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Além dos aspectos relacionados a alimentação, sono, prática de atividades físicas e lazer, é pertinente analisar aspectos relacionados à ocorrência de doenças. Na pesquisa, não foram realizados exames médicos: tomou-se por base a autorreferência dos Irmãos a respeito da sua saúde e entrevistas com os cuidadores das comunidades de idosos.

Inicialmente, vale retomar Guimarães (2006), que utiliza o conceito de capital de saúde, elaborado por Grossman, para se referir ao estoque inicial de saúde herdado pelo indivíduo. Este capital engloba fatores genéticos, socioeconômicos e contextuais, podendo se depreciar com o tempo e ser aumentado mediante investimentos. Quer dizer, a carga genética pode sofrer alterações de acordo com o estilo de vida adotado pelo indivíduo, como expressa o Ir. Bonius sobre sua boa saúde aos 84 anos: “Graças a Deus, deve ser o DNA da gente... Também há muito de sorte na vida, né?” É provável que a vida religiosa consagrada tenha agregado “sorte” e investimentos à carga genética dos Irmãos, elevando o nível de sua saúde. Guimarães (2006, p. 86) confirma isso, ao relacionar capital de saúde e estilo de vida, e chama a atenção para a importância de não se restringir o conceito de estilo de vida apenas a indicadores biomédicos, uma vez que “lazer, socialização, religiosidade, estabilidade nas relações afetivas e cultura são investimentos bem recebidos”.

Podem-se relacionar essas considerações aos estudos de Veras (2006), para quem o cuidado com a saúde dos idosos tem a ver principalmente com a manutenção da autonomia e independência, e às observações do Nun Study. Partindo destas referências, seria esperado que o nível de funcionalidade entre os Irmãos idosos fosse acima da média da população, o que se confirma na pesquisa. Nenhum dos Irmãos pesquisados apresenta dificuldades de autonomia. Entre os 60 Irmãos idosos da Província, apenas 07 necessitam de cuidados médicos especializados; destes, 05 têm a funcionalidade comprometida.

Entre os Irmãos pesquisados, foi relatada a ocorrência das disfunções de saúde descritas no Gráfico 12.

Gráfico 12 – Doenças enfrentadas pelos Irmãos idosos

As doenças relatadas se referem ao período específico da terceira idade e não ao histórico de vida; são, em geral, passíveis de controle e, com os cuidados necessários, interferem pouco na funcionalidade do idoso, embora afetem o ritmo de vida porque exigem a adoção de práticas de controle. Os Irmãos que relataram essas doenças afirmam ter se adaptado a elas, apresentando reclamações referentes ao período de hospitalização e aos procedimentos de controle necessários. Provavelmente a disciplina cultivada ao longo da vida religiosa consagrada contribui para isso. E, no período atual, o suporte da instituição garante

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que eles disponham da infraestrutura necessária ao controle das doenças, inclusive para agilizar o atendimento médico, como em casos de infarto; garantir a continuidade de procedimentos de custo alto e duração demorada, como o controle às disfunções carcinogênicas; e monitoramento da medicação recomendada, seja pelo Irmão superior da comunidade ou pelos técnicos de enfermagem que atuam nas comunidades de idosos.

Nestas, há enfermeiras disponíveis em tempo integral, que cuidam daqueles que necessitam de acompanhamento especializado permanente, e médicos especialistas, que atendem periodicamente a todos os Irmãos. Esse suporte é eficiente na identificação precoce de alguma disfunção mais séria, além de oferecer conforto ao Irmão devido à familiaridade com o profissional da saúde. Por isso, Irmãos que necessitam de cuidados médicos constantes costumam ser transferidos para estas comunidades – e que, justamente por esta razão, são vistas com restrição por alguns deles. Esta visão negativa será abordada no Capítulo 7.

Em relação a aspectos cognitivos, são bem preservados entre os idosos pesquisados, mesmo porque as dificuldades de expressão verbal era um dos critérios de exclusão, o que não possibilitou a interação com Irmãos com funcionalidade afetada. Não houve dificuldade de responder às perguntas nas entrevistas, ainda que alguns divagassem a respeito do tema ou fizessem inferências e associações de forma bastante peculiar. Mesmo assim, nenhum apresentou dificuldade de compreensão das perguntas ou estabelecimento de conexões com o tema em questão. Dos Irmãos, somente um não preencheu os dados do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, argumentando que estava sem os óculos, mas o assinou; os outros todos preencheram o TCLE à mão, inclusive lembrando os endereços.

Ainda sobre questões de cognição, Yassuda (2006) identifica que, nos idosos, a memória semântica, relacionada à capacidade de registrar informações linguísticas, se mantém estável durante o envelhecimento, enquanto a memória episódica, ligada a informações sobre eventos recentes, costuma falhar. Entre os Irmãos, são facilmente lembrados datas, nomes de colegas do período de formação, professores, alunos, detalhes de eventos e fatos, citações de autores, episódios significativos... A construção das frases e o encadeamento de dados são fluentes.

Todos mencionaram a data exata em que ingressaram na congregação, mesmo tendo ocorrido, para alguns deles, há mais de 80 anos. O esquecimento é mais frequente quando os Irmãos são indagados a respeito de episódios ocorridos há pouco tempo, livros lidos recentemente, nomes de pessoas que trabalham nas casas ou mesmo de pessoas que convivem no seu dia a dia.

Discorrendo a respeito de cognição e disfunções cerebrais entre idosos, Guimarães (2006) utiliza a expressão “reserva cognitiva” para afirmar a importância de variáveis como educação, ocupação e capacidade de leitura para evitar o declínio da funcionalidade cognitiva. A reserva cognitiva é potencializada pela inteligência cristalizada. Na investigação com os Irmãos idosos, essa premissa é confirmada: as capacidades cognitivas relacionadas a aspectos biofisiológicos são afetadas, enquanto aquelas desenvolvidas por meio do acesso à educação e aos bens culturais se mantêm preservadas. Como a reserva cognitiva é maior, o declínio das operações mentais tende a se dar em ritmo mais lento. É provável que idosos que não adquiriram bagagem cultural semelhante apresentem maior limitação nesse tipo de habilidade cognitiva. Como a educação sempre fez parte do mundo desses idosos, é coerente que suas funções se mantenham acima da média, conforme as conclusões do Nun Study.