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Sex and lust

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4 Gender and culture

4.11 Sex and lust

4.1. Duração e eternidade

Após a transposição de diversos obstáculos ao longo desse trabalho, acreditamos estar agora em condições de articular as ideias firmadas ao longo do percurso e conduzir nossa argumentação mais diretamente ao ponto que nos propusemos desde o início: o

inusitado. Para tanto precisaremos examinar o estatuto da ação tal como Bergson nos apresenta e avaliar seus suportes, bem como suas consequências práticas. Antes disso, porém, ainda resta um pequeno ponto que precisa ser discutido: a relação entre duração e eternidade. Esta pequena discussão se impõe, sobretudo pelo fato de que podemos ainda acreditar que duração e mudança sejam acidentes que dependam de algum tipo de substância definida pelos termos: “eterno” e “imutável”.

Quando Bergson busca apontar o que é intuição, ao mesmo tempo procura contrastá-la do que outros filósofos também chamaram pelo mesmo nome. Falamos que eminentes filósofos como Fichte, Schelling e Schopenhauer também utilizaram o mesmo termo. Mas diz Bergson: “Como se a intuição deles não fosse uma procura imediata do

eterno!” 148 Ocorre que o termo “eterno” utilizado refere-se a um elemento imutável e perfeito. Não caberia falar de um elemento imutável na filosofia bergsoniana. É, se tanto, máxima abstração. Estes representantes do que se habituou chamar de “Idealismo alemão” buscaram algo que pudesse representar o que Bergson chamou de “substrato imóvel do

movente” 149. Contudo só alcançaram, como esclarece Bergson, um supremo princípio conceitual, num salto por sobre os conceitos, não para sobrepujá-los, mas para simplesmente atingir seu cume. Um conceito dos conceitos como já dissemos. Assim sendo, reitera Bergson: “Nenhuma verdade importante será obtida pelo prolongamento de

uma verdade já adquirida. Será preciso renunciar a fazer com que a ciência universal caiba virtualmente num único princípio” 150. Não é preciso que haja um substrato para a mudança. “Essa mudança é indivisível, ela é mesmo substancial.” 151

148 P.M. p 27 149 P.M. p 216 150 PM. p 29 151 P.M. p 10

94 Iniciamos nossa argumentação falando sobre duração. Dissemos tratar-se desse transcorrer, dessa mudança incessante que ocorre tanto em nós quanto nas coisas que nos são exteriores. Que duração é esse continuum ininterrupto entre passado e presente. Dissemos também que duração é novidade. Se não uma novidade completa, ao menos um instante a mais que se acrescenta a tudo, que se soma a tudo o que já ocorreu, recobrindo com cores novas. Contudo não se deve acreditar que a novidade tanto interna quanto externa se dê em busca de alguma perfeição imutável ou pelo sossego da imutabilidade. Diferentemente, a eternidade foi pensada exatamente como aquilo que é imutável, feito, acabado, que de nada carece, que nada muda, que se mantém imóvel, imersa em sua perfeição. Todavia essa não parece ser, no entender de Bergson, uma intuição condizente com uma eternidade de caráter divino, tampouco algo que possa servir de impulso para a mudança. Como algo que não se move pode impulsionar a mudança? Imerso em sua perfeição, pleno de si mesmo, mas estacionado; sem compartilhar essa plenitude com o mundo do movimento. Ou, na medida em que compartilha, apresenta-se mais como uma imagem análoga a algo morto. Bergson chama de eternidade de morte: “como um substrato

imóvel do movente, como não sei que essência intemporal do tempo: é o que eu chamarei a eternidade – eternidade de morte, uma vez que não é nada além do movimento já esvaziado da mobilidade que era sua vida.” 152 Bergson questiona uma essência do tempo estranha ao próprio tempo. Um suporte esvaziado de movimento para uma realidade em constante movimento.

Se conferirmos um caráter divino para a eternidade e dela distinguimos o tempo como contingente, apartando, com isso, tempo e eternidade, criamos um abismo intransponível. Criador e criatura; contingente e necessário; mutável e imutável. Contraposições para acentuar diferenças de natureza Divina e humana. Santo Agostinho, em sua obra, deixa patente a diferença entre Criador e criatura, mas permite entre ambos uma fresta de luz ao comentar que a diferenciação não é completa. Diz Agostinho: “Que luz

é esta que me ilumina de quando em quando e me fere o coração, sem o lesar? Horrorizo- me e inflamo-me: horrorizo-me enquanto sou diferente dela. Inflamo-me enquanto sou semelhante a ela” 153. Talvez sejam esses os pontos marcados por Bergson: são diferentes

152 P.M. p 216

95 quando vistos de modo esquemático, apartados um do outro, e semelhantes, na medida em que se reencontram e se sente o impulso original dentro de si. Se caminharmos de modo intelectual, a lógica dos quadros do entendimento nos exige um primeiro motor. A inteligência generalizando a ideia de causalidade exige da realidade que se renda a uma causa primeira, que exista algo que explique o movimento, mas:

Caminhando no outro sentido, vamos para uma duração que tensiona, se adensa, se intensifica cada vez mais: no limite se encontraria a eternidade. Não mais a eternidade conceitual, que é uma eternidade de morte, mas uma eternidade de vida. Eternidade viva e, por conseguinte, movente também, na qual a nossa duração se encontraria como as vibrações na luz, e que seria a concreção de toda duração, assim como a matéria é seu espalhamento.154

Uma eternidade como luz que brilha para tudo e para todos. Que jorra de claridade, novidade e jovialidade a cada instante sem que necessite de algum estímulo, propósito ou fim outro que não simplesmente brilhar. Essa é a ideia de eternidade presente e coerente na filosofia de Bergson. Eternidade de ação, movente, de irradiação, de criação, e não de paralisia. Não é um ato criador ora ocorrido num passado distante e que ainda reverbera, mas ação que é criadora por toda a eternidade. Um princípio de duração; princípio móvel do

movente; princípio conatural do movimento da duração. Não criado, fixo, pronto, mas sim criação constante e em movimento. Eternidade criadora de eternidade, tanto quanto de tempo, ou, como quer Bergson, de duração, concomitante e simpática. Não somente um empilhamento que é novo apenas pelo fato de que nova página foi virada, mas também na intensidade da criação, na existência de uma surpresa de puro gozo a cada momento. Não somente novo por ser desconhecido mas também por ser novo de límpida e brilhante irradiação. Não pelo fato de que precise de algo para se completar. Um percurso para atingir um final. Não há um final que já esteja estabelecido, como finalidade e perfeição. A perfeição se vê na criação da eternidade movente, viva, e não parada e morta.

A ideia de finalidade como vimos, que muito se faz presente ao longo da história da filosofia, parece como que retirada da própria ideia conceitual de tempo. Desse hábito de apostar na previsibilidade. Na medida em que podemos antever o resultado previsível de nossa conduta, pois ela deve resultar em repetição lógica e previsível. Partimos daí para admitir que essa seja uma conduta do universo. Que sempre vise a um fim específico.

96 Todavia isso nos empurra ladeira abaixo numa previsibilidade onde a criação tem pouco a dizer e a fazer. Fica, por assim dizer, circunscrita, meramente aos caminhos que escolheremos para atingir o fim já determinado. Como se o artista dispusesse de muitos modos de pintar seu quadro, de confeccionar sua música, mas não pudesse fazer outra coisa que não aquele quadro e aquela música, previamente concebida.

Não se trata de uma eternidade que encontraremos no final de um longo percurso e de que o caminho seja construído por uma força superior, que pavimenta dia após dia todas as possibilidades de escolha, como que alternativas de estradas que podemos escolher trilhar e que no final vão se encontrar no ponto absoluto do eterno, onde não há mais estrada, onde finalmente chegamos ao fim e podemos parar de andar e de se mover. Essa eternidade não está esperando em algum lugar no futuro ou em qualquer outro lugar. Ela é pura energia que jorra de novidade a todo instante, mas essa fonte também não está em algum lugar de onde tudo vem. Essa fonte é a mesma que impulsiona o movimento da duração interior e exterior e que nos permite também criar, ou melhor, que é impulso de criação. É fonte da vontade criadora, não simplesmente uma vontade absoluta, heterônoma, desligada do tempo nos moldes de Schopenhauer, mas, sim, uma vontade desinteressada, de transbordamento e superabundância.

Se a duração recebe essa concessão e pode agora tocar e mesmo se juntar ao que entendemos por eternidade, esse toque efetivo se dá mormente pela elaboração do novo. O próprio processo de elaboração engendra o novo, criando algo melhor do que o que já existe. Também não num processo de aprimoramento até atingir uma perfeição que nunca mais possa ser suplantada, mas a elaboração da criação que possa surpreender, como algo verdadeiramente inusitado:

Em suma, a mudança pura, a duração real, é coisa espiritual, ou impregnada de espiritualidade. A intuição é aquilo que atinge o espírito, a duração, a mudança pura. Seu domínio próprio sendo o espírito quer apreender nas coisas, mesmo as materiais, sua participação na espiritualidade – diríamos divindade, se não soubéssemos tudo o que ainda se mistura de humano à nossa consciência, mesmo depurada e espiritualizada. 155

A diferença entre tempo humano e eternidade e que também se apresenta no contraste entre materialidade e espiritualidade, entre previsibilidade e criação do inusitado,

97 se dá, na verdade, somente na diferença de como se olha para o mundo ou de como nos

postamos nele. Visto pelo lado da criação, o real fica recoberto por toda uma espiritualidade ou divindade que escorre pelo suor dos artistas quando criam e que se recobrem de cores e nuances a todo o momento, espargindo pelo ar o perfume do novo. Diz Bergson: “[...] que a

espiritualidade consiste justamente nisso e que a realidade, impregnada de espírito, é criação [...]” 156. Visto pelo lado prático da vida, é só tempo espacializado, pensado,

homogêneo e repetível.

Na filosofia de Bergson, surge com grande força a ideia de élan vital, de impulso vital ou impulso criador. Essa é uma ideia tão central, tão coberta de perfeição, de eternidade e de sentido que um pequeno deslize nos fará cometer a heresia de compará-la à Vontade, ao EU, ou ao Absoluto. Impulso vital, longe de ser um substrato do movente, é ação criadora que permeia toda a realidade. Não uma substância da qual tudo depende, mas força de criação.

O Impulso de vida em que falamos consiste, em suma, numa exigência de criação. Não pode realizar uma criação total, porque encontra pela sua frente a matéria, Isto é, o movimento inverso ao seu. Mas apodera-se desta matéria que é a própria necessidade, e tende a nela introduzir o máximo possível de indeterminação e de liberdade. 157

A tomada de posse do espírito pelo espírito se faz ver na criação que introduz indeterminação na resistência. “Bem raros são os momentos em que nos reapoderamos

assim de nós mesmos e que se identificam com os nossos atos verdadeiramente livres.” 158 Ação livre que reinsere nossa participação na eternidade.

4.2. O estatuto da ação, liberdade e inusitado

Não é surpresa para ninguém que executamos com maior facilidade as tarefas quando já estamos habituados a elas. Essa familiaridade se dá pela experiência que adquirimos ao longo do tempo repetindo as mesmas ações e parece que agora as efetuamos de modo automático, sem pensar. É que o acumulo de experiência que adquirimos nesse

156 P.M. p 33 157 E.C. p 250 158 E.C. p 207

98 passado nos conferiu a destreza necessária para executá-la com maior facilidade. Já passamos por toda uma série de acertos e pelos mais variados tipos de erros ao buscar atender às expectativas que por fim conseguimos obter sempre da tarefa o que almejamos dela com bastante desembaraço. A bagagem oferecida pela experiência nos recobre de confiança, pois sabemos que não teremos grandes dificuldades em transpor a maioria das eventualidades na consecução da tarefa. Dificilmente encontraremos alguma novidade que nos exija lançar mão de novas ideias, novos recursos ou alternativas, sem respaldo de experiência anterior. Nossa memória, de fato, não nos abandona, tampouco agimos sem pensar, mas é que executamos a ação prática com tamanha facilidade que nossa memória não se prende senão o suficiente para verificar a familiaridade do entorno e pode dar-se ao luxo de ficar liberada para outras atividades após isso. Do mesmo modo, o que percebemos no momento presente nos sugere, por hábito, o resultado futuro. Nossa atenção, quando se concentra na atividade, em poucos instantes, lança-se em um balanço entre ação executada no passado e a projeção do resultado futuro, com tamanha facilidade que se torna um processo quase natural.

A experiência nos conferiu uma gama de ações bem-sucedidas, somadas a outras tantas úteis para contornar e resolver dificuldades recorrentes que pouco necessitam de novas elaborações. Basta-nos seguir a receita e seremos coroados com o sucesso. Não é preciso mais checar a validade dos conceitos, o nexo entre causa e consequência, a validade das representações. Podemos dispensar esses detalhes que nos foram úteis para a elaboração de nossa conduta; ficamos agora apenas com a ação bem-sucedida; abstraímos o percurso. Uma vez sedimentadas as ações acabam por prescindir de todas as experiências anteriores, dos conceitos, das expectativas para se transformarem apenas em ações práticas. Pode-se abstrair de todo o restante. As ações práticas, sendo úteis e eficazes, regulares e previsíveis alcançam tamanha reputação que se transformam em ações corretas. Daí para serem encaradas como leis, basta somente um pequeno passo de nossa inteligência. Se, como entende Bergson, para a criação de ideias gerais, abstraímos alguns detalhes, para nossa conduta a inteligência pode proceder do mesmo modo. Assim procedendo podemos transformá-las em regras de convívio social. Diria Bergson: “[...] a vida social nos parece

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exigências da comunidade” 159. Com efeito, nascemos e crescemos em meio a uma porção

generosa dessas leis, ou regras de conduta, mas muitas delas só tomamos contato com sua parte superficial e já cristalizada. Perdemos todo o processo de elaboração e absorvemos apenas o que já estava consolidado na superfície. O convívio social privilegia esse sucesso, tanto quanto essas regras pouco variáveis de conduta. Ganhamos em eficiência ao adotarmos essas ações. Podemos dispensar todo o estatuto teórico, conceitual e histórico que foram necessários para forjá-las.

Muitas de nossas condutas habituais deitaram assento apenas sobre uma camada já cristalizada de conceitos e nem sequer tomamos conhecimento deles. Nossa vontade livre, agindo espontaneamente, acabou por receber aprovações e censuras sociais que acabaram por balizá-las em ações corretas e incorretas. Os conceitos passam a aparecer apenas em sua camada exterior, apenas num conjunto de certos e errados, baseados em critérios de eficiência ou de aprovação social. Acabamos por escolher uma conduta menos pela validade dos conceitos do que pelo conjunto de certos e errados extraídos deles. São ações que tem seu lastro mais em condutas previamente aprovadas do que nos conceitos que lhe deram origem; são em grande parte vazias de representação. Não somos obrigados a seguir os mesmos critérios, embora sejam estes mesmos critérios que conferem a regularidade ao convívio social. Diz Bergson:

Qualquer sociedade humana é um conjunto de seres livres. As obrigações que ela impõe, e que lhe permitem subsistir, introduzem nela certa regularidade que tem simplesmente analogia com a ordem inflexível dos fenômenos da vida.

Entretanto, tudo concorre para nos fazer crer que essa regularidade é assimilável à da natureza. 160

Esta similaridade com a regularidade da natureza e que suscita uma ação sem o devido esteio de uma razão refletida soa como resposta instintiva às necessidades. A abstração de determinadas realidades deu luz ao conceito. A abstração do conceito deu luz à conduta instintiva. Ainda mais, Bérgson diz: “E o hábito mais poderoso, aquele cuja

força é constituída de todas as forças acumuladas, de todos os hábitos sociais elementares, é necessariamente aquele que melhor imita o instinto” 161. Imitação em sentidos bastante específicos. Imita enquanto previsibilidade da ação; imita enquanto é resposta imediata a

159 D.S.M.R. p 8 160 D.S.M.R. p 9 161 D.S.M.R. p 22

100 uma demanda externa, mas não se trata de uma resposta instintiva natural, e sim de um alinhamento a demandas sociais. Se a inteligência se porta como instinto, é menos por similaridade de natureza e mais por se abster de analisar e somente por trabalhar com generalidades práticas.

As Demandas para a ação prática nos vêm de fora, de solicitações externas em obrigações sociais ou de nós mesmos, como necessidades fisiológicas, mas ambas nos são colocadas independentemente de nossa vontade livre. Diria Franklin Lepoldo e Silva: “[...]

o mundo se constitui como série de ocasiões de ações respostas subordinadas ao critério da eficácia” 162. Chegam-nos com a aparência de necessidade e, assim sendo, nos exigem respostas específicas. No mais das vezes, lançamos mão das respostas habituais, por sabermos que elas já foram testadas e são historicamente bem-sucedidas. Não há necessidade nessas respostas, mas apenas comodidade. Cedemos a pressões sociais, no entender de Bergson, “temendo dela uma censura, orgulhosos de uma aprovação” 163. Também não se trata de uma ação autômata ou em sentido. As fórmulas da ação prática são tão visíveis, tão nítidas, e, mesmo se cavarmos mais abaixo do aparente, veremos facilmente revelar-se em suas raízes todo seu sentido social de ser.

Mesmo que precisemos de algum tipo auxílio para oferecer respostas às demandas propostas, teremos ao nosso dispor uma rica linguagem que poderá comunicar às outras pessoas as dificuldades e suas possíveis soluções. Podemos descrever o cenário atual da dificuldade, prescrever as ações com a certeza de que os quadros descritos, bem como nossas possíveis ações e tanto quanto o quadro futuro serão bastante bem compreendidos pela maioria dos ouvintes. A linguagem e os símbolos se adaptam bem a esse fim social. A analogia com o instinto se ratifica. A abelha operária, guiada pelo instinto, não questiona seu papel na colméia. A inteligência sob o risco de abalar a harmonia social acaba por também não questionar o papel da conduta previamente aprovada. Insiste Bergson: “Humana ou animal, a sociedade é uma organização; ela implica coordenação e em geral

também subordinação de elementos uns aos outros” 164. Assim, na vida em sociedade, tudo

concorre para a permanência das regras sociais em detrimento da novidade.

Tal é o estatuto da ação prática como pudemos verificar em Bergson: demandas

162 SILVA F. L., 1994. p 225 163 D.S.M.R. p 29

101 provenientes de motivações orgânicas necessárias ou de obrigações sociais; se tanto, pequenos recortes do passado; percepção atenta apenas a fragmentos da realidade presente; expectativa de resultado definida pelo objetivo; plano de ação determinado e eventuais estratégias para a correção caso o resultado não esteja saindo como planejado. Ficam admitidos: previsibilidade e repetição dos resultados. Ficam assim preteridos: todo o restante do passado, por não ter a menor utilidade; todo o restante do presente pelo mesmo motivo e também a novidade, aqui apenas tratada como erro diante das expectativas. Na medida em que privilegiamos repetir o antigo, conseguimos a segurança dos resultados previsíveis, mas abrimos mão da novidade. Não iremos longe, iremos até onde a vista alcança. Tão perto quanto possível do que já conhecemos. Isso retira o risco, na mesma medida em que também nos retira a surpresa.

Não se trata de um erro! Somente cumpriu-se uma exigência de nosso intelecto: “A

inteligência combina e separa; ela arranja, desarranja coordena; ela não cria” 165. Ela não foi feita para esse uso. Na evolução da vida, a inteligência cercou-se de métodos e procedimentos excelentes para a vida prática e social. “Pensar consiste normalmente em ir

dos conceitos às coisas e não das coisas aos conceitos. Conhecer uma realidade, no sentido usual da palavra ‘conhecer’, é tomar conceitos já prontos, dosá-los e combiná-los entre si até obter um equivalente prático do real.” 166 Mergulhados e absorvidos por atividades práticas e com o aval da aprovação social, acabamos por estreitar nossa visão sobre o mundo. Os olhos vêem apenas o que faz sentido. Os ouvidos ouvem apenas o que é possível dizer.

Vimos que tanto nossos pensamentos, nossas percepções, quanto nossa ação sobre as coisas se dão mediados por um tempo espacializado, e não diretamente sobre a pura duração. Franklin Leopoldo e Silva chamaria de “intencionalidade pragmática” 167. Claro,

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