreendem por compartilhamento da gestão.

A diretora da EMEI A revela a dificuldade no exercício da gestão compartilhada quando afirma que “é um processo difícil esse papel da gestão compartilhada, das pessoas entenderem como é essa estrutura, que papel ocupam dentro dessa gestão”. Na convergência dessa ideia a coordenadora da mesma EMEI afirma, sobre o papel de todos na gestão, que “não é só entender o trabalho do outro, mas entender o seu papel e que todos ali têm a função de formador. A gestão compartilhada faz com que todos percebam o trabalho da escola”.

As declarações das duas gestoras revelam que há uma distância sobre o que deve ser o papel de cada um no compartilhamento da gestão e do que realmente se efetiva no cotidiano da unidade dirigida e coordenada por essa dupla gestora, revelada pela dificuldade de compreensão (ou de aceitação) desse papel apontada pela diretora e a promessa de que é na

percepção coletiva do trabalho da escola e, consequentemente, o envolvimento de todos com esse trabalho que pode ser a via de acesso que aproxime a EMEI dessa perspectiva de gestão.

Um olhar mais aproximado também permite que emerja outra incoerência nas falas das gestoras, desta vez sobre a gestão compartilhada: até que ponto as decisões podem e devem ser compartilhadas com todo o coletivo da unidade?

Todas as gestoras, sem exceção, definem a gestão compartilhada como a necessária possibilidade de escuta de todos os agentes da comunidade educativa e da corresponsabilidade destes com a aprendizagem das crianças.

Entretanto, nas entrevistas, algumas afirmações merecem destaque sobre a abrangência total ou parcial dessa oitiva por parte das gestoras. Elas compreendem que, para a garantia da gestão pedagógica da unidade a favor da educação infantil de qualidade, se faz necessário o enfrentamento com alguns profissionais que, a priori, deveriam ser ouvidos nas decisões tomadas pela gestão da unidade. No entanto, em outros momentos das entrevistas as gestoras se mostram reticentes quanto ao processo de ouvir todos no exercício compartilhado da gestão, especialmente em se tratando daqueles que apresentam resistências. São representativas dessa incoerência no discurso da ação gestora, as falas a seguir reproduzidas:

Então nós temos uma gestão de três pessoas que estão à frente liderando, muitas vezes, mudanças que para aqueles vinte professores são desnecessárias e que a gente tem que colocar isso para o grupo e, por vezes, até modificar sem que eles aprovem porque para um primeiro momento você está desacomodando. (Coordenadora Pedagógica da EMEI B)

Ele [gestor] é o articular de todas as ações na escola, porque não adianta a vontade do professor se o gestor não bancar todas essas possibilidades. Ele é o facilitador, é o fomentador. Você tem que bancar até conseguir desconstruir e arranjar parceiros que comprem aquela sua ideia. Eu entendo que esse é o papel do gestor. (Diretora da EMEI A)

A incoerência revelada nos discursos sobre a ação gestora, na perspectiva compartilhada, parece residir entre a postura gestora de ouvir o coletivo e apostar nas discussões e no processo de formação e convencimento das mudanças julgadas necessárias no longo prazo ou, bancar as modificações no curto prazo, mesmo frente à resistência do coletivo de profissionais, desde que as decisões tomadas sejam em prol do que se considera melhor para as crianças matriculadas na unidade educacional, adotando desse modo, uma postura pedagógica na ação gestora, mas não necessariamente compartilhada com o coletivo de profissionais.

Considerando as discussões que pautaram a formação da dupla gestora no programa A

parte das gestoras, pois não há divergência nas definições do que seja esse tipo de gestão e esta coincide com aquela defendida pelo programa.

No entanto permanece o dilema do gestor entre atender aos interesses maiores da unidade – as crianças – ou interesses particulares de alguns profissionais que trabalham naquele espaço institucional. Tal dilema, por vezes, incita os gestores para uma tomada de decisão mais limitada, do ponto de vista da escuta dos profissionais do CEI/EMEI, concentrando as decisões na figura da equipe gestora.

Nas análises sobre a concepção de gestão, um conjunto de informações pode ser coletado sobre as impressões dos gestores sobre a necessidade de formação da dupla gestora e da relação desse trabalho da unidade educacional com as demais unidades do entorno e da rede, fundamentais para os processos de gestão em nível de rede de ensino.

A coordenadora da EMEI A entende que os programas de formação que se destinam à dupla gestora devem “garantir conteúdos em que os dois gestores percebam a importância do trabalho da escola – dos professores principalmente – mas o trabalho da escola como um todo”. Isso favoreceria, segundo as entrevistadas, um discurso mais afinado entre os gestores de uma unidade e com maiores possibilidades de compartilhamentos nos processo de gestão pedagógica.

A diretora da EMEI B confirma essa impressão quando declara que, quando começou a participar do programa, já tinha com a coordenadora essa “cumplicidade pedagógica” e a participação no programa foi “fortalecendo essas ações” da dupla gestora.

Outro aspecto que aparece com recorrência nas declarações das gestoras é a importância do espaço de formação como local de compartilhamento de experiências entre os profissionais de diferentes unidades educacionais da mesma região. Amplia-se assim o conceito da gestão numa perspectiva de compartilhamento das experiências de gestão também entre os diretores e os coordenadores de CEI e EMEI diferentes na mesma região. A diretora do CEI B assim define essa importância:

A gente deve estar junto enquanto dupla e também enquanto outros gestores. Eu acho que isso nos auxiliou bastante a voltar [para o CEI] e ver a importância de dar essa continuidade mesmo na dificuldade, mesmo com o tempo corrido. Tínhamos que sentar, conversar [...] e transpor isso também porque é importante essa gestão como um todo. (Diretora do CEI B)

Finalizando as análises sobre a perspectiva da gestão compartilhada, incoerências e convergências são constatadas nas declarações das gestoras nas entrevistas.

As incoerências que emergem nas concepções de gestão apresentadas pelas gestoras estão fundamentadas em dois eixos principais: a gestão deve ser compartilhada, mas nem

sempre com todos e em todos os momentos e, a gestão deve ser responsabilidade de todos, mas o diretor se sente sozinho e, em se tratando das questões pedagógicas da gestão, a responsabilidade recai mais diretamente sobre o coordenador pedagógico.

No campo das convergências entre os gestores no trato da gestão das unidades, residem as considerações de que uma instituição com boa gestão se constitui num espaço acolhedor, onde o gestor, ao ouvir as famílias e os profissionais, é um facilitador do trabalho que está a serviço das aprendizagens das crianças e que a equipe gestora deve, necessariamente, estar afinada em seus discursos e posturas, compartilhando experiências entre si e com as equipes de outras unidades da região e da rede.

Frente às propostas do programa A Rede em rede, os gestores compreendem o conceito de gestão preconizado no processo de formação. No entanto, pelas incoerências constatadas em seus discursos, ainda se apresentam limites para a transposição dessas ideias para a prática gestora. Pode ser esse o motivo pelo qual a troca de experiências nos encontros de formação seja tão validada pelas gestoras em suas considerações, sendo esse um processo considerado por elas um forte potencializador da implementação dessa concepção de gestão pedagógica e compartilhada.

Denota-se que a concepção foi compreendida, mas não necessariamente implementada na totalidade das ações gestoras das entrevistadas. Uma das hipóteses para a ocorrência deste fato é que faltaram condições objetivas de construção e acompanhamento, por parte dos formadores do programa e das equipes da SME/SP, da implementação efetiva desse conceito de gestão nas unidades, deixando as gestoras sozinhas com suas respectivas equipes, na fase da efetivação da gestão de modo compartilhado e pedagógico. Por esse motivo é que apenas algumas práticas foram implementadas, deixando um longo caminho a ser percorrido no processo.

O relatório da Fundação Carlos Chagas (2011, p. 56) referenda a necessidade desse acompanhamento ao preconizar a importância do “investimento das Secretarias de Educação no acompanhamento e monitoramento das ações de formação continuada”, rompendo com a ideia de que a gestão da escola é responsabilidade exclusiva de sua equipe interna de gestão. Talvez o acompanhamento e o monitoramento junto às equipes gestoras seja um dos caminhos a ser considerado pela SME/SP para a efetivação do exercício da gestão compartilhada, complementando as ações dos programas de formação em rede.