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Na presente dissertação abordamos o tema da tradução de humor e o foco da análise foram dois álbuns da série de história em quadrinhos Astérix. A hipótese, levantada ainda no projeto de pesquisa, seria a de que os tradutores dos álbuns analisados teriam optado por três tipos de tradução: a tradução literal, a tradução feita a partir da escolha de um equivalente cômico no texto de chegada e a tradução que seria o resultado da junção das duas práticas anteriores. Após a análise, podemos afirmar que a hipótese levantada foi validada.

O objetivo da pesquisa era comprovar que a tradução de humor, por vezes, implica em mudanças na estrutura do texto e também comprovar que o mais importante é manter o perfil cômico para que o texto não perca sua essência. Tais objetivos foram alcançados como podemos observar mais adiante ao falarmos dos resultados das análises.

Durante a elaboração do trabalho verificou-se, quanto ao jogo de palavras, que, a rima, a paródia e o trocadilho foram as categorias presentes nos enunciados analisados. Os exemplos de mal-entendido cultural foram analisados principalmente a partir das falas do personagem Obélix. A escolha se deu pelo fato de que o personagem encarna o estereótipo do gaulês (francês) que ignora traços marcantes das culturas diferentes da sua.

Os álbuns analisados são histórias em quadrinhos e nesse tipo de literatura a imagem é muito importante, por esse motivo tomou-se o cuidado de não analisar determinadas passagens do texto em que a fala dos personagens é reforçada por uma imagem, excluindo-se duas situações: o exemplo 9 no qual existe o desenho de um machado cujo nome em francês é homófono do som da letra H, e o exemplo 14 no qual uma fruta (um melão) é vista como um chapéu.

A análise dos exemplos escolhidos foi feita a partir das duas categorias abordadas. Foram escolhidos 18 exemplos, dos quais doze exemplos de jogos de palavras e seis exemplos de mal-entendidos culturais. No exemplo em que o personagem bretão usa o latim, língua dos soldados romanos, dando a entender que ele “falava a língua” dos soldados. O tradutor considerou simplesmente a rima que poderia ser obtida, embora tivesse a opção de deixar os dois termos em latim. Quando os soldados romanos trocam a primeira letra das palavras que pronunciam, a comicidade se dá a partir do jogo de palavras que denota a

embriaguez dos personagens, nesse caso o tradutor compreendeu a intenção dos autores e criou jogos de palavras em português. O tradutor teria tentado “melhorar” o texto quando, no exemplo 3, fez uma paródia de uma expressão latina conhecida, uma vez que, a tradução literal da passagem causaria estranhamento para o leitor de língua portuguesa no Brasil. No exemplo 4, o tradutor partiu do princípio de que todos os leitores conhecem o peixe chamado traíra e o sentido da palavra caldo nesse contexto. O tradutor usou no exemplo em que o personagem do chefe dos gauleses usa a expressão “avoir une nouvelle corde à sa harpe” uma frase que, para os falantes de língua portuguesa não passa de uma frase comum ao invés de uma expressão idiomática como no texto de partida. No exemplo em que o soldado romano usa a expressão “prendre en grippe” assim como no exemplo do bretão que faz rima com duas palavras em latim, o tradutor escolheu priorizar a rima em detrimento ao jogo de palavras composto por uma homografia e uma homofonia ao mesmo tempo.

No exemplo em que os soldados romanos cantam e naquele que constitui o nome de um dos álbuns (Astérix chez Rahàzade), o jogo de palavras consistia em uma mudança de fronteira de palavras. Para o exemplo sobre a utilização da palavra ha che (machado), o tradutor não encontrou uma solução para o jogo de palavras resultante da homofonia entre duas palavras. Sobre o exemplo que faz alusão ao tapete furado na Pérsia, também um caso de homofonia, o tradutor tratou como um simples comentário sobre a ironia do destino. No exemplo em que pela segunda vez houve a utilização da palavra hache, a dificuldade ignorada no exemplo anterior reaparece e o tradutor consegue encontrar ao menos um exemplo de homofonia. No exemplo em que a personagem da princesa hindu fala com seu pai, originalmente seria um exemplo de jogo de palavras, porém, o tradutor preferiu criar um trocadilho para manter sua comicidade. Percebeu-se durante a análise dos trocadilhos o maior número de conflitos em sua tradução.

Como citado anteriormente, foram escolhidos os exemplos de mal-entendidos culturais “cometidos” pelo personagem Obélix. A escolha se deu pelo fato de que, provavelmente aos olhos dos leitores de língua portuguesa no Brasil, o personagem seria alguém idiotizado quando na verdade segundo os próprios autores dos álbuns, Obélix tem uma visão particular de tudo o que acontece a sua volta e, principalmente, seu ponto de vista é um contraponto ao ponto de vista de Astérix, sempre tão sensato e realista. No exemplo sobre a expressão “cousin germain”, bem como naquele em que o personagem explica como os bretões medem a distância e aquele no qual Obélix não se considera estrangeiro, o tradutor conseguiu captar a origem do mal-entendido. No exemplo em que Obélix, ao invés de usar o verbo poétiser usa o

verbo poéter,o tradutor superestimou o personagem e atribuiu a ele uma expressão idiomática correta, descartando a ideia de que Obélix teria criado, sem saber, um novo verbo. Finalmente, a tradução do exemplo em que Obélix responde à observação feita pelo faquir sobre o hábito de comer javalis é o resultado de dois equívocos: o jogo de palavras proposto nas duas leituras possíveis da expressão “sacré” e a atribuição a Obélix de uma frase que teria sido dita por Astérix.

Conclui-se que a tradução de humor precisa ser tratada seriamente (sem jogo de palavras!). Antes de começar a tradução seria interessante se o tradutor fizesse um levantamento das categorias de humor presentes no texto de partida. Dessa forma, mesmo que seja necessário mudar a categoria de determinada expressão, a comicidade original seria mantida. Nesse trabalho não se pretendeu analisar todas as categorias de humor por se tratar de uma dissertação resultante de leituras pessoais. Não se pretendeu tampouco indicar esse ou aquele caminho que seria o melhor a ser tomando pelo tradutor, pelo simples fato de que, em algumas passagens, compreende-se que o tradutor não teria outra saída. O que se pretendeu foi demonstrar que é possível melhorar a tradução de textos de humor através de um tratamento mais específico.

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INFORMAÇÕES SOLICITADAS APÓS A DEFESA DE MESTRADO

Nome do autor da dissertação: MICHELE SODRÉ GONÇALVES

Endereço: Rua professor Otacílio, 23 apartamento: 401 - Santa Rosa – Niterói – Rio de Janeiro – CEP: 24240670

E-mail: [email protected]– telefone: (21) 99918-4022 Nascimento: 02 /11 /1978

Mês e ano do início do curso: março / 2011 Data da defesa: 13 / 03 / 2014

Orientadora: Professora Doutora Angela Maria da Silva Corrêa

Programa: Pós-graduação em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos neolatinos – Opção língua francesa)

Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Examinadores: Professor Doutor Fernando Afonso Almeida (UFF) e Professora Doutora Márcia Atálla Pietroluongo (UFRJ)

Título da dissertação: TRADUÇÃO DE HUMOR: PRÁTICAS DE TRADUÇÃO EM ASTÉRIX

Número de páginas: 79 - número de volumes: um

Resumo e palavras-chave:

A tradução de humor é a principal fonte de análise do presente trabalho. A razão de ser do texto humorístico é fazer rir, seja ele em sua língua de origem ou de forma traduzida. No trabalho, os textos escolhidos para análise foram dois exemplares da revista de história em quadrinhos francesa Astérix. Os álbuns selecionados, Astérix chez Rahàzade e Astérix chez les Bretons são analisados a partir de uma comparação entre o original e sua tradução para a língua portuguesa falada no Brasil. Pretende-se encontrar possíveis problemas de tradução que resultariam na perda da razão de ser dos textos analisados, o humor. As categorias analisadas em cada texto são: jogos de palavras e mal-entendidos culturais. No trabalho são abordadas ainda a definição de humor, a linguagem dos quadrinhos e o humor como campo de estudos.

Palavras-chave: tradução, humor, quadrinhos, Astérix

Programa, área de concentração e linha de pesquisa: Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Linguísticos Neolatinos – Opção Língua francesa – Tradução.

Atividade exercida na época da defesa: professora de língua francesa – Aliança Francesa do Rio de Janeiro