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5   Process Modelling

5.5  Dual nitrogen expander process

Complementando as doutrinas e teorias que permearam a teoria musical na Idade

Média, acrescentamos esta concepção metafísica e mística que causou muitas discussões,

embora aceita como inequívoca pelos pensadores sob influência neoplatônica ou

neopitagórica.

James Haar (Grove music on line, art. 19447) expõe, no verbete Música das esferas, o

que define como uma doutrina pitagórica postulada sobre as relações entre os planetas

governados por suas velocidades proporcionais e por suas distâncias fixadas a partir da Terra.

Segundo o mesmo autor (Ibid., id.), os gregos conceberam conceitos sobre um universo

harmonioso concebido, anteriormente, por caldeus e babilônios, concepção essa da qual

partilhavam os judeus, por acreditarem num cosmos ordenado, que cantava louvores ao seu

criador. Haar (Ibid., id.) afirma também que Pitágoras e seus seguidores desenvolveram uma

série de analogias entre as consonâncias musicais – derivadas das proporções dos tamanhos

das cordas tensionadas da lira – e os fenômenos naturais. Acrescenta ainda que em Timeu, de

Platão, o mundo da alma, um modelo para o universo físico, é aperfeiçoado por similitude

através do uso de proporções pitagóricas. Séries geométricas duplas e triplas são cheias de

significados aritméticos e harmônicos, resultando na visão de todo o céu como uma escala e

um número, concepção de Aristóteles na sua obra Metafísica.

Na descrição de Platão, o universo é formado por uma série de anéis concêntricos, ou

seja, as órbitas planetárias. Sobre a superfície de cada uma delas uma sereia estaria sentada

cantando e tocando sons harmoniosos inaudíveis pelos mortais. A influência dos mitos

platônicos, segundo Haar (Ibid., id.), foi bastante extensa e duradoura, apesar de rejeitada por

Aristóteles, que defendia a ideia de um universo silencioso. A esse quadro místico outros

elementos seriam acrescentados, no início da era cristã, pelos neoplatônicos, como Aristides

quatro estações, o fluxo das marés, o crescimento das plantas e, como um espelho

microcósmico do universo, o crescimento e o comportamento humanos. Segundo Palisca (In

Grove music on line, art. 44944), o astrônomo Cláudio Ptolomeu, no século III a.C.,

reconheceu que havia paralelos entre a ordem das medidas planetárias e as razões aritméticas

em torno da música. A cosmologia, a harmonia humana, mundial e a estética eram todas

manifestações da organização musical. Haar (1992) acrescenta que Ptolomeu fazia a distinção

entre a harmonia cósmica e a harmonia psíquica, gerando mais tarde, na visão de Boécio, as

respectivas equivalências: a musica mundana e a musica humana.

Figura 23. O esquema ptolomaico da música das esferas, com o planeta terra ao centro, as órbitas dos planetas, as constelações zodiacais e, no extremo externo, acrescido, o céu empíreo, a habitação de Deus e de todos os

eleitos. Fonte: http://creativethinkersintl.ning.com. Acesso em: 08/07/2009.

De acordo com Haar (Ibid., id.), a soma de todos esses fatores colocaria a música no

lugar central do Quadrivium medieval, resultado do pensamento neopitagórico e

neoplatônico. Segundo González (2005), a distância entre os planetas era considerada

proporcional à distância entre as cordas da lira, o que levou ao estabelecimento de um

paralelismo entre os sete planetas e as sete cordas da lira. Ainda segundo González (2005),

essa analogia cristianizada considerou o universo como uma grande lira celeste tocada por

sonora imita e reflete as leis imutáveis da harmonia dos astros, que o ouvido capta. Porém,

somente a razão pode interpretar e compreender sua estrutura matemática.

Haar (1992) prossegue afirmando que os judeus também concebiam a música celestial

e que os gnósticos criaram a hierarquia dos anjos, dirigidos pela crença na musica celestis. A

música angelical vista em inúmeras pinturas, da Idade Média até o Renascimento, e

combinada com a musica mundana, está presente na visão fulgurante da luz e do som no

Paraíso, de Dante Alighieri (1265-1321). Na representação iconográfica do pintor italiano

Raffaello Sanzio (1483-1520), ou Rafael, (Figura 24) sobre a imagem de Santa Cecília, a padroeira da música e dos músicos, encontramos o apóstolo S. Paulo à esquerda, logo atrás

São João Evangelista, Santo Agostinho e Santa Maria Madalena. O simbolismo do abandono

da música terrena e profana é representado pelos instrumentos renascentistas ao chão,

enquanto o olhar devoto da mártir está voltado para a música celestial e a esperança na

bondade divina.

Figura 24. O êxtase de Santa Cecília, com São Paulo, São João Evagelista, Santo Agostinho e Santa Maria

Madalena (1513), óleo sobre tela, de Rafael, ou Raffaello Sanzio (1483-1520), pertencente à Pinacoteca

Ainda segundo James Haar (Ibid., id.), essas ideias pitagóricas continuaram a ser

elaboradas pelos neoplatônicos até o final do Renascimento, influenciando astrônomos,

físicos, arquitetos, humanistas, artistas plásticos e poetas, assim como os filósofos Leibniz

(1646-1716) e Schopenhauer (1788-1860), além dos teóricos musicais Mersenne (1588-1648)

e Athanasius Kircher (1602-1680).

Com as atenções voltadas para os princípios aristotélicos, que prevaleceram a partir do

século XI e no século XIII, com o surgimento da Escolástica, a concepção da música ou

harmonia das esferas começa a ser refutada, da mesma forma que Aristóteles a havia

rejeitado. Entretanto, as discussões não eram objetivas e definitivas, pois a dialética e a

retórica tomavam os espaços nas discussões, tornando toda e qualquer compreensão

intrincada, mesmo porque as ideias de Platão sobre a música celestial eram verdades já

estabilizadas pelas tradições dentro da própria igreja, provocando antinomias.

Na Biblioteca Apostólica Vaticana foi encontrado por Gabriela Ilnitchi (2002), junto a

uma miscelânea de manuscritos do século XIII, um documento cujo autor é um bispo não

identificado, oriundo provavelmente de um convento franciscano em Siena. Esse documento,

como atesta Ilnitchi (Ibid., id.), expõe novas idéias que convergem entre si e coexistem nas

discussões no período áureo da Escolástica a respeito da música das esferas. Desse

documento constam as argumentações do bispo anônimo e seus opositores. Estes, alinhados

com o pensamento aristotélico de São Tomás de Aquino, afirmavam não haver música

celestial porque não seria possível ouvi-la.

Este foi então o principal argumento dos escolásticos contra a existência da musica

mundana, ou música das esferas: ela não poderia ser comprovada pela experiência dos

sentidos. Aceitá-la significaria contrariar a razão, sustentar um despropósito, o que tornaria

qualquer investigação fútil, já que as implicações sensoriais seriam imateriais e as sutilezas da

argumentos evidenciam o declínio da concepção neoplatônica a respeito da música das

esferas. Entretanto, segundo Ilnitchi (Ibid., id.), os conceitos foram mantidos nos âmbitos

filosófico e teológico. Os escolásticos baseavam-se na tradução para o latim da única obra de

Aristóteles sobre cosmologia, De Caelo, cuja forte influência se estendeu até o século XVII.

Na tradução de Ilnitchi de um trecho do De Caelo, Aristóteles afirma ser absurdo acreditar

numa música que não se ouve, partindo do princípio de que barulhos excessivos despedaçam

corpos sólidos e até mesmo seres inanimados. E conclui que, se esse som cósmico fosse tão

grandioso, deveria proporcionar aos humanos o efeito da sua grandiosidade, como um trovão,

que tem uma intensidade imensa. Como tal não acontece, não há, portanto, som cósmico.

Ilnitchi (Ibid., id.) prossegue apresentando a persistência do bispo anônimo em

defender a ideia de que as esferas celestiais produzem sons em seus movimentos e esses

efeitos sonoros produziriam a harmonia musical. Utilizando-se da teoria de Macróbio (séc.

V), no tratado Somnium Scipionis134, o bispo argumenta que os planetas produzem sons nos

seus rápidos movimentos orbitais, como se pode provar agitando-se uma varinha no ar:

quanto mais rápido é agitada, mais agudo o som. Da mesma forma, o voo dos pássaros, as

flechas e pedras em sua passagem pelo ar geram sons. Ilnitchi (Ibid., id.) descreve as

estratégias intelectuais do bispo anônimo, que passa pelos princípios boecianos da musica

instrumentalis, transita entre os conceitos neoplatônicos e as razões aristotélicas, avalia

diversos metais e conclui que, quanto mais duros e menos maleáveis, maior sonoridade

produzem, assim como o vidro, que é sólido, não maleável, e produz sonoridade suave e

agradável. O autor do documento ainda argumenta que os ouvidos humanos não captam a

música do cosmos porque, em primeiro lugar, a distância entre os planetas e a terra é imensa

e, em segundo, é tão grandiosa que ensurdeceria os ouvidos humanos.

134 Thomas J. Mathiesen, no seu verbete 'Macrobius Ambrosius Theodosius', no Grove on line, artigo 17380,

informa que este tratado aborda imagens da harmonia das esferas e observações sobre a natureza e ascensão da alma, que proporcionaram ao autor a classificação dos sonhos; o movimento orbital dos planetas com seus sons harmoniosos e a superioridade da visão platônica sobre a visão aristotélica da música das esferas.

Ilnitchi (Ibid., id.) continua sua abordagem afirmando que o bispo anônimo alude ao

mais "alto dos céus", onde habitam as almas dos abençoados, o lugar dos anjos, onde todos

cantam. Esse céu empíreo135 é o lugar aonde todos devem ascender por meio da humildade da

fé e não pelo prazer da razão.

Sobre os sons produzidos pelos planetas, Ilnitchi observa que, em geral, os autores do

medievo não falam em alturas, mas em intervalos, tal como: “partindo da lua [sic], como está

mais próxima produz um som mais grave, da mesma forma que Saturno está mais longe, por

isso produz o som mais agudo” (Ibid., id., p.56). Esse entendimento é inverso ao que

Nicômaco de Gerasa sustentava: quanto maior o planeta, mais forte o som produzido.

Entretanto, o bispo argumenta que se deveria levar em consideração também a variação dos

movimentos dos astros e sua distância da Terra para se encontrar a harmonia. Para comprovar

sua tese, apresentou cálculos e esquemas da direção orbital e do movimento epiciclo136. Roger

Bragard (1929), no estudo A harmonia das esferas segundo Boécio, acrescenta que este

adotou o mesmo esquema de Nicômaco de Gerasa, em que aparecem, numa gama

descendente, a lua, o som mais agudo, seguida de Mercúrio, Vênus, o sol, Marte, Júpiter e

Saturno. Entretanto, há diferenças entre Nicômaco e Boécio sobre a localização exata de

Mercúrio e Vênus na gama, que parecem alternar-se entre o segundo e o terceiro graus (Dó4 e

Sib3), dependendo da fonte que contém a cópia do documento original de Nicômaco,

conforme a exemplificação que se segue na Figura 25.

Figura 25. Diferença entre as correspondências cosmológicas em Nicômaco de Gerasa e Boécio. Fonte: Roger Bragard. L'Harmonie des Spheres selon Boece, p. 209

135 Ver Figura 23, p. 130 – esquema ptolomaico acrescido do céu empíreo. 136

Ilnitchi (2002) infere que toda a argumentação do bispo é calcada sobre a crença

medieval de que os aspectos zodiacais e as consonâncias musicais eram extremamente

idiossincráticos, e que davam provisão à base intelectual para a noção de que a substância da

incorruptibilidade celestial deveria influenciar os corpos corruptíveis do reino sublunar, onde

humanos, plantas, animais, ventos e mares convivem. Concluindo, Ilnitchi (Ibid., id.)

apresenta os raios solares como a forma de esses elementos chegarem até o âmbito terrestre e

o influenciarem. O raio solar, como uma influência celestial, teria um componente musical,

pois, além de ser invisível, contém movimento, luz e se reflete sobre a superfície dos corpos

sólidos e opacos, onde a luz não consegue fazê-lo.

A distância no tempo que nos separa desses conceitos, refutados pela astronomia

moderna e não incluídos na teoria da música racional à medida que foram substituídos por

outros conceitos, leva-nos a associar a música das esferas ao período histórico anterior ao

racionalismo do século XVII. Entretanto, ao contrário do que se possa supor, esses conceitos

neoplatônicos, cristianizados, estiveram presentes no pensamento ocidental até o século

XVIII, pelo menos. Não eram somente conceitos pertencentes ao âmbito da música, mas ao da

teologia em geral. Relembramos que a filosofia era considerada serva da teologia, e a música,

julgada por Santo Agostinho como uma forma de se chegar à filosofia, à razão e a Deus, por

consequência. O que a nós pode parecer confuso ou obsoleto não o era ao homem culto do

século XVIII, para o qual ainda significava demonstração de erudição falar sobre a música das

esferas. Um exemplo desta assertiva é o Sermão 20, de 1729, do Frei Pedro do Espírito

Santo137, dedicado ao Santíssimo Sacramento, no qual o pregador, ao iniciar o sermão

laudatório, afirma que o coro de humanos consagrados a Deus louva o augusto e venerável

sacramento. Segue o pregador narrando que o santo rei Davi, com os olhos voltados para o

céu, com a harpa nas mãos, o coração em Deus, cantou, em um voo profético, o Salmo 8:

137 Sermones / Panegyricos / Morales./ Predicados / A varios assumtos / Y misterios / En differentes / Solemnidades./ Por El R. P. Fr. Pedro del Espiritu- / Santo, Carmelita Descalzo, lector de Theologia em su / Colegio / de San Cyrillo de la Universidad de / Alcalà.

"Quão admirável é, Senhor nosso, o teu nome por toda a terra!". Da mesma forma que o rei

Davi via a lua e as estrelas, corpos que não falam, mas os via presentes e os que haviam de

vir, corpóreos e visíveis, e como a lua falava às estrelas, ele, o frei pregador, falava aos seus

ouvintes. Os céus representavam o lugar onde habitavam as almas do sagrado coro. Como São

João Crisóstomo138 menciona, através da lua diáfana se revelava o corpo solar, que se

comunicaria com os seres da terra. O que era visto na custódia139 não seria o corpo

sacrossanto daquele sol de justiça (o corpo de Cristo transubstanciado na hóstia consagrada) a

difundir sua luz por entre os cristais daquela lua resplandecente? Os resplendores (os raios

solares da custódia) que iluminam as almas a partir do corpo de Cristo, o maior firmamento da

igreja cristã, eram então comparados ao sol. Pergunta o pregador: e os céus, o que são? E

responde que são os coros dos anjos e das virgens que cantam perpétuos louvores, a quem

somou Platão umas dulcíssimas sereias em melodia acordada, e que dão ao sol sacramentado

(Cristo) música concertada. O pregador se eleva ao ver o prodígio da graça divina. Como

pode ser observado, mesmo na transcrição resumida, o sermão construído de forma poética e

permeado de conceitos teológicos insere a teoria das esferas, tacitamente a princípio e

explicitamente ao final, seguindo o modelo neoplatônico.

Acrescentamos que os sermões panegíricos foram dedicados a uma Duquesa de

Aveiro, Portugal, o que nos leva a crer que na Península Ibérica era corrente essa forma de

pensar. O fato de a Universidade de Alcalá ser à época um expoente na formação acadêmica

permite-nos supor que o pregador tivesse influência na forma de pensar dos seus alunos e dos

fiéis que ouviam suas prédicas no início do século XVIII.

Craig A. Monson (2002), nos seus levantamentos sobre o Concílio de Trento, cita

como uma das reformas pós-tridentinas a Constitutiones almae domus, para a Santa Casa de

138 São João Crisóstomo é considerado um dos Pais da Igreja, portanto, seguidor do pensamento neoplatônico. 139 Haste com base, encimada no centro por recipiente em forma de círculo, onde fica guardada a hóstia

consagrada, ornada em torno com esplendor em forma de raios solares, que fica exposta à adoração dos fiéis, simbolizando o corpo transubstanciado de Cristo.

Loreto, promulgada pelo cardeal Giulio della Rovere, em 1576, recomendando ao mestre de

capela que deveria lembrar a própria presença na igreja, onde angélicas harmonias dão eco

aos louvores a Cristo, o Senhor, e a sua Virgem Mãe. No mesmo artigo, Monson (2002) faz

menção ao Cânon 8, no qual há referência ao vão deleite ao ouvido, que deveria ser

transcendido pelo desejo despertado no coração dos ouvintes pelas harmonias celestiais e a

contemplação das alegrias dos abençoados (bem-aventurados).

Seria essa música simples, menos elaborada, cuja notação descritiva, escrita em graus

conjuntos, com o texto prevalecendo sobre a música (do ponto de vista agostiniano atingindo

a razão, que leva a Deus), considerada similar à música que teria correspondentes

cosmológicos do ponto de vista neoplatônico? O conceito da música celestial faria parte das

preocupações tacitamente aparentes nas discussões do Concílio de Trento? Esses elementos,

que fazem parte do stile antico (canto de órgão) que acompanha a notação antiga no Brasil e

em Portugal, seriam uma perpetuação subjacente da preocupação com música celestial na

memória coletiva dos músicos? Ficam aqui as dúvidas metódicas levantadas.