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Gender mixed rooms

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4 Gender and culture

4.8 Gender mixed rooms

2.1. Percepção e conceito

O passado, às nossas costas, o presente, ao nosso redor ao alcance do olhar e de todos os outros sentidos, e todas as opções de futuro, bem à nossa frente, prontas para serem escolhidas. Essa é uma figura que nos é bastante familiar. Nossas percepções naturalmente formam em nossa consciência figuras representativas, e acreditamos que estas correspondam fielmente à realidade objetiva e que, tanto quanto, nossas noções e nossos conceitos sejam seus respectivos representantes intelectuais. Contudo nem sempre temos à disposição dos nossos sentidos todas as informações necessárias para consolidar nosso entendimento sobre as coisas. A realidade objetiva nem sempre dá a ver suas causas e suas

relações. Se travarmos contato pela primeira vez com uma determinada cena, ela não revelará de pronto seu passado nem as condições que a fizeram ser como é. Para tanto, nossa inteligência lança mão de hipóteses, de conjecturas que se apresentam de modo lógico e tem a capacidade de aplacar nossa sede de causas.

Se os sentidos e a consciência tivessem um alcance ilimitado, se, na dupla direção da matéria e do espírito, a faculdade de perceber fosse indefinida, não precisaríamos conceber nem tampouco raciocinar. Conceber é um paliativo quando não nos é dado perceber e o raciocínio é feito para colmatar os vazios da percepção ou estender seu alcance. 70

A inteligência nos provê material abstrato suficiente para preencher as frestas que ainda persistem após a acomodação de todos os dados da percepção. Nossa inteligência

acrescenta ao material da percepção, ideias puras que se combinarão entre si com os dados da percepção para formar uma ideia abstrata geral. Não se trata de fantasiar, mas de preencher um quadro prático de relações que a percepção não nos revelou. A esse quadro de relações, podemos somar nossas ações possíveis e seus resultados previsíveis. Entretanto, se os resultados frustram as previsões, o erro deve ser sempre reputado ao acréscimo feito pela inteligência. Quanto a isso não há a menor dificuldade. Por outro lado, se nossas previsões se mostram consistentes, acreditamos que a ideia geral formada a partir

53 das relações estabelecidas entre percepção e conceito corresponda à realidade objetiva. Conclusão bastante justa, mas, se nosso acréscimo tivesse sido outro, outra hipótese, outras relações, outras ações e outros resultados consistentes, não teríamos outro quadro?

Os quadros de nossa inteligência, sobretudo com o aval dos resultados consistentes, só nos fazem atestar a validade de nossa ideia geral, mas com isso nos animam a asseverar que a realidade objetiva é desse modo, e não de outro. Assim, confiantes, nós nos enveredamos a edificar uma filosofia que tem por respaldo a realidade. Os resultados obtidos assim nos autorizam. Mas, se as hipóteses forem outras, tanto quanto a consistência dos resultados, Bergson nos alerta: “[...] muitas filosofias diferentes surgirão, armadas de conceitos

diferentes” 71. Promoverão debates acalorados, e cada filósofo terá sua convicção ancorada em seus resultados concretos.

[...] é a insuficiência da percepção natural que levou os filósofos a completar a percepção pela concepção [...] Mas o exame das doutrinas mostra-nos que a faculdade de conceber, à medida que progride nesse trabalho de integração, está reduzida a eliminar do real um grande número de diferenças qualitativas, a apagar em parte nossas percepções, a empobrecer nossa visão concreta do universo. 72

No momento em que nosso entendimento consegue colher evidências que confirmem essas disposições prévias, a busca se aplaca e também se ratificam tanto hipótese quanto os conceitos estabelecidos a partir dela. Vitória da razão! Podemos ter deixado de lado uma porção generosa de outras hipóteses e de outras realidades. Em resumo, nós nos contentamos com uma resposta a uma pergunta e acabamos por perder toda a gama de informações que poderíamos ter acesso caso não tivéssemos perguntas prévias. Deixamos de obter uma eventual quantidade de respostas, devido ao fato de nem sequer termos formulado as perguntas. Perdemos uma porção de realidade para ganharmos a confirmação do conceito.

Muitos conceitos se firmam exatamente desse modo: uma hipótese, seguida de experiências empíricas específicas ou, quando não, somente de argumentações e conclusões também de caráter especulativo que confirmam a hipótese ao menos do ponto de vista lógico. Não nasce daí uma certeza, mas sim um direcionamento. Cada experiência vivida que confirme o conceito o reafirma e o cristaliza, consolidando ainda mais nossa disposição

71 P.M. p 153 72 P.M. p 154

54 de encará-lo como realidade objetiva. Uma vez consolidada nossa confiança, se em algum caso a experiência falhar e o conceito não se confirmar, poderemos considerar que a experiência específica foi falha. E, assim, hesitaremos em colocar em dúvida o conceito. É que, para a confirmação do conceito, foram necessários vários eventos ao longo do tempo, e cada um deles depositou seu aval de confiança. Contudo, como já dissemos, ao usarmos desses conceitos para perceber o presente, para responder a nossas perguntas, sobretudo para complementar as informações exigidas pelo conceito e que os dados da realidade não nos proporcionam, voltamos a todo instante nossa atenção ora para o passado, que ratifica o conceito, ora para o futuro, que evoca um eventual interesse. Assim, nossa percepção que deveria concentrar sua atenção no presente se divide e acaba por desprezar boa parcela da realidade, o que resultará nova necessidade de complementação conceitual. Ciclo vicioso que empobrece nossa visão da realidade concreta.

Dissemos que foi pela insuficiência da percepção que nos vimos obrigados a complementá-la com concepção. “Mas suponhamos que, ao invés de querermos nos elevar

acima de nossa percepção das coisas, nela nos afundássemos para cavá-la e alargá-la.” 73 Não teríamos, assim, uma visão mais fiel da realidade objetiva? Não veríamos mais surgir à nossa frente somente uma pequena parte aparentemente imóvel, mas todo o mais que é criação, movimento e mudança. Veríamos desabrochar formas novas cada vez mais inesperadas e ricas. Mas: “Como pedir aos olhos do corpo ou aos do espírito que vejam

mais do que aquilo que vêem? A atenção pode tornar mais precisa, iluminar, intensificar: ela não faz surgir, no campo da percepção, aquilo que ali não se encontrava de início” 74. Essa objeção colocada por Bergson, todavia, não nos bloqueia a passagem, pois é bem verdade que, muitas vezes, os artistas nos levam a perceber coisas da realidade que antes não percebíamos, ou melhor, que não nos chamavam a atenção. Dirão que aquilo que não fora percebido antes poderia ser acréscimo, criação do artista. Em muitas ocasiões terão razão em assim dizer, mas em outras essa visão do artista nos surpreende justamente por nos revelar ou aclarar algo que já sabíamos que estava lá. “[...] se os aceitamos e os

admiramos, é porque já havíamos percebido algo daquilo que nos mostraram. Mas havíamos percebido sem aperceber” 75. Se não estivesse dormente o determinado aspecto

73 P.M. p 154 74 P.M. p 155 75 P.M. p 156

55 que lá estava, mas sem a devida atenção, nem o compreenderíamos. Ele nos aparece como surpresa, não pela novidade, mas por nos revelar o que havia em nós e nós mesmos não havíamos percebido.

Mas que sublime capacidade dispõe o artista que lhe permite ver o que nos é invisível? Não se trata de qualquer faculdade suprassensível, mas é que, no mais das vezes, o artista não tem outro interesse que não somente o de observar e se deter prazerosamente na observação. Não cabe a ele descrever fielmente e esmiuçar todas as características do que vê, mas apenas ressaltar pequenos detalhes que, em geral, fogem do olhar comum. Nem sequer é preciso que seja uma visão integral do objeto. Não que ele não veja todo o restante, mas o restante pouco lhe interessa. Seu interesse não é prático. Seu interesse está, no mais das vezes, em ressaltar aquilo que poucos vêem ou em revelar interesses diferentes do que todos têm. Sua visão é estética, é artística! “De fato, não nos seria difícil mostrar

que, quanto mais estamos preocupados em viver, tanto menos estamos inclinados contemplar, e que as necessidades da ação tendem a limitar o campo de visão.” 76 O que Bergson aponta é que, em nosso cotidiano, o ato de percepção está impregnado de interesses, que, ao mesmo tempo, iluminam uma parcela da realidade, obscurecem todo o restante. Em nossa percepção: “Auxiliar da ação, ela isola, no conjunto da realidade,

aquilo que nos interessa; mostra-nos menos as coisas mesmas do que o partido que delas podemos tirar” 77.

Mas isso não ocorre tão somente com os dados presentes. Mesmo a recuperação de nossas memórias se faz de modo bastante seletivo. Nós nos habituamos a ver o passado como algo distante, mas essa distância se dá tão somente pelo fato de que só uma pequena parcela do passado precisará ser resgatada para conseguirmos entender o instante presente. Para esta parte, a distância se anula, enquanto se alonga para todo o restante. As imagens se tornam pálidas, mas não se trata da distância, e sim do menor interesse que temos por elas. Que se diga que nem todos somos artistas e que esse desapego é característica peculiar a esses sujeitos “distraídos”. Estaríamos nós, os não artistas, sentenciados conviver com uma pequena parcela, uma migalha da realidade? Que nem todos tenham os caracteres distintivos dos artistas ou dos cientistas, tampouco dos filósofos. Sendo assim, não teria

76 P.M. p 157 77 P.M. p 158

56 essa notícia força suficiente para nos revelar, ao menos, que a nossa percepção nos revela é tão somente uma pequena parcela da realidade? E mais, como nos diz Bergson:

O papel da filosofia porventura não seria, aqui, o de nos levar a uma percepção mais completa da realidade graças a um certo deslocamento de nossa atenção? Tratar-se-ia de afastar essa atenção do lado praticamente interessante do universo e de voltá-la para aquilo que praticamente, de nada serve. 78

Não se trata de se desapegar das coisas, mas buscar vê-las sem interesse prévio. O que encontraremos pode não ter a menor utilidade para as demandas passadas, para os conceitos passados. Pode não responder a nenhuma pergunta que já tenhamos feito. Mas conhecer é somente isso? É saber sobre como vai se comportar uma pequena parcela do real que é passível de repetição? Podemos questionar sobre qual a utilidade daquilo que não podemos prever. E podemos indagar: Como saber “para que serve” aquilo que não conhecemos?

Deslocar nossa atenção de um lado para outro, reeducá-la, no entender de Bergson, consiste: “[...] no mais das vezes em lhe retirar seus antolhos, em desabituá-la do

encolhimento que as exigências da vida lhe impõem” 79. Não se trata de desenvolver diligentemente um aperfeiçoamento da percepção, ou de desenvolver uma faculdade supra- perceptiva. Bergson diz que só precisamos retirar o que nós mesmos colocamos. Mas o que veremos após isso? Bergson confirma ser exatamente esse o papel da filosofia: oferecer uma visão mais completa da realidade tal como ela é, menos como queríamos que fosse.

Na montagem dos nossos quadros intelectuais do entendimento, representações particulares e estáticas de uma realidade dinâmica exterior, buscamos encontrar algo que não mudasse, algo que pudesse oferecer um suporte estável por onde deslizariam as mudanças. Não encontrando em canto nenhum esse suporte fixo, nossa inteligência graciosamente se ofereceu. Negligenciamos a mudança e o movimento acreditando que fossem sinônimos de falsidade, e ela se revelou agora como a maior parte da realidade objetiva. “A bem dizer, não há nunca imobilidade verdadeira, se entendemos com isso

ausência de movimento.” 80 Existe, quando muito, movimentos em ritmos diferentes e que

se oferecem acessíveis ao nosso toque, à nossa ação. Imobilidade, assim entendida, é somente a adequação da frequência da nossa mobilidade à mobilidade do objeto. O objeto

78 P.M. p 159 79 P.M. p 160 80 P.M. p 165

57 não está imóvel, tampouco nós estamos, mas a ação é possível pela sincronia do movimento de ambos. Busquemos recuperar o movimento, a mudança e a duração e entraremos em contato com a grande parcela da realidade para a qual antes virávamos as costas, evitando assim: fechar “os olhos ao que há de mais vivo no real” 81. Recuperemos a mobilidade do real e vejamos o que poderemos fazer com ela.

Ora, o que encontramos na realidade objetiva com mais movimento espontâneo é justamente aquilo que se apresenta com maior vivacidade. Justamente o oposto do que se habituou a buscar nosso entendimento. Vimos que nosso método habitual acredita ver na realidade um movimento composto de séries de imobilidade e que a mobilidade é apenas a passagem de um ponto imóvel a outro. Mas vimos também que esses pontos imóveis que nos permitem medir são também oferecidos apenas pelo nosso entendimento, sempre com o intuito de medir ou de contar. Os pontos imóveis são arbitrários e artificiais. Podem dizer que não inserimos os pontos fixos na natureza, apenas elegemos, mas elegemos os pontos que se movimentam numa frequência mais baixa. Ainda não poderemos considerá-los pontos fixos. Criamos referenciais para que nosso entendimento pudesse se orientar, mas esses referenciais que acreditávamos que fossem fixos não o são.

Se a mudança é contínua em nós e contínua também nas coisas, em compensação, para que a mudança ininterrupta que cada um de nós chama “eu” possa agir sobre a mudança ininterrupta que chamamos “coisa”, é preciso que essas duas mudanças se encontrem uma em relação à outra [...] 82

Nosso entendimento, no instante em que flagra o encontro da “coisa” com o “eu”, ambos em movimento, acredita ver comprovada a imobilidade necessária para a ação que fora fixada em seus quadros. Mas sabemos agora se tratar de uma imobilidade relativa, e não absoluta. Insiste Bergson: “a mudança não precisa de suporte”. 83 Temos assim que movimento não é somente a passagem de uma imobilidade a outra, mas sim a mobilidade pura, isto é, duração.

Ao confrontar essa realidade que insiste em mudar com a ideia que fazíamos dela, perceberemos nítida discrepância. Enquanto os representantes intelectuais da realidade permanecem em sua maior parte fixos em nosso entendimento ou, quando muito, só se

81 P.M. p 166 82 P.M. p 168 83 P.M. p 169

58 movimentam deslizando sobre um espaço homogêneo – este totalmente imóvel tanto quanto os pontos de medição –, a realidade tal como a vê nossa percepção alargada nos apresenta o movimento puro, pura duração. “Façamos a abstração dessas imagens

espaciais: resta a mudança pura, bastando-se a si mesma, de modo algum dividida, de modo algum vinculada a uma ‘coisa’ que muda.” 84 Mas nossa percepção se habituou de tal modo a ver o mundo somente através das frestas que ver a realidade como ela é pode ofuscar-lhe a visão. Pode-se pensar que, ao solicitar certa transmutação de nossa percepção, estejamos apelando para um recurso misterioso capaz de fitar o inefável. Bem menos que isso, Bergson nos diz:

[...] para responder àqueles que vêem nessa duração “real” algo de inefável e de misterioso, que ela é a coisa mais clara do mundo: a duração real é aquilo que sempre se chamou de tempo, mas o tempo percebido como indivisível. 85

A dificuldade não se encontra em alargar a percepção, mas em solicitar ao entendimento que tenha a paciência necessária para permitir que a percepção apenas cumpra sua vocação de perceber. Que permita a entrada de informações móveis e não queira de modo apressado tirar proveito delas. Permita que a informação tenha espaço para ser armazenada em um ambiente mais livre e menos regulado por normas estritas em nosso interior. Que ofereça menos de sua ordem e mais de sua própria duração interna para que a percepção se prolongue por mais tempo, a tal ponto que possa tocar o fundo do espírito da realidade. O espetáculo da mobilidade provoca vertigem ao entendimento, pois tudo está em constante mudança. Representamos em nossos quadros do entendimento uma porção generosa de imobilidades que acabam por se ajustar umas às outras. Como fazê-las ajustar agora que tudo está em movimento?

Diante do espetáculo dessa mobilidade universal, alguns dentre nós serão tomados de vertigem. Estão habituados à terra firme; não conseguem se acostumar ao jogo e ao balanço do mar. Precisam de pontos “fixos” aos quais fixar a vida e a existência. Estimam que se tudo passa, nada existe; e que se a realidade é mobilidade, ela já não é no momento em que pensamos, ela escapa ao pensamento. O mundo material, dizem, irá dissolver-se e o espírito afogar-se no fluxo torrencial das coisas. Que se tranqüilizem! 86

84 P.M. p 171 85 P.M. p 172 86 P.M. p 173

59 Se pudermos nos reequilibrar por um instante e tomarmos coragem para abrir os olhos e fitar a realidade novamente agora, veremos que ela continua como sempre esteve e não precisaremos recear cair num precipício nem seremos dragados por um torvelinho. A transformação maior ocorreu apenas pela falta de identidade entre a realidade objetiva e os quadros imóveis que pretendiam representá-la. Basta, entretanto, admitirmos que as imagens justapostas em nossa consciência não representam fielmente a realidade, mas que nos oferecem um auxílio primoroso para nossa vida diária. Recuperaremos a mais legítima conexão com a realidade desprovida de antolhos sem abrir mão de nada de nossa ação prática.

Se assim procedendo nossa percepção pôde se fartar de toda a gama de informações disponíveis a ela na realidade, o mesmo pode ocorrer quando falamos sobre a recuperação dos dados do passado. Dissemos que nosso modo habitual de entendimento recuperava do passado apenas uma pequena parte, dando a impressão de que todo o restante ficava distante. Num alinhamento de imagens justapostas, umas se pareciam mais recentes e outras mais antigas, dada sua maior distância, reforçando nossa ideia de tempo como linha. Observamos, contudo, que essa distância era muito mais fruto dos interesses da inteligência. Será que, se procedermos com nossa memória do mesmo modo que procedemos com a percepção, ela não nos oferecerá todo o passado? Senão todo o passado das coisas, ao menos o nosso?

Ao distinguir pela linguagem, grande aliada e auxiliar da inteligência, passado,

presente e futuro, habituamo-nos a representar a duração como linha ao justapor em ordem um ao outro, pois podíamos cristalizar, num conceito atemporal, inúmeras experiências vividas e juntá-las num mesmo significado. Com isso, ao trazermos à consciência o conceito, trouxemos para o presente um tanto de passado nos mais diversos momentos em que ocorreram e lhes demos maior vivacidade tanto quanto utilidade. Todo o restante ficou para trás, na linha. Ora, sabemos agora que toda essa operação tem efetivo caráter prático e que as experiências que ofereceram amálgama para a cristalização do conceito fazem parte de nós tanto quanto os dados do presente. Não estão mais distantes umas das outras do que as próprias coisas esparramadas ao nosso redor. Fazem parte de um todo que liga o interior ao exterior. Removidos os interesses prévios, temos agora ao nosso dispor toda nossa história.

60 O que é, ao certo, o presente? Caso se trate do instante atual – quero dizer, um instante matemático que estaria para o tempo como o ponto matemático está para a linha –, é claro que um semelhante instante é uma pura abstração [...]; ele não poderia ter existência real. 87

Buscamos precisar o instante presente e nos vemos perdidos. O que é o instante? O hoje, a hora, o minuto? Não há uma linha demarcatória que tenha a capacidade de determinar-lhe a extensão, mas sabemos que determinar a extensão faz parte de algo que lutamos para suprimir ao menos por agora. Não havendo como distinguir o presente senão por sua diferença de nome. Podemos permitir que ele se consubstancie e se confraternize com o passado. Ao eliminar qualquer hiato, qualquer linha demarcatória, nós o vemos agora num continuum. “A distinção que fazemos entre nosso presente e nosso passado é,

portanto, senão arbitrária, pelo menos relativa à extensão do campo que nossa atenção à vida pode abarcar.” 88 O que não desperta interesse atual se transforma em passado. Abstrair o que não interessa é também subtrair! Nossa atenção submetida às exigências da inteligência não tem competência apurada a ponto de processar todas as informações que nos circundam e ainda mais as informações passadas. Desse modo, é preciso que se subtraia o que não interessa dentre todo esse real, passado e presente, para que possamos agir de modo eficiente diante daquilo que nos interessa. Nosso passado todo, e não só parte dele, consubstancia-se com o presente; e ele todo pode estar disponível para fitarmos a realidade, e não somente uma pequena parte. Somente com isso já estaríamos em conexão com uma parcela da realidade a qual não estávamos habituados. Nosso trabalho de conhecer teria se

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