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6   Decision Variables

6.1.2  Exergy analysis

Ao elaborar uma espécie de síntese da Escolástica, Milton José de Almeida (2005)

descreve, em seu artigo A triunfo da Escolástica, a glória da educação, o afresco O triunfo de

S. Tomás de Aquino (1368), de Andrea Bonaiuti (1343-1377), pintado na igreja de Santa

Maria Novella (Figura 26), na casa do capítulo dominicano, em Florença. Almeida o

interpreta como uma "celebração da aprendizagem, pintado para uma audiência especializada"

(ALMEIDA, 2005, p. 18), com o objetivo de educação visual da memória, pois o afresco se

Figura 26. O triunfo de S. Tomás de Aquino (1368), afresco de Andrea Bonaiuti (1343-1377), igreja de S. Maria Novella, Florença.

Almeida interpreta essa alegoria, que apresenta Tomás de Aquino em posição central,

sentado no trono, com as imagens e seus significados "rigidamente ordenados, seriados e

classificados" (Ibid., id.). E prossegue na sua interpretação:

Abaixo do círculo intermediário, dos planetas, no universo aquiniano, aristotélico, a Terra ocupa a posição mais inferior, a esfera sublunar, correspondente à sua inferioridade, pois é o lugar da geração e da corrupção, da impermanência, da instabilidade. O lugar onde se faz necessária a ação do homem juntamente com a divina para a correção da obra de Deus.

Assim, vemos em movimento visual a atuação de Aquino como educador e condutor de almas através dos três círculos. Santo e patrono das escolas católicas e da educação, a partir de 1567, foi elevado à categoria de doutor da Igreja, e chamado de ‘doutor angélico’, em alusão à sua sabedoria e aos anjos que habitam o primeiro círculo, o mais elevado, o mais próximo de Deus, o círculo das inteligências angélicas, o intelecto. (ALMEIDA, 2005, p. 19)

Segundo Almeida (Ibid., id.), a figura de mulher, no círculo acima da cabeça de S.

Tomás, representa a sabedoria; os sete anjos, as sete virtudes, com as três virtudes teologais

(fé, esperança e a caridade) representadas pelos anjos mais acima. Já as virtudes intelectuais e

temperança –, estão figuradas nos anjos mais abaixo. Ao lado do trono encontram-se os

profetas do Velho Testamento com São Paulo e os quatro evangelistas, com livros abertos,

onde se leem textos, diferentemente do rei Davi que foi retratado com a harpa. Aos pés de

Aquino, os escritores que foram rejeitados ou considerados hereges, ou dos quais Aquino

discordou nos seus escritos: Ario (c. 260-330), Averroes (1126-98) e Sabelio (séc. III).

Abaixo, num friso,

[...] à esquerda estão escritos os sete dons do Espírito Santo, e à direita, o conjunto das sete disciplinas fundamentais, o Quadrivium e o Trivium. Abaixo destes, os sete planetas, como vistos na época: Sol, Marte, Saturno, Júpiter, Mercúrio, Vênus e a Lua. (Ibid., id., p. 19)

Na metade inferior do afresco, nos bancos enfileirados, estão quatorze figuras

femininas que representam as virtudes.

Abaixo delas, estão as figuras masculinas que representam os diferentes ramos do conhecimento: o primeiro setenário das ciências teologais: Justiniano, o direito civil; Clemente V ou Inocêncio IV, o direito canônico; Platão, a teologia antiga, e São Jerônimo, São Dionísio, o Areopagita, São João Damasceno, Santo Agostinho, as quatro ciências teologais. No segundo setenário, o das artes liberais, vemos: Pitágoras, a aritmética; Euclides, a geometria; Ptolomeu, a astronomia; Tubalcain, a música; Aristóteles, a dialética; Cícero, retórica; e Donato, gramática. (Ibid., id., p. 21)

É importante ressaltar que, nessa alegoria, nem Platão nem Pitágoras estão associados

à música. Segundo James W. McKinnon, no verbete “Jubal”, do Grove music online, o

representante da música nessa alegoria é Tubalcain, considerado o primeiro ferreiro,

observado por seu meio-irmão Jubal, que teria calculado as proporções e as consonâncias sob

inspiração divina, como afirmam Aureliano de Réôme, no século IX, e Egídio Zamora, no

século XIII. Segundo os dois teóricos medievais, os gregos atribuíram falsamente essa

descoberta a Pitágoras. De acordo com McKinnon, tal concepção permaneceu até o século

observamos que ela ainda permaneceu na obra do padre Giambatista Martini151, Storia della

musica, dedicado a Maria Barbara, infanta de Portugal e rainha da Espanha. A mencionada

obra, que tem por princípio a abordagem escolástica, inicia a história da música por Adão e

Eva, passa pelos músicos relatados no Velho Testamento até chegar à Antiguidade greco-

romana e à Idade Média.

Retornando à interpretação de Milton José de Almeida, Tomás de Aquino, ao abordar

a arte da memória, De memoria et reminiscentia, de Aristóteles, faz observações sobre a

"precedência absoluta da imagem com relação à fala, e sobre a essência imagética do

intelecto, e por isso [Aristóteles seria] o único que poderia entender uma gramática imaginal"

(Ibid., id., p. 24). Prosseguindo sobre a simbologia dos números152 no afresco de Bonaiuti,

Almeida comenta:

O setenário das artes liberais, por exemplo, tal como as sete virtudes, expõe-se como uma lição visual sobre o significado e a mística dos números. Compõe-se, por exemplo, de uma tríade relativa às esferas espirituais e mentais superiores do intelecto – a gramática, a dialética, e a retórica, que compõem o Trivium – e, por meio da perfeição do número três, número celeste, da Trindade, relaciona-se às três virtudes teologais. Assim o Trivium, conjunto de disciplinas que se ocupam do discurso e da palavra, sintoniza-se com as virtudes mais próximas da inteligência divina.

Em contraposição e complemento ao trio das virtudes espirituais, soma-se o quatro, número terrestre, corpóreo – terra, ar, fogo, água – relacionado ao quadrado, à cruz: o Quadrivium, e suas disciplinas dedicadas aos estudos da natureza – aritmética, geometria, música e astronomia – e ao conhecimento simbólico dos números e seus suportes corpóreos – a física, os sons, os planetas." (Ibid., id., p. 24)

Almeida avalia o raciocínio escolástico como uma forma de "poder político, científico

e retórico, que parte da demonstração lógica, racional, estabelece verdades, ou uma verdade

que conduz e coage as opiniões dissidentes, o pensamento histórico e complexo" (Ibid., id., p.

27).

Resumindo Escolástica do ponto de vista histórico-político e avaliando-a sob

influência do olhar dos nossos dias, Eduardo Sucupira Filho afirma que esse conceito

151 MARTINI, Giambatista. Storia della musica. Per Lello dalla Volpe Imprezione dell' Instituto delle Scienze, 3

v. 1757.

152

[...] consolidou-se no decurso do século XI, época de lutas encarniçadas entre a Igreja Católica e os imperadores germânicos desejosos de acabar com as pretensões de domínio universal do Papado e privá-lo de seu poder secular. A doutrina preocupou-se exclusivamente em explicar os dogmas e o pensamento teologal, de que tentou extrair ilações e procedimentos destinados a orientar a conduta humana. O termo, que originalmente servia para designar os dignitários da Idade Média, adquiriu com o correr do tempo o valor sinonímico de raciocínio separado da vida. Escolástico tornou-se o indivíduo de pensamento estéril, prosa verbalística e vazia erudição. O termo adquiriu, pois, sentido pejorativo, em virtude do excessivo formalismo lógico da doutrina divorciado da observação e da experiência. (SUCUPIRA FILHO, 1991, p. 43-4)153