4. Allowable sea states using different fender models
4.2 Significant parameters in fender models
No primeiro capítulo do trabalho tivemos oportunidade de verificar que o jornalismo de investigação se diferencia do jornalismo quotidiano, entre outros aspetos, pelo tempo que exige para ser produzido. Pedro Coelho e Marisa Torres da Silva (2018) não têm dúvidas de que “o jornalismo de investigação constitui um género jornalístico exigente ao nível da sua execução e, na maioria das vezes, do seu financiamento e sustentabilidade” (p. 86).
A questão que se coloca neste ponto é então a de perceber se a produção de Grandes Reportagens Televisivas, género jornalístico que considerámos que melhor pode acolher esta vertente do jornalismo, é compatível com as necessidades de informação diária, numa época marcada pelo imediatismo e pela ubiquidade da informação. No fundo, procuramos compreender se existe tempo, no meio televisivo, para conteúdos que quebram com as lógicas de produção atuais, em que impera a quantidade e a rapidez na produção.
Um dos principais obstáculos que se coloca ao desenvolvimento de jornalismo de investigação e Grandes Reportagens no meio televisivo está relacionado com o imediatismo, entendido “como um conceito temporal que se refere ao espaço de tempo (dias, horas e segundos) que decorre entre o acontecimento e o momento em que a notícia é transmitida, dando existência a esse acontecimento” (Traquina, 2002, p. 147). Neste meio de comunicação, este conceito é muito valorizado, o direto, a rapidez com que se transmite uma notícia, é um dos pilares do jornalismo televisivo.
As técnicas modernas do audiovisual permitiram diminuir consideravelmente o lapso de tempo que separa a ocorrência de um acontecimento do instante da sua “exibição”. Nos
minutos posteriores a qualquer acontecimento, pouco importa onde, uma equipa de televisão pode chegar ao local (Jespers, 1998, p. 65).
O jornalismo televisivo está assim associado a este imediatismo que, na perspetiva de Jean- Jacques Jespers (1998) acaba por constituir uma das principais limitações do jornalismo televisivo, uma vez que é preciso avaliar de que forma assuntos mais complexos, que necessitam de investigação e tempo para serem produzidos, podem ser abordados por um meio de comunicação que preza a rapidez de processos.
Se é verdade que “a presença ubíqua de informação na sociedade contemporânea tem conduzido a uma rápida alteração de comportamentos” (Serra, Sá & Filho, 2015, p. 1), não só dos produtores, mas também dos recetores, a principal consequência da ubiquidade acaba por ser a perda de qualidade nos conteúdos. Nunca, como nos tempos que correm, se produziu tanta informação. Como lembra Julia Cagé, professora de Economia no Institut d’Études
Politiques de Paris (Sciences Po), e membro do Conselho de Administração da Agência France-
Presse, vivemos numa época de abundância informativa. “Os ecrãs invadiram as nossas vidas, e falamos a novilíngua no Twitter ou no Facebook, por SMS ou no Snapchat. Na hora do jornalismo digital, dos smartphones e das redes sociais, a informação está em toda a parte” (2016, p. 14). Mas para a autora do livro “Salvar os Media”, o tempo em que vivemos é também aquele em que os meios de comunicação enfrentam mais problemas. O paradoxo explica-se facilmente, se pensarmos na necessidade de publicação continua e incessante que acompanha a grande maioria dos meios de comunicação contemporâneos.
Os produtores de informação nunca foram tão numerosos como hoje em dia (...) Paradoxalmente, esses meios de comunicação nunca foram tão fracos. A receita anual combinada do conjunto dos jornais diários americanos é duas vezes inferior à do Google, cuja especialidade consiste em joeirar os conteúdos produzidos por outros. Cada “informação” é retomada até ao infinito; geralmente, de uma maneira idêntica. Sem sequer falarmos dos canais de informação em continuidade que despejam incessantemente as mesmas sequências de imagens, os jornais despendem uma crescente energia a publicar o mais depressa possível despachos de agências nos seus sítios na Internet, como se a capacidade de resposta no copia-e-cola tivesse mais importância do que a recolha de uma informação original (Cagé, 2016, p. 14).
Esta aposta na rapidez, que surge no contexto de uma lógica de concorrência, em que a informação passou a ser considerada como uma mercadoria, é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento de Grandes Reportagens, uma vez que estes conteúdos são pautados por um tempo que não é o do jornalismo atual. O valor de uma Grande Reportagem Televisiva não se pode medir em termos financeiros, desde logo porque não é visível nos números das audiências do dia seguinte. Neste contexto importa refletir sobre a possibilidade de se produzirem Grandes Reportagens “em tempos de escassez económica e de dúvida persistente sobre o futuro” (Coelho, 2015, p. 115).
A este propósito, Pedro Coelho, jornalista televisivo, professor universitário e investigador, lembra Pierre Bourdieu e o conceito de “mentalidade rating” (1926, p. 26), para realçar que apesar desta ser ainda a lógica que domina em muitas redações, nomeadamente do meio
televisivo, é impossível não ser “sensível às audiências massivas que produtos de grande informação insistentemente geram” (Coelho, 2015, p.115). Apesar de num tempo e num espaço quase sempre distintos do ritmo diário, a verdade é que existe lugar para os conteúdos de qualidade na era do imediatismo e o lucro que estes produzem, apesar de não ser financeiro é muitas vezes social (Coelho & Silva, 2018).
No entanto, a ubiquidade informativa, e sobretudo o imediatismo que caracteriza o meio televisivo, coloca grandes desafios ao desenvolvimento de Grandes Reportagens Televisivas. Numa época em que o número de jornalistas por meio de comunicação continua a diminuir, disponibilizar recursos para realizar trabalhos que podem levar a meses de recolha e tratamento de informação, pode ameaçar o equilíbrio e a estabilidade de uma redação. O baixo valor que alguns profissionais ainda atribuem a estes trabalhos de fundo, contribui para a redução de recursos que são colocados ao dispor dos jornalistas que decidem investigar e não aceitar apenas o que lhes é dito pelas fontes oficiais.
Neste sentido, o imediatismo televisivo pode constituir uma efetiva ameaça para a produção de Grandes Reportagens Televisivas, se não existirem profissionais capazes de produzir outro tipo de conteúdos para além daqueles que têm como único objetivo alimentar as massas, famintas pelo fast-food informativo. A falta de profissionais constitui um perigo real, mesmo para aqueles que acreditam que as máquinas podem resolver os problemas do jornalismo.
Claro que poderemos sempre sonhar com o advento dos “robôs jornalistas”, já utilizados nos Estados Unidos para redigir um balanço de empresa ou uns anúncios de casamento. Mas esses “jornalistas” agem à maneira de agregadores: alimentam-se da informação produzida alhures e por outros na Internet. Recorde-se, pois, uma evidência: sem jornalistas, não há informação (Cagé, 2016, p. 51).
Apesar das ameaças que a produção incessante e o consumo veloz colocam ao jornalismo de investigação e às Grandes Reportagens Televisivas, continua a existir tempo e espaço para estes conteúdos, que constituem já uma marca de determinados órgãos de comunicação.
De facto, produtos informativos, habitualmente apresentados em formato de grande reportagem, são demonstrativos de que a qualidade gera audiência. A marca grande reportagem, continuadora da melhor tradição da RTP da década de 80 do século passado, mas de que o canal público acabaria por prescindir com o advento das televisões privadas, está, editorialmente, associada à SIC desde os primeiros anos de emissão. A grande reportagem resistiu, apesar dos efeitos diretos do mercado e da necessidade de adaptar os conteúdos jornalísticos à sua lógica aniquiladora do jornalismo de qualidade. De facto, as audiências aderem a conteúdos jornalísticos mais trabalhados, valorizando, sobretudo, a investigação jornalística (Coelho, 2015, pp. 115-116).
Se existem meios que continuam a apostar nas Grandes Reportagens e no jornalismo de investigação, para quebrar definitivamente com as lógicas do imediatismo televisivo, é preciso também que o papel dos profissionais que desenvolvem esses trabalhos seja reconhecido. Micael Pereira, jornalista do semanário Expresso, revelou, numa entrevista à revista Jornalismo & Jornalistas, que “as pessoas têm um quase total desconhecimento sobre a profissão e muitas vezes têm má impressão dos jornalistas, acham que as notícias nos caem no colo”. O profissional
defende por isso que é “importante mostrar que o jornalista se esforçou, deu tudo, investiu muito tempo, bateu a muitas portas... Mostrar a forma séria como tentamos chegar à verdade contribui para a nossa credibilidade” (2016, p. 14).
Neste ponto procurámos realçar que a produção de trabalhos de Grande Reportagem enfrenta alguns desafios em virtude de vivermos hoje numa época em que a informação está em todo o lado, em que produtores e consumidores se misturam, e em que predominam lógicas de publicação rápida e de consumo ainda mais rápido. Apesar das ameaças, continua a existir espaço para as Grandes Reportagens Televisivas, sobretudo se os gestores dos meios de comunicação e os jornalistas forem capaz de superar uma visão economicista dos media, ou seja, se não considerarem apenas os lucros financeiros, mas acreditarem também nos lucros sociais. Neste processo, tão importante como mudar a mentalidade dos profissionais dos media é mudar a forma como o público consome informação e valoriza a informação que consome.