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3. Teori

3.6 Helsetilsynet og Helsedirektoratets syn på barrierer

O Palacete de Elias Chaves, depois Palácio dos Campos Elíseos, localizado na avenida Rio Branco, é um dos exemplares mais representativos de obra, emprego de técnicas e símbolo de status que a elite cafeeira atingiu, equivalente aos mais luxuosos da Europa do mesmo período; é um marco da transformação da arquitetura em São Paulo, a partir da transposição de modelos europeus66. Também evidenciou o movimento da elite que saia da área central para os novos espaços voltados para esses segmentos, que se transformavam em termos de costumes, artes, etc.

Seu proprietário, Elias Antonio Pacheco e Chaves, conhecido como Elias Chaves, construiu o palacete na última década do século XIX. Notabilizou-se na economia de São Paulo como empresário e fazendeiro de café e, na política, filiou- se ao Partido Conservador no Império, chegando a ocupar entre outros cargos públicos o de vice-presidente da Província e de senador.

66 Segundo Nestor Goulart Reis Filho: “As residências de maior porte tornaram-se conhecidas como

‘palacetes’ em oposição à palavra ‘palácio’, que se pressupõe seja a residência do príncipe, do chefe de governo ou local de despachos de governo, mas não uma residência burguesa”. Palácio Campos

Formado em direito pela Faculdade São Francisco, casou-se com Anésia da Silva Prado, irmã do Conselheiro Antonio Prado, de quem se tornou aliado político e sócio em diversos empreendimentos, como na Companhia Prado Chaves, exportadora de café, e no setor imobiliário67.

Caracterizou assim a oligarquia agrária desse período, na qual se sobressaiu uma hierarquia conservadora, com casamento entre membros de famílias prósperas e de projeção política, e pela importância dada ao “bacharelismo”. Mas também a figura do “capitalista”, ou seja, aquele que vivia de renda, pois além dos investimentos no café, era sócio de bancos e indústrias. Sobrepunham-se as figuras de “homem público” e de “capitalista”, com a mistura entre administração pública e os negócios privados.

Após o casamento, Elias Chaves construiu em 1881 um sobrado na rua São Bento, onde morou até mudar-se para o palacete nos Campos Elíseos. Este sobrado, um dos primeiros em alvenaria de tijolos, tem três pavimentos: o primeiro, com cocheira e dependência para escravos; o segundo, com dependências sociais; e o terceiro, com dependências íntimas. A arquitetura desse sobrado, com a fachada reconstruída em estilo neoclássico em 1885, era típica das residências da elite que se localizavam no Triângulo nesse período: sem recuos frontais e laterais68.

Por volta de 1884, três anos após a construção deste sobrado, D. Veridiana Prado, sua sogra, construía seu palacete em Santa Cecília, depois Higienópolis, no contexto de expansão dos loteamentos voltados para a elite, nos quais se destacavam os palacetes rodeados por jardins construídos em grandes lotes. Na década seguinte, o Conselheiro Antonio Prado também construiu seu palacete na chácara do Carvalho, na rua Barão de Limeira69.

Para Nestor Goulart Reis Filho, os prédios instalados no meio dos lotes, com recuos frontais e laterais, permitiram ao projeto arquitetônico explorar as três dimensões da construção – o volume –, ao contrário dos prédios contíguos e no alinhamento da rua no Centro, que só permitiram explorar as duas dimensões da fachada frontal70.

67 Campos Elíseos: a casa e o bairro – A tecnologia da construção civil em 1900. Secretaria da

Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, s/data, p. 5.

68 Tombamento do imóvel localizado à rua São Bento nos 189, 195 e 197. Processo nº 20023,

18.02.1976. São Paulo: Condephaat, p. 35; 97 e 102.

69 HOMEM, Maria Cecília Naclério. O palacete paulistano e outras formas urbanas de morar da elite

cafeeira: 1867 – 1918. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 97-112 e 134-157.

Foto 8 – Palácio dos Campos Elíseos, fachadas principal e direita, por volta dos anos 1930. Condephaat.

Ficou marcada em todas essas edificações a busca de representação do poder e do prestígio alcançados por essa elite, bem como a rivalidade dentro desta classe, com a reprodução dos padrões europeus, símbolos de progresso, civilização e modernidade na época. O ecletismo, nesse sentido, permitiu de forma mais evidente a personificação das residências dessa elite.

A transferência da família Chaves do sobrado no Centro para o palacete em Campos Elíseos refletiu a tendência do crescimento urbano de São Paulo a partir do final do século XIX, com a fuga da população abastada do Centro para áreas elegantes no entorno, e maior segregação espacial. Por sua vez, a transformação do sobrado em escritório da Companhia Prado Chaves confirmou a expansão do comércio e dos serviços no Centro.

Nesta hierarquização social e espacial que se estabelecia na cidade, e não sem relação com a expansão dos palacetes, ocorria a expansão das habitações de padrão médio, as populares e os cortiços, nos chamados “bairros operários” como Brás, Mooca e Bom Retiro.

Sobre a construção do palacete, Elias Chaves encomendou em 1890 o projeto ao arquiteto alemão Matheus Haussler, que havia projetado outras obras da elite na cidade e se baseado no ecletismo europeu do período.

O palácio possui quatro pavimentos: subsolo, térreo, primeiro andar e sótão, sendo edificado com materiais de construção e acabamento, em grande parte, importados, assim como a sua decoração.

Iniciada a construção em 1892, só foi concluída em 1899. Segundo Rainer Costa, as dificuldades enfrentadas por Elias Chaves no Encilhamento, quando vários empreendimentos seus faliram, retardaram o término da obra71. A conclusão do palacete coube ao engenheiro Hermann von Puttkamer, o mesmo que projetou o loteamento de Campos Elíseos, e a Claudio Rossi. Os trabalhos de carpintaria foram executados pelo mestre João Grundt, que trabalhou nas fundações do viaduto do Chá, projetado por Jules Martin.

Em geral, o cotidiano das famílias da oligarquia se caracterizou por reproduzir um estilo de vida europeu que influenciou a sociedade paulista. Suas salas de visitas e salões, ao estilo francês, tornaram-se ponto de encontro desta classe, de parentes e amigos para manifestações artísticas, culturais e políticas. Como os de Olívia Guedes Penteado, no qual se reuniam os artistas que instituiriam o movimento modernista no país, tais como Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Anita Malfatti, moradores de Campos Elíseos72.

Foto 9 – Salão de honra do palácio dos Campos Elíseos, por volta dos anos 1930. Condephaat.

71 COSTA, Rainer Marinho. Entre a modernidade e a tradição – análise de caso: o palácio dos

Campos Elíseos. Dissertação de Mestrado em história social, FFLCH – USP, 1995, p. 65.

Se antigamente a mulher na cidade ficava em casa e quando saia era acompanhada, agora as mulheres iam ao teatro, às confeitarias, às compras ou olhar as vitrines, sobretudo no Centro. A avenida Rio Branco, calçada de macadame, por onde se deslocavam as famílias nos tílburis, foi cedendo lugar aos bondes e aos primeiros automóveis. A missa aos domingos na igreja do Sagrado Coração de Jesus também se tornou um ponto de encontro dessa elite, assim como os deslocamentos pelo bonde, que eram separados em primeira e segunda classes.

Um dos principais modos de entretenimento em Campos Elíseos e arredores foram os cinemas ou cine-teatros, os primeiros instalados na cidade, ainda lembrados em entrevistas com antigos moradores, como por exemplo o Cine-theatro Pavilhão Campos Elyseos, ainda na fase do cinema mudo e encenações do teatro de revista, com a participação de companhias francesas e italianas. Além deste, havia o Brasil Cinema, na rua dos Andradas, o Odeon Theatre, na rua Duque de Caxias, o Theatro Rio Branco, na rua General Osório, e o Teatro Avenida, na avenida São João73.

Apesar de ser um exemplo restrito em seu universo e, portanto, com o risco de incorrer em um esteriótipo, não deixa de ser representativo da vida cotidiana desta classe social o trecho a seguir de uma correspondência que se transcreve entre Anésia Prado Pacheco e Chaves e seu filho Fernando.

[...] Nós aqui continuamos numa maré de bailes, depois do que Lucilla e eu mandamos contar já houveram outros e estão em projectos um em casa da Cocóta no dia 25 d’este (Dia de São Paulo) e outro em casa de Mamãe no dia 11 de Fevereiro. Só o Martinico não admite em casa d’elle, diz se lá dansacem elle muda de casa. [...] Não imaginas o calor que aqui tem feito, quase que não se tem o que vestir, pois tudo que trouxemos da Europa é quente e pesado, eu tinha me esquecido do calor brazileiro. [...] Um dia d’estes Nezita baptisou um filho da Clotilde deram um jantar que tinha um menu interminável, sentamos a meza as 7 horas e só sahimos as 10 horas, lá os moços Luiz e Juca, os quaes estão muito caipiras não parece que estiveram na Europa tantos annos [...]. Hoje vamos a uma soirée em casa do Alfredo Guedes, as meninas tem tomado fartão? de dançar. Hontem fui ao theatro pela primeira vez, davam a mágica a “Pêra de Satanaz” não gostei nada, achei tudo muito feio e aborrecido, não pretendo lá voltar, a casa estava completamente cheia. Dizem que brevemente teremos uma Companhia Lyrica.[...]74

73 Idem.

74 Carta de Anésia Prado Pacheco e Chaves a Fernando Pacheco e Chaves. São Paulo, 18 de

Henri Lefebvre, em Psicologia das Classes Sociais, sobre a burguesia, ressalta que a comunicação como sociabilidade espontânea é reduzida a um mínimo.

A burguesia, como classe, ignora, portanto, a comunicação e, mais ainda, a comunidade e a comunhão. [...] As ‘relações’ burguesas, as redes de negócios, ou de amizade, ou de interesses não têm grande coisa em comum com a sociabilidade espontânea. [...] A nosso ver, basta a falta de uma dimensão humana, para que a comunicação seja comprometida, para que a sociabilidade espontânea esteja ausente e seja substituída por uma sociabilidade intencional (com suas características: ritos, cerimonial, vocabulário, jargões, trejeitos). No momento em que o fenômeno humano total é truncado, que uma das dimensões desaparece e deixou de existir – mesmo virtualmente –, a comunicação apenas ocorre por meio de convenções e símbolos, que não podem deixar de representar também a mutilação.75

Situando essas relações sociais em termos da espacialidade do bairro, este tomado enquanto relações mais imediatas, de comunidade local, de relações de vizinhança e sociabilidade espontânea, considera-se que, dentro dessa concepção, o bairro e a prática necessária a sua formação não se constituíram efetivamente em Campos Elíseos, mas somente sua representação de forma abstrata e ambígua de “bairro aristocrático”, e não vivida ao modo de uma prática sócio-espacial qualificada, mas apenas de forma superficial, calcada na imitação de estilos e no esnobismo.

Em 1903, faleceu Elias Chaves e, em 1911, sua família que estava em dificuldades financeiras transferiu a propriedade ao Governo do Estado de São Paulo, que fez algumas adaptações para instalar a residência oficial do Governo, quando passou a adotar o nome de Palácio dos Campos Elíseos.

Em 1932, instalou-se também a sede do Governo no palácio. Com o alargamento da avenida Rio Branco, concebido no Plano de Avenidas de Prestes Maia, houve a redução da área do jardim frontal e a substituição do gradil de ferro por um muro de tijolos.

75 LEFEBVRE, Henri. Psicologia das classes sociais. São Paulo, Revista Geousp – espaço e tempo,

Foto 10 – Palácio dos Campos Elíseos ainda com o jardim frontal e o gradil de ferro, por volta dos anos 1930. Condephaat.

Na década de 1940, o palácio passou por uma fase de decadência, com uma série de reformas que comprometeram suas características originais. O edifício, em sua função de sede do governo, também atraiu outros órgãos públicos para o seu entorno, contribuindo para a descaracterização do local como área residencial de alto padrão.

Em 1965, a sede do Governo é transferida para o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi. No ano seguinte, dá-se inicio à restauração do Palácio, e, em 1972, passa a sediar a Secretaria da Cultura, Esportes e Turismo. Em 1977 é tombado pelo Condephaat, e hoje abriga a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo.