6. Operability analysis
6.2 General procedures of operability analysis
A capacidade que as Grandes Reportagens Televisivas têm de influenciar a agenda mediática é importante para os jornalistas, como verificámos, mas será que o sucesso destes trabalhos jornalísticos se mede apenas em função dessa influência? A visibilidade, a repercussão e impacto na vida (praça) pública de um trabalho jornalístico são dimensões fundamentais ou secundárias quando falamos do objetivo final da investigação jornalística?
Rolando Santos (TVI) começa por considerar que existem dois critérios para determinar os efeitos das Grandes Reportagens em termos da visibilidade e repercussão na vida (praça
pública). O jornalista destaca os conceitos de “audiências” e “impacto”, sendo as audiências consideradas como o resultado mais imediato, e o “impacto” como algo que é mais diluído no tempo. Assim, o impacto imediato é aquele que se verifica no próprio dia em que a Grande Reportagem vai para o ar, ou no dia seguinte, enquanto o impacto diluído ou de médio prazo diz respeito à reação pública em função do conteúdo exposto. Este impacto não implica que o trabalho seja muito visualizado, uma vez que o importante é que provoque um “efeito prolongado no tempo”, ao tocar em determinados aspetos ou permanecendo na memória das pessoas.
Alexandra Borges (TVI) revela que as melhores reportagens que já realizou, e que marcaram a agenda política do país, foram importantes porque eram temas necessários, que interessavam às pessoas. Paulo Salvador e Carlos Rico consideram que estes são os efeitos desejáveis. Diana Matias considera também que esta é uma forma de medir a importância de uma Grande Reportagem, pois se for possível fazer as pessoas refletirem sobre um determinado assunto, guiá-las em relação a uma causa e incentivar o pensamento crítico, o jornalista está a cumprir a sua função.
Jacinto Godinho, por sua vez, realça que infelizmente é através desses efeitos que se mede a importância das Grandes Reportagens Televisivas. Para o jornalista da RTP, o que impera é a linha mediática, sendo essa linha responsável por organizar toda a nossa experiência e “toda a nossa experiência está estruturada entre a visibilidade e a invisibilidade”. Para o profissional, tudo o que seja objeto de discussão passa pelas redes sociais e só existe visibilidade quando isso acontece. Na televisão, as promoções feitas, não chegam nem a 90% da visibilidade que existe nas redes sociais, pelo que Jacinto Godinho considera que não pode existir repercussão, nem debate, nem impacto, se os conteúdos não passarem pelas redes sociais.
Já Pedro Coelho espelhou a sua frustração em relação às Grandes Reportagens que produz, porque considera que as suas reportagens não têm grande repercussão, com exceção de duas que considera terem tido grande impacto. O jornalista lamenta que não ponha as pessoas a falar como por exemplo as jornalistas Ana Leal e Alexandra Borges conseguem. Apesar de não existirem repercussões em termos políticos ou legais, a verdade é que as pessoas debatem os temas que elas expõem. Nesse sentido, Pedro Coelho prefere pensar que independentemente destes efeitos, o seu contrato com o público, com a verdade, está a ser cumprido. Como jornalista proporciona às pessoas a verdade sobre os assuntos que trabalha e depois cabe a cada uma dessas pessoas reagirem a essa verdade da forma que quiserem.
Luís Loureiro, por outro lado, não considera que a repercussão pública seja um sinónimo obrigatório da relevância de um trabalho. O jornalista entende que só por se poder exercer a função de vigilância sobre determinado assunto, sobre determinada entidade, essa possibilidade por si só já é relevante. “A relevância social não é métrica”, defende o jornalista da RTP, não sendo por isso obrigatório que exista impacto social em todos os conteúdos
produzidos. O jornalista dá o exemplo do caso “Watergate”, em que os jornalistas publicaram diversas notícias sobre o caso, mas que no início não existia impacto social, no entanto, esse trabalho foi importante e acabou por fazer cair um Presidente dos Estados Unidos. Nesse sentido, o jornalista da RTP considera que se pode andar anos a investigar um mesmo assunto, numa determinada época não tem grande impacto, mas que de um momento para o outro pode surgir uma pista ou um detalhe que acabe por contribuir para uma grande repercussão, fazendo “alterar a nossa perceção social sobre determinado assunto”.
José António Pereira (RTP) defende que o jornalista não deve realizar peças televisivas tendo em vista as audiências, porque elas não significam necessariamente que exista interesse público.
Neste ponto procurámos também perceber se os jornalistas consideram que o objetivo final da investigação jornalística, neste caso apresentada sob forma de uma Grande Reportagem Televisiva deve ser o de informar o público sobre as irregularidades públicas ou privadas, políticas, económicas e sociais. Os nove entrevistados concordaram que as investigações jornalísticas devem informar o público sobre as irregularidades, no entanto, consideraram também que esse objetivo é redutor e que existem outras funções que é preciso destacar. Carlos Rico (SIC) e Rolando Santos (TVI) salientam que este não deve ser o único objetivo, mas que é primordial na atividade jornalística e a sua vertente mais nobre. Alexandra Borges (TVI), José António Pereira (RTP) e Pedro Coelho (SIC) também concordam que este objetivo existe e Pedro Coelho destaca que ele existe mesmo que não tenha efeito, sendo que isso é o que tem acontecido ultimamente. Paulo Salvador (TVI) concorda que este é o objetivo, mas que não é só na investigação jornalística, mas em todos os temas, sejam irregularidades, injustiças ou só as pessoas.
Luís Loureiro começa por destacar que o jornalismo de investigação não é mais “contrapoder” do que os outros tipos de jornalismo. “Deve constituir-se como forma de vigilância”. Os jornalistas assumem-se como intermediários da sociedade que representam e têm a função de escrutinar os poderes. Para que uma sociedade seja democrática é imprescindível que uma verificação constante de tomada de decisões seja efetuada, é essa a função do jornalismo, seja a nível do poder político, judicial ou económico. Só assim, durante os 4 anos em que se escolhe determinado Governo, se vive democraticamente, quando existe alguém que assume a função de vigilante desses poderes. É este o papel do jornalismo e o futuro do mesmo, uma vez que só os jornalistas conseguem cumprir esta função de manter uma sociedade democrática ao exercer esta função de vigilância.
Jacinto Godinho concorda que um dos principais objetivos do jornalismo é o de ser mediador, dando voz “a quem não tem voz”. Deve assumir-se como o “porta voz dos invisíveis” e de quem não consegue expor os seus problemas de forma direta. Na sua opinião, quando não existe este
papel de contestação e pressão, é mais fácil que exista abuso por parte das entidades que deveriam ser vigiadas. É esse o papel do jornalista, o de manter o equilíbrio da sociedade. Já Diana Matias considera este “objetivo redutor”, uma vez que o jornalismo não se deve limitar a denunciar, mas também se deve considerar a transmissão de conhecimentos ao espectador como um objetivo desta produção de conteúdos. Dar as ferramentas aos espectadores para os sensibilizar para determinados temas sociais é a missão do jornalismo, defende a jornalista da SIC.