A polissemia pode dar-se a partir de uma perspectiva de referenciação ou também ocorrer por meio da expansão metafórica das expressões linguísticas (BRÉAL, 1992). Enfim, trata-se de um processo intelectual e social da língua e, portanto, do qual o falante deve ter conhecimento, já que o fato de um termo acumular mais de um significado pode atribuir ao texto, determinados efeitos de sentido.
Valendo-se de Sweetser e Heine, busca-se Cançado (2008, p. 102) para resgatar tema já discutido:
[...] a metáfora, que é um tipo de estrutura cognitiva, é vista como condutora das mudanças lexicais e fornecedora da chave para entender a criação da polissemia e do fenômeno de trocas semânticas.
No entanto, há, segundo alguns teóricos, uma grande dificuldade de distinção entre polissemia e homonímia das palavras. A polissemia é uma das questões semânticas, definida como o estudo da relação de sentido das palavras em uma construção gramatical. (ILARI e GERALDI, 2000).
Em Polissemia e Campo Semântico – estudo aplicado aos verbos de
movimento, Gládis Knah Rehfeldt (1980, p.115) apresenta definições de diferentes autores para polissemia. Dentre eles, a autora busca Franscico da Silva Borba, autor de Pequeno Vocabulário de Linguística Moderna, onde determina que “polissemia é a pluralidade significativa de um mesmo significante, dependendo do contexto e da situação”.
A autora recorre (1980), também a Vendryes, em sua obra La langage, afirmando que por polissemia deve-se entender a faculdade que têm as palavras de assumir significações variadas segundo os diferentes empregos a que estão sujeitas, e de se manterem na língua, com estas significações. O autor também aponta um motivo para isso: quanto maior a frequência de
emprego de uma palavra em contextos diferentes, maior é o risco de ser alterada sua significação.
Ainda na mesma obra (1980), a autora confere a semântica o exame das causas que levam as palavras, uma vez criadas e providas de certo sentido, a restringir o significado, a estendê-lo, a transportá-lo de uma ordem de ideias à outra. Em continuidade de seu pensamento, percebe-se que o acúmulo de significações de um vocábulo representa a diversidade de aspectos da atividade intelectual e social. Gládis Knah Rehfeldt (1980, p.79) afirma que “polissemia e homonímia podem facilmente ser confundidas. Na bibliografia a respeito do assunto, parece não existir critério seguro para distingui-las”.
Michel Bréal (1992, p. 102), ao tratar da polissemia, ressalta que o sentido novo não põe fim ao antigo; nada impede que os vocábulos polissêmicos sejam empregados alternativamente em seu “significado próprio ou metafórico, restrito ou ampliado, concreto ou abstrato”.
Em Gramática e Estilística,de Rocha Lima (2005, p.483-487), a polissemia é apresentada como a “multiplicidade de sentidos imanente em toda palavra que possui estrita dependência do contexto e que tem como resultado a sinonímia”.
Já a homonímia, Rocha Lima (2005, p. 487) descreve como “fator de perturbação da boa escolha das palavras”, e afirma dever ser consideras homônimas as palavras “que, tendo origem diversa, apresentam a mesma forma, em virtude de uma coincidência na sua evolução fonética”. O autor considera, também, a homonímia entre palavras que, possuindo forma idêntica, designem coisas distintas.
Em Caramuru, a invenção do Brasil, filme brasileiro de 2001, escrito e dirigido por Guel Arraes e Jorge Furtado, a partir da epopeia árcade brasileira de Santa Rita Durão, observam-se exemplos de homonímias que ocorrem no diálogo das personagens Diogo Álvares e Paraguaçu, evidenciando a diferença do contexto cultural entre eles.
Ao ser degredado de Portugal, o jovem Diogo Álvares chega a um país chamado Pindorama, intertexto do Brasil na época do descobrimento, e encontra a jovem índia nativa, Paraguaçu. Quando iniciam conversa, identificam-se exemplos de homonímias na fala de cada um, já que se trata de uma série de expressões comuns na grafia e na pronúncia, mas diferentes em seus sentidos, em função da origem distinta das personagens.
A partir do primeiro contato e da surpresa do jovem português Diogo Álvares ao perceber que os dois falam o mesmo idioma, eles começam a andar pela região e, à medida que caminham, a índia Paraguaçu vai apresentando a fauna e a flora local. O fragmento transcrito abaixo, ocorrido aos 31 minutos do filme, traz a homonímia da palavra “manga”.
Personagem Fala Situação
Paraguaçu Manga Ao subir em uma
mangueira, atira a ele a fruta.
Diogo Manga!? Surpreso, pega a fruta e
pronuncia em tom duvidoso.
Assim que Paraguaçu reafirma, com interjeições, que o nome daquela fruta era exatamente esse, Diogo repete a expressão, segurando a parte de sua camisa que recebe o mesmo nome e repete: Manga!
Figura 2. Caramuru. Invenção do Brasil. 31 min 40 seg
Nesse diálogo identifica-se a homonímia da palavra manga já que a mesma expressão refere-se a objetos distintos, que não apresentam nenhuma relação de similaridade. Além disso, a palavra apresenta origens distintas, já que os enunciadores pertencem a países diferentes e, nesse contexto, ainda não se pode afirmar a imposição ou a influência de um idioma sobre o outro.
Em registro no Dicionário Etimológico Nova Fronteira, de Antônio Geraldo da Cunha (1986), a palavra manga apresenta origem distinta como fruta e como parte da peça de vestimenta, reforçando - se, nesse caso, a homonímia, já que se trata de dois étimos para o mesmo verbete.
Manga¹ sf. ‘ parte da vestimenta onde se mete o braço’ [...] Do lat.
Manica, de manus ‘ mão’[...]
Manga² sf. ‘fruto da mangueira, planta da fam. Das anacardiáceas’ XVI. Do malaiala mangã, deriv. Do tamul mãnkãy [...] (p. 495)
Ainda na obra cinematográfica, as personagens, ao avistarem uma ave, reiniciam o diálogo que ilustra outro caso de homonímia, com a expressão “pena”. O fragmento do diálogo, transcrito abaixo, acontece aos 32 minutos e 09 segundos do filme.
Paraguaçu, ao tentar mostrar a Diogo Álvares a diferença entre as aves, diz:
Personagem Fala Situação
Paraguaçu É fácil, fácil. Arara tem dó colorido, urubu só tem dó preto.
Apontando para as aves
Diogo Dó colorido?! Parece que estais a falar das penas!?
Surpreso
Paraguaçu Não foi você quem disse que dó era pena?
Mostrando-se confusa
Diogo Sim, mas dó é pena no sentido de sentimento, de sentir dó. Pena de pássaro é pena mesmo. É fácil, fácil!
Passando o dedo indicador na frente dos lábios, em movimento vai e vem.
Paraguaçu Ê! Língua enrolada! É tudo sempre assim, é? Uma palavra só tem serventia prum monte de coisas?
Com ares de
Figura 3. Caramuru. Invenção do Brasil. 32 min 09 seg
Confirma-se o caso de homonímia da unidade léxica “pena”, ao consultar-se a origem do vocábulo, sendo mais um caso de étimos distintos para a mesma expressão.
pena¹ sf. ‘castigo, punição, sofrimento’[...] do lat.poena –ae deriv. do gr. póin~e[...]
pena² sf. ‘pluma’ [...] do lat.penna – ae[...] (p. 592)
Em Moderna Gramática Portuguesa, Evanildo Bechara trata da polissemia e da homonímia na parte destinada à gramática descritiva e normativa. Para Bechara (2004, p. 402)
A polissemia é o fato de haver uma só forma (significante) com mais de um significado unitário pertencente a campos semânticos· diferentes. [...] cada um desses significados é preciso e determinado.
Considerando-se a definição de polissemia segundo Bechara (2004), pode-se identificar uma palavra polissêmica utilizada neste anúncio publicitário de uma rede de hortifrutigranjeiros (http://www.hortifruti.com.br/campanhas/campanhas- hortifruti.html. 24.11.2010)
A partir da expressão polissêmica “massa”, utilizada nesse anúncio publicitário, pode-se entender que o tomate, produto anunciado, é aclamado pelas massas (macarrão, ravióli, canelone – prato da culinária italiana), como integrante do molho que as acompanha; ou é aplaudido pelas multidões (cujo sinônimo também é massa).
Constata-se, portanto que, os significados atribuídos à expressão polissêmica, pertencem a campos lexicais distintos. É importante que o enunciatário perceba que a polissemia da palavra (massa) reforça o valor e qualidade do produto anunciado, portanto, nesse contexto, o enunciador valeu- se dos dois sentidos de forma eficiente, já que se trata de anúncio publicitário, no qual o principal objetivo é destacar ao público-alvo o produto ou serviço.
No detalhe, há outra ocorrência de uso da polissemia. Em “Estrela do chorinho emociona fãs em show”, novamente há uma palavra, “chorinho” tanto remete às lágrimas de emoção de fãs quanto pode se referir à reação que algumas pessoas têm ao cortar cebolas.
Reforça-se, com esse exemplo, o quanto é importante, para uma produção textual mais eficiente, o domínio dos aspectos polissêmicos das palavras, uma vez que, por meio desse recurso linguístico, pode-se trazer ao
contexto, diferentes sentidos, efetivando-se, também de forma criativa, a interação.
No texto a seguir, transposto do fluxo de conversação do Twitter de um usuário, ao utilizar-se o vocábulo “pipocando”, um neologismo a partir do termo “pipoca”, o autor fez uma associação de ideias e estabeleceu uma comparação. Pode-se entender o termo “pipocando”, como aquilo que surge aos borbotões, em função da palavra da qual derivou, já que “pipoca” trata-se de um prato feito a partir de uma variedade especial de milho que, quando aquecido, estoura rapidamente e torna-se maior, dando a impressão de multiplicação rápida do alimento.
Para análise do vocábulo “pipocando” nesse contexto, parte-se da semântica referencial e da representação mental para a extensão de significado da palavra. A partir de uma estrutura significativa, a acepção dada à palavra pode ser entendida como uma ampliação do conceito do sentido referencial.
Deve-se destacar que, por se tratar de um suporte textual que limita o texto do usuário a 140 caracteres, como já abordado no capítulo 1, o autor valeu-se da condição polissêmica da expressão “pipocando”, com a ampliação de seu significado, para traduzir aos seus leitores, a força e rapidez com que surgirão os empregos em que a capacitação profissionalizante será suficiente. Também, destaca-se que o texto trata-se de uma crítica a uma das propostas de governo do candidato à prefeitura do estado de São Paulo em 2012, José Serra.
Diante dessas possibilidades, deve-se destacar, ao aluno, o exame das palavras em seu contexto, uma vez que criadas e providas de um sentido, as palavras podem restringi-lo, estendê-lo, transportá-lo de um campo semântico a outro, até, modificá-lo.
Bechara (2004, p. 403) salienta a dificuldade de se distinguir polissemia e homonímia. Assim, apresenta os seguintes critérios, destacando que estes critérios estão todos os sujeitos à crítica, para indicar a ocorrência de um item lexical com significados distintos (polissemia) ou dois itens lexicais distintos com fonemas idênticos (homonímia):
a) critério histórico-etimológico – é o que fazem, em geral, os nossos dicionários;
b) a consciência linguística do falante; c) critério das relações associativas; d) critério dos campos léxicos.
O mesmo autor (2004, p. 412) visita à obra de Andrade e Damião que afirmam: “Na polissemia, o escritor alarga as acepções de uma única palavra, enquanto na homonímia, ele distingue várias palavras”.
As definições comprovam a dificuldade de se delimitar, com precisão, se uma palavra é polissêmica ou homônima; no entanto, propõe-se que os temas sejam tratados de maneira que se enfatize a condição de diversidade de significados das unidades lexicais, para que os alunos explorem esse recurso em seus textos, tornando a sua produção escrita mais criativa e eficiente dentro do contexto escolar, mas também, social.
Utiliza-se, portanto, para este trabalho, o conceito de que duas palavras homônimas são aquelas que apresentam a mesma forma (fonética e gráfica), mas que têm dois significados diferentes, não relacionáveis entre si. Já, uma palavra polissêmica, é entendida aqui como aquela que apresenta vários significados, sendo possível estabelecer uma relação entre eles.