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A notável expansão do inglês pelo mundo e sua utilização via comunicação global nas últimas décadas, principalmente por falantes não nativos, vêm trazendo novos desafios, preocupações e expectativas. Muitos são os fatores que influenciam a língua inglesa e são, também, influenciados por ela, como: cultura, economia, tecnologia e educação.

Vimos que muitas línguas estrangeiras passaram pelas escolas brasileiras. Dentre elas, a inglesa, considerada atualmente uma língua global, está presente, como língua estrangeira moderna, nos currículos escolares de muitas instituições públicas e particulares de Educação Básica brasileiras.

Apesar das crescentes mudanças em relação às metodologias de ensino de idiomas e das constantes alterações tecnológicas, culturais e sociais, há um fator que ainda permanece o mesmo. Segundo Graddol (2006, p. 10), "mais pessoas do que nunca querem aprender o inglês". O autor ainda confirma que "os aprendizes do idioma estão crescendo em número e decrescendo na idade".

As crianças brasileiras são um público crescente na aprendizagem do inglês. Desde cedo, elas estão tendo um maior contato com o idioma: utilizam a internet, escutam músicas em inglês de seus cantores favoritos, assistem a programas educativos que ensinam o idioma por meio de desenhos animados e, assim, acabam por falar palavras e até mesmo sentenças completas em inglês.

Uma parcela dessas crianças é matriculada em escolas particulares de Educação Básica, nas quais o currículo escolar inclui o ensino do inglês desde os anos iniciais do Ensino Fundamental, e até da Educação Infantil. O principal fator que leva os pais a procurarem essas

42 instituições escolares é a intenção de expor seus filhos desde cedo à língua-alvo. Além do inglês na Educação Básica, ou quando não há oferecimento do idioma nessas instituições escolares, as crianças frequentam Escolas de Idiomas.

Essa preocupação crescente em relação à exposição da criança a uma língua estrangeira é baseada em diferentes crenças e estudos que apontam que quanto mais cedo a criança tiver acesso a uma língua estrangeira melhor será sua adaptação ao idioma futuramente. Newport (1996 apud PIRES, S. S., 2001) aponta que "ouvir mais de uma língua na infância torna mais fácil para a criança ouvir as distinções entre os fonemas dessas línguas mais tarde." Pesquisadores como Douglas Brown (2007) e Almeida Filho (2012) acreditam que a linguagem se desenvolve melhor durante a infância. Segundo Filho (2012, p. 90), "o ideal é a criança ter contato desde os 6 anos, quando já está praticamente alfabetizada na língua materna. Nessa idade ela tem o cérebro mais plástico e aberto para a absorção de um segundo idioma."

Já outros pesquisadores apontam dificuldades. Graddol (2006, p.89), por exemplo, comenta que:

na prática, jovens aprendizes enfrentam obstáculos que adultos não encaram. As crianças ainda estão se desenvolvendo física e intelectualmente; suas necessidades emocionais podem ser maiores; elas são menos capazes de se responsabilizar pelo seu próprio aprendizado10. (tradução nossa)

Apesar de argumentações divergentes sobre o ensino/aprendizagem do inglês a jovens aprendizes, é comum encontrar, atualmente, escolas particulares de Educação Básica que oferecem o ensino do inglês desde a Educação Infantil e escolas de idiomas especializadas no ensino de crianças.

Com relação às escolas públicas, o ensino do inglês é implantado obrigatoriamente a partir do 6° ano do Ensino Fundamental. A inserção do idioma nos anos iniciais do Ensino

43 Fundamental nessas instituições aparece na forma de projetos em alguns estados do Brasil, como, por exemplo, em Santa Catarina (no município de Jaraguá do Sul (2009)); no Paraná (no município de Toledo (março/2012)); e em São Paulo (nos municípios de Santo André (2011) e Ribeirão Pires (abril/2012)). Em Toledo, o idioma foi inserido no 4° e 5° anos e beneficia 24 escolas; em Jaraguá do Sul, crianças do 3°, 4° e 5° anos têm aulas de inglês. Em Santo André e em Ribeirão Pires, o inglês foi incluído do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental.

De acordo com dados do Ministério da Educação (MEC), o número de estabelecimentos de Ensino Básico no Brasil é de 194.939. Em 2010, 31 milhões de alunos estavam matriculados no Ensino Fundamental, sendo 16,7 milhões nos anos iniciais. Desses alunos, 89% frequentam a escola pública. Vemos que, em comparação com o número de alunos matriculados em escolas particulares de Educação Básica no Brasil, são poucas as escolas públicas que inseriram em seu currículo escolar o ensino do inglês nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Assim, se, de acordo com a LDB, "a aprendizagem de uma língua estrangeira, juntamente com a língua materna, é um direito de todo cidadão [...]", por que não oferecer esse ensino a todas as crianças do país? Negar esse direito a crianças que frequentam as escolas públicas é uma forma de discriminação e opressão, além de negação, a elas, de "todas as oportunidades e facilidades que lhes facultem o desenvolvimento [...] mental, moral [...] e social" (ECA, 1990, art. 3°).

Conhecer o idioma estrangeiro é um dos requisitos essenciais para poder competir no mercado de trabalho; também, para a recepção das informações pela televisão, rádio, jornais, produtos eletrônicos, entre outros, é preciso ter um conhecimento básico desse idioma, mesmo porque muitas palavras inglesas já fazem parte do nosso vocabulário. De acordo com uma reportagem da revista VEJA (2012), intitulada "Para Soltar a Língua", as pessoas que falam bem o idioma ganham de 30% a 50% a mais e, com relação às empresas internacionais contratantes, 70% delas exigem funcionários que falem o inglês.

Apesar de muitas escolas particulares incluírem o inglês no Ensino Fundamental I e algumas escolas públicas municipais estarem implantando o ensino do idioma nesse nível de

44 ensino, há de se levar em consideração os dois fatores importantíssimos já mencionados, que, se ignorados, poderão prejudicar a qualidade desse ensino. São eles: a previsão de um PCN de língua estrangeira para esse nível de ensino e a formação do profissional de Letras.

Na formação do profissional de Letras não constam abordagens específicas em relação ao desenvolvimento e à aprendizagem infantis, já que esse profissional foi preparado para atuar com um público diferente, ao contrário do graduado em Pedagogia, que, como vimos, é preparado para lecionar na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I. Sem uma formação eficaz, que envolva também a preparação para lecionar o inglês especificamente para crianças, o profissional de Letras poderá enfrentar uma série de dificuldades ao ministrar essas aulas, a começar pela escolha da metodologia adequada: se não for feita a melhor escolha, não se alcançará sucesso ao transmitir os conhecimentos às crianças nem se verificará o retorno dos ensinamentos.

Vimos que o ensino/aprendizagem nos anos iniciais do Ensino Fundamental envolve atividades lúdicas e tem como foco, mais comumente no "ciclo da infância", o processo de alfabetização e letramento. Assim, é relevante que o profissional de Letras tenha em sua formação a compreensão das implicações que poderão ocorrer no processo de aprendizagem e de ensino de uma nova língua para um público de crianças.

A seguir, para fundamentar a nossa pesquisa, apresentaremos modelos teóricos relativos à aquisição de línguas.