documentos pesquisados, apresenta peculiaridades a serem detalhadas para melhor compreensão do programa de formação.
3.4 As pautas dos encontros de formação: uma análise preliminar da estrutura metodológica
A análise das pautas dos encontros de formação dessa frente do programa destinada aos gestores, nas cinco fases, permite afirmar que elas apresentam indícios de uma estrutura metodológica bem definida, com estabelecimento de um fluxo formativo bastante estruturado entre os encontros de cada uma das fases e entre as fases, ano a ano. Essa observação está respaldada na observação de aspectos que são recorrentes em todas as pautas e foram considerados inerentes à metodologia.
Nas pautas analisadas, todos os encontros tinham início com o coordenador da formação do grupo dando boas vindas a partir da leitura de um texto literário, da apresentação de um vídeo ou uma música ou ainda do compartilhamento de uma agenda cultural. Os materiais indicados guardavam sempre uma relação direta com o tema tratado no encontro. Um exemplo disso pode ser visto no excerto de pauta constante na Figura 7.
Figura 7 - Excerto de pauta de formação da fase 4 do programa A Rede em rede , 5º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Central, pauta do 5º encontro, 2009)
Em seguida há uma proposta de trabalho em pequenos grupos, a partir da tematização de um trabalho pessoal que foi solicitado aos participantes no encontro anterior, mediada por perguntas previamente elaboradas pelos formadores e que constavam da pauta conforme demonstrado na Figura 8. O encerramento desse momento da pauta era com o compartilhamento das considerações dos pequenos grupos com todos os participantes.
Figura 8 - Excerto de pauta de formação da fase 3 do programa A Rede em rede , 4º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Central, pauta do 4º encontro, 2008)
A cada pauta, pode-se observar a existência de um aprofundamento teórico a partir de uma leitura feita no próprio encontro ou solicitada com antecedência aos gestores. As leituras fomentavam uma discussão dos conceitos principais do texto e sua relação com aspectos levantados no primeiro (ou em outro) momento da pauta e eram encerradas com a solicitação de um trabalho pessoal a ser desenvolvido na unidade. O trabalho pessoal, conforme já apontado, seria problematizado no encontro subsequente, de acordo com o que se observa no excerto de pauta, na Figura 9.
Figura 9 - Excerto de pauta de formação da fase 5 do programa A Rede em rede , 2º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Central, pauta do 2º encontro, 2010)
Dessa forma, identificam-se como atividades permanentes nas pautas dos encontros de formação de todas as fases do programa destinada aos gestores: leitura pelo formador, trabalhos ou discussões em pequenos grupos, aprofundamento teórico, discussão em grandes grupos, tematização de práticas (Figuras 2, 6 e 8) e trabalho pessoal (Figuras 1, 4 e 9).
Essa estrutura recorrente é definida como a base metodológica das pautas de todos os encontros, nas cinco fases dessa frente de formação.
Os instrumentos metodológicos indicados para a frente de formação do coordenador pedagógico, apresentados no trecho de pauta mostrado na Figura 10, também foram verificados nas pautas da frente de formação da dupla gestora, em situações de análise das ações do cotidiano do trabalho dos gestores. Os principais instrumentos utilizados para todas as ações das diferentes frentes de formação do programa, incluindo a dos gestores, foram: a observação, o registro e a tematização de práticas ou problematização de situações do cotidiano das unidades.
Figura 10 - Excerto de pauta de formação da fase 4/Coordenadores Pedagógicos do programa A Rede em rede, 3º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Local, pauta do 3º encontro, 2009)
O documento A Rede em rede: a formação continuada na Educação Infantil – fase 1 (2007) traz a definição de como esses instrumentos são compreendidos pelo programa. Por
observação entende-se “um instrumento de pesquisa e não de confirmação de ideias pré- concebidas. [...] Observar exige colocar em ação uma metodologia, o que pode permitir usar os dados numa análise mais profunda” (p. 38-39). O registro é entendido como instrumento metodológico e definido como potencializador das observações porque “permite que se conheça melhor as práticas educativas e as hipóteses do professor, abrindo assim um caminho de diálogo e de provocações construtivas de um novo saber” (p. 40). Quanto à tematização de
práticas ou problematização é entendida como “a melhor maneira de aperfeiçoar o registro, aprofundando suas observações, [pois] levantar perguntas a partir do relato pode contribuir para a problematização do episódio e para a construção de uma visão mais aberta e reflexiva” (p. 44).
Outras estratégias metodológicas, além da observação, do registro e da tematização de práticas, também aparecem com regularidade nas pautas. A observação e o registro solicitados a cada encontro como trabalho pessoal aos gestores incidiam sobre situações de seus respectivos contextos de trabalho nos CEI e EMEI, exemplificados nos excertos constantes nas Figuras 1, 2, 3, 6 e 8. Os trabalhos pessoais e a elaboração de planos de gestão e de trabalho dos demais profissionais eram subsidiados por roteiros sugeridos pelos formadores, de acordo com o exemplo apresentado na Figura 11. As tematizações realizadas nos encontros sobre as práticas dos gestores geralmente eram mediadas por um conjunto de perguntas problematizadoras propostas, a priori, pelos formadores do programa (Figura 12).
Figura 11 - Excerto de pauta de formação da fase 3 do programa A Rede em rede, 4º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Central, pauta do 4º encontro, 2008)
Figura 12 - Excerto de pauta de formação da fase 6 do programa A Rede em rede, 6º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Central, pauta do 6º encontro, 2011)
Outro aspecto permanente nas pautas é a utilização do que é denominado pelo programa de cadeia formativa39, considerado basilar na elaboração de qualquer plano de trabalho proposto nas frentes de formação do programa, seja dos professores ou dos gestores. Esse instrumento metodológico se apresenta como recurso nos anexos de todas as pautas que envidavam a elaboração de planos, em todas as frentes e fases de formação do programa.
As cadeias formativas foram instrumentos metodológicos utilizados com ênfase nos anos de 2008, 2009 e 2012 nessa frente de formação. A Figura 13 traz um exemplo de parte de uma das cadeias formativas elaboradas pelos gestores no ano de 2012.
O embasamento teórico a partir de textos acadêmicos ou outros materiais e documentos de apoio foram indicados em todos os encontros, como apoio para tematização das práticas observadas e registradas pelos gestores em seus trabalhos pessoais.
As devolutivas dos formadores aos trabalhos pessoais dos gestores também são atividades permanentes nessa frente de formação do programa, com uso de estratégias variadas para fazê-lo, conforme exemplificado na Figura 14.
39 A cadeia formativa pode ser entendida como um exercício inicial na elaboração do plano de formação ou de
gestão a fim que a formação dos professores não perca o foco das aprendizagens das crianças. O roteiro preparado pela assessoria da SME – DOT/EI (2008) traz as orientações para a elaboração da cadeia formativa, deixando claro que ela deve partir da seleção de conteúdos e expectativas das aprendizagens que se quer que as crianças tenham acesso. Definido esse primeiro bloco, o gestor deve pensar no que precisa ser planejado para as aprendizagens do professor, considerando o que se quer que as crianças aprendam e, baseado nesses conteúdos (das crianças e dos professores), deve definir seu plano de formação ou de gestão.
Figura 13 - Excerto de pauta de formação da fase 7 do programa A Rede em rede, 5º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Central, pauta do 5º encontro, 2012)
Figura 14 - Excerto de pauta de formação da fase 4 do programa A Rede em rede, 3º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Central, pauta do 3º encontro, 2009)
A avaliação do programa em todas as suas fases é outra atividade permanente. O instrumento de avaliação, utilizado no último encontro de cada fase do programa, estava estruturado no mesmo formato, avaliando invariavelmente os mesmos aspectos, ano a ano.
Nesse processo de avaliação eram consideradas as condições de infraestrutura dos encontros, os temas e conteúdos tratados, a metodologia utilizada, a atuação do formador da turma e a auto avaliação dos participantes. Era também solicitado aos participantes que apontassem sugestões para o próximo ano. O recorte da avaliação constante na última pauta da fase 5 (Figura 15) demonstra como eram avaliados os temas e conteúdos dos encontros.
Figura 15 - Excerto de pauta de formação da fase 5 do programa A Rede em rede, 8º encontro
Fonte: Documento disponibilizado por formador do programa A rede em rede (SME/SP, Formação Central, pauta do 8º encontro, 2010)
Outro aspecto que se destaca na estrutura das pautas dos encontros é o que denota que cada fase da formação é planejada em detalhes minuciosos. Já na primeira pauta de cada fase a previsão dos conteúdos a serem tratados em cada um dos encontros ao longo do ano é apresentada aos participantes.
A minudência na proposição dos conteúdos e das ações formativas do programa pode ser analisada por duas perspectivas. A primeira é o estabelecimento, ano a ano, de focos para a ação de formação do programa, coerentemente àquela orientação dada aos gestores para que
estabelecessem focos de atuação na construção de seus respectivos planos de formação e de gestão. A coerência entre o que o programa propõe em suas ações e o que recomenda aos gestores faz com que ele se apresente como um modelo a ser considerado pelos participantes, na construção de seus respectivos planos, nessa perspectiva. A segunda, é a de que o detalhamento minucioso das pautas e das ações a serem desenvolvidas em cada encontro do programa, denota um controle, por parte da DOT-EI, sobre as ações de formação em cada turma de gestores da cidade, indicando que havia um roteiro a ser seguido, restringindo a autoria dos profissionais formadores e dos participantes dos grupos. A definição das pautas não possibilitava a inclusão de outros assuntos ou propostas de encaminhamento durante as frentes/fases de formação do programa, destinadas à dupla gestora.
Desse modo, se por um lado o foco das ações evitava a inclusão de assuntos diversos nas pautas, os quais muitas vezes transformam os encontros de formação continuada em espaços inviáveis para que os gestores possam refletir sobre ações propositivas em seus respectivos ambientes de trabalho, por outro lado, o controle excessivo sobre as ações formativas propostas inviabilizava a discussão de questões emergentes das práticas dos gestores em cada grupo as quais, numa proposta de gestão compartilhada da formação, são fundamentais. Essa é a contradição principal que pode ser identificada na estrutura do programa A Rede em rede – a gestão compartilhada proposta, não era exercitada na gestão das pautas do próprio programa.
Ao concluir a apresentação da estrutura das pautas de formação e sua caracterização sob o ponto de vista metodológico, pode-se inferir que as atividades permanentes propostas aos gestores de observação e registro de práticas pedagógicas de sua unidade ou do cotidiano de seu trabalho, se acompanhadas de análises reflexivas desses registros, levando à problematização ou tematização da prática, podem apoiar a construção de uma gestão pedagógica dos CEI e EMEI paulistanos por parte dos gestores envolvidos nas ações de formação do programa. Entretanto, dada a contradição principal na estrutura do programa acima explicitada, a ideia de gestão compartilhada pelos gestores pode ter sido prejudicada.
Nas seções seguintes, as pautas serão analisadas objetivando compreender quais concepções o programa de formação A Rede em rede revela sobre as categorias de análise tratadas neste trabalho: gestão, qualidade na educação infantil, formação continuada e profissionalidade.
3.5 As pautas dos encontros de formação: uma análise preliminar das concepções de