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Likhetspåvisning med symboltelling

Reafirmando e exemplificando o pensamento de Bréal e Cançado, pode- se buscar a construção metafórica na fala do ex- presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, em notícia veiculada pelo jornal, Folha de São Paulo, em 29.06.2010:

Lula afirma que ajudará América Latina, Caribe e África quando deixar Presidência.

Em artigo publicado hoje no jornal britânico "Financial Times", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que, após deixar a Presidência da República, pretende desenvolver ações que ajudem países da América Latina, do Caribe e a África.

[...]

No artigo, intitulado "O destino de uma nação", Lula classificou o Brasil como "uma ilha de prosperidade" e disse que o país deve

contribuir para livrar o mundo da fome, da pobreza e da injustiça social.

"O Brasil tem muita experiência que pode ser dividida. Não podemos ser uma ilha de prosperidade cercada por um mar de pobreza e injustiça social", disse ele. "Quero continuar os esforços que meu governo fez para criar um mundo multilateral e multipolar que seja livre da fome e da pobreza".

http://www1.folha.uol.com.br/. Acessado em 24.04.2012

Quando o ex-presidente refere-se ao país como uma ilha, não se trata de um conceito geográfico que, segundo os dicionaristas refere-se, em um primeiro sentido a:

 “uma porção de terra não tão extensa quanto um continente e cercada de água por todos os lados” (http://www.houaiss.uol.com.br/busca. Acessado em 24.04.2012).

 “Espaço de terra cercado de água por todos os lados.” (http://www.priberam.pt/DLPO. Acessado em 22.06.2012).

 “Porção de terra cercada de água por todos os lados.”

(http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index. Acessado em 22.06.2012).

No caso da fala do ex-presidente, publicada pela Folha de S.Paulo, a palavra foi utilizada a partir de uma associação de ideias, estabelecendo-se uma comparação. Em função de seu caráter geográfico, atribui-se à ilha a condição de isolamento e, nesse contexto, a expressão linguística refere-se ao isolamento econômico do país em relação aos demais. O sentido que o autor atribuiu ao país, nesse contexto, associando-o a uma ilha, procurou evidenciar o apoio e a ajuda financeira do Brasil aos países em crise econômica, indicando que o país não se manterá isolado em seu crescimento econômico, alheio às dificuldades financeiras dos demais. A ampliação de sentido da expressão linguística “ilha” nesse contexto, não se trata de algo original, de autoria do ex-presidente. Tal sentido já faz parte de uso da linguagem, sendo recorrente na linguagem política e jornalística, portanto, já consta dos mesmos dicionários como:

 “aquilo que, por seu isolamento ou incomunicabilidade em relação ao que o cerca, se assemelha a uma ilha.”

 “aquilo que se torna isolado”  “Objeto completamente isolado”

Como já destacado, segundo Brèal (1992), esse é um caso em que a metáfora foi incorporada à linguagem corrente, apenas como outra forma de se dizer algo.

Para análise da expressão “ilha” nesse contexto, parte-se da semântica referencial e da representação mental para a extensão de significado da palavra. A partir de uma estrutura significativa, a acepção dada à palavra pode ser entendida como uma ampliação do conceito do sentido referencial.

Nesse contexto, ainda, para mensurar a condição paupérrima de vários países, o autor associa a pobreza ao mar, relacionando-os por meio da similaridade de suas dimensões. No caso do mar, a extensão geográfica; no caso da pobreza, procurou-se mensurar, com essa construção, a proporção da condição miserável em que se encontram os países em crise econômica.

A ampliação de sentido das palavras trata-se de um processo natural da língua, deve-se, portanto, dar a devida importância ao reconhecimento desses sentidos, visto haver diversas produções discursivas em que a palavra deve ser compreendida, considerada com as suas várias possibilidades de sentido para que haja a efetiva compreensão textual.

Não se fala por palavras ou signos, fala-se por textos, cujo plano da expressão apresenta dimensões variáveis, mas deve-se distinguir entre os múltiplos sentidos que uma palavra possui enquanto unidade léxica, para que, a partir daí, possa-se identificar o sentido que a palavra adquire quando utilizada em um determinado contexto.

Em um primeiro momento, ao buscar a significação da palavra, faz-se um estudo da Língua; ao analisá-la dentro de um contexto, faz-se de um

estudo da Linguagem. Tal processo é essencial para o desenvolvimento da competência linguística dos falantes de uma língua e, em especial, dos alunos.

O domínio do sentido original de uma expressão linguística, como já mencionado, contribui para que se possa compreendê-la em seu sentido metafórico. A palavra tem um significado (básico, inerente) e as suas várias acepções derivam dele, portanto o dicionário, que corresponde ao acervo léxico e cultural de uma dada comunidade (VILELA, 1995), é um instrumento fundamental para busca da definição e significação de uma palavra, além da ampliação de vocabulário, metafórico ou não.

Segundo Katz e Fodor (apud LOPES, 1995, p.299), uma teoria semântica deve incluir um dicionário e uma série de regras de projeção:

O dicionário é algo que se aprende unidade por unidade, memorizando-as, de tal modo que sempre se pode aprender mais. [...] as regras de projeção implicam o exercício da capacidade de codificar e de decodificar a informação linguística [...] seu efeito deve ser o de selecionar o sentido apropriado a cada unidade léxica de uma frase, a fim de permitir as interpretações corretas.

Sobre o dicionário, Dubois (1971, p.11) afirma:

O dicionário não apenas é reflexo da cultura característica de um povo, como também registra o saber científico adquirido por esse povo em determinado momento histórico. Assim, o dicionário é o veículo de acesso a esse saber sociocultural e científico dominante, que deve ser apreendido, adquirido.

Ao buscar Cano (1998, p.206), complementa-se essa ideia quando o autor conclui:

O dicionário tem, pois, um papel fundamental na transmissão do saber científico, permitindo melhorar a competência comunicativa do usuário da língua, e, dessa maneira, facultar-lhe o acesso a ambientes socialmente distintos.

As palavras têm, portanto, poder decisivo para confecção de uma mensagem eficiente, mas sabe-se que cada unidade lexical não designa ou aponta apenas uma ideia ou um único sentido.

O dicionário, um dos componentes da teoria semântica (LOBATO, 1977), pode apresentar, para uma dada unidade léxica, sentidos mais numerosos do que ela possui em uma frase, já que a cada expressão são incorporados os sentidos que vão sendo adquiridos ao longo de cada época, em função de diversos fatores. Assim, deve-se selecionar o sentido apropriado a cada palavra em determinado contexto, a fim de permitir as interpretações adequadas, de acordo com a estrutura da frase.

A escolha das palavras é extremamente importante para a eficiência comunicativa. Para uma interação eficaz, é fundamental que haja a seleção adequada de palavras empregadas pelo enunciador, além do conhecimento vocabular e da competência de compreensão do enunciatário. Nesse processo, tanto o enunciador quanto o enunciatário devem ter conhecimento das possibilidades de plurissignificação das palavras.

O conhecimento e a seleção vocabular mostram-se fundamentais na hora de produzir um texto oral ou escrito. Drummond, poeta brasileiro do século XX, comparou essa escolha a uma luta, demonstrando quão árdua é a tarefa de selecionar os vocábulos a serem utilizados pelo autor. Seus versos explicitam: “Lutar com as palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã” (DRUMMOND, 1992, p. 182).

Para Márcia Cançado, (2008, p.19) em Manual de Semântica,

[...] uma teoria semântica deve, em relação a qualquer língua, ser capaz de atribuir a cada palavra e a cada sentença12 o significado (ou significados) que lhe(s) é (são) associado(s) nessa língua. No caso das palavras, isso significa essencialmente escrever um dicionário. No caso das sentenças, o problema é outro.

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“Sentença pode ser definida, sintaticamente, pela presença de um verbo principal conjugado e, semanticamente, pela expressão de um pensamento completo.”(OLIVEIRA, 2001, p.99).

A significação adequada de cada palavra deve levar em conta a sua situação de uso, pois é também o contexto que lhe atribui um determinado valor, dentre tantos que podem ser suscetíveis. Toda forma linguística é enunciada em um contexto e, nem sempre é claro se o significado dessas formas é independente do contexto situacional em que são utilizadas (ILARI e GERALDI, 2000).

A investigação linguística do significado das palavras interage com o estudo de outros processos cognitivos, como fatores extralinguísticos relacionados ao campo da prosódia: entonação, expressão facial, gestos. Alguns aspectos do significado são explicados em termos de teorias da ação, ou seja, de uma teoria pragmática, como, por exemplo, as teorias de atos de fala. Tais teorias podem ajudar a explicar como as pessoas fazem para significar mais do que simplesmente está dito, através da investigação das ações intencionais dos falantes.

Para se chegar ao significado adequado de uma sentença, levam-se em conta, as experiências dos interlocutores, suas intenções e conhecimento sobre o mundo. Esses aspectos dos significados encontram-se fora do estudo de uma teoria semântica:

Pode ser pensada como a explicação de aspectos de interpretação que dependem exclusivamente do sistema da língua e não de como as pessoas a colocam em uso, em outros termos, podemos dizer que a semântica lida com a interpretação das expressões linguísticas, com o que permanece constante quando uma expressão é proferida (CANÇADO, 2008, p.15).

A pragmática, por sua vez, refere-se à atenção, ao que é dito em determinado contexto, observa os usos situados da língua e lida com certos tipos de efeitos intencionais. No entanto, ainda segundo a mesma autora, “nem sempre é tão clara essa divisão, pois nem sempre se consegue precisar o que está no terreno da semântica e o que está no terreno da pragmática”. (2008, p.17)

Ducrot (apud LOPES, 1995) afirma que não existe na realidade nenhum enunciado que ocorra extra contexto. Para ele, a descrição semântica de um

enunciado inclui, além de fatores linguísticos, os fatores que participam das circunstâncias de manifestação dos enunciados. Ou seja, em um primeiro momento pode-se compreender o enunciado a partir do componente

linguístico, independente de qualquer contexto; em um segundo momento, o componente retórico incide sobre o componente linguístico a significação

efetiva do enunciado.

Seguindo a teoria de Ducrot, Mário A. Perini (2000, p. 44-5), em Para

uma Nova Gramática do Português, afirma:

Temos duas camadas de significado: o significado literal, que não depende da situação concreta em que a frase é enunciada; [...] e o significado final, que depende, para sua depreensão, não apenas da análise da expressão linguística, mas ainda de se levarem em conta fatores extralinguísticos, tais como a situação de comunicação.

Pode-se constatar a ideia de Perini, fundamentada em Ducrot, por meio

da composição de Thomate;

(http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/04/416272.shtml. Acesso em

11.04.2012).

Na charge “Redução da maioridade penal”, assunto gerador polêmica na época de sua publicação (2008), podem-se identificar, conforme Perini (2000), as duas camadas de significados das palavras: o significado literal e o significado final.

Levando-se em conta que a situação contextual trata-se de uma revista policial, ao ler- se a expressão “limpos”, dita por um policial executador dessa revista, pode-se entender, com essa expressão, que as pessoas que estão sendo revistadas, no caso crianças, estão livres de qualquer objeto ou atitude que comprometa sua integridade. Tem-se, nesse caso, a compreensão da charge a partir do significado final, já que se levou em consideração, para sua depreensão, não apenas a análise da expressão linguística, mas também, os fatores extralinguísticos.

No entanto, a charge também explora o significado literal da expressão “limpos”. Ao se observar o policial com as mãos sujas, deve-se considerar, dentre as duas camadas de significado, o sentido literal da palavra “limpos”: “aquilo que está isento de qualquer sujidade, impureza ou mancha” (Hoauiss). A situação de comunicação permite identificar qual é o significado adequado que se deva atribuir à expressão quando proferida por cada policial.

Parte-se de uma abordagem referencial para a compreensão da charge ao se observar o policial com suas mãos sujas, referindo-se à postura diferenciada da terceira criança revistada, o que pode ser comprovado, inclusive pela sua fralda e a sua expressão facial.

Já, quanto ao primeiro policial, afirma que as crianças revistadas estão limpas, tem-se a metáfora “estar limpo” como uma extensão do sentido de limpeza, relacionado à integridade e à índole dos indivíduos e não à condição de higiene.

Nessa charge, tem-se a expressão “limpos” como o componente

indicando algo que não apresenta boas condições de higiene. Já, nas circunstâncias do contexto, em que em uma revista o policial menciona a mesma expressão, tem-se outro sentido, ampliado para a significação do

componente retórico.

Sobre a significação das palavras, Perini (2000, p.45-6) afirma tratar-se de uma questão extremamente controversa, não existindo, em sua opinião, uma solução satisfatória. Assim, aponta

Há duas maneiras de encarar a relação entre significado literal e o significado final de uma sentença: (a) podemos admitir que o significado literal é básico, e que o significado final é computado a partir do literal, mais certos traços do contexto extralinguístico. “Ou então(b) negar a existência de significados literais em oposição a finais, isto é, negar que uma expressão linguística possa ter seu significado próprio independente do contexto.”

Na análise da charge, composta por textos verbal e visual, os aspectos visuais são fundamentais para eliminar a possibilidade de dupla interpretação, que, nesse contexto, incide sobre o item lexical “limpos”. A ambiguidade lexical é gerada por dois fenômenos linguísticos: a homonímia e a polissemia.

Os dicionários podem apresentar dois verbetes ou mais, com significados distintos, ou apenas um verbete com diversas acepções. De acordo com Margarita Correia, em artigo, que trata da homonímia e da polissemia, publicado na Revista Palavras,

(http://www.iltec.pt/pdf/wpapers/2000-mcorreia. Acesso em 28.04.2012), entende-se que caso se trate de mais de um étimo, vocábulo primitivo que dá origem a outros, e haja, no caso de dois ou mais verbetes, a impossibilidade de contiguidade semântica entre as acepções, está-se, segundo o critério etimológico-semântico, diante de um caso de homonímia. Do contrário, ou seja, estando-se diante de um único étimo e acepções que podem vincular-se semanticamente, tratar-se-á de um caso de polissemia.