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Quando um indivíduo compartilha coletivamente suas lembranças, há duas memórias em jogo: a autobiográfica, íntima e individual, como diz Halbwachs, “no contexto de sua personalidade ou de sua vida pessoal” (op. cit., p. 71), e a histórica, coletiva impessoal e social, que na interação das lembranças também interpenetra a individual, íntima e pessoal. Isso porque a memória individual não está hermeticamente fechada e isolada na consciência da pessoa. Quando expomos nosso próprio passado, que é íntimo e pessoal e que diz

respeito apenas à nossa individualidade, necessitamos sempre recorrer às lembranças dos outros que participaram conosco.

Onde morávamos não havia água e eu e minhas irmãs mais velhas íamos buscar água com baldes. Minha mãe não podia ir, pois ela tinha que ficar com o bebê e com os meus três irmãos pequenos. [Excerto – Texto 2]

Nas férias era muito divertido, pois nós caçávamos passarinhos com estilingue, pescávamos, andávamos a cavalo e todo fim de tarde fazíamos uma parada no pomar antes de voltarmos para casa. [Excerto – Texto 3]

Mesmo a memória sendo individual é impossível partilhá-la, contá-la a alguém, sem que se leve em conta todo o arcabouço social. O que Halbwachs (op. cit., p. 72) expressa é “(...) o funcionamento da memória individual não é possível sem esses instrumentos que são as palavras e as ideias, que o indivíduo não inventou, mas toma emprestado de seu ambiente”.

Brandão (2005), dentro do ponto de vista da análise do discurso, faz abordagem sobre a perspectiva do sujeito descentrado e diz que a noção de história é fundamental. Quando um indivíduo expressa suas memórias, posto que esse indivíduo em sua essência é um ser histórico, o faz a partir de um tempo e um lugar determinados. O seu discurso de recordação está carregado de representações do seu tempo. Isso porque a memória tem a capacidade de medir o tempo na medida em que considera os acontecimentos da vida dentro de uma dimensão temporal: um ano específico, a idade em que aconteceu algum fato marcante, etc.

Cheguei em São Paulo no dia 16 de Abril de 1996. [Excerto – Texto 7]

Aos onze anos de idade fui morar na casa de uma conhecida da minha mãe. [Excerto – Texto 8]

No ano de 2002 minha tinha começou a namorar o vizinho da casa da frente (...). [Excerto – Texto 9]

Em 1978 vim para São Paulo. [Excerto – Texto 23]

Meu pai veio a falecer quando eu tinha onze anos. [Excerto – Texto 11]

Nem todos têm essa capacidade de marcar o tempo com datas específicas, porque nem todos se conscientizam que os acontecimentos se sucedem dentro de um período de tempo. Além do tempo, seu discurso está eivado do ambiente histórico. Situa a sua recordação eivada de expressões, palavras e ideias do espaço social em que habitou. Nas autobiografias aparecem expressões como “casa de sapé”, “balaio”, “fava”, “roça”, “macaxeira”, etc. Há, ainda, os lugares determinados:

(...) morávamos em uma fazenda chamada Mandaguari... mudamos para outra fazenda chamada Boa Esperança. Ao completar treze anos mudamos para a cidade de Álvaro Carvalho. [Excerto – Texto 3]

Nasci na Capital de São Paulo, ali bem perto de onde hoje tem a estátua do Borba Gato. [Excerto – Texto – 1]

Eu nasci em Itapipoca, uma cidade do Estado do Ceará [Excerto – texto 24]

Assim, ao recorrer às lembranças, nós o fazemos por meio daquilo que experimentamos, observamos, praticamos, sentimos e imaginamos num dado momento das nossas vidas.

A memória é histórica porque pertence a um determinado espaço e a um determinado tempo vivido. Não há memória senão daquilo que já passou. Não há memória de tempo presente e, sim, do passado, daquilo que já aconteceu, daquilo que foi vivenciado individualmente. À medida que o tempo vai passando, carregamos uma série de lembranças históricas; os eventos que marcaram as nossas vidas, em um dado momento, serão lembrados. Pierre Achard (2010, p. 25) faz uma observação necessária: “(...) para que haja memória é preciso que o acontecimento, ou o saber registrado saia da indiferença, que ele deixe o domínio da insignificância”. Momentos históricos significantes são, por exemplo, aqueles marcados por falecimentos na família, como atestam algumas autobiografias.

Quando completei 4 anos meu pai veio a falecer. [Excerto – Texto 4]

Ele [padrasto] deu entrada no hospital pela manhã e à tarde faleceu. [Excerto – Texto 8]

Após uma semana a minha avó adotiva ligou para saber notícias da minha mãe e ficou sabendo que ela tinha tido um ataque cardíaco... Ela não resistiu e veio a falecer. [Excerto – Texto 8]

Certo dia, o meu irmão Adilson, que era loiro, tinha olhos azuis e estava com três anos de idade, foi beber água, entretanto ele caiu no fundo do barril e morreu afogado. [Excerto – Texto 6] Sempre que nos lembramos dos tempos de nossa infância o fazemos de forma natural, porque as impressões e as imagens ficaram marcadas em nossa memória, o que facilita a recordação. Ao recordar, nossa memória volta-se para o ambiente e para as pessoas de nossa convivência, o que nos atrai mais do que os fatos históricos da humanidade. É a chamada memória pessoal, porque diz respeito a tudo aquilo que se passou na vida da pessoa, em seu ambiente familiar, escolar ou na intimidade. O que foi vivenciado serão as lembranças e as recordações pessoais. É o que Halbwachs (op. cit., p. 90) chama de passado vivido, onde a memória encontrará apoio. A história vivida, segundo ele, “tem tudo o que é necessário para constituir um panorama vivo e natural sobre o qual se possa basear um pensamento para conservar e reencontrar a imagem de seu passado”.

Minha vida toda valeu como experiência, pois ensinei meus filhos a trabalharem e ganharem seu próprio dinheiro. Não dependerem de ninguém e ter bons amigos, pois tudo que passamos nesta vida nos serve de experiência. [Excerto – Texto 1]

A tendência do ser humano é lembrar-se justamente com mais clareza daquilo que vivenciou.

Quando alguém faz uma descrição de fatos de sua vida que ocorreram no passado, essa reconstrução do passado é diferente daquilo que descreve no presente, porque, quando o indivíduo se recorda, reconstrói-se a si mesmo.

Nesta autobiografia reconstitui o percurso de minha vida e ao relembrar experiências busco atribuir algum sentido a minha história. [Excerto – Texto 3]

Muitos outros estudiosos modernos destacam-se na pesquisa sobre memória. Joël Candau (2011) analisa a relação entre memória e identidade de acordo com a concepção antropológica e sociológica. No seu entendimento, não há

ser humano sem memória. Todos os seres humanos são dotados de memória, a menos que tenham algum problema patológico. Candau (2011, p. 59-60)

,

ao enfatizar a relevância da memória, afirma que quem perde a memória perde a identidade, porque deixa de ter a noção de si mesmo. Prossegue ele:

Sem memória o sujeito se esvazia, vive unicamente o momento presente, perde suas capacidades conceituais e cognitivas. Sua identidade desaparece. Não produz mais sucedâneo de pensamento, um pensamento sem duração, sem a lembrança de sua gênese que é a condição necessária para a consciência e o conhecimento de si.

Todos os alunos que escreveram suas autobiografias tiveram uma noção da própria existência, perceberam a própria vida como uma história que poderia ser contada, a partir de um passado difícil, permeado de circunstâncias adversas. As história que contaram têm um enredo, um princípio, que não termina como começou. Modificou-se à medida que o tempo foi passando. Nenhum deles permaneceu do mesmo jeito.

Crescemos e nos tornamos moças e rapazes. [Excerto – Texto 6]

Hoje tenho a família que pedi a Deus. Tenho um filho lindo e um marido maravilhoso. [Excerto – Texto 8]

Hoje conquistamos muitas coisas. Estou agora com quarenta e dois anos, meu marido com quarenta e meu filho com quinze anos. [Excerto – Texto – 11]

Houve, por todos, uma modificação da situação vivida, apontada nos relatos acima e em todos os outros textos que compõem esta pesquisa. O recordar, a partir do nascimento até a vida adulta, marca um tempo vivido, mas que não permaneceu o mesmo. Todos cresceram, adquiriram experiências, conhecimentos e saberes partilhados pela interação com a família, a sociedade, a escola, etc. Tudo que foi partilhado formou hábitos e costumes que foram incorporados ainda que inconscientemente pelo indivíduo, alojou-se na memória ao longo dos anos e hoje cada indivíduo pode se autobiografar. A identidade não permaneceu a mesma, porque todos cresceram, tornaram-se moças e rapazes, senhores, senhoras, passaram por transformações.

Assim, há um vínculo fundamental entre a memória e a identidade e não podemos pensar nestes dois termos como totalmente distintos: é a memória que se responsabiliza pela construção da identidade do sujeito e as recordações que temos de cada época de nossa vida se dão no plano coletivo, porque não podemos narrar nossa história sem mencionar nomes ou grau de relacionamento das pessoas que estiveram presentes. O que dá fundamento à identidade é a lembrança e esta antecede a identidade. Candau (op. cit., p. 19) sustenta que:

(...) memória e identidade se entrecruzam indissociáveis, se reforçam mutuamente desde o momento de sua emergência até sua inevitável dissolução. Não há busca identitária sem memória e, inversamente, a busca memorial é sempre acompanhada de um sentimento de identidade, pelo menos individualmente.

E a identidade tem sido um assunto amplamente discutido, porque as velhas identidades (Hall, 2006, p. 7) que davam solidez e firmeza ao mundo declinaram, fazendo com que emergissem novas identidades, deixando o sujeito moderno fragmentado.