O primeiro embrião do Laboratório de Pesquisa Multimeios ocorreu em 1997, com o Projeto Novas Estratégias para uma Formação de Qualidade do Educador. Este Projeto enquadrava-se no Programa de Apoio à Integração Graduação / Pós-Graduação – (PROIN), contando com financiamento do então Ministério da Educação e do Desporto (MEC) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – (CAPES). Conforme Therrien (1998), o PROIN objetivava...
[...]a criação de um Laboratório de Psicopedagogia, constituído de uma sala ambiente e de uma sala de Multimeios, que beneficiará, num primeiro momento, os cursos de Pedagogia e, posteriormente, outras licenciaturas. O referido Laboratório terá o objetivo de colocar diversos recursos a serviço da melhoria da qualidade da educação não só do ponto de vista didático, mas também da experimentação e pesquisa. A criação desse espaço, dotado de recursos técnicos e materiais adequados
ao desenvolvimento de pesquisas e experiências pedagógicas, deverá aglutinar professores e alunos de diversas disciplinas afins, englobando os seguintes temas: o uso da informática e de novas tecnologias na educação, o papel da literatura infantil e da atividade lúdica na educação, a avaliação e o acompanhamento da aprendizagem infantil e a intervenção psicopedagógica.
A implementação do PROIN justificava-se em razão dos amplos debates sobre o currículo ao final da década de 1980 e início dos anos 1990. Naquele momento, se questionava a formação do pedagogo a ser habilitado em uma área especifica de atuação profissional (supervisão escolar e/ou orientação educacional). Na proposta das chamadas “habilitações”, no entanto, já não encontrava “eco” no atual contexto social, político e econômico da época, o qual exigia um educador com uma formação geral, que incorporasse as dimensões filosóficas, políticas e sociológicas, além do domínio pedagógico. Tais demandas implicaram a reformulação curricular do Curso de Pedagogia da FACED/UFC, saindo das especificidades, incorporando as dimensões aqui citadas, proporcionando maior integração da teoria com a prática, tendo a docência como alicerce de todo o processo formativo.
Conforme Therrien (1998), o PROIN fazia parte do conjunto de iniciativas que objetivavam materializar e vivenciar essa “nova proposta curricular”, de modo a envolver toda a comunidade acadêmica, integrando os Núcleos de Pesquisa da Pós-Graduação ao ensino de Graduação na FACED. Para tanto, o PROIN constituiu intervenção na articulação entre esses níveis, haja vista que a proposta era possibilitar vivências dos discentes nos espaços como a Sala Ambiente e Multimeios. A proposta estrutural da Sala Multimeios vislumbrava...
Essa sala será equipada com modernos meios eletrônicos, os chamados analógicos ou tradicionais, que incluem rádio, gravador, câmeras fotográfica e filmadora, ilha de edição, televisão e vídeocassete, e os digitais, que envolvem um ambiente computacional. Esses equipamentos possibilitarão três tipos de ações: a aquisição de conhecimentos específicos através da utilização de hardwares e softwares adequados; a confecção de material didático-pedagógico (vídeos, manuais, jogos etc) e o registro das atividades realizadas na sala ambiente. (THERRIEN, 1998, p. 10 ).
É oportuno destacar o fato de que, a Sala Multimeios estrutura-se exatamente no período em que as políticas públicas de educação se dedicavam a pensar sobre a inserção do computador nas escolas (BORGES NETO, 1998; MORAES, 2000; OLIVEIRA, 1997; TORRES, 2004), bem como encaixa-se no conjunto de ações desenvolvidas pela UFC no que tange ao processo de informatização do ensino público brasileiro. É o que podemos confirmar ao ouvirmos o comentário de “LEIBNIZ”, ao dizer...
[...] a discussão na época, em termos de governo foi, se eu não me engano o PROINFO, e eu me lembro que em várias Federais e Estaduais se cogitou, fazer Especialização em Informática Educativa pra formar os professores que seriam os líderes dos NTEs nos Estados, dentro dessa perspectiva do PROINFO! E a primeira turma foi formada aqui, na mesma época o Coordenador lançou um projeto pro CNPQ, e ele ganhou um projeto pra montar um Laboratório com 12, 13 máquinas, que na época era muita coisa... o Multimeios foi na sala do prédio da Pós- graduação, aquela sala onde funciona o Laboratório, não era aquela... não tem o corredor? No corredor tinha uma sala ao lado e tinha um outro projeto junto com o Hermínio, assim como vários professores também tinham, integração de graduação e Pós-graduação. Como a gente estava muito próximo a Pós, a gente dava uma manutenção às coisas da Pós-graduação! Não se esqueça que o prédio da FACED era um só, era só pra cá! Não tinha aquela parte de lá, aquele bloco do lado de lá não tinha, e esse bloco inclusive se deve boa parte ao Multimeios!
Desse modo, por meio do PROIN, foi possível estruturar dois ambientes, um denominado de Sala Ambiente e outro de Sala Multimeios. Inicialmente, esses dois ambientes funcionavam nas proximidades da Secretaria do Programa de Pós-Graduação da FACED/UFC. Em relação às especificidades de cada espaço, “Galois” esclarece:
O PROIN era a sala Ambiente que era para o pessoal da Educação Infantil e essa da parte da tecnologia com os computadores para fazer pesquisa na área de tecnologia e informação. Lembro muito bem! Ou seja, você pode perceber que essa ideia do PROIN era trabalho de pesquisa meeeesmo, né? Não era só para ficar estudando e escrevendo artigos, não? Nessa época não era o Multimeios, ainda não! Porque a ideia que a gente tinha era, a sala ambiente levar crianças para fazer trabalhos e levar os alunos da graduação. Do mesmo jeito o Multimeios. Porque o PROIN era um programa e tinha a sala ambiente e não me lembro se foi daí que surgiu o nome Sala Multimeios, que não era Laboratório!
Lembro-me bem do esforço utilizado por “Galois” ao fazer referência às atividades desenvolvidas no PROIN, em especial, ao dizer: “(...)era trabalho de pesquisa meeeesmo, né? Não era só para ficar estudando e escrevendo artigos, não? Nessa época não era o Labortório de Pesquisa Multimeios ainda não!” Pelo relato exposto, vê-se também que a concepção de pesquisa de “Galois” vinculava-se à utilização de procedimentos técnicos da pesquisa experimental (GIL, 2008), ou seja, elaboração, aplicação e análise de testes. O comentário de “Galois” leva a acreditar-se que a Sala Multimeios apontava essa perspectiva positivista.
Os comentários me permitiram evidenciar que o Laboratório inicia suas atividades de modo tímido, ocupando um espaço pequeno no prédio da FACED. Inclusive, pelo que foi descrito, percebi que ainda não tinha caráter de Laboratório. Ainda com relação ao aspecto estrutural, “Cardano” relembra...
Era lá no canto mesmo, no buraco mesmo que você pode imaginar... [risos] lá naquele canto. Em termos estruturais fraco né? era um espacinho, era uma mini- sala acho que não tinha...10,11 ou 12 computadores, era por aí! Era uma salinha
curtinha, tinha uma lousa, tinha um mousezinho pra abrir e fechar a porta. Ele já começou com esse invento dele! E tinha um servidor, que era um computador simples lá do lado de fora, não era nem do lado de dentro... era do lado de fora, depois que ele colocou uma divisoriazinha separando o corredor da salinha, agora quando ele conseguiu colocar essa divisória ele conseguiu colocar esse servidor, mas quando eu cheguei lá já tinha esse servidorzinho fora, era simples o servidor! Fora tinha um computador Apple, era só um computador que tinha lá, acho que eu era o único que usava. A estrutura mesmo do local era bem simples, não tinha sala do Hermínio, tinha uma mesa, que ficava lá na mesa com a gente, não tinha essa quantidade de livros que hoje em dia tem aqui, acho que já foi acumulando com o período.
A conversa com “Cardano” foi rodeada por muitos detalhes, lembrava cuidadosamente a estrutura de funcionamento da Sala Multimeios, apresentava uma descrição minuciosa daquela salinha como espaço caracterizado por suas miudezas, desde a pequenez da sala, ao número reduzido das máquinas, conforme observamos na figura:
Figura 2 – Acesso à Sala Multimeios
Fonte: Elaboração própria.
Nesta sala, ficavam em média dez computadores, os quais serviam para acesso livre aos alunos do Curso de Graduação em Pedagogia e estudantes dos Cursos de Pós- Graduação. Em geral, essa utilização por parte dos discentes ocorria para digitalização dos trabalhos acadêmicos. Sobre os recursos advindos para estruturação da sala, Borges Neto, Capelo e Mattos (2012, p. 428) ressaltam:
O Laboratório, aqui tratado, foi criado com recursos da própria UFC e da CAPES, dentro do Programa de Apoio à Integração Graduação/Pós-Graduação (PROIN), em 1997, objetivando o desenvolvimento de pesquisa sobre o uso de novas tecnologias digitais de informação e comunicação – as denominadas TDICs – bem como o estudo sobre as tecnologias digitais na educação e seu impacto na formação docente. Tomou como desafio em sua proposta de realização acadêmica a articulação entre as dimensões da pesquisa, extensão, prática pedagógica e formativa.
As atividades desenvolvidas na Sala Multimeios envolviam os primeiros experimentos com o uso de software na área de Matemática. É o que podemos conferir nos seguintes comentários:
Ah...outro ponto interessante também nesse processo todo é que a gente começou a trabalhar com software de geometria dinâmica que era o Cabri-geometri, o Hermínio tinha trazido uma versão de teste da França, daí depois fizemos a primeira tradução do Cabri em português, se não era a primeira era uma das mais básicas. E a gente trabalhou... e eu comecei a trabalhar mais especificamente com construções geométricas, utilizando o Cabri-geometri. (LEIBNIZ).
A conversa com “Leibniz” transportou-me diretamente para fins dos anos 1990, quando passei a frequentar o Laboratório. Recordo-me das apresentações com o software Cabri durante as “Segundas-Multimeios”. Ficávamos com os olhos vidrados naquela imagem em movimento, a qual era projetada em um quadro branco ao final do Salão. Essa conversa também me reportou à dissertação de Campos (1998), intitulada Cabri-géomètre – uma aventura epistemológica.
Campos (1998) buscou investigar em que medida este software poderia contribuir no raciocínio de crianças, além de averiguar qual o diferencial qualitativo desta atividade para a aprendizagem dos discentes participantes do estudo. É oportuno ressaltar que, nesta época, a discussão sobre o uso do software na perspectiva educacional estava em evidência, com base dos experimentos realizados por Papert com a linguagem LOGO. Nesse sentido, Dantas (2010, p. 36) acrescenta:
[...] um dos percursores no desenvolvimento de software educativo, foi pesquisador da área de matemática do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que vivenciando a educação a evolução do computador de grande porte, no início de 60, desenvolveu pesquisa na área de educação ocasionando o envolvimento entre o computador e a educação.
Ainda sobre o uso do Cabri no Multimeios, “Galois” relembra as experiências com o software, de modo empolgante. Assim diz:
O Cabri Geometri, era o auge, o Coordenador tinha acabado de chegar da França e vinha com essas histórias do Cabri muito recente. Pra completar, tinha uma pesquisadora que estava fazendo a dissertação de Mestrado, acabou se envolvendo com as pesquisas. Nós ficamos com a Márcia trabalhando com nove crianças. Elas vinham toda segunda e quinta para o PROIN, fazíamos os experimentos com eles lá! Agora assim, não era só Cabri...e na sexta a gente sentava pra analisar, a gente filmava, fotografava, fazia intervenção. A gente fazia pesquisa, escrevia artigos, fazia trabalhos mesmo práticos dentro desse ambiente. E aí o negócio foi crescendo, crescendo e a sala ficou pequena. E aí gente veio pra essa sala maior! Na verdade, minto! A gente ficava no Laboratório da Pós, na salinha, porque estava reformando com dinheiro do PROIN. O recurso que veio do PROIN eles fizeram àquelas 2 salas que hoje é o Multimeios e aquela salinha do lado, que acho que hoje é sala de aula. Mas aqui era a sala ambiente (nesse quadrado) e aqui era o Laboratório Multimeios. Que a sala ambiente funcionou, só que você percebe que MM continua até hoje, né? O Hermínio agregou outros projetos e tudo, aí ele se sustenta, porque o PROIN acabou. Mas o que foi que o programa ajudou? Trouxe computadores, trouxe recursos. A gente na época, do PROIN, um dos equipamentos que eu acho que foi assim bem interessante, foi a ilha de edição, fantástico! Pra época: TV
Verdes Mares! Conseguimos fazer muitas coisas nela, muitos trabalhos, tinha toda uma estrutura de pesquisa mesmo!
O comentário de “Galois” revela alguns pontos relevantes. O trecho inicial de seu comentário tem relação direta com os estudos desenvolvidos por Campos (1998) e também um artigo intitulado: Construindo conceitos matemáticos com o Cabri-Géomètre (BORGES NETO, 1997). Neste, o autor relata exatamente como ocorreram os experimentos realizados com o Cabri e suas contribuições para compreensão dos conceitos matemáticos por parte das crianças citadas por “Galois”. Na perspectiva de Borges Neto (1997, p. 1), o objetivo era fazer com que “[...] os alunos produzissem conceitos de conteúdos de geometria, tendo como ponto de partida a sua experiência em um ambiente virtual que permitia simulações (software cabri- géomètre1) e a mediação do professor.”
Continuando a conversa, “Galois” informa que a salinha se tornou um espaço insuficiente para as atividades que estavam sendo desenvolvidas, inclusive realizando uma descrição cuidadosa da divisão dos ambientes da época. Além disso, no PROIN havia uma parcela orçamentária para construção “oficial” dos dois espaços dentro da FACED, ou seja, Sala Multimeios e a Sala-Ambiente. Ao final de seu relato, chama atenção para o fato de que, do Projeto PROIN, apenas a Sala Multimeios se perpetuou, na verdade, aos poucos se transformou em Laboratório, estruturando por meio dos seus projetos.