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A atividade “Polissemia na rede – um tweet pela cidade” teve como objetivo a produção textual, enfocando os aspectos plurissêmicos da língua, utilizando a ferramenta tecnológica Twitter. A metodologia proposta vai ao encontro das concepções dos estudos de linguagem e do ensino de língua, apresentadas pelos PCNs, que privilegiam o texto como objeto de estudo em um processo de interação, assim como, também, o ensino tecnológico, fundamentado no PCNEM.

As situações de ensino da língua precisam ser organizadas, basicamente, considerando-se o texto como unidade básica de ensino e a diversidade de textos e gêneros que circulam socialmente, bem como suas características específicas. (PCN, 1998, p.10)

A revolução tecnológica, por sua vez, cria novas formas de socialização, processos de produção e, até mesmo, novas definições de identidade individual e coletiva. Diante desse mundo globalizado, que apresenta múltiplos desafios para o homem, a educação surge como uma utopia necessária indispensável à humanidade na sua construção da paz, da liberdade e da justiça social. (PCNEM, 2000, p.13)

A atividade foi desenvolvida com alunos da 1ª série do Ensino Médio, de uma escola privada, que abrange desde a Educação Infantil ao Ensino Médio. Instalada há doze anos em Santo André, é considerada uma escola de

metodologia tradicional, com sistema de ranking para as três séries do Ensino Médio.

Desde sua fundação, em 2001, até o ano de 2007, pertenceu à rede Pueri Domus. Após o fim desse vínculo educacional, todas as séries, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, passaram a utilizar livros didáticos, selecionados pela direção da escola; além da implantação de período integral para o Ensino Médio.

A escola apresenta, em seu corpo discente, uma parcela, sócio e financeiramente privilegiada da sociedade e, por se tratar de um grupo economicamente privilegiado, sabe-se que esses alunos têm acesso a inúmeros recursos tecnológicos, bem como, a todas as suas aplicabilidades.

Tal fato contribuiu para o desenvolvimento dessa atividade dentro do contexto acadêmico, já que o grupo usufrui, com certa facilidade, do contexto tecnológico, fora da escola. Vale ressaltar que, tal situação não reflete a realidade do contexto da educação pública no Brasil, no entanto, a maior parte das escolas privadas está equipada com laboratório de informática, com acesso restrito às redes sociais.

O tema proposto acerca da plurissignificação das palavras em um texto é abordado no material didático com o qual se trabalha na série em questão. Discorre-se a respeito da ambiguidade provocada pela polissemia das palavras, como recurso da linguagem, tanto como estratégia expressiva, quanto como efeito indesejado.

A polissemia trata-se de um recurso utilizado em diferentes gêneros, na grande maioria, como efeito de maior expressividade e, para que o aluno aproprie-se desse recurso, foram-lhe apresentados diferentes gêneros textuais que apresentavam a polissemia como estratégia expressiva do texto.

Discutir a importância da construção de mensagens limitadas, com 140 caracteres, como é o caso do tweet, no processo de complexificação textual plurissêmica, promove a prática didática contemplada nos PCNs e no PCNEM,

em seus objetivos gerais e específicos da produção de textos e da educação tecnológica.

Para que o aluno reconhecesse a importância da plurissignificação das palavras na composição textual, foram apresentados diferentes gêneros textuais que aplicaram tal recurso para formulação da mensagem.

Discutiu-se, inicialmente, a diferença entre polissemia e homonímia. Para conceituação e exemplificação de homonímia, foram apresentados os trechos da obra cinematográficaCaramuru, a invenção do Brasil (2001), em que as personagens Paraguaçu e Diogo Álvares conversam a respeito da significação das palavras “manga” e “pena”. Tal trecho foi apresentado no capítulo três deste trabalho.

A partir da distinção entre polissemia e homonímia, apresentou-se a

figura I, retirada do site:

http://avaliacaointernadeco.blogspot.com.br/2011_09_18_archive.html, e propôs-se, aos alunos, que indicassem o significado da palavra “sonho”, em cada um dos enunciados.

Ao explorar-se a palavra “sonho” no texto, os alunos puderam perceber que o aspecto plurissêmico poderia ser eliminado de acordo com as circunstâncias do contexto. Nesse caso, a ambiguidade é desfeita ao se levar em consideração o autor de cada enunciado.

Em seguida, utilizando-se do livro didático Linguagem em movimento, vol.1, da editora FTD, passou-se para a análise da figura II, que aparece na página 211, da obra citada.

Figura 2

Discutiu-se, a partir do anúncio do Banco Central do Brasil sobre a mudança na apresentação das moedas de R$ 1,00, que a palavra “coroa” utilizada no contexto, funcionou como um poderoso recurso para captar a atenção do leitor, já que compõe uma mensagem de duplo sentido, em função, de suas significações.

Nesse contexto, pode-se entender a expressão “coroa”, como sendo o reverso da moeda, já que se trata de uma publicidade do Banco Central do Brasil. Porém, levando-se em conta todo o contexto, pode-se considerar, além desse, outro sentido atribuído à palavra, como sendo algo velho, antigo.

Nesse texto, portanto, fica claro que a polissemia foi um recurso utilizado para enriquecer a expressividade do gênero.

Outros gêneros que exploram a plurissignificação dos vocábulos também foram analisados com os alunos. No caso, dentre os textos literários, destaca-se o texto I, de Mário Quintana, que também compõe o material didático, na página 212.

Texto I.

O espelho no escuro

Um espelho no escuro aproveita a solidão da noite para refletir, de fato.

Mário Quintana

Nesse poema, discutiu-se com os alunos, a polissemia da palavra “refletir”. Inicialmente, tem-se um significado literal, associado ao fato de tratar- se de uma característica do espelho. Ou seja, a princípio, tem-se o significado literal do verbo refletir como sendo a “capacidade de, por um processo óptico, reproduzir uma imagem” (HOUAISS, 2008, p.639). Mas, como o poema trata de um espelho no escuro que, portanto, não conseguiria refletir uma imagem, o leitor é convidado a considerar outro sentido para o verbo refletir, o significado final, que nesse caso será a ação de tecer considerações mentais.

Pode-se perceber que, em alguns gêneros, quando precisamente utilizada, a polissemia torna-se um grande recurso expressivo do texto.

O tema acerca da plurissignificação das palavras e a análise dos textos com polissemia foram trabalhados com os alunos no 2º bimestre do ano letivo, no mês de junho de 2012. Todos foram orientados de que a proposta de produção textual com o uso da polissemia seria desenvolvida no início do mês de agosto de 2012, no 3º bimestre, após o período de férias.

Decidiu-se por esse cronograma para que a professora pudesse, nesse ínterim, pesquisar, estudar e “experimentar” o suporte em que os alunos produziriam seus textos, uma vez que, conforme já posto, os educandos utilizam constantemente e com propriedade as mídias sociais. Portanto, esse período foi significativo para que a professora pudesse sentir-se mais segura, para atividade proposta, tanto como mediadora, como participante.

4.2. APRESENTAÇÃO DA PROPOSTA “POLISSEMIA NA REDE - UM TWEET PELA CIDADE”

Ao retomarem-se as análises textuais de caráter polissêmico, os alunos foram questionados sobre a possibilidade de utilização desse recurso da linguagem como forma de expressão nos mais variados gêneros e temas.

A proposta “Polissemia na rede - um tweet pela cidade” foi, então, apresentada aos alunos. Foram orientados de que deveriam produzir seus textos, explorando a polissemia, acerca de um problema social identificado na cidade de Santo André, utilizando como suporte textual digital, o Twitter. Em virtude da utilização dessa ferramenta, a mensagem deveria conter, no máximo, 140 caracteres.

A seleção do tema em questão deu-se, principalmente, por se tratar de ano de eleições municipais. Tal fato pode promover, em sala de aula, maior reflexão sobre os problemas sociais, com o objetivo de se pensar na necessidade de uma ação participativa na sociedade para a busca de soluções.

O currículo, enquanto instrumentação da cidadania democrática deve contemplar conteúdos e estratégias de aprendizagem que capacitem o ser humano para a realização de atividades nos três domínios da ação humana: a vida em sociedade, a atividade produtiva e a experiência subjetiva, visando à integração de homens e mulheres no tríplice universo das relações políticas, do trabalho e da simbolização subjetiva. (PCNEM, 2000, p.15)

Quanto ao suporte textual a ser utilizado, os alunos questionaram de que forma a atividade poderia ser desenvolvida, já que os computadores do laboratório de informática da escola são bloqueados para acesso às redes sociais. Decidiu-se, então, pelo uso dos tablets, disponilizados aos alunos, pela escola, quando solicitados por um professor.

Destaca-se ainda, em uma das três salas em que a atividade foi apresentada, o entusiasmo foi tão grande que alguns alunos sugeriram utilizar seus próprios Iphones, para que a proposta não fosse inviabilizada pela

restrição da escola às mídias sociais. Vale apontar que a turma que apresentou tal postura, foi à classificada como turma “D”, que representa, no sistema de

ranking do colégio, a última posição.

As turmas “A” e “B” reagiram com certo estranhamento à proposta, por se tratar de uma atividade que diverge das demais em todas as disciplinas e por abordar um suporte comum a eles, porém fora do contexto acadêmico. A professora ainda foi questionada, por essas turmas, se tal atividade teria uma menção em nota e de que forma ela avaliaria o resultado. Tal preocupação justifica-se pelo fato de que a permanência ou não em determinada sala, se dá por meio da meritocracia de notas de cada aluno.

Partiu-se, em seguida, para a discussão sobre a ferramenta Twitter. Os alunos foram questionados sobre a utilização dessa rede social, tanto como meio de entretenimento quanto sobre a sua função social, política e empresarial.

A maioria já possuía perfil no Twitter e utilizava - o esporadicamente. Alguns justificaram alguma dificuldade de uso em função do limite de espaço, o que mostra, nesse caso, a falta de síntese, de alguns usuários, para elaboração de mensagens completas, levando-os, por vezes, a abandonar a ferramenta.

Para aqueles, ainda que poucos, que não possuíam perfil no Twitter, os demais alunos prontificaram-se a auxiliá-los na abertura da conta, pois, dessa forma, todos já teriam explorado a ferramenta antes da publicação de seus textos referentes à atividade.

Sobre a utilização e função da plataforma, a maioria dos alunos apontou o uso “familiar” do Twitter, justificando que, por meio dessa rede social, pode manter-se, diariamente, a par da vida de amigos e familiares mais distantes.

Quanto à função social, política e empresarial dos meios digitais de interação, alguns alunos citaram, como exemplo, a Primavera Árabe; a organização pública, no Brasil, para realização de marchas, como a marcha contra a corrupção; a divulgação sobre o líder de milícias Kony; as discussões

e decisões sobre Rio + 20 e a divulgação de produtos e de campanhas políticas.

As redes virtuais alteram os modos de ver e ler, as formas de reunir- se, falar e escrever, de amar e saber-se amado à distância, ou talvez, imaginá-lo. Outras formas de ser sociedade e de fazer política emergem das “mobilizações – relâmpagos”...]. Convocadas por e- mails ou por celular, reivindicações não ouvidas por organismos internacionais, governos e partidos políticos conseguem coordenação e eloquência fora da mídia. (CANCLINI, 2008, p.54)

Interessante apontar, os alunos que sabiam da utilização dessas ferramentas em outros contextos além da interação entre amigos, quando questionados sobre a possibilidade de uso dessas plataformas no meio acadêmico, foram unânimes em afirmar ser possível, pois:

- trata-se de uma ferramenta eficiente e que a maior parte dos jovens tem intimidade;

- permite a comunicação entre alunos e professores rapidamente;

- com a velocidade e efemeridade da vida moderna, a poesia e a prosa instantânea do Twitter são representações justas e preciosas do mundo atual;

- é de fácil acesso, com informações curtas e rápidas;

- aproximará os jovens do ensino por ser uma ferramenta comum em suas vidas e algo que eles têm prazer em usar;

- é uma forma eficiente de ampliar a discussão sobre um tema;

- é uma forma de treinar a síntese, uma vez que só há 140 caracteres para se expressar;

- os alunos podem seguir seus professores, escritores e pessoas que revolucionam o meio científico;

- é um meio fácil de perceber como a maioria pensa sobre determinados assuntos. É um instrumento que com poucas palavras, as pessoas expressam suas ideias;

- têm-se, com o Twitter, as últimas informações e acontecimentos do mundo real;

- pode tornar a convivência e a comunicação na sala de aula mais eficiente.

Apresentaram-se, aos alunos, outras situações em que o Twitter fora utilizado como um meio importante na difusão de informações, dentre elas, algumas já mencionadas nesse trabalho, como o perfil Voz da Comunidade, criado por adolescentes, moradores do Morro do Adeus, no Rio de Janeiro, durante ação de pacificação no local e, também, o perfil criado pelo governo da Paraíba para interagir com a população.

Em seguida, partiu-se para a discussão sobre os problemas sociais que a cidade de Santo André apresenta. Reforçou-se ainda que, por tratar-se de um ano de eleições, o meio de divulgação do texto funcionaria como uma importante ferramenta para solicitação de propostas de soluções, a serem apresentadas pelos candidatos à Prefeitura Municipal.

Levantaram-se problemas acerca da violência, da falta de lazer, de saneamento básico, de educação e de moradia. Também se apontou a questão da coleta seletiva de lixo na cidade, pois, em 2011, a cidade foi apontada pela revista Veja, como uma das únicas do ABC que adota tal prática e, no entanto, grande parte dos munícipes nunca foram orientados a respeito.

Quanto à violência enquanto um dos problemas sociais, os alunos levaram em conta os atos e não os estados de violência, mesmo que estes possam ser os causadores daqueles. Considerou-se como problema social os atos de violência que, de alguma forma, geraram “danos físicos e/ou morais, que se representem nas posses ou nos planos simbólicos e culturais de um homem ou de um grupo” (GUIMARÃES, 2001, p. 21).

Sobre a distinção entre os atos e os estados de violência, Guimarães (2001) vale-se do livro Violência na sociedade contemporânea, de Dalton Caram, quando aponta:

A violência como ato pode caracterizar a violência direta e por isso pode ser identificada, determinada, reconhecida e julgada sem muita dificuldade, porém a violência como estado caracteriza, sobretudo a violência indireta. [...] que se pode sentir, perceber, mas não se pode determinar, identificar ou julgar especificamente; [...] Como ato poderia ser definida como o emprego de meios de ação que atentasse contra a integridade física, psíquica e moral da pessoa. Como estado é mais um clima em que se vive e se respira, clima pleno de incertezas, inseguranças, terror, etc. (1978, p.94).

A partir da seleção de um tema sobre a cidade, os alunos começaram a relacionar vocábulos pertencentes ao campo semântico do problema escolhido por cada um, para, em seguida, buscar, dentre esses, a melhor expressão que pudesse, de forma eficiente, produzir a ambiguidade na mensagem e, assim, chamar a atenção dos demais usuários do Twitter para um aspecto negativo na cidade.

Selecionada a palavra polissêmica, os alunos iniciaram o processo de produção de suas mensagens, em 140 caracteres. No entanto, para elaboração dessa produção, escreveu-se o texto, num primeiro momento, em um espaço que correspondia aos números de caracteres permitidos pelo

Twitter.

Os alunos apresentaram certa dificuldade na produção textual não só em função da estrutura exigida por esse meio, mas também, pela relevância do tema e pelo recurso linguístico a ser explorado, a polissemia. Essa produção textual promoveu a reflexão dos alunos sobre a preocupação com a elaboração de seus discursos, nesse caso, com a mensagem a ser tuitada. Permitiu-lhes refletir sobre a importância daquilo que se quer dizer, de o porquê dizer, do como dizer e do que se consegue, efetivamente, dizer.

Por se tratar de uma produção que ultrapassa o espaço acadêmico, a funcionalidade do texto e a possibilidade de interação foram importantes estímulos aos alunos para a busca pela eficiência de suas produções.

Reforçou-se com os alunos que as produções escritas no Twitter são baseadas em uma interação síncrona e, caso suas mensagens fossem retuitadas, poderiam ter uma sequência imediata de respostas, o que oportunizaria, a eles, maior exploração da mensagem e do tema proposto. Nesse processo, o aluno tornou-se responsável pelo seu conhecimento dentro do processo de ensino e de aprendizagem.

Nessa atividade, o aluno mostrou-se não só comprometido com a participação nas questões urgentes de sua cidade, como também, com o uso eficiente da linguagem em um meio digital, já que seu texto teve repercussão na rede social Twitter.

O Ensino Médio, portanto, é a etapa final de uma educação de caráter geral, afinada com a contemporaneidade, com a construção de competências básicas, que situem o educando como sujeito produtor de conhecimento e participante do mundo do trabalho, e com o desenvolvimento da pessoa, como “sujeito em situação” – cidadão. (PCNEM, 2000, p.8)

[...] o Ensino Médio passa a integrar a etapa do processo educacional que a Nação considera básica para o exercício da cidadania, base para o acesso às atividades produtivas, para o prosseguimento nos níveis mais elevados e complexos de educação e para o desenvolvimento pessoal, referido à sua interação com a sociedade e sua plena inserção nela, ou seja, que “tem por finalidades

desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores” (Art.22, Lei nº 9.394/96).

Para avaliação final dessa atividade, foram considerados alguns aspectos relevantes para essa produção. No entanto, ao longo do processo, a professora, como mediadora, orientou os alunos, sempre que necessário, sobre a importância de elementos para produção de texto:

 A temática;

 O uso eficiente do aspecto polissêmico da linguagem e  A estrutura textual pertinente ao meio (140 caracteres).

Finalizada a produção do texto, foram solicitados os tablets para que cada aluno publicasse o seu tweet, em seu perfil.