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Segundo Maria João Durães Albuquerque (2006), em 1750 não havia nenhuma editora

especializada em música em terras portuguesas. Entretanto, a informação colhida por João

Pedro Alvarenga74 é de que "a edição de música em Portugal parece ter começado em finais

do século XV, aplicada a livros de matéria litúrgica". Inicialmente, por German Galharde, que

trabalhava com tipos móveis, utilizados na dupla impressão, tendo como primeira impressão o

Tractado de Canto Llano, da autoria de Mateus de Aranda, em 1533. Foram acrescidos mais

tarde três livros litúrgicos. No século seguinte, foi feita a primeira impressão de música

instrumental, por Pedro Craesbeeck, em 1620: Flores de musica pêra o instrumento de tecla,

& harpa compostas por o Padre Manoel Rodrigues Coelho. Esta última foi impressa com

“notação mensural branca, utilizando a técnica de impressão que apenas requeria uma

passagem pela prensa” (Idem, p.21). Alvarenga informa também que, além deste exemplar,

todos os seguintes foram de música vocal sacra.

Na primeira metade do século XVIII, Maria João Albuquerque informa que, apesar de

João V ter dado um impulso às artes gráficas, chamando gravadores estrangeiros, "a grande

maioria das edições musicais [...] impressas em Portugal, são livros litúrgicos e manuais de

cantochão, impressos com caracteres móveis por editores-livreiros" (Idem, p. 21). O

74 A música também é escrita. Tesouros da Biblioteca Nacional. Lisboa, Portugal: Inapa, 1992, apud,

repertório profano foi publicado pela “Imprenta de Música”, em 1715, fundada por Jaime de

La Té y Sagau (c.1670-1736). Segundo Albuquerque, a prevalência das edições sacras em

Portugal, principalmente de repertórios de cantochão, "é reveladora de uma sociedade

marcada por uma ideologia contra-reformista, onde não existe uma separação clara entre a

esfera do sagrado e do profano". Diferentemente do restante da Europa, que desde o século

XVII já vinha imprimindo música profana, vocal e instrumental, em Portugal a missa, a

novena e a procissão, seguindo o calendário litúrgico de grandes celebrações, constituíam a

forma de integração social. Em meados do século XVIII, começarão a surgir as práticas

socioculturais laicas em Portugal, criando novos espaços de sociabilidade como a música, a

dança, e, na segunda metade do século, as salas de concerto, os cafés e academias.

Albuquerque (Idem, p.24) observa que, dando continuidade ao incentivo à tipografia

iniciada pelo seu pai, D. José "vai incentivar a tipografia, criando, por alvará de 24 de

dezembro de 1768, a Régia Oficina Tipográfica e promovendo, em 1772, a reforma da

Imprensa da Universidade de Coimbra". Esta ação crescente de fomento, iniciada pelo

Marquês de Pombal durante o reinado de D. José, teve continuidade com D. Maria I, com

"isenções de impostos na importação de matérias-primas e privilégios exclusivos de produção,

ou proibindo a importação de obras concorrentes"75. Maria João Durães Albuquerque julga

que, em face desse conjunto de fatores, somados aos avanços tecnológicos na impressão

musical, a edição de música no período final do Antigo Regime (1820) tinha, sobretudo,

como principal veículo a música profana (Idem, ibidem).

A música sacra é o gênero predominante até 1808, com repertório de cantochão

utilizado na liturgia, reeditado sucessivamente. Destaca-se o Theatro Ecclesiastico, de Frei

Domingos do Rosário, com nove edições entre 1743 e 1817, aumentadas a cada edição, até se

tornar obra em dois volumes. Além de ser acrescido com um Miserere e um Benedictus, para

75 PEDREIRA, Jorge Miguel Viana. Estrutura industrial e mercado colonial: Portugal e Brasil (1780-1830).

quatro vozes mistas, com notação quadrada, recebeu também na edição de 1751 um apêndice

didático, com a Arte de canto de órgão para principiantes, publicado posteriormente em

edições autônomas. Deste conjunto de obras litúrgicas há também o Director Ecclesiastico

(1755), de Frei Veríssimo dos Mártires, de onde Frei Francisco de Jesus Maria Sarmento

publicou, em 1772, o Directorio Sacro das ecclesiasticas cerimónias, com segunda edição em

1794.

Além dos livros litúrgicos, há também os livros de devoção. Albuquerque (Idem, p.

34) chama a atenção para a única publicação autônoma polifônica a quatro vozes, em quatro

volumes, um para cada parte cavada, as Preces que se devem cantar nos dias da novena, e

festa do glorioso patriarcha S. Joseph, editada em 1724, pela Oficina Joaquiniana da Musica,

em Lisboa, e em 1758, por José da Costa Coimbra. Outros livros de prece (novenas, trezenas,

etc.) são editados entre 1754 e 1791, desaparecendo a partir de 1808. No reinado de D. Maria

I, a impressão de música sacra e litúrgica volta a predominar, diminuindo a produção a partir

de 1812, já no reinado de D. João VI.

Albuquerque (Idem, p. 31) informa que a impressão de música profana instrumental

no reinado de D. José se resume a duas edições para tecla76 e uma para conjunto instrumental.

No reinado de D. Maria I foi verificado um aumento expressivo de impressões, ocasião em

que as modinhas ocuparam as preferências com o surgimento dos periódicos musicais, como

o Jornal das modinhas, por Marchal e Milcent, e o Jornal de modinhas novas dedicadas as

senhoras, editados por João Baptista Waltmann. Surgem também as edições para cordas

dedilhadas, substituídas, a partir de 1812, pela música para o pianoforte, com repertório de

marchas, sinfonias, valsas e variados hinos patrióticos. Muitas foram as publicações com

reduções para pianoforte, ou para canto e pianoforte, destacando-se o repertório das obras de

76 Dodeci sonate variazione minuetti per cembalo, de Francisco Xavier Baptista, entre 1765 e 1777, e o Minuetto con due cento variazioni differenti, de Andrea Marra, publicado entre 1765 e 1766. Ainda, as Sei sonate per cembalo, de Alberto José Gomes da Silva, na década de 1760.

Rossini. Entre 1812 e 1820, publicaram-se hinos e marchas para coro e piano ou para banda

marcial.

Albuquerque (Idem, p. 36) informa ainda que a edição de material didático musical é

mais estável no século XVIII, com os manuais para acompanhamento de cravo, órgão, ou

cordas dedilhadas, os de acompanhamentos de missas, mudando para teoria musical a partir

de 1812.

Segundo Maria João Durães Albuquerque, a tipografia foi introduzida em Portugal, no

século XVI, pelo francês German Galharde, em 1533, e consistia em "criar caracteres bastante

pequenos, contendo uma figura musical e um fragmento de linhas do pentagrama, dispostos

numa matriz, assegurando que as linhas ficassem uniformes e sem quebras" (Idem, p. 44);

ainda assim, são percebidas descontinuidades nessas impressões. A autora argumenta que a

maior quantidade de símbolos musicais dificultava a impressão e que, por este motivo, a

notação mais simples de imprimir era a quadrada preta, utilizando-se um número bem

reduzido de formatos das figuras (Idem, p. 45). Como um dos exemplos, cita as Preces que se

devem cantar nos dias de novena, e festa do glorioso patriarcha S. Joseph77

, impressa em

notação branca mensural na edição de 1724 e reeditada com correções em 1758.

Albuquerque observa ainda que "Para a impressão da notação moderna, o processo

tipográfico tornava-se mais difícil, pois era necessária uma variedade de símbolos para

representar as durações, o que dificultava a composição das matrizes." (Ibid., id.).

Outros processos de impressão em Portugal são citados pela autora. A xilogravura

(gravação em placas de madeira), introduzida na Europa desde o século XV, em Portugal foi

utilizada durante o século XVIII para imprimir os exemplos de música métrica nos livros de

teoria da música. O processo da gravura a talha-doce sobre chapa metálica veio atender à

impressão de notas musicais com valores curtos e acordes densos, a partir do reinado de D.

77

Maria I. A litografia foi introduzida em Portugal, em 1824, facilitando a impressão da notação

mais uniforme, com as cabeças das notas inicialmente redondas e, posteriormente, ovais, com

as hastes das colcheias muitas vezes invertidas. Somente a partir de 1828 é que a técnica de

impressão pelo processo de litografia torna-se aprimorado.