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Figura 6: Evento realizado no Dia Nacional dos povos Ciganos em

24/05/2016.

Fonte: Pesquisa de campo

O acampamento não possui água encanada, saneamento básico, acesso ao transporte público, nem mesmo banheiros para suas necessidades básicas. Para garantir sua sobrevivência, uma das estratégias que eles adotam é a venda de panos de prato, além da cultura de subsistência, com pequenas criações de galinhas, plantio de feijão, mandioca e horta comunitária para consumo próprio.

Numa região, composta majoritariamente por pequenas residências, chácaras e sítios, em que a atividade econômica da comunidade gira em torno de comércio ambulante, criação de

animais e pequenas atividades agrícolas, a comunidade cigana vive às margens, de forma exclusa e sem oportunidades.

Em princípio, deve-se destacar que os ciganos prezam pela “liberdade” (ainda que relativa e subordinada) em suas dimensões física, psicológica e social. É importante frisar, ainda, que por terem uma cultura milenar diferenciada, e por não acessarem periodica- mente a educação formal e sistematizada, a questão do trabalho se mantém, ao menos para a comunidade Calon pesquisada, na esfera da informalidade. Dessa forma, se inclinam ao trabalho com vendas ambulantes, negociam, trocam, vendem, compram no mercado livre e informal. São exímios negociadores.

Para eles, o trabalho é percebido como uma moeda de troca para a subsistência do grupo. Assim sendo, as atividades por eles realizadas são bem aceitas, na medida em que se configuram como supostamente livres, sem subordinação a um patrão, a horários rígidos e pré-definidos, fugindo em alguma medida do padrão normativo capitalista.

Pensando dessa forma e tentando entender os processos que levaram à exclusão social e educacional da etnia cigana, destaca-se uma aparente negação e recusa do povo cigano às regras do mercado de trabalho capitalista (PINTO, 1995). Como os ciganos são taxados pelo senso comum de preguiçosos, que não trabalham, que são folgados, consequentemente não atendendo a lógica capitalista, ao menos de forma aparente, são excluídos de alguns processos que circundam essa lógica. Entretanto, lembramos que essencialmente dependem e convivem com a sociedade do capital, de forma subordinada, portanto em nosso entendimento é ingênua a afirmação de que não se subordinam à lógica capitalista.

Na cultura cigana, eles preferem optar por atividades econômicas que lhes permitam uma maior “liberdade” com uma

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maior flexibilidade de tempos e espaços. Desta forma, procuram se afastar do modo de vida hegemônico e se aproximam de sua cultura, mantendo sua identidade étnica e cultural. Preservam o tempo com a família, com as atividades dentro do acampamento e com as viagens a trabalho e a visita a outros acampamentos para manterem os laços de amizade e fortalecerem as lutas e conquistas.

A maioria dos ciganos Calon, por sua itinerância, baixa ou nenhuma escolaridade formal entre outros fatores que os circundam costumam ser excluídos do mercado de trabalho formal, especialmente em relação aos ciganos Calon, percebemos a marca do preconceito, “aquela velha ideia” que generaliza e rotula uma suposta falta de “confiança”, “compromisso”, e “seriedade” que capitalismo neoliberal do século XXI parece a todos subjugar.

A Fundação Gubenkian em Lisboa, Portugal, por meio de estudos especialmente sobre discriminação em relação à raça e origem, apresenta dados que demonstram a taxa de desemprego na Europa. Quando se trata dos povos ciganos, é de 40 a 80 por cento. De acordo com a mesma pesquisa: 50,7% da população cigana, já se sentiu discriminada no local do trabalho; 35,3% disseram terem sido rejeitados durante entrevista por causa da sua etnia; 26,9% sentiram-se controlados e monitorados por câmera no trabalho; 11,9% tem experimentado situações que os impede de desempenhar funções com visibilidade pública por causa de sua raça, origem ou etnia.27

Sob a lógica dialética, não se pode deixar de perceber também, de certa forma, uma justificação para o não acesso aos empregos e postos de trabalho formais, tendo em vista o forte preconceito que ainda se faz presente, especialmente no acesso ao mercado de trabalho formal. Em uma sociedade em que o

27 Disponível em: https://adcmoura,pt/pareescuteeolhe. Acessado em 05 de maio de 2018.

emprego formal está em declínio mesmo para os filhos e filhas das classes médias urbanas “bem nascidas”, o que imaginar de um povo que não teve acesso às políticas formativas profissionais ou que sequer possuem um documento de identidade? Tal quadro é ainda mais dramático para a comunidade Calon. Em uma sociedade na qual declaradamente “não há emprego para todos”, inevitável pensarmos no grau de exclusão dessas pessoas no mercado de trabalho formal.

Portanto, entendemos que a categoria trabalho é um dos pontos chaves para esse povo. Nesse movimento de transição e de inúmeras contradições, eles se veem numa situação em que necessitam da escolarização formal para validarem seus saberes e conseguirem o acesso aos bens e serviços do nosso País.

As tarefas realizadas por eles antigamente, como domar animais, fazer arte circense, artesanatos e confeccionar panelas e ferramentas de metais, não fazem mais sentido e nem garante a subsistência do grupo. Com o passar dos tempos, e sofrendo com o processo civilizatório, muitas dessas atividades foram perdidas, esquecidas, ou até mesmo consideradas sem valor econômico, uma vez que as novas tecnologias impediram, afastaram, ou dificultaram a continuidade dessas atividades econômicas no mercado comercial.

Após essa necessária problematização, tendo em vista a posse da terra e suas possibilidades de plantio, ao menos para sua subsistência, no acampamento atualmente, com inúmeras dificuldades enfrentadas, como falta de água, energia elétrica precária e solo pouco fértil, a comunidade está desenvolvendo lentamente e de forma rudimentar as técnicas da permacultura familiar, que são técnicas simples, acessível de utilização sustentável do solo, para a subsistência do grupo. Ressalta-se que já estão comendo frutas, verduras e legumes, plantados e cultivados por eles próprios.

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Figura 7: Horta comunitária no acampamento cigano

Fonte: Pesquisa de campo

Isso tem ajudado a desmistificar os preconceitos junto à vizinhança da comunidade, que hoje já os veem com outros olhos. Segundo o senhor Wanderley, a relação com os vizinhos tem melhorado bastante, pois já conseguem dialogar e chegar num acordo quando precisam decidir algo em torno da convivência, praticando, na medida do possível, a política da boa vizinhança.

Para essa comunidade, tudo isto, a questão de cuidar da terra e tirar dela seu sustento, é muito novo porque até então, pelo modo de vida nômade que levavam, trabalhavam no comércio com compra e venda de carros usados e de animais de estimação e de trabalho com cavalos. Reforçamos que, para eles, ser “donos da terra” é muito mais do que apenas ocupar um espaço territorial; é criar laços fortes com esse local; criar seus filhos; construir histórias e, acima de tudo, procurar encontrar ali um meio de sobrevivência para seu grupo.