2. Theory and background
2.5. General scattering theory
Alguns autores fazem observações pertinentes a respeito das diferentes formas como a velhice é percebida pelos idosos e pelas pessoas que os cercam. Messy (1999, p. 24-25) afirma que a percepção subjetiva da velhice nunca é autoaplicada: o velho é o outro. Também contesta a impessoalidade da expressão “pessoa idosa”, por designar uma categoria social que “faz desaparecer o sujeito com sua história pessoal, suas particularidades, seu caráter”, transformando o idoso em “um habitante da velhice”. Refletindo sobre quando se dá a entrada nessa fase, Messy cita Lacan (1979), para quem a percepção da velhice provoca uma reação de agressividade que se inscreve no dilaceramento que o sujeito faz de si mesmo, dilaceramento que tem início na apreensão da imagem de velhice do outro e antecipa o sentimento de discordância motora que “estrutura retroativamente [a percepção do sujeito] em imagens de fragmentação” (MESSY, 1999, pp. 36-37). Ou seja, o indivíduo percebe que se tornou idoso quando se defronta com as limitações físicas e psíquicas trazidas pelo envelhecimento, percepção esta vivenciada concomitantemente com o sentimento de perda da inteireza anterior: a subjetividade do idoso é fragmentada. Contribui, para esta percepção negativa da velhice, o fato de que, para o indivíduo velho, sua condição de idoso precede todas as outras: quem antes era professor, empresário, artista, etc., passa a ser categorizado pela impessoalidade da categoria “velho”.
Ainda sobre a dificuldade de se reconhecer como idoso, Beauvoir (1990, p. 12) confirma: “Antes que se abata sobre nós, a velhice é uma coisa que só concerne aos outros”. Depois, descrevendo a experiência subjetiva de envelhecer, aponta a contradição entre o olhar que a sociedade costuma lançar sobre os velhos e a síntese que o indivíduo faz sobre seu envelhecimento: “Para outrem, o velho é o objeto de um saber; para si mesmo, ele tem de seu estado uma experiência vivida” (BEAUVOIR, 1990, p. 16). Assim, a percepção subjetiva da velhice é um processo que se dá de forma dialógica entre o indivíduo e seu contexto social – e, geralmente, comporta discordâncias idiossincráticas em relação aos estereótipos associados à velhice. Para Rubem Alves (2011), por exemplo, “a velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas”. Mário Quintana constata a velhice como prova da passagem do
tempo: “Quando se vê, já são 6 horas há tempo.../ Quando se vê, já é 6ª feira.../ Quando se vê, passaram 60 anos!”2 Cecília Meireles estranha essas mudanças: “Em
que espelho ficou perdida/ a minha face?”3 Arnaldo Antunes subverte a lógica: “A
coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”4. E Mário de Andrade a vê
como sequência natural da vida: “Horrendo/ seria, agora que a velhice avança,/ que me sinto completo e além da sorte,/ me agarrar a esta vida fementida.”5
Na instituição religiosa, a percepção de ser “religioso idoso” costuma estar relacionada à perda dos espaços, funções sociais e responsabilidades próprias de outras etapas da vida, ou seja, é mais ligada à mudança de papéis sociais do que às limitações trazidas pelo envelhecimento. A normativa de uma província marista do Brasil estabelece a aposentadoria compulsória aos 62 anos para Irmãos em função executiva, o que confirma a observação de Neri (2006, p. 1.267): “a idade cronológica adquire grande importância, não só como elemento para categorizar as pessoas como idosas, mas também como elemento explicativo para o seu desempenho cognitivo e social”. Erbolato (2006) considera que a atividade produtiva, notadamente o trabalho, assinala um vínculo simbólico que assegura ao indivíduo uma referência identitária. Logo, se o indivíduo é definido por seu ofício (BEAUVOIR, 1990), deixar de exercê-lo traz consequências para a subjetividade do religioso idoso e exige um esforço de ressignificação do seu lugar na instituição.
Esta afirmação possibilita problematizar algumas questões. Para um Irmão que esteve a vida inteira em espaços de poder, como essa “perda” interfere na sua autopercepção e autoimagem de religioso idoso? Em se considerando que, de acordo com o Nun Study, o estilo de vida e suporte social tendem a preservar as competências funcionais dos Irmãos em um nível superior à média da população da mesma idade, provavelmente o afastamento estaria em dissonância com a percepção do idoso a respeito de suas próprias capacidades. Além disso – e lembrando a relação entre atividade produtiva e identidade individual, afirmada por Erbolato (2006) –, cabe destacar que, com o advento da expressão “Irmão idoso” na vida do Irmão, sua referência pessoal deixa de ser a situação atual para se referir ao 2Poema “Vida” 3 Poema “Retrato” 4 Poema “Envelhecer” 5
histórico de vida e de funções desempenhadas. Ele passa a ser conhecido com o Irmão que foi diretor de tal colégio, que era formador em tal casa, que morou em determinada comunidade, que desempenhou aquela função apostólica... Segundo Beauvoir (1990, p. 466), para o idoso os projetos “ou foram realizados, ou foram abandonados” e, como consequência, “sua vida fechou-se sobre eles mesmos”. Para os Irmãos, há, inclusive, uma redução de possibilidades institucionais: nem todas as comunidades e/ou obras institucionais poderão acolhê-lo, seja pelas limitações decorrentes da idade, pela fragilidade da saúde – se for o caso – ou, mais grave ainda, pela inadequação entre a forma como o Irmão aprendeu a atuar nas unidades maristas e as exigências contemporâneas da atuação educacional, social e evangelizadora.
Em relação a este aspecto, é pertinente indagar qual sentido o religioso atribui à sua nova condição, a de idoso, que estratégias utiliza para lidar com as mudanças no ritmo de vida e como faz síntese entre a trajetória de vida e as tarefas atuais de missão. A percepção do seu novo lugar, assim como o reconhecimento da contribuição possível, na velhice, para com a missão institucional, é fundamental para manter o vínculo de pertença e manejar os efeitos dessas mudanças sobre a sua subjetividade.
Vale observar que a reação individual à chegada da velhice diverge entre os Irmãos – como, aliás, acontece com outros idosos. Alguns Irmãos aceitam com tranquilidade a chegada da velhice; outros resistem a ser classificados como velhos; outros, ainda, ressignificam o novo tempo e aproveitam a desobrigação das funções executivas para cultivar estudo, hábitos e hobbies pessoais. Esta última postura é confirmada por Chittister (1998, p. 72), ela própria uma religiosa norte-americana: “A velhice é precisamente aquele ponto da vida no qual os valores mudam e a virtude é renegociada”. Ou seja, as mudanças decorrentes do envelhecimento demandam uma revisão das posturas, atividades e estilo de vida assumidos pelo religioso, pois o que anteriormente era considerado virtuoso se torna passível de mudança, na intencionalidade de garantir a fidelidade à missão institucional no contexto contemporâneo. É possível que o religioso idoso tenha que provocar mudanças significativas no estilo de vida e adotar uma dinâmica diferente daquela assumida em outras etapas vitais, porque as escolhas feitas na velhice podem conferir novo
sentido à sua presença na instituição: “É com a maturidade da idade que decidimos livremente não apenas se realmente vamos ou não viver, mas como vamos viver e por quê” (ibidem). Novamente, a questão do sentido da velhice e da identidade do idoso.
É pertinente destacar que, no Instituto Marista, há encontros específicos, em nível regional e internacional, que reúnem Irmãos de meia-idade e Irmãos idosos para partilha, formação e cultivo do sentido de ser religioso, refletindo temas como subjetividade, espiritualidade, missão e vocação sob o prisma do envelhecimento, além de informações relacionadas à velhice, à saúde e ao cuidado de si. Esses encontros, realizados anualmente na Espanha e Itália, reúnem Irmãos da mesma idade, mas oriundos de diferentes países, e buscam ajudá-los a equilibrar as perdas e ganhos próprios da velhice, abraçando as limitações e novas possibilidades desta etapa de vida. Atividades de formação, partilha, espiritualidade e convivência estimulam a continuidade ao cultivo da vocação, das práticas de fé e da missão, como fizeram ao longo da vida.
A dinâmica de adaptação, em vista de fortalecer a crença na autoeficácia (NERI, 2006), costuma estar imbricada no processo de envelhecimento para todos os idosos, por iniciativa própria ou como reação às mudanças provocadas pelas limitações da velhice. Não há, entretanto, uniformidade: os idosos se adaptam em ritmos e tempos diversos. O diferencial desses encontros é o estímulo da instituição para que o idoso reconheça, nessa nova etapa de vida, a si mesmo e as possibilidades de continuar mantendo-se envolvido na missão institucional, mesmo que haja limitações em relação às responsabilidades assumidas em outros tempos.
Nessa perspectiva de autorreconhecimento, Bobbio (1999, p. 17) discorre a respeito da percepção subjetiva do ser idoso; ele descreve sua experiência pessoal de se ver e ser visto como velho: “Sou um velho professor. Permitam-me falar, desta feita, não como professor, mas como velho”. Sua descrição crítica dos traços da velhice – peso maior do passado sobre o presente, uma questionável sabedoria, o tabu de falar ou não falar sobre a morte, a memória como elemento característico do envelhecimento, a lentidão e as restrições do corpo como limitador para a agilidade da mente – explicita uma experiência pessoal que ecoa e sintetiza os estudos que
afirmam o processo de envelhecimento como uma experiência singular decorrente da interação entre o sujeito e seu meio.
Aqui, cabe discutir como essa interação se dá na instituição religiosa. A maioria dos Irmãos que hoje são idosos optou pela vida religiosa em um contexto social e institucional bastante diferente, com ênfase no sacrifício pessoal e na repressão dos desejos individuais em detrimento da coletividade. Segundo Pereira (2005, p. 55), “a subjetividade produzida nesse contexto era perfeitamente previsível, normativa e imutável”. Na descrição de Sammon (2005, p. 44-45): “éramos obrigados a nos vestir de determinada maneira, a aceitar trabalhos sem quaisquer tipo de consulta prévia, a acatar sem hesitação a vontade do Superior e a seguir o que pode ser descrito, com certa benevolência, como ‘uma rotina rígida’”. Ser religioso implicava abrir mão de ser indivíduo para se tornar a própria instituição; a submissão às regras e a adequação do comportamento às exigências institucionais eram inegociáveis – e o descumprimento, passível de ruptura da pertença ao Instituto Marista, como a outras congregações religiosas. A voz do indivíduo era silenciada, com mais intensidade no período da formação inicial, quando os Irmãos eram, em sua quase totalidade, adolescentes. Não por acaso, o ritual que assinala a admissão definitiva do indivíduo na instituição religiosa inclui, ainda hoje, o voto público de obediência. Os efeitos dessa repressão, assim como da subordinação à autoridade, para a subjetividade dos idosos não podem ser ignorados – e estão incluídos na pesquisa.
Outro Irmão confirma o estímulo de anular a vontade pessoal para se submeter às ideias dos seus superiores; nos seus quarenta anos de vida religiosa obedecendo, ele reconhece na velhice a dificuldade de pensar por si mesmo: “Francamente, não sei o que penso! [...] Com frequência não estou muito seguro do que penso!” Daí sua admiração pelos Irmãos jovens, que “dizem o que pensam, mesmo que isso contrarie a opinião da maioria” (SAMMON, 2005, p. 27). No contexto contemporâneo, diferentemente da época em que os Irmãos ingressaram na vida religiosa, o indivíduo pertence a uma instituição religiosa, mas não deixa de ser ele mesmo. O reconhecimento da individualidade é uma diferença significativa entre o contexto institucional contemporâneo e as diretrizes da época de formação dos Irmãos que hoje são idosos. Estes construíram uma subjetividade baseada no
sacrifício pessoal, na obediência e na identificação entre indivíduo e instituição, de forma que não havia diferenças entre um e outra. Pensando o envelhecimento dentro do paradigma life-span, é possível que, na velhice, haja mudança dessas concepções – mas não sem o esforço consciente que resulte de uma motivação interna e leve o religioso idoso a ressignificar sua relação indivíduo-instituição.
Weber (1999) investiga essa relação em que a identidade institucional se confunde com a identidade individual, ao ponto da primeira substituir a segunda, especialmente em situações nas quais é exigido do indivíduo um comportamento, em nome da instituição, que contradiz suas convicções pessoais. O sujeito deixa de ser indivíduo para se tornar a própria instituição da qual faz parte. Nas congregações religiosas, estas concepções tendem a se diferenciar de acordo com as diferentes gerações: idosos se acostumaram a ser a instituição, jovens querem ser sujeitos a partir de sua inserção no espaço institucional. Estes, quando se tornarem idosos, certamente darão à velhice e à instituição um sentido distinto do atualmente atribuído pelas gerações idosas.
Contribuição interessante para esta discussão provém do pensamento de Vigotsky (2009), para quem a dimensão social da consciência antecede a dimensão individual, porque o funcionamento mental individual nasce da experiência social – que, por sua vez, se funda na relação com o outro (SCHARFSTEIN, 2006). Novamente se faz presente o dado relacional para a percepção subjetiva do ser idoso e que, aqui, ganha acréscimo das características da pertença a uma instituição religiosa. Na velhice, a maioria dos Irmãos certamente não se compreende fora da instituição; a sua consciência individual se imbrica com a cultura institucional de maneira que não costuma ocorrer com idosos que construíram outros históricos de vida. Consequentemente, a subjetividade do Irmão terá mais elementos em comum com a identidade coletiva do que em idosos que transitam por outros espaços sociais e não se concebem sujeitos a partir da pertença institucional. O sentido e/ou a ressignificação do ser velho na congregação resultará, mais que para outros idosos, da interação explícita entre o indivíduo idoso e a dinâmica da instituição.
1.6 SELETIVIDADE, INTERGERACIONALIDADE E INTERAÇÃO SOCIAL ENTRE