5. Application and analysis of motion control system
5.4 Motion control system
5.4.5 Different lift-off timings respect to relative motion
No contexto do trabalho que desenvolvem nas redações televisivas, procurámos perceber como escolhem os jornalistas as temáticas para serem abordadas nas Grandes Reportagens, indagando desde logo se a agenda mediática influencia esse processo.
Dos nove jornalistas entrevistados, apenas um (José António Pereira) afirma não sentir essa preocupação da escolha do tema, mas realça que os espectadores aumentam quando uma investigação relevante é colocada no ar. Os restantes entrevistados demonstraram que existe uma preocupação na seleção dos temas, tendo em conta que essa escolha pode captar a atenção de mais ou menos espectadores.
Pedro Coelho (SIC), Rolando Santos (TVI), Diana Matias (SIC) e Paulo Salvador (TVI) realçam que as televisões onde trabalham como um fator que faz com que esta preocupação exista, isto é, são canais comerciais, funcionam como empresas, e nesse sentido tem que existir preocupação com as audiências. A lógica que existe associada ao negócio faz parte dos meios para os quais trabalham. No entanto, os jornalistas também revelam que se fazem trabalhos considerados importantes e relevantes para a sociedade, mesmo que estes não garantam audiências. Paulo Salvador destaca que apesar desta preocupação, “há temas que se impõem por si mesmos”, dado que o jornalismo é pautado pela atualidade, mas que também é imprescindível refletir sobre o impacto que determinada história pode ter. Pedro Coelho chama a atenção para a importância de distinguir “público” de “audiência”, ressaltando que prefere ter público (que vai interagir de acordo com o conteúdo) do que audiência (que só consome o conteúdo). O jornalista da SIC revela que se fazem trabalhos que se sabe claramente que não são para as massas. Diana Matias acredita que se procuram trabalhar temas que inquietem as pessoas, que as preocupem, existindo por isso espaço para denunciar “temas fora do radar”, mas que também são relevantes a um nível mais geral. A coordenadora do programa “Alexandra Borges” realça que “sem público não há informação que sobreviva”, mas para além disso há sempre a preocupação de tratar temas relevantes para a sociedade.
Luís Loureiro e Jacinto Godinho, à semelhança de José António Pereira, trabalham na RTP, um canal público. Nesse sentido, os três jornalistas afirmam que dentro do canal televisivo onde trabalham não sentem tanto essa preocupação por se tratar de um serviço público. Contudo, Luís Loureiro concorda que existe a preocupação de entender “o impacto social” das histórias. O jornalista acrescenta ainda que dentro desse impacto social “há a expectativa de uma audiência”. Já Jacinto Godinho acredita que é preciso “encontrar histórias do ponto de vista
do interesse público, mas que ao mesmo tempo captem a atenção dos espectadores”, salientando ainda que esta atenção dos espectadores está muito circunscrita a determinados temas, sendo o papel da Grande Reportagem “fugir dessa limitação e abrir espaço para temas diferentes”.
Por fim, José António Pereira (RTP), apesar de não ter essa preocupação no órgão de comunicação em que trabalha, afirma que é natural que se uma investigação abordar determinados aspetos exista mais audiência, “porque à partida esse assunto tem influência direta na vida de mais gente”.
Já quanto à possibilidade de os jornalistas proporem temas para serem trabalhados no âmbito das Grandes Reportagens, Pedro Coelho (SIC), Paulo Salvador (TVI) e Alexandra Borges (TVI) destacam que existe liberdade para a apresentação de propostas de temas. O jornalista da SIC realça que sempre que vai tendo novas histórias as propõe, como foi o caso da reportagem “Más Ações” (que lhe chegou por denúncia e depois de um trabalho de pesquisa e investigação prévia ter sido elaborado) o tema foi aceite e avançou.
José António Pereira (RTP) realça que existem temas do dia-a-dia que podem ser aprofundados e dar origem a trabalhos de fundo. Diana Matias (SIC) salienta que a Grande Reportagem representa o tempo e o espaço ideais para que se explorem temas fora da agenda, uma vez que se trata de um subgénero da reportagem que permite uma abordagem mais profunda do que a do jornalismo do dia-a-dia. Carlos Rico (SIC), apesar de concordar que existe liberdade para tratar temas que “saem fora da agenda”, lembra também os trabalhos que fazem parte da agenda mediática e aos quais os jornalistas procuram “acrescentar valor e reflexão”.
Procurámos também perceber se os jornalistas consideram que uma determinada Grande Reportagem pode, depois de ser emitida, condicionar ou influenciar a agenda da estação televisiva, alterando-a de alguma forma. Oito dos nove jornalistas entrevistados concordaram que isso pode acontecer, na medida em que podem levar as pessoas a debater o tema/assunto em programas fora dos noticiários. No entanto, Carlos Rico, jornalista na SIC, não considera que se trata de um condicionalismo, mas sim de uma oportunidade, uma vez que pode dar origem a que outros conteúdos sejam tratados em função de uma determinada reportagem. Alexandra Borges (TVI) acredita que as Grandes Reportagens podem marcar as agendas políticas e Rolando Santos (TVI) considera que depois da Grande Reportagem existe um “conjunto de produtos que a seguem”, ou seja, deixa de ser só um trabalho jornalístico para passar a ser “todo um conjunto de coisas que mobiliza a estação televisiva”, através de entrevistas, follow
ups e debates, por exemplo. Rolando Santos e Alexandra Borges consideram ainda que as
reportagens podem mesmo marcar as agendas das outras estações televisivas. O jornalista da TVI dá o exemplo do caso “Casa pia”, onde um órgão de comunicação começou por abordar o tema e os restantes meios de comunicação acabaram também por fazer peças sobre o assunto.
Jacinto Godinho acredita que isso pode acontecer se as Grandes Reportagens tiverem impacto e com isso visibilidade. É natural, defende o jornalista da RTP, que temas que saem fora da caixa ou fora da agenda possam ter impacto, desde que sejam bem tratados e estruturados. Paulo Salvador salienta ainda que uma Grande Reportagem que tenha impacto “é potenciada pela estação em vários espaços televisivos da grelha de informação”. O jornalista da TVI dá o exemplo de uma Grande Reportagem que realizou em 2017, sobre o “Telmo”, em que o impacto foi tão grande que o rapaz foi a vários programas e passado um ano a TVI realizou outra reportagem para perceber o que tinha mudado na vida do jovem.
Luís Loureiro (RTP) considera que esses são os “ecos” das Grandes Reportagens e que só com eles é que o trabalho de Grande Reportagem faz sentido. Diana Matias (SIC) confessa que é comum que muitas reportagens deem origem “a debates que promovem a reflexão sobre o tema abordado” e que podem também dar origem a outras reportagens. Pedro Coelho partilha da mesma opinião e dá o exemplo da reportagem que fez sobre bancos, que condicionou a sua agenda por 5 anos, uma vez que fez cerca de 6 grandes reportagens sobre essa mesma temática, porque a partir de um tema, surgiram outras ideias e mais pistas para investigar e casos para expor. O jornalista da SIC revela que as pessoas já sabiam que ele era o “tipo dos bancos” e vinham falar com ele sobre o assunto. José António Pereira (RTP) não considera que se condicione a agenda televisiva, mas que existe sim uma influência, dado que uma determinada reportagem pode pedir uma reação por parte da entidade/pessoa afetada e, nesse sentido, a “própria agenda pode avançar em função” desse primeiro trabalho.
Carlos Rico, que não considera que as Grandes Reportagens Televisivas possam condicionar a agenda das estações televisivas, defende que dado o seu impacto, os trabalhos podem “ganhar uma relevância que transcende a própria reportagem, originando debates dentro e fora da estação”. O jornalista conclui que existem casos em que determinada reportagem acaba por levar ao pronunciamento de órgãos políticos, processos nos tribunais e até mesmo resultar em demissões por parte da pessoa visada na investigação.