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6. Drøfting

6.2 Sammenligning og drøfting av funn i Ptils rapporter

Em relação à classe menos privilegiada, na iminência de ser expulsa pelos projetos de revitalização, apresentamos os relatos de Conceição A. Santos, moradora do imóvel invadido vizinho ao prédio referido anteriormente – do lado oposto da fronteira –, em que se destaca sua percepção sobre estes moradores e dos movimentos de moradia no Centro.

Nessa casa moram atualmente dezesseis famílias há cerca de cinco anos, conforme relata a “invasão” do imóvel.

O pessoal pagava aluguel e não tinha condições, aí abriu, entramos na casa que era uma firma de jóias semi-preciosa. Aí veio uma turma, depois veio outra. Aí vamos supor, como aqui, quem vem por último tem que dar uma ajuda, por que quando entrou aqui, nós ficamos praticamente um ano sem água, baldeando na lavanderia do senhor que enviou água pra nós. Depois nós colocamos a água, depois colocamos a luz, então quem vem depois que ficou pronto, tem que dar uma ajuda pros outros que gastou.108

107 Conforme exposto por vários moradores em relatos ao pesquisador, a intervenção atuou mais no

aspecto estético e pouco na questão social.

Ressalta a precariedade das condições econômicas que impede de alugar uma residência no Centro, como justificativa à invasão. A habitação é o componente que tem o maior peso no custo de reprodução desses moradores, especialmente na região central, a invasão reduziria a parte principal desses gastos. Essa situação de extrema espoliação urbana, aliada à ilegalidade jurídica da moradia invadida, também levou à realização de ligações de água e luz clandestinas a partir do prédio vizinho, que foram desligadas logo que descobertas.

Expressa a precarização das relações de trabalho e vulnerabilidade das condições de vida:

Agora tô fazendo um evento de Interlagos, da corrida. Tô fazendo no Anhembi, a comida dos pião. E assim a gente vai vivendo. O que a gente tem é tudo coisa quando a gente tava numa situação melhor, a gente comprou, agora a gente não tá comprando nada, porque o dinheiro que a gente ganha mal dá pra gente comer. Aqui todo mundo tem criança pequena, aqui a gente vive assim: arranja um serviço a gente vai e faz, se não tem, a gente vai na feira pega o que sobra da feira, e assim a gente vai levando.109

A maior fragilidade econômica, marcada pela intermitência do trabalho, é alternada por momentos em que se adquire um vínculo empregatício mais longo e/ou com melhor remuneração, resultando numa maior aquisição de bens; fora esses períodos, vive-se na necessidade imediata.

A estratégia de morar no Centro também é em função de morar mais próximo ao emprego, com menos gastos de transportes e tempo de deslocamento, além da ajuda de instituições de caridade: “É mais fácil pra você trabalhar. Às vezes tem uma igreja que ajuda a gente.[...] A Boni Consilii dá uma cesta pra gente, e a gente vai se virando, se arruma um bico a gente vai fazer”110. Como havia dito Sebastião Nicomedes anteriormente, o Centro é um lugar melhor até para passar fome.

Outro fator importante, na estratégia das invasões, é que no Centro há um grande número de imóveis desocupados, em função da morte dos antigos moradores, com problemas de inventários ou em litígios com o Estado. Como o espaço e o tempo viraram mercadorias, esses moradores também lutam pela apropriação destes, resultando em conflitos com as camadas sociais intermediárias e os projetos de revitalização nesses locais.

109 Idem. 110 Idem.

Sua situação de expulsão é iminente111 em função da incorporação das casas vizinhas remanescentes para a construção de um edifício, prenunciando a gentrificação, mas também indicando a reprodução da invasão como estratégia de moradia no Centro:

Agora o dono vai vender porque essas três casas [ao lado] vai ser vendida, vai fazer um prédio. Mas ele veio, mandou advogado muito educado, pra conversar com a gente, e nós estamos agora, estamos não, eu estou procurando outra casa pra gente ir embora. Porque o aluguel não dá, a minha família aqui é grande, morar num quarto não dá, e um quarto aqui tá custando trezentos reais. [...] quando ele me chamar, a gente sai, a gente sabe que não é da gente, que não é eterno. Mas essa casa tava mais de trinta anos fechada, quando nós entramos aqui, nós encontramos tudo sujo, quando a gente sai deixa tudo limpinho, a gente procura arrumar na medida do possível, mas a gente sabe que um dia a gente vai ter que sair, não é nosso.112

Foto 43 – Imóveis vizinhos à invasão, à venda para incorporação, alameda Eduardo Prado. Evanio, 19.01.2006.

Verifica-se que não há negação da propriedade privada, nem se trata de uma forma organizada de resistência político-ideológica, contestação ou reivindicação, é

111 A segunda vez que conversei com Conceição, em 13.01.2007, era evidente a sua preocupação de

viver constantemente sob o risco de ser despejada. Na favela do Moinho (onde, recentemente, a Prefeitura teria prometido dar dinheiro para as pessoas saírem do local), recusou-se a morar, pois conforme afirmou, teria sua liberdade cerceada submetendo-se a ladrões e traficantes; por fim, manifestou o desejo de alugar um imóvel se houvesse a possibilidade.

a resistência determinada apenas pela sobrevivência, uma vez que esses moradores também almejam melhor inserção no urbano.

Ao descrever a trajetória de invasões que já havia realizado, observa-se a reprodução dessa forma de habitação na região do Centro:

Eu morava na Vitorino Carmilo [Campos Elíseos], que nós invadimos um prédio. Primeiro nós fomos morar numa invasão do outro lado da passarela [Barra Funda], depois nós fomos lá onde tem um lugar de chinês [Bom Retiro], depois invadimos aqui, e depois fui morar na Duque de Caxias. Era um prédio abandonado, ai o dono deixou eu ficar tomando conta até... era naquela rua dos motoqueiros [General Osório]. Ai quando ele reclamou, ele pediu, a gente saiu numa boa. [...] Lá só estava eu e mais quatro pessoas. O prédio era muito grande, só que se viesse muitas pessoas, dai seria muito difícil pra tirar.113

Apesar de negar inicialmente, até como uma forma de resistência, revela a discriminação que sofre de alguns dos moradores do prédio vizinho

Não, quem discrimina nós são o povo que acha que quem mora em invasão é traficante, é vagabundo, entendeu? Tem medo da gente, mas depois a gente acostuma. Não tem outro lugar. Tem gente certa e tem gente errada, então se for pra discriminar... O prédio aí, no começo também, quando eu fui trabalhar, eles não queriam a gente aí, trabalhando aí, porque achavam que a gente ia roubar o prédio, essas coisas, trabalhei ai uns seis meses porque quis.114

E sobre os moradores do prédio vizinho, demonstrando que nem todos a discriminam, chegando a constituir alguns laços sociais, enquanto outros expõem a oposição “eles” e “nós”, desejando sua expulsão do local.

Mas aí, tem gente aí, que come pior que nós, a gente como pobre. Eles têm uma visão assim: roubou um toca fita, é aqui. [...] Têm umas pessoas aí, que eles acham que moram nisso daí, que é um quarto, dois quarto, uma sala, uma cozinha, eu tenho mais espaço que eles. Só que tem uma coisa: uns aceitam numa boa e acham que foi até bom que a gente veio morar aqui, porque a gente fez cooperativa do lixo e tudo, não veio aqui fumar crack, usar droga, questão de roubo; outros já têm uma outra visão, assim, de uns aí, nos tratam muito bem, teve festa levaram minhas netas, agora outros, querem ver a gente bem longe, fazer o quê?115

113 Idem. 114 Idem. 115 Idem.