2. Theory and background
2.6. Small Angle X-ray Scattering
Outro aspecto importante para investigar o envelhecimento em religiosos, além de considerar que eles continuam inseridos num processo de desenvolvimento (paradigma life-span), se refere às relações sociais. Neri (2006) faz uma retrospectiva dos aspectos destacados pelos primeiros teóricos da Gerontologia a respeito da interação social na velhice: a teoria da atividade, de Havighurst & Albretch, a definia pela manutenção das atividades sociais; estas, segundo a teoria do afastamento de Cummings e Henry, podiam ser abandonadas deliberadamente pelo idoso; Carstensen analisa as relações sociais na velhice em termos de Seletividade Socioemocional: o idoso reduz deliberadamente sua rede de relações sociais e sua participação social para otimizar os recursos de que dispõe, porque passa a ser mais relevante o envolvimento seletivo com relacionamentos sociais próximos e que ofereçam experiências emocionais significativas. Para a autora, o indivíduo idoso não se sente mais obrigado a conviver com pessoas e grupos com os quais não tem relação de afeto ou não se identifica, embora interagisse com eles em outras fases da vida, devido a pressões sociais diversas. Por isso, “a experiência emocional fica melhor com a idade porque as pessoas passam a investir esforços em assuntos importantes para elas” (NETO, 2011).
Esta seletividade é percebida entre os Irmãos, seja nas preferências pelos lugares e comunidades onde preferem morar, seja nas pessoas – Irmãos, sacerdotes, religiosas, Leigas e Leigos – com quem se sentem mais à vontade para dividir tempo e espaço. Alguns deles optam por estar em uma comunidade composta somente por Irmãos idosos, que dispõe da infraestrutura e suporte médico adequados àqueles que necessitam de assistência médica constante; outros preferem continuar em comunidades intergeracionais, nas quais os Irmãos assumem tarefas apostólicas diversas; outros, ainda, são enviados pela Província para as comunidades de idosos, devido a questões de saúde.
Nas comunidades apostólicas, é comum que os Irmãos idosos mantenham alguma interação com a realidade local, mesmo que não exerçam nenhuma tarefa específica; a presença cotidiana, especialmente entre crianças e jovens, é
compreendida como parte da missão marista. Essas novas formas de atuação, que podem ser lidas como sinal de respeito aos limites trazidos pelo envelhecimento, representam continuidade ou descontinuidade em relação ao estilo de vida assumido anteriormente. A seletividade pode ser reconhecida na manutenção das funções apostólicas que eles continuam desempenhando e também no assumir de novas tarefas, que contrastam com aquelas consideradas inerentes ao trabalho do Irmão em outras fases da vida.
Este dado é significativo para caracterizar o envelhecimento na vida religiosa, e será mais desenvolvido na análise das informações obtidas pela pesquisa, com o intuito de investigar se o voto de obediência, apontado como princípio de toda a vida institucional, tem menos peso nessa etapa da vida pessoal. Assim como outros idosos descobrem a liberdade de seguir seu desejo depois de cumprir as tarefas socialmente esperadas, os Irmãos poderiam ressignificar, a partir das mudanças trazidas pela velhice, a relação indivíduo-instituição? Como se daria isso?
Questões ligadas ao desejo, à individualidade e à capacidade de projetar perspectivas futuras, portanto, podem se constituir uma importante chave de leitura para compreender o que muda ou permanece na vida dos Irmãos idosos – especialmente considerando as observações anteriores sobre o contexto em que foram construindo sua subjetividade. Chittister (1998, p. 71) referenda esta fase da vida como momento de novas escolhas pessoais: “há sempre algo importante a ser começado em cada estágio da vida, alguma coisa nova para aprender, algo importante para dar”. Não seria diferente na velhice. Esta liberdade de escolher, portanto, não só pode como deve se traduzir em novas opções de atuação dentro da vida institucional; do contrário, os religiosos facilmente confundirão “o que sempre fizemos com o que deveríamos fazer” (ibidem, p. 72).
Segundo Neri (2006), a seletividade descrita por Carstensen também pode ser lida pelo prisma das relações intergeracionais. Em um espaço institucional, a intergeracionalidade tende a construir subjetividades várias – já foi afirmado anteriormente o caráter relacional da subjetividade – e que convivem nos mesmos espaços. Na expressão de Britto da Motta (2006, p. 83), é uma “contemporaneidade de não-coetâneos” que configuram “vivências diferenciadas do mesmo tempo social”. Assim, os Irmãos jovens terão papel significativo, na convivência cotidiana,
para que os Irmãos idosos se reconheçam na instituição. Sammon (2005, p. 27) confirma este dado: “é evidente que temos no Instituto diferentes gerações de Irmãos; o que não está claro até agora é o grau de diferença entre elas”. Mesmo porque, para os Irmãos idosos de hoje, as fases da adolescência, juventude ou meia-idade – hoje conceitualmente distintas – tinham pouco significado: a vida se constituía “um todo contínuo em que as grandes transições eram marcadas por eventos sociais e políticos” (DEBERT e SIMÕES, 2006, p. 1.371). A convivência com os Irmãos jovens – e que não deixam de ser semelhantes a outros jovens contemporâneos, ainda que tenham optado pela vida religiosa consagrada – costuma ser fonte de conflitos e resistências que motivam Irmãos idosos, em geral, a preferirem a companhia de coetâneos.
Para Capitanini (2003), essa característica é percebida na maioria dos idosos e tem a ver com o desenvolvimento de novos papéis sociais e com a seleção de metas e relacionamentos significativos e enriquecedores. Numa instituição religiosa, no entanto, é possível que os conflitos intergeracionais também se relacionem à dialética entre manutenção e perda do poder institucional. Pereira (2005, p. 42) observa que a subjetividade, no contexto institucional, é tecida “pela rede de micropoderes que sustenta o fazer cotidiano”. Whitaker (2007, p. 51) confirma: passar para uma geração mais velha tem relação direta com a perda do poder social, aquele que “os mais velhos tinham no passado e do qual a memória social ainda possui registros”. Ser portador da memória histórica, portanto, é também trazer à tona um tempo social em que o lugar do idoso diferia do papel social a ele reservado na sociedade contemporânea. Num contexto em que a dinâmica da vida religiosa é organizada a partir dos jovens, é possível que o Irmão se valha da seletividade para lidar com a percepção de não estar mais em espaços institucionalmente importantes – estes, agora, pertencem aos mais jovens.
Beauvoir (1990) reconhece esse desconforto entre as gerações e situa suas fontes históricas e sociais: até meados do século XX, o desejo de preservar a própria identidade era geralmente compensado na juventude pelas consideráveis vantagens do estatuto de adulto. Atualmente, a onipresença da juventude e seu foco como referência para se compreender a sociedade contemporânea se constituem motivo de estranheza para muitos idosos – e entre os Irmãos não é diferente. Assim,
o traço simbólico dessa comunicação entre gerações – ou sua ausência – é muito revelador da percepção que os Irmãos idosos têm sobre seu lugar atual na instituição que se tornou sinônimo de sua vida, frente à tendência desta mesma instituição em priorizar a ressignificação de sua missão e dinâmica interna à luz das características das novas gerações.
Cabe destacar que esse movimento se funda em questões de vitalidade e subsistência das congregações: sem a entrada de novos membros, elas correm o risco de deixar de existir (ANJOS, 2004). No entanto, vivendo os religiosos num contexto em que a prioridade institucional são as novas gerações, que lugar os idosos perceberiam como “seus”, na instituição religiosa e fora dela? É uma pergunta que outros idosos fazem em relação à família, mas dispondo da possibilidade de criar laços e fortalecer vínculos com redes formadas por amigos, vizinhos e conhecidos... (ERBOLATO, 2006). Entre os Irmãos, essa possibilidade é mais restrita, especialmente se ele estiver em uma comunidade de idosos, na qual a interação com a comunidade local é mais limitada. Cabe lembrar que, segundo Britto da Motta (2006), a idade, enquanto categoria analítica, ganha sentido apenas em relação a outros grupos, como infância e juventude. Logo, o lugar que os religiosos idosos reconhecem como seu na instituição será resultado da relação com o espaço dado aos jovens religiosos na mesma instituição. A intergeracionalidade, dessa forma, é chave para compreender a percepção dos religiosos a respeito da sua condição de sujeitos idosos e da contribuição que podem oferecer atualmente ao Instituto, como fizeram em décadas passadas.
1.7 IRMÃOS IDOSOS, TEMPOS PRESENTES E TEMPOS PASSADOS
Outro aspecto a ser abordado no envelhecimento em religiosos é referendado por estudiosos da área: a importância do tempo passado, em relação à vida atual. Para Bobbio (1999, p. 14; p. 30), “falar de si mesmo é um vício da idade avançada”, porque, na velhice, “somos aquilo que lembramos”. Ele poetiza o que a neurobiologia constata sobre a memória na velhice, quando diminuem as
capacidades relacionadas à inteligência fluida6: “O tempo da memória segue um
caminho inverso: quanto mais vivas as lembranças que vêm à tona de nossas recordações, mais remoto é o tempo em que os fatos ocorreram” (ibidem, p. 55). E faz o mesmo com a diminuição das capacidades da inteligência cristalizada7: “Torna- se mais difícil, portanto, fazer entrar fatos e ideias novas que não encontrem compartimentos já formados, prontos a acolhê-las” (ibid., p. 49).
Partindo desta observação e considerando a importância da memória histórica para as instituições religiosas – algumas nasceram há décadas e, outras, há séculos – pode-se fazer uma inferência curiosa. As novas gerações de religiosos, cuja juventude é validada pelos diversos espaços sociais contemporâneos, configuram uma forma de ser Irmão que é radicalmente diferente da época em que o Irmão idoso optou pela vida religiosa consagrada. Sammon (2005, pp. 25-28) observa que alguns Irmãos “continuam a confiar em certos valores de vida comunitária que serviram em outra época, quando a concepção de convivência em comunidade era muito diferente”, visto que a vida e formas de interação dos Irmãos eram de “uma previsível uniformidade”. Chittister (1998, p. 74) lembra a tendência dos religiosos idosos em comparar formas passadas com formas presentes e considerar as novas “inaceitáveis, não por serem infiéis ao espírito da nossa vida, mas por não estarmos familiarizados com elas”.
Estas diferentes concepções podem ser observadas na convivência entre Irmãos idosos e Irmãos mais jovens: estes têm um ritmo de vida no qual atividades externas relacionadas às funções institucionais levam o Irmão a estar mais fora da comunidade do que dentro dela; para aqueles, a virtude do Irmão e a fidelidade à instituição se mede, em grande parte, pela regularidade de horários e pela presença nas orações comunitárias e outros momentos coletivos. Entretanto, pode ser que a resistência explícita ou velada dos Irmãos idosos a esta mudança no estilo de vida dos religiosos não seja simples resistência: pode estar relacionada à dificuldade do idoso em compreender uma nova forma de exercer a vocação religiosa, diferente
6 A inteligência fluida tem componente fisiológico e se refere às capacidades mentais primárias:
raciocínio, memória, orientação espacial e velocidade perceptual.
7 A inteligência cristalizada é constituída pela bagagem de educação e cultura acumulada pelo
daquela na qual fundamentou sua trajetória de vida. Uma explicação de fundo biológico para um fato palpável na vida religiosa consagrada.
Em se falando da importância da memória para os idosos, não há como esquecer Bosi (2009). Retomando a fenomenologia da lembrança de Bergson, ela afirma a existência do estofo social da memória e relaciona sua existência à função de “conservar o passado do indivíduo na forma que é mais apropriada a ele” (BOSI, 2009, p. 70). Para Irmãos que não se identificam com a comunidade onde moram ou não conseguem apreender as mudanças que a contemporaneidade trouxe à vida religiosa, voltar-se para o passado é um recurso que permite manter a integridade subjetiva – ainda que os fatos rememorados não sejam necessariamente lembrados de forma fidedigna aos fatos acontecidos. A memória é seletiva e tem um componente afetivo forte, que se acentua na velhice. A repetição de fatos acontecidos há décadas, especialmente na infância e juventude, é constante na conversa com idosos – e, não raro, irritante para as gerações que ouviram a mesma história dezenas de vezes. Com os Irmãos idosos, a situação é semelhante, com predileção por acontecimentos ocorridos no período da formação ou relacionados à família nuclear. Para ambos os tipos de idosos, as histórias do passado são fonte de conforto que conferem significado ao momento presente.
A ressignificação de fatos da história pessoal também pode ser vista como estratégia de manutenção da identidade, no que Scharfstein (2006) denomina de ressocialização, referindo-se ao processo de interiorização dos chamados submundos institucionais, ou seja, das regras de comportamento e convivência definidas pelas instituições sociais. Para manter a integridade subjetiva, “o passado é interpretado à luz do presente” (SCHARFSTEIN, 2006, p. 1.292). Sem este mecanismo, “a vida se torna um exercício de deixar-se levar pela correnteza rumo a lugar nenhum” (CHITTISTER, 1998, p. 71) e a velhice corre o risco de se tornar também “uma categoria psicopatológica” (SCHARFSTEIN, 2006, p. 1.293). Ou seja, caso o idoso não se envolva no processo de ressocialização, é grande a possibilidade de não encontrar sentido para sua vida ou manifestar essa falta de sentido por meio de organizações psíquicas patológicas, manifestadas através da depressão, da paranoia e da mania. Ao contrário, a síntese entre tempo passado e
tempo presente contribui para o bem-estar subjetivo de qualquer idoso – e com os Irmãos não seria diferente.
Esse recurso subjetivo de reinterpretação, portanto, confere segurança à situação que o Irmão idoso não consegue processar e/ou compreender, por se constituir uma novidade ou por seguir uma lógica diferente daquela à qual está acostumado. Não se pode esquecer que, para os Irmãos idosos, a regularidade era uma das características mais marcantes da vida institucional. Sammon (2005, p. 30) lembra que a cultura marista tende a influenciar as formas de organização da vida dos Irmãos e determina “hábitos e expressões que aceitamos como sagrados”. Fazendo relação com o paradigma life-span, essa sacralidade da rotina é uma influência normativa, que tende a torná-la uma característica da identidade grupal – e, sendo identidade, é inegociável para o idoso. Nessa perspectiva, o apelo ao tempo passado, que na memória parece mais definido e seguro, suplanta o presente perturbador, porque desconhecido e desafiador, devido ao conforto e segurança que confere ao Irmão idoso. O sentido do tempo passado, então, será dado pela relação estabelecida pelo idoso com o tempo presente, pela capacidade de projetar o futuro e pelas fontes que lhe conferem integridade subjetiva, sentido de vida e propósito para a velhice.