4 Gender and culture
4.9 Sexual harassment
3.1. Determinismo ou liberdade
Num resumo bastante simplificado, poderíamos dizer que temos uma realidade objetiva movente tanto quanto uma realidade subjetiva também movente e representações em geral estáticas desses movimentos efetuadas pela inteligência. A inteligência, operando como que num tabuleiro, simula o movimento percebido na realidade numa mudança de um cenário a outro através de imobilidades que se sucedem, formando quadros acabados onde o movimento que permitiu a passagem de um quadro a outro é geralmente desprezado. A inteligência, ao efetuar essas simulações, transpõe os dados calculados no quadro para a realidade e vice-versa e assim vai aperfeiçoando seu quadro até que ele tenha sua conformação mais afinada com os movimentos que lhe correspondem. Faz isso até chegar ao ponto em que se vê em condições de efetuar em seus quadros um movimento que a realidade ainda não operou e ver esse movimento realizar-se logo em seguida. Com essa operação sistematicamente bem-sucedida, recobrirá de confiança a inteligência para ir mais longe e a cercará de certezas de que seus quadros são cada vez mais fiéis à realidade. Estudando diligentemente seus quadros e seus movimentos, chegará, então, à conclusão de que existem regras de funcionamento e que muitos dos movimentos, que antes acreditava ocorrerem ao acaso, verdadeiramente, são resultados dessas regras. Indo ainda mais longe, acreditará por fim que o movimento orientado por tais regras de funcionamento compõem um sistema mecânico universal regido por leis.
Assim se desenvolve o pensamento de uma das principais doutrinas filosóficas; acreditando que todo o universo é regido por leis mecânicas. O mecanicismo. O mecanicista nutre a ideia de um mundo regulado por leis mecânicas, onde a lei de conservação de energia desempenha papel central. Afirma Bergson: “Representa-se o
universo como um amontoado de matéria, que a imaginação transforma em moléculas e átomos. Estas partículas executariam continuamente movimentos de toda a ordem [...]”. 113 De um lado para outro, moléculas e átomos se agitando e colidindo. Energia cinética transformando-se em energia térmica e novamente em cinética, tudo em movimento. Essa
73 é, para o mecanicista, a explicação para um mundo em constante movimento. Inércia, atrito, colisões e mudanças de sentido e direção, mas conservação de energia. Esse é um modelo teórico em que os cálculos matemáticos se encaixam comodamente. É possível determinar força, aceleração, momento do impacto, mudança de direção, velocidade e, com isso, antever como, quando e onde eventos aconteceram e acontecerão. Nada mais lógico! Todos os corpos que compõem o universo são feitos dessa matéria em maior ou menor compactação. Sólidos, líquidos e gases, todos sujeitos às mesmas leis. Cada dia mais a natureza nos dá a ver suas leis em suas manifestações. Cabe-nos, a partir disso, seguir nosso projeto, observar atentamente tudo e desvendar pouco a pouco todo o conjunto de leis. Conhecendo as leis, seremos capazes de dizer de modo determinado o que está a ocorrer, tanto quanto o que ocorrerá.
E o matemático que conhecesse a posição das moléculas ou átomos de um organismo humano, num determinado momento, bem como a posição e o movimento de todos os átomos do universo capazes de o influenciar, calcularia com uma precisão quase infalível as acções passadas, presentes e futuras da pessoa a que pertence este organismo, como se prediz um fenômeno astronômico. 114
Não estando, não podendo estar, nenhum átomo sequer apartado dessas leis, nossos corpos físicos e nosso sistema nervoso, todos compostos desses mesmos átomos e moléculas, estariam sujeitos às mesmas leis. Estariam assim, nossos pensamentos, vontades, desejos, sujeitos a essas mesmas leis? Seriam nossos sentimentos e sensações resultantes mecânicas, obtidas pela composição dos choques recebidos de fora pelos movimentos moleculares? Não há dúvida de que nossos estados cerebrais sejam contemporâneos de nossos estados psicológicos, mas haveria entre ambos uma estreita relação de necessidade ou de causalidade? Qual deles seria anterior numa relação de causa e efeito? Para o mecanicismo, seria preciso provar empiricamente que dado um estado cerebral característico se seguiria necessariamente um estado psicológico característico rigorosamente determinado. Bergson é incisivo: “[...] nunca se demonstrará, que o fato
psicológico seja determinado necessariamente pelo movimento molecular” 115. Bergson, pelo que vimos até agora, não confiaria suas fichas em uma análise de apenas parte do mundo, material, físico, por assim dizer inerte, que pudesse ser estendida ao restante do
114 D.I. p 102 115 D.I. p 105
74 mundo vital.
Porém não há como afirmar que nossas ações e nossas decisões sejam sempre imprevisíveis, tanto quanto nossas vontades sejam completamente libertas das necessidades. Sabemos que necessidades fisiológicas nos apertam a todo momento, tanto quanto sabemos que a maioria de nossas ações poderiam se explicar por motivos, em geral, também pouco variáveis. Certamente, se estudarmos diligentemente as ações humanas, veremos que determinadas circunstâncias previsíveis nos convidam, senão nos seduzem, às mesmas respostas. O mecanicista veria nesse fato sua tese ratificar-se, mas, para tanto, precisaria transformar as sensações físicas e os sentimentos em quantidades bastante bem definidas que provocariam determinada resposta, e não outra. Mais uma vez teria de transformar o intensivo em extensivo, em quantidade invariável, para operar seus cálculos. A regra é que das mesmas causas obtenhamos sempre os mesmos efeitos, portanto é preciso que algo permaneça para que se obtenha o cálculo. Se a sensação foi responsável pela resposta, precisaremos repetir a mesma sensação para obter a mesma resposta. Assim procedendo, temos ao final um conjunto de regras que fariam dos fenômenos psicológicos da consciência apenas uma fosforescência do cérebro, isto é, um “...epifenômeno...” 116.
Consciência seria meramente subproduto do movimento físico como uma fumaça que acompanha o fogo.
Observemos, entretanto, que, se os movimentos do mundo obedecem às leis físicas que submetem inclusive os fenômenos cerebrais e os psicológicos, nossa consciência poderia em determinado instante retornar a um estágio anterior. Se fossem somente resultados de fenômenos físicos obtidos a partir de leis, poderiam ser rearranjados do mesmo modo como anteriormente o foram, mas Bergson observa: “[...] a hipótese de um retrocesso se torna
ininteligível no campo dos factos de consciência” 117. Se os movimentos físicos ocorrem pela conformação de átomos e moléculas, não há o que impeça o mundo de tornar a apresentar mesma configuração. No campo da consciência, em contrapartida, uma vez que o instante passa, ele é absorvido, acumulado na consciência e nunca mais se repetirá. Não há como retroceder ou rearranjar, como se o instante jamais tivesse ocorrido. Desse modo precisaríamos conceder que, ao menos à consciência, é permitido escapar ao controle das
116 D.I. p 107 117 D.I. p 108
75 leis físicas, pois não há como aplicar as regras do domínio físico ao campo da consciência. Dissemos, quando abordamos o processo de generalização, que precisamos abstrair de algumas particularidades para formar uma ideia geral. E assim também se procedeu ao olhar o mundo de modo mecanicista, abstraindo-se a liberdade. No entender de Bergson, “[...] nos limitamos a dizer que a lei de conservação de energia rege os fenômenos físicos [...]” 118 – e apenas os fenômenos físicos. 119 Existe entre os fenômenos de consciência uma
diferença de qualidade, não de quantidade. Não haverá como oferecer a mesma quantidade de sensação suficiente para obter dela a mesma resposta, tampouco a mesma qualidade. Se obtivermos a mesma resposta, será por uma feliz coincidência, por praticidade ou por hábito. Vejamos, então, o que torna a consciência previsível em dados momentos.
Algumas decisões nos levam refletir de modo mais atento sobre suas consequências. Poderíamos ter de ponderar entre um prazer que gostaríamos de experimentar e um possível remorso posterior. Entre a satisfação de um desejo e o preço a pagar por ele. Isso certamente provocará em nós uma gama de sensações e sentimentos que, embora sejam bastante diversificados, podemos em dado momento tratar tudo por um único nome. As palavras têm essa plasticidade característica. Podemos nomear uma enorme porção de experiências distintas de medo e outras tantas de raiva. Ponderamos os prós e os contras de uma alternativa e experimentamos as sensações que nos proporcionam. Ponderamos as vantagens e as desvantagens da outra alternativa e acumulamos novas sensações. Ponderamos novamente a primeira alternativa, e as sensações agora serão outras. Nesse vaivém, chegamos a um veredito final. Se efetuarmos a operação outras tantas vezes, poderemos até chegar às mesmas conclusões. Os motivos eram os mesmos, os propósitos também. O sacrifício já era sabido, os benefícios também. Poderíamos crer que, dados os termos da decisão, a escolha já estava determinada. Só não sabíamos qual era a escolha por ainda não termos analisado suas variáveis, mas, uma vez analisadas, chegaremos sempre ao mesmo ponto. Ocorre que entre as variáveis estão as sensações e os sentimentos que jamais seriam experimentados, não fosse pela deliberação. A deliberação tem uma duração que
118 D.I. p 109
119 Por agora continuaremos no percurso do pensamento bergsoniano tal como fora elaborado no último
capítulo do Ensaio. Reservaremos, entretanto, um parêntese ao final dessa exposição para colocar uma mudança de posição ocorrida entre os primeiros escritos e suas últimas publicações que interfere diretamente na análise sobre previsibilidade
76 não pode ser abreviada e a sensação jamais poderia ser experimentada antecipadamente, pois ainda não existia. Embora tenhamo-la chamado por um nome já conhecido: “[...] uma
confusão grave que se deve a que a linguagem não é feita para exprimir os cambiantes dos estados internos” 120.
A linguagem tem a capacidade de nos provocar sensações. O meio onde vivemos, nossa cultura e educação interferem em nossas decisões. O mesmo pode-se dizer quanto aos nossos hábitos. Fatores internos tanto quanto os externos nos espremem sempre numa dada direção. Podemos resistir a essa pressão, mas isso também entrará na conta da decisão. “Assim compreendidos, os actos livres são raros, mesmo por parte dos que mais têm o
costume de se observar e de raciocinar sobre o que fazem.” 121 Coagidos pelo meio, por hábitos e até por palavras e significados, abdicamos de nossa liberdade em prol de apenas repetir. Muito devido a esses motivos é que nossas decisões são muitas vezes previsíveis.
Mais do que isso, quando deliberamos, mesmo que de forma bastante autônoma, já estamos coagidos de algum modo pelas alternativas. Ponderamos e, quando ponderamos, medimos. Quando decidimos por nossa vontade, somos mais autônomos, isto é, a demanda da necessidade que oferece resistência não nos coagiu a agir. Pudemos optar de modo autônomo sobre nossa ação, mas não nos livramos da necessidade da decisão. Ganhamos em autonomia, mas ainda não ganhamos liberdade. O embate não se dá em torno da liberdade, mas na medição de forças entre necessidade e autonomia. O ganho de autonomia não nos recobre de liberdade, mas nos oferece escolha. Assim sendo, a liberdade não está na deliberação, mas na ausência de qualquer razão tangível para a escolha. A liberdade da consciência começa por se mostrar na medida em que se vê livre de qualquer coação, mesmo da própria vontade. Liberdade assim vista pressupõe que quaisquer das alternativas podem ser escolhidas. “É precisamente assim que os defensores da liberdade a entendem; e
afirmam que, ao efectuarmos uma ação livremente, alguma outra acção teria sido igualmente possível.” 122 Agora não falamos de escolha certa ou errada, e sim de escolha livre. Em outras palavras, quanto menos motivos tivermos para agir de determinado modo, mais se verá aí uma ação livre.
Porém, como Bergson já havia afirmado, os atos livres são raros! Mesmo que tenhamos
120 D.I. p 112 e 113 121 D.I. p 117 122 D.I. p 121
77 salvaguardado os raros atos livres, ainda teremos de submeter as decisões autônomas a algum tipo de determinismo. Isso se a hipótese de que das mesmas causas decorrem
necessariamente as mesmas consequências também se aplicar às decisões autônomas. Pode-se dizer que, uma vez efetuada a deliberação e feita a escolha por tais ou tais razões somente essa escolha poderia ser tomada e, portanto, as circunstâncias a cercariam de necessidade. Argumentamos anteriormente contra isso e expusemos que, na duração da decisão, não poderíamos conhecer as sensações que somente emergiram ao seu tempo. Pode-se ainda objetar que, dadas as perspectivas, essas sensações, e não outras e não de outra intensidade, também ocorreriam necessariamente. Que, em geral, possamos concordar com esses termos e não poderemos nunca exigir que a consciência, mesmo pressionada pelos hábitos, pelos desejos e pela sociedade, esteja obrigada em sua escolha. Ademais, mesmo nos fenômenos puramente físicos, isso poderá ser exigido, já que “[...] nenhum
esforço lógico conseguirá provar que aquilo que foi, será ou continuará a ser, que os mesmos antecedentes exigirão sempre consequentes idênticos” 123. Bergson migra do campo da consciência para o próprio campo em que o determinismo mecanicista sentia-se mais à vontade. A despeito de Bergson nutrir até esse momento a convicção de que a matéria inerte deva ser regulada por leis necessárias, seu pensamento parece deslocar-se, mesmo que de forma incipiente para outro eixo.
Sentimos bem, é verdade que, se as coisas não duram como nós, pelo menos deve haver nelas alguma razão incompreensível que faça que os fenômenos pareçam suceder-se, e não ocorrerem todos ao mesmo tempo. E é por isso que a noção de causalidade, mesmo que se vá aproximando indefinidamente da de identidade, nunca nos parecerá coincidir com ela [...] 124
Ainda que logicamente, nos diz Bergson, haja necessidade de que, dos antecedentes, venham os mesmos consequentes. A realidade não tem nenhum dever de cumprir essas exigências. Voltando ao início de nossa exposição desse tema, ainda que possamos efetuar antecipadamente em nosso tabuleiro um movimento que ainda não se deu e vê-lo por inúmeras vezes dar-se na realidade, nada poderá assegurar que isso vá sempre ocorrer. A ideia de causalidade implica que haja uma pré-formação do futuro no presente. Isso logicamente, matematicamente, nós podemos conceber com naturalidade, mas “[...] não
123 D.I. p 143 124 D.I. p 144
78
haverá já entre a causa e o efeito uma relação de determinação necessária, porque o efeito já não será dado na causa. Residirá nele apenas em estado de puro possível, como uma representação confusa, que talvez não seja seguida da acção correspondente” 125. Esse é o momento em que acreditamos ser oportuno abrir o parêntese que anunciamos anteriormente.
Em seus primeiros escritos, Bergson trata em franca dicotomia os dados vitais dos materiais inertes. Com isso, consegue salvaguardar da necessidade o que a realidade tem de vital. O homem, os animais e as plantas gozam cada qual ao seu jeito de um tanto de liberdade. Note-se, todavia, que a ideia de liberdade, nesse ponto, ainda é definida de modo negativo, isto é, como ausência de necessidade. Liberdade da qual os materiais inertes estão privados: “Matéria inerte não parece durar ou pelo menos não conserva nenhum vestígio
do tempo decorrido [...]” 126. Em consequência disso, na medida em que são inertes, cabem bastante bem sob o jugo das leis necessárias e se prestam bastante bem a medições e cálculos. Porém, Bergson na medida em que avança em seu pensamento, mais se vê intrigado pela questão colocada: que razão incompreensível é essa que faz com que mesmo os fenômenos dos materiais inertes se dêem uns após outros, e não todos ao mesmo tempo? O que os faz aguardar e não se darem de uma vez? Já em O pensamento e o movente 127, ele demonstra que a ideia de dados inertes é cada vez mais insustentável, cada vez mais controversa. Diz Bergson:
Seja, dirão; talvez haja algo de original e de único num estado de alma; mas a matéria é repetição; o mundo exterior obedece a leis matemáticas; uma inteligência sobre-humana, que conhecesse a posição, a direção e a velocidade de todos os átomos e os elétrons do universo num dado momento, calcularia todo e qualquer estado futuro desse universo, como o fazemos com relação a um eclipse do sol ou da lua. – Concedo-o, a rigor, caso se trate apenas do mundo inerte, muito embora a questão comece a se tornar controversa, pelo menos no que diz respeito aos fenômenos elementares. Mas esse mundo é uma abstração. 128
Ocorre que ele não chega a tratar desse assunto com o devido pormenor que nos seria necessário quando falamos sobre previsibilidade. Se de fato existe, como ele mesmo admite, algum grau de consciência mesmo no inerte, isso implicaria em liberdade como
125 D.I. p 146
126 D.I. p 108 Texto publicado originalmente no início de 1888 127 Texto publicado originalmente em 1933
79 também certo grau de imprevisibilidade. Se os tais materiais inertes, agora não tão inertes, são previsíveis, só o serão pela mesma razão incompreensível apontada anteriormente. Caso contrário, só teríamos imprevisibilidade, o que deixaria a inteligência e a ciência, que tanto Bergson se esmera em preservar, de mãos atadas. Queríamos apenas realçar que a questão da previsibilidade em Bergson suscita objeções lógicas quando analisadas intelectualmente. O que Bergson deixa claro somente é que o ato livre é aquele que não se pode prever. Temos, então, uma posição a esse respeito. No tocante aos raros atos livres, estes são necessariamente imprevisíveis. Voltaremos a falar sobre liberdade mais adiante e buscaremos demonstrar que a ideia que Bergson esboça inicialmente vai ganhando novos contornos.
3.2. A ideia de evolução: mecanicismo ou finalismo
Até onde poderíamos estender a imprevisibilidade desses atos livres? Aos raros atos livres humanos certamente, pois somos dotados de consciência e com ela podemos deliberar sobre nossa ação livremente. Mas Bergson postula a consciência no vital e, com isso, estende a questão para animais e vegetais, no mínimo. Quando Bergson aborda o tema da evolução, a questão ganha contornos um pouco mais nítidos. Evolução deve-se, diz Bergson, “[…] a resistência que a vida encontra por parte da matéria bruta, e a fôrça
explosiva – resultante de um equilíbrio instável de tendências – que a vida contém.” 129 Nesse embate entre força e resistência, a vida vai ganhando cada vez mais novas direções. Trata-se da força criadora impulsionando a vida a ganhar novas formas e da resistência promovendo diversidade evolutiva. Entre essa força e a resistência: “Era necessário que a
vida entrasse assim nos hábitos da matéria bruta, para arrastar a pouco e pouco noutra direção essa matéria magnetizada” 130. A vida acompanha a estabilidade enquanto busca novas direções. Vê-se que a vida teve de amainar seu ímpeto e refrear um pouco seu impulso por conta da resistência, tornando-se, com isso, um tanto quanto mais previsível.
129 E.C. p 122 130 E.C. p 122
80 Contudo nada poderá fazer cessar a força do impulso original, o que a faz permanecer iminentemente imprevisível.
Precisamos, mesmo que de modo bastante geral, explicitar alguns pontos peculiares acerca do que Bergson chama de evolução. A primeira peculiaridade que precisamos ressaltar é que o homem não é, como se poderia acreditar, o último e mais aprimorado patamar evolutivo de toda a natureza. Se fosse assim, o impulso inicial do qual fala Bergson descreveria uma trajetória única, linear, e a evolução seria o percurso dessa trajetória. Pelo contrário, Bergson acredita que tudo parte de um impulso inicial e esse impulso explode em múltiplas direções diferentes. Que o homem esteja no estágio mais avançado, mas somente de sua linha de evolução. A natureza: “Conserva as diversas
tendências que com o crescimento seguiram direções diversas. Criou, com elas, séries divergentes de espécies que evoluíram separadamente”. 131 Consoante ao pensamento bergsoniano, não podemos acreditar que seja possível traçar uma linha evolutiva dos mais diversos animais até o homem e conjecturar os estágios que ainda estão por vir até que cheguem, cada qual por seu turno, ao ápice da evolução humana. O percurso evolutivo se dá por: “divergência de caminhos ao mesmo tempo que identidade do impulso” 132. Os caminhos são divergentes e, na medida em que seguem seu curso, mais acentuam as singularidades de suas linhas evolutivas, tanto quanto sua distinção com outras
Outro ponto que merece realce é que evolução não é somente uma questão de adaptação ao meio.
Não contestamos de forma nenhuma que a adaptação ao meio seja condição necessária da evolução. É por demais evidente que uma espécie desaparece quando não se amolda às condições de existência que se lhe oferecem. Mas uma coisa é reconhecer que as circunstâncias exteriores são forças com as quais a evolução não pode deixar de contar, e outra coisa é afirmar que sejam elas as causas determinantes da evolução. 133
Na trajetória de evolução, existem inúmeras barreiras a serem transpostas, e o indivíduo deve dar conta de todas essas transposições para seguir seu curso. Se um