Ao considerar os aspectos que caracterizam a qualidade na educação infantil, as entrevistadas, de modo geral, revelam como principais marcadores dessa qualidade, o planejamento das atividades, o acolhimento das crianças no ambiente educacional e o papel do gestor na garantia do direito a uma educação infantil não escolarizada. Nas palavras da coordenadora da EMEI B:
Lá é o espaço da infância. Os horários, o tempo daquela criança naquele espaço, as acomodações, o que ela vai receber, as oportunidades que elas vão ter, as possibilidades de escolha, de conversar... são para as crianças e todos os adultos têm que ter este entendimento. (Coordenadora Pedagógica da EMEI B)
Tanto para essa coordenadora quanto para demais gestoras entrevistadas, uma questão fundamental da qualidade é o reconhecimento de que a educação infantil deve garantir as aprendizagens das crianças de modo não escolarizado, comunicando seus fazeres com as famílias constantemente e baseada em conteúdos que garantam a leitura, a brincadeira e a construção da autonomia das crianças. Também a importância de um ambiente acolhedor no espaço do CEI e da EMEI é recorrente nas imagens de qualidade reveladas pelas gestoras.
Entre as diretoras, a qualidade está mais voltada para seu papel de mantenedoras dos aspectos físicos dos ambientes e de gestão dos funcionários e da unidade como um todo, conforme afirma a diretora da EMEI B:
[...] Eu quero que aquela escola fique conhecida por esse respeito à criança, por esse respeito à família, eu quero que eles [pais] saibam que aquela escola, que aquela EMEI atende bem as crianças e elas são bem sucedidas; elas são bem acolhidas; têm aula todos os dias. (Diretora da EMEI B)
Já para as coordenadoras pedagógicas, é mais evidente a qualidade na perspectiva do planejamento das ações da rotina e dos conteúdos que a constituem, aspecto revelado pela coordenadora do CEI B:
[...] O que a gente planeja é porque tem consciência do que está sendo feito [...] eu acho que tudo que a gente consegue planejar... a gente consegue ter um retorno, consegue saber para onde vai... agora quando não tem planejamento, não tem um por quê... qualquer coisa serve... a gente dá espaço para qualquer pessoa se colocar, independente de ser profissional ou não... (Coordenadora Pedagógica do CEI B) Embora as entrevistadas revelem que são as questões da autonomia das crianças e das suas possibilidades de escolha que perpassam o conceito de qualidade, as formas prioritárias de alcançá-la, para cada um desses grupos de profissionais – diretoras e coordenadoras pedagógicas – percorrem caminhos diferentes, mas complementares – para as primeiras, a gestão dos ambientes e dos funcionários e, para as últimas, a gestão do planejamento.
O aspecto articulador da qualidade que converge nas imagens das gestoras, tanto diretoras quanto coordenadoras, está relacionado ao acesso por parte das crianças a um trabalho reconhecido pela comunidade e planejado no seu dia a dia.
Essa concepção de qualidade também é encontrada nas publicações oficiais do programa A Rede em rede, especialmente em um dos objetivos expressos no Comunicado n.º 489/2008, de “ampliar a qualidade das vivências dos tempos e espaços nas unidades de educação infantil”. A ampliação citada no comunicado tem como recurso fundamental “a implantação do documento Orientações Curriculares: Expectativas de Aprendizagens e Orientações Didáticas para a Educação Infantil”. Esse documento não é citado explicitamente como instrumento de garantia da qualidade por nenhuma das gestoras entrevistadas, mas encontram-se evidências que o referenciam, de forma transversal, no discurso de apenas uma das duplas gestoras de CEI.
Outro aspecto que aparece nas entrevistas das gestoras como preceito para garantia da qualidade, mas não de modo unânime, é a necessidade de articulação entre as unidades de educação infantil da rede paulistana, no sentido de construir a identidade de um trabalho com os mesmos princípios. Essa perspectiva de qualidade é apontada por 50% das gestoras entrevistadas. Uma das diretoras assim define essa necessidade:
Se você está ligado a uma DRE e a uma Secretaria que tem princípios e diretrizes, você tem que caminhar em consonância com estes. A gente ouve algumas coisas que você fala: “Nossa! Parece que a gente não está falando do mesmo lugar”. Então é esse tipo de coisa que a gente às vezes bate na tecla e que não pode faltar na formação. (Diretora do CEI A)
As gestoras também entendem que é a formação continuada da rede que tem a responsabilidade de articular os discursos e os fazeres entre as unidades que a compõem. Para exemplificar, outra diretora afirma que:
O programa A Rede em rede me fortaleceu na discussão da proposta curricular porque aí virava discurso oficial: os documentos, as leis. Me apoiou e não ficou uma coisa só desta diretora ou da coordenadora. Então me auxiliou de forma institucional. (Diretora da EMEI B)
Ainda sobre o aspecto da qualidade, a coordenadora pedagógica do CEI A considera que o programa de formação, no tocante ao afinamento do discurso da rede municipal paulistana, “favoreceu a questão da identidade, não significando que todo mundo precisa de um manual para seguir [...], mas o exercício de falar dos mesmos assuntos em todos os lugares da cidade no programa de formação”, de certa forma possibilita a articulação entre as unidades de educação infantil da rede.
Considerando a restrição das gestoras na citação do documento curricular, o conteúdo das pautas do programa de formação para a dupla gestora, que indicavam que a qualidade demandava o envolvimento do gestor com uma proposta de educação infantil organizada em função dos tempos e dos espaços nas rotinas de trabalho dos profissionais, com vistas a implementação das orientações curriculares, parece ter sido parcialmente apropriado por parte das gestoras entrevistadas.
A organização e o planejamento das rotinas de trabalho com as crianças e, da instituição educacional como um espaço de convivência e de respeito a seus processos de construção de autonomia, denotam ter sido incorporados aos discursos das gestoras. No entanto, a principal característica identitária do programa, que era a implantação da proposta curricular como uma marca da qualidade na rede paulistana de educação infantil, não se apresenta como destaque nas falas de 75% das entrevistadas.
O fato de não ter sido citado pela maioria das gestoras como pressuposto de qualidade, pode ser entendido a partir das considerações de Tardif (2012) e Nóvoa (1992b). O primeiro, ao explicar que o distanciamento dos profissionais de educação dos saberes curriculares é fruto da relação de não pertencimento desses profissionais a autoria dos documentos curriculares. Já o segundo autor, afirma que os saberes validados pelos profissionais de educação são aqueles que lhe são carregados de sentidos. Dessa forma, evidencia-se que os motivos apontados por ambos os autores podem explicar porque as gestoras não validaram (ou não se lembraram), em suas declarações, da proposta curricular como sinônimo de qualidade para a educação infantil paulistana – a relação de não autoria e de não atribuição de significado ao documento curricular.
Sintetizando, das propostas desenvolvidas no programa de formação para a dupla gestora, as contribuições apropriadas por elas sobre a qualidade na educação infantil estão vinculadas prioritariamente à gestão dos tempos e espaços de aprendizagens garantindo pressupostos da autonomia das crianças. A implementação da proposta curricular como pressuposto de qualidade é secundária para as gestoras entrevistadas.
Na próxima seção, serão tratadas as concepções de gestão declaradas pelas entrevistadas, com destaque para as perspectivas pedagógica e compartilhada na atuação das gestoras em seus respectivos contextos de prática.