3. Criteria for the lift-off operation
3.3 Method to assess allowable sea states
Depois da imprensa e da rádio, a televisão foi talvez o meio que mais alterações trouxe para o campo jornalístico. Através da imagem, mas também do direto e do imediatismo que lhe está inerente, o jornalismo transformou-se, ao mesmo tempo que as pessoas passaram a “poder ver o mundo” sem sair das suas casas. Os métodos, formatos e características que tornam o meio televisivo tão particular, não surgiram de repente, mas de forma gradual, à medida que se ia descobrindo o potencial deste meio de comunicação.
As evoluções da linguagem, dos géneros e formatos, ocorreram juntamente com as transformações tecnológicas no setor. Os primeiros programas telejornalísticos apresentavam as notícias lidas pelos apresentadores no estúdio, cuja predominância era a dos textos informativos, principalmente as chamadas notas simples, um formato em que o apresentador lê a notícia sem a inserção de imagens complementares. Logo, os realizadores começaram a perceber o potencial das imagens (estáticas e dinâmicas) e surgiram as notas cobertas, em que as notícias eram lidas pelo apresentador sobre imagens referentes ao fato (Spinelli, 2012, p. 2).
A evolução do meio televisivo, nomeadamente no que diz respeito à informação, foi também mostrando que o tempo era determinante na forma como os assuntos podiam ser expostos, de acordo com a sua relevância e importância. Neste sentido, depressa se percebeu que “mais ainda do que num jornal, na televisão não se pode mostrar tudo o que se pretende, pois tem tempo ilimitado, que é muito mais valioso do que o do jornal” (Sena, 2013, p. 30). A importância da gestão do tempo é um dos aspetos fundamentais no contexto do jornalismo de investigação, como já tivemos oportunidade de verificar, mas é também determinante para se perceber porque defendemos que nem todos os géneros têm capacidade de acolher esta vertente do jornalismo.
Neste sentido, importa considerar que existem diferentes géneros jornalísticos, mas que a sua capacidade de renovação e adaptação torna muitas vezes difícil a sua definição (Bertocchi, 2005), sobretudo no que diz respeito ao meio televisivo. É através de uma observação dos primeiros meios de comunicação, a imprensa e a rádio, que encontramos os principais géneros jornalísticos (a notícia, a crónica, a reportagem os artigos de opinião), que viriam também a ser adaptados pelo meio televisivo. Podemos assim considerar que os géneros surgem, no âmbito do jornalismo, como uma ferramenta “para facilitar o processo comunicativo” (Bertocchi, 2005, p. 1293). Para Melo e Assis (2016), isso “significa que os géneros devem ser considerados como artifícios instrumentais que auxiliam a indústria mediática a produzir conteúdos, consistentes e eficazes, em sintonia com as expectativas da audiência” (p. 45). Os géneros serviriam assim para ajudar o público, que em função de um determinado género, já saberia o tipo de conteúdo com que poderia contar.
De acordo com Bertocchi (2005), autores como Chaparro (1999), Albertos (1992), Casasús (1991), entre muitos outros, abordam a temática dos géneros jornalísticos, categorizando-os em diferentes grupos. Já na perspetiva de Melo & Assis (2016), é através dos estudos de autores como Wright (1968) e Lasswell (1987) que melhor podemos compreender as diferenças entre os géneros jornalísticos. Importa, no entanto, considerar que “a comunicação jornalística em televisão não é uniforme. Os diferentes produtos socorrem-se de técnicas e efeitos muito diversos para fazerem passar a mensagem e alcançarem os seus objetivos: serem vistos, ouvidos e entendidos pelo maior número possível de pessoas” (Oliveira, 2007, p. 9). No meio televisivo são, portanto, “as diferentes formas de exprimir a linguagem jornalística e televisiva” que constituem os géneros jornalísticos, que no fundo são “formas de enriquecer a comunicação, combatendo a monotonia formal e melhorando o ritmo dos produtos televisivos” (ibidem). Apesar de diferentes autores apresentarem diferentes definições dos géneros jornalísticos, neste trabalho destacamos os estudos de Jean-Jacques Jespers (1998) que classifica os géneros jornalísticos que se enquadram especificamente no jornalismo televisivo. O autor fala de jornalismos televisivos para se referir aos conteúdos informativos que são produzidos na televisão. Jespers refere em particular “o jornal televisivo”; “a entrevista”; “o debate”; “o telejornal”; “os magazines”; “o talk-show”; “a reportagem” e “a série”, como os principais
“jornalismos televisivos”, aquilo que entende como os géneros jornalísticos daquele que é o próprio jornalismo televisivo.
Jorge Nuno Oliveira (2007) também considera como principais géneros jornalísticos televisivos a “peça de telejornal”, a “reportagem de telejornal”, o “documentário ou grande reportagem”, a “entrevista”, “o debate” e a “apresentação. Para o autor o que une os diferentes géneros é o facto de todos serem “formas de comunicação jornalística e o facto de serem emitidos em televisão”, sendo que eles se distinguem pela duração, formato, linguagem televisiva e linguagem jornalística (2007, pp. 9-10).
Neste ponto destacamos precisamente um destes géneros, aquele que muitos continuam a considerar “o género nobre do jornalismo”, a reportagem. No contexto do jornalismo de investigação e considerando o meio televisivo, importa realçar que o nosso objeto central de estudo não é a “reportagem ou peça de telejornal” também chamada de “reportagem de curta duração”, mas antes a “Grande Reportagem”, de acordo com a classificação de Oliveira (2017, p. 11), ou seja, o nosso objeto de estudo são os trabalhos de longa duração, centrados em temas de fôlego e assentes na profundidade do tratamento jornalístico.
No entanto, para percebermos a importância que a Grande Reportagem tem hoje no jornalismo televisivo, devemos considerar, ainda que de forma sucinta, o desenvolvimento da “reportagem de telejornal ou de curta duração”. A reportagem é o género informativo mais comum na produção de noticiários, sendo quase sempre a primeira opção dos jornalistas televisivos.
Na reportagem informativa os fatos são organizados de maneira linear por meio de elementos da linguagem audiovisual - offs, passagens e sonoras - com o intuito de fazer com que o espectador entenda perfeitamente as informações transmitidas, de uma maneira didática, imparcial e objetiva, que faz com que não haja nenhuma dúvida ou indagação sobre os eventos transcorridos na tela (Spinelli, 2012, p. 3).
Importa também lembrar que a reportagem tem um carácter híbrido, uma vez que “enquanto género jornalístico, atravessa um campo que é muitas vezes povoado por outras modalidades de discurso, nem sempre de carácter exclusivamente jornalístico” (Neves, 2007, p. 19). É por isso que por vezes é difícil definir este género, pela permeabilidade que apresenta. Apesar de existirem defensores de que as reportagens podem apresentar uma vertente mais subjetiva, na prática, e apesar de existir liberdade na produção dos textos para a voz-off, essa situação raramente se verifica. No jornalismo televisivo, o texto acompanha as imagens e a tendência é que se justifique o conteúdo apresentado através de testemunhos dos entrevistados, o que vai tornar o conteúdo mais direto e objetivo.
Esta dicotomia entre o objetivo e o subjetivo na reportagem surge do seu caráter híbrido, mas também da sua vertente mais literária, mais característica da imprensa. Há medida que se foram conhecendo outras formas de desenvolver trabalhos jornalísticos, adaptaram-se técnicas e surgiram novos géneros de jornalismo. A reportagem televisiva também se foi transformando.
Num artigo sobre a realização de reportagens no contexto do jornalismo de proximidade, Tatiana Melo e Telmo Silva, realçam as mudanças que se verificaram na produção das reportagens televisivas no contexto nacional.
No caso da reportagem televisiva e no contexto português, esta surgiu com o aparecimento da RTP. Porém, com técnicas bastante distintas das atuais, nomeadamente o facto de só o operador de câmara se dirigir ao local, ficando o jornalista na redação (Melo & Silva, 2016, pp. 93-94).
Percebe-se assim melhor a necessidade de definir a reportagem enquanto género jornalístico, destacando as suas principais caraterísticas, mas também os diferentes formatos que podem surgir a partir desta. Por outro lado, é também importante descrever o crescimento que a reportagem teve no panorama televisivo e de que forma contribuiu para a evolução do próprio jornalismo. No início, como Melo e Silva (2016) realçam, a produção de uma reportagem televisiva era distinta daquela que se verifica na atualidade. Segundo Cárlida Emerim (2010), o processo de produção era lento, as imagens demoravam a chegar à redação e as peças eram realizadas perto do horário dos telejornais.
A evolução tecnológica alterou grande parte do processo, permitindo uma melhoria das condições técnicas de produção das reportagens. Apercebendo-se do valor que as reportagens podiam ter, ao “oferecerem ao público uma visão diferente de determinado acontecimento” (Melo & Silva, 2016, p. 94), as reportagens passaram a ser consideradas como um dos conteúdos jornalísticos mais importantes. Os repórteres de imagem passaram a fazer-se acompanhar dos jornalistas no trabalho de campo, e muitas vezes o processo envolvia mesmo uma terceira pessoa, o editor de imagem, responsável pelo processo de pós-produção da reportagem. Este tipo de “reportagens de curta duração”, também chamadas de “peças de telejornal” ou “peças televisivas”, trata-se de trabalhos curtos, com duração entre os 1’20 e os 1’50, e cujo tratamento de caracteriza pela condensação da informação, cingindo-se à partilha dos detalhes mais relevantes e pertinentes de um acontecimento. Esta seleção de informação, bem como o tratamento jornalístico, podem variar em função dos jornalistas e de critérios editoriais.
No processo de expansão do facto, a reportagem pode aprofundar-se mais ou menos, de acordo com a estratégia editorial, a qual passa por diversos filtros, e a competência do jornalista, ao investigar e narrar os fatos de diversas naturezas e implicações na sociedade (Santos, 2009, p. 25).
A falta de profundidade no tratamento jornalístico é um dos principais aspetos que caracteriza este género jornalístico, mas é também esta dimensão que abre espaço para que se desenvolvam trabalhos através de outros géneros jornalísticos. Neste contexto, de acordo com a classificação de Jespers (1998) é preciso considerar que existem quatro variações ou sub- géneros da reportagem: “a reportagem de atualidade”, “a Grande Reportagem”, “o inquérito” e “o documentário de criação”. A “reportagem de atualidade” engloba “os acontecimentos que acabam de se produzir e a propósito dos quais não se dispõe de muito tempo. Daí a dificuldade
de manter uma abordagem crítica” (Jespers, 1998, p. 167). Consideram-se como “reportagens de atualidade” as peças jornalísticas que compõem os noticiários do dia-a-dia. A “Grande Reportagem”, por sua vez, “consiste na composição sob forma de um vídeo ou de um filme, de uma série de informações respeitantes a um acontecimento particular, da atualidade, ou a um fenómeno particular da sociedade, numa mensagem real de certa duração” (Jespers, 1998, p. 168). Já o “inquérito” “é uma reportagem explicativa ou de investigação que sintetiza numa mensagem real compósita uma mensagem virtual relativamente complexa sobre um assunto de interesse público” (Jespers, 1998, p. 172). Por fim, Jean Jespers (1998, p. 175) caracteriza o “documentário de criação” como “mensagem real elaborada segundo uma visão única, original, pessoal sobre a realidade. Trata-se de uma obra de autor”.
Existem diferenças entre as quatro vertentes da reportagem, mas no contexto deste trabalho para além da distinção entre “reportagem de atualidade” e “Grande Reportagem”, importa também realçar as diferenças entre o género que é o nosso objeto de estudo e aquele que mais se aproxima, o “Documentário”.
Um dos elementos chave que diferencia o documentário das reportagens telejornalísticas é o papel do repórter na constituição da informação. O repórter, como o próprio nome diz, é o núcleo fundamental da reportagem. Não existe reportagem sem repórter. Já no caso do documentário, pode até existir uma pessoa ou mais na condução da história, porém o modo como ela aparece no vídeo não precisa apresentar os princípios de imparcialidade e objetividade jornalísticas. Diferente dos documentários em que a importância de um olhar reflexivo e autoral sobre determinados problemas da sociedade costuma ser o fio condutor de uma narrativa, que tem como meta uma maior conscientização e aprofundamento do que é mostrado, a reportagem prioriza a informação (Spinelli, 2012, p. 3).
Nesse sentido, as Grandes Reportagens surgem como o género jornalístico que vem suprir a necessidade de aprofundamento da informação, além de darem espaço para a criatividade, uma vez que se podem abordar temas que não fazem parte da agenda noticiosa diária. “A grande reportagem opera segundo o método da sinédoque: mostra e faz sobressair um caso, uma situação, um problema particular, com o objetivo de dar a conhecer uma situação” (Jespers, 1998, p. 168).
Jean-Jacques Jespers (1998) caracteriza a Grande Reportagem como tópica ou intensiva. Tópica quando “concentra a atenção sobre uma situação, um fenómeno ou um acontecimento determinado”, e intensiva, quando “trata os assuntos em profundidade e aborda várias facetas” (Jespers, 1998, p. 168). Na televisão, a Grande Reportagem assume uma postura discursiva distinta daquela que existe nos restantes meios de comunicação, pois engloba imagem, voz-off e sonorização. Assim sendo, é fundamental que se entendam as caraterísticas e funções deste género jornalístico.
A Grande Reportagem surge, geralmente, associada ao formato de um conteúdo jornalístico que contém entre 20 a 30 minutos, contudo, não é só através desse formato que ela se pode apresentar, uma vez que há espaço para aprofundar o tema em investigação, elas surgem muitas vezes em espaços autónomos, em programas dedicados, fugindo assim ao
constrangimentos dos noticiários. Em suma, a Grande Reportagem Televisiva pode surgir no meio televisivo em dois momentos e espaços: em especiais depois dos noticiários, como uma espécie de extra; ou em programas dedicados essencialmente ao jornalismo de investigação, onde se pretendem expor assuntos que fogem à agenda do noticiário.
Nesse sentido, Jespers (1998, p. 169) destaca que “o fio condutor da grande reportagem deve permitir abordar o maior número possível de aspetos da situação ou do fenómeno do qual se quer dar conta”. Nesse sentido, o autor recorda que existe sempre um elemento chave a partir do qual se desenvolve toda a história. Esse elemento central representa algo e/ou um grupo específico, uma vez que o objetivo é que o espectador se sinta representado quando assiste ao trabalho jornalístico.
Assim, as Grandes Reportagens têm como função apresentar determinada realidade, criando uma relação de empatia com o telespectador, o que vai conduzir a que este perspetive a realidade de acordo com o que lhe é transmitido. Essa relação vai ser guiada pelo jornalista, no seu sentido de profissional com “responsabilidade social” no relato dos assuntos e temas de interesse público. Nesse sentido, o jornalista “deve ser o responsável pelos seus atos profissionais, enquanto confidente do serviço público de informar” (Miranda, 2018, p. 7)
A Grande Reportagem, para além de ter a particularidade de ter uma maior dimensão temporal, era (e continua a ser na atualidade) um género explorado por jornalistas mais experientes, que sejam capazes de prosseguir com investigações (…) A Grande Reportagem procurou sempre “mexer” com o espectador, trazendo ao de cima temas de interesse público, muitas vezes polémicos (Moreira, 2017, p. 27).
Nesse sentido, são as caraterísticas especificas do jornalismo televisivo que fazem da Grande Reportagem o género que melhor pode servir o jornalismo de investigação, uma vez que confere ao espectador a possibilidade de, mais do que simplesmente conhecer os factos através da leitura ou do relato jornalístico, assistir a um determinado acontecimento.
A narrativa sempre se mobilizou a partir da capacidade de as palavras estarem no lugar das imagens. Não para as substituírem, mas para as apresentarem fantasticamente na imaginação. Esse aparecer na imaginação não anulava, no entanto, o desejo de ver, desejo de concretizar o tesouro de imagens por detrás da narrativa oral (Godinho, 2011, p.64).
Assim, é possível verificar que na Grande Reportagem a voz e a imagem têm papéis distintos, mas que convergem entre si, complementando-se. Se, por um lado, as imagens dão ao leitor a sensação de continuidade, uma vez que estão associadas ao que Godinho (2011) entende como “object a” de Lacan (1973) (que se refere aquilo que move o desejo, colocando-o em constante presença na audiência), por outro, as palavras empregam significado ao que está a ser visualizado.
Desta forma, se uma imagem funciona como fonte de desejo para o espetador, que ao ver determinada sequência de imagens, mantém a atenção para perceber o que vai acontecer a seguir, encontramos aqui uma das principais potencialidades da televisão: cativar o espetador
através da imagem. Nesse sentido, é possível entender que o que motiva a escolha deste género em particular para o desenvolvimento de trabalhos de jornalismo de investigação.
A Grande Reportagem é precisamente o género jornalístico que destacamos neste trabalho por entendermos que é aquele que melhor pode acolher as exigências do jornalismo de investigação, não apenas ao “nível da execução”, mas também “do financiamento e sustentabilidade” (Coelho & Silva, 2018, p. 86). No ponto seguinte destacamos precisamente a importância de continuar a apostar neste género jornalístico, sobretudo num tempo que é o do imediatismo televisivo. Perante “a imposição do imediatamente visível e a dependência absoluta de conteúdos visuais que remetam para uma construção da realidade a partir da aparência e do sensível” (Sá, 2019, p. 30), urge pensar em conteúdos que apostem na qualidade e no tratamento aprofundado dos temas, sem que se caia “na banalização do extraordinário e na apresentação da generalidade dos temas em contexto de exagero a partir de um apelo constante à dramatização” ((Sá, 2019, p. 30).