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4. Results and discussion

4.1. Characterisation of neat vesicle and micellar solutions

4.1.1. DMPC

Em se tratando da vida religiosa consagrada, é importante investigar as questões da religiosidade e da espiritualidade. Sommerhalder e Goldstein (2006, pp. 1.307-9) definem a espiritualidade como uma “reflexão sobre” e a religiosidade como uma “relação com”, ambas com finalidade de desenvolver e manter a relação do indivíduo com o sagrado. Na primeira definição, há um reconhecimento do sagrado no dia a dia, permeando a forma como o sujeito se faz presente no mundo e no relacionamento com os outros; a segunda define uma relação entre o sujeito e o Transcendente, que recebe várias denominações, de acordo com as diversas tradições religiosas. Libânio (2002, p. 91) acrescenta que a religiosidade “aproxima- se de um vago sentimento religioso [que] corresponde à necessidade afetiva pessoal de estar ligado com algo distinto de si mesmo”.

Para Croatto (2004, p. 41), a relação entre indivíduo e divindade se converte em experiência religiosa, que é “própria do ser humano e condicionada por sua forma de ser e pelo seu contexto histórico e cultural”. Valle (1998, p. 41) acrescenta a dimensão histórico-sociológica da experiência religiosa, que guarda e transmite adiante “algo anteriormente vivenciado por alguém, pessoa ou grupo”; assim, toma forma primeiramente como uma vivência relacional com o mundo, com outros indivíduos e com outros grupos humanos; depois, como fonte de sentido para o projeto de vida que cada pessoa constrói. Os religiosos idosos passaram a maior parte de sua vida em uma instituição com identidade definida pela relação com o Transcendente e na qual a rotina era organizada de forma a favorecer a regularidade no cultivo dessa relação de cada Irmão com Deus. Logo, investigar o envelhecimento em religiosos pressupõe considerar um processo vital permeado pelo cultivo da espiritualidade e pela relação com o Transcendente, nas dimensões individual – crenças, devoções e hábitos individuais – e coletiva – normas e costumes religiosos assumidos pela comunidade religiosa, e aos quais o Irmão adere no dia a dia. Goffman (2008) aponta que esses elementos visam a atender aos objetivos oficiais da instituição e, para isso, são organizados em um plano racional único, que estabelece o dia a dia dos indivíduos numa sequência de atividades obrigatórias.

Sammon (2005, p. 30) destaca esta obrigatoriedade como algo bastante presente na formação inicial dos religiosos que hoje são idosos, e que configura “um determinado apostolado, uma espiritualidade, algumas tradições relacionadas à vida comunitária” e outros elementos “transmitidos de uma geração de Irmãos a outra”. Assim, para quem esteve durante toda a vida dentro de uma instituição religiosa, a religiosidade é traço intencionalmente alimentado por espaçotempos pessoais e comunitários de oração pessoal, hábitos devocionais, celebrações, vivência do apostolado e presença nos vários campos de missão, vivenciados de forma coletiva e individual. Vem daí, provavelmente, a resistência dos Irmãos idosos à ausência – ainda que justificada por compromissos institucionais – dos Irmãos mais jovens nos momentos comunitários.

A regularidade de contato com o Sagrado certamente influencia o trajeto antropológico destes sujeitos, estruturando um imaginário marcado por essa relação

– ou, na expressão de Durand (1989), uma maneira de carregar o mundo permeada do Sagrado. Cabe perguntar, assim, que especificidade este imaginário constrói na “incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam do meio cósmico e social” (DURAND, 1989, p. 29). Ou seja, em que aspectos a vivência da espiritualidade ajuda o Irmão idoso a elaborar a síntese entre as demandas que lhe são atribuídas pela instituição – inclusive em decisões que lhe desagradam – e o cultivo da disposição interna para acolhê-las, mantendo sua integridade subjetiva e o sentido de pertença institucional? Ou ainda, em que medida a vivência do Sagrado confere sentido às próprias mudanças no estilo de vida trazidas pelo envelhecimento?

Outra abordagem interessante, considerando que a pesquisa se refere a religiosos, é de Frankl (2009), para quem a essência da espiritualidade é o impulso de buscar sentido e propósito para a vida, numa interação em que a rotina humana se mescla com a presença do divino e o sentido é dado não pelo imanente, mas pelo próprio Deus. Sommerhalder e Goldstein (2006), citando Frankl, lembram os quatro fatores que levam a pessoa a encontrar sentido para a vida: valorização do que é relevante; significado atribuído às escolhas pessoais; responsabilidade por suas ações; e significação imediata das atividades rotineiras. Para os religiosos idosos, é provável que estes fatores sejam revistos frente às mudanças trazidas pelo envelhecimento. É na vida cotidiana que o divino se revela – e como se revelaria aos idosos que optaram pela vida religiosa consagrada?

Aqui, cabe citar Estrada (2007), para quem a prática religiosa está diretamente relacionada à imagem de Deus concebida pelo sujeito, em nível consciente e inconsciente, e Morano (2007), que relaciona crença religiosa e as exigências no campo moral e ético, assim como ao modelo de vida adotado. Fromm (2006) relaciona Deus com a dimensão afetiva e relacional. Logo, desvelar a imagem divina que dá sentido às práticas desses religiosos é ponto de partida para investigar se há mudanças nesta imagem, ao longo do processo de envelhecimento, e como elas favorecem as sínteses dos idosos em relação às mudanças no estilo de vida e de missão decorrente das limitações características da velhice.

É pertinente fazer um link entre o autor e as reflexões a respeito de projeto de vida. No dia a dia, se imbricam as demandas imediatas e as projeções de futuro. Em

um ambiente institucional, essas projeções são individuais num segundo momento, porque, num primeiro, os rumos da vida do indivíduo são definidos pela hierarquia – de forma indiscutível, no período de juventude dos Irmãos idosos, e dialogicamente, para as novas gerações de religiosos. Para os primeiros, acostumados a ter a vida direcionada pelas instâncias institucionais superiores, pode ser desafiador ter que, na etapa de vida atual, assumir essa responsabilidade.

Partindo de Morin (1996, p. 275), para quem “cada indivíduo numa sociedade é uma parte de um todo, que é a sociedade”, mas sofrendo intervenções desta, “desde o nascimento, com sua linguagem, suas normas, suas proibições, sua cultura, seu saber”, é pertinente lembrar que, aqui, trata-se de sujeitos para quem a sociedade é, primeiramente, uma instituição religiosa. O projeto de vida, portanto, é definido a partir do ambiente institucional, o qual, conforme Almeida (2005, p. 97), define “o campo no qual se inserem as possibilidades de delimitação de projetos de vida”. Se, para muitos idosos, a projeção do futuro é limitada pelas condições sociais e econômicas, para os religiosos idosos a limitação pode estar na pertença institucional. E como cada sujeito elabora essa tensão?

Outro elemento para essa discussão é encontrado Croatto (2004). O autor considera que o ser humano tende à totalidade, mas a experiência religiosa o torna consciente de suas necessidades físicas, psíquicas e socioculturais, assim como da tríplice limitação humana: fragmentação do bem, da felicidade e das posses materiais, nenhum deles vivido em totalidade plenificante; finitude da vida e do tempo, pois nenhum ser humano é eterno; e falta de sentido de muitas experiências vitais cotidianas. Quer dizer, a relação entre o ser humano e o Transcendente equilibra-se numa tensão: se, por um lado, o Transcendente torna o ser humano consciente da sua limitação, é no mesmo Transcendente que esse ser humano, por meio da experiência religiosa, encontrará o sentido da existência e poderá projetar seu futuro.

Trazendo estas afirmações para a vida religiosa consagrada, é pertinente notar que, nela, os sentidos das decisões, escolhas e acontecimentos são atribuídos mais ao Transcendente do que ao imanente; é em Deus que se justificam a obediência do indivíduo às deliberações institucionais, inclusive as que contrariam sua vontade pessoal. Para o religioso idoso, a religiosidade e a relação com o

Transcendente são elementos cotidianos. Por isso, a investigação sobre o envelhecimento no ambiente religioso demanda aprofundamento sobre essa temática. Segundo Sommerhalder e Goldstein (2006), a religiosidade se refere a quatro dimensões:

a) Crenças: fé em uma manifestação do Transcendente – para o grupo pesquisado, Deus Pai, Jesus Cristo e Espírito Santo;

b) Rituais: práticas ou atividades religiosas institucionais e não-institucionais; c) Experiência: sentido dado à relação com o Transcendente;

d) Conhecimento religioso: fundamento racional para a experiência de fé, vinculado a determinada cultura religiosa – nesse caso, o Cristianismo Católico.

Assim, não é possível investigar o envelhecimento entre os religiosos sem considerar que essas dimensões permearam a trajetória de vida dos Irmãos de uma maneira mais acentuada do que entre outros sujeitos que cultivam a religiosidade, mas não têm o mesmo vínculo institucional. Segundo as autoras, a subjetividade religiosa “é formada pelos elementos da dimensão institucional e pelo conjunto dos símbolos que compõem aquela religião, além da experiência pessoal com o universo religioso constituído socialmente” (SOMMERHALDER E GOLDSTEIN, 2006, p. 1.309).

É possível, então, que o cultivo da espiritualidade se imbrique de tal forma com a construção da subjetividade e da identidade pessoal que esse elemento se torne inerente à própria constituição do sujeito. Considerando que, para Croatto (2004), as práticas de cultivo da relação com o Sagrado são coletivamente significativas e expressam a participação humana na vida divina, a investigação sobre o processo de envelhecimento entre os Irmãos deve focar também qual sentido atribuem às orações, sacrifícios, consagração e outras práticas de fé, assim como à regularidade com que cada um se dedica a elas. A participação nesses momentos costuma ser, para os Irmãos idosos, um indicador de fidelidade institucional tão relevante quanto o era no período de formação.

Nesta perspectiva, a investigação deve considerar que valoração os Irmãos idosos atribuem à espiritualidade e à religiosidade, inclusive como suporte no

enfrentamento às perdas associadas ao envelhecimento e como fonte de significado para as mudanças dele decorrentes. É bastante provável que a importância desses dois elementos no cotidiano seja maior para eles do que para idosos inseridos em outros espaços sociais; e que, frente a mudanças, possíveis perdas, situações e acontecimentos que implicam atribuição de sentido, os religiosos idosos procurem na espiritualidade a ajuda para “vencer os medos e possibilitar o surgimento de novos dons, que tendem a auxiliar em novas capacidades adquiridas com o tempo” (ALVES, 2006, p. 50). É possível ainda que, nesse grupo, o processo de envelhecimento se fundamente no cultivo da espiritualidade e na relação com o Transcendente e, sendo assim, acrescente especificidades às características do envelhecimento, não de forma linear ou segmentada, mas imbricadas no processo de construção da subjetividade do religioso idoso. Provavelmente, é por essa via que os religiosos idosos mantêm o sentido de identidade e conseguem, segundo Scharfstein (2006), saber de si, o que fizeram, quem foram e quem são – em outras palavras, encontrar propósito para a vida na terceira idade.

É necessário relembrar ainda que a maior parte da vida desses sujeitos aconteceu num espaço institucional. Enquanto que, para Goffman (2008, p. 48), “as instituições totais são fatais para o eu civil do internado”, Chittister (1998, p. 66) afirma a instituição religiosa como o lugar de onde se pode compreender a missão dos religiosos idosos, uma vez que “a tarefa da vida religiosa não é realmente uma tarefa, mas a aplicação das grandes questões da vida a todas as dimensões vitais”. As experiências humanas, que a maioria dos idosos viveu em diferentes espaços sociais, os religiosos viveram a partir do ambiente institucional. Partir desse lugar e considerar as pessoas que nele vivem e sua visão sobre a própria trajetória de vida, portanto, é percurso que possibilita apreender, a partir dos próprios sujeitos, o que caracteriza o processo de envelhecer sendo religioso. Afinal, segundo Chittister (1998, p. 69), “há muita vida na velhice. Depende apenas de como a vivemos”. Esse “como” é a questão central para a pesquisa ora desenvolvida.