La figlia di Iorio foi escrita por Gabriele D‟Annunzio em poucos meses, como afirma Giovanni Antonucci em seu texto de introdução a peça (2011), e foi ao palco na noite de 2 de março de 1904, no Teatro Lírico de Milão. Segundo o crítico, a tragédia foi um sucesso de grandes proporções e que premiava não somente uma grande obra prima dannunziana, que vinha sendo esperada já há algum tempo, mas também uma cena teatral exemplar.
Do artigo intitulado “La figlia di Jorio, del D‟Annunzio – Il contenuto della tragédia – In attesa della prima”, no 61, publicado pelo jornal italiano La Stampa no dia 01 de março de 1904, de autor desconhecido, percebe-se que realmente era uma peça esperada pelo crítica, uma vez que oferece ao leitor o conteúdo da peça teatral e é apresentado com detalhes o ambiente onde se passa o texto:
I tre atti della Figlia di Jorio si svolgono in un luogo indefinito della terra d‟Abruzzo e in opera lontana da noi; ma il paessaggio è in vista della Majella sacra e i costumi e le passioni – tranne qualche tragico residuo di barbarie medioevale – sono quelli degli attuali abitatori delle campagne abruzzesi folte di uliveti e ondeggianti di messi.49
Ao retomar ao texto de Antonucci, observa-se que D‟Annunzio, em La figlia di
Iorio, pela primeira vez, conseguiu um “perfetto equilibrio fra teoria e realizzazione50”, transformando o espetáculo em um evento, destinado a permanecer no teatro italiano deste século.
O triunfo desta tragédia foi o resultado de um esforço artístico, produtivo e organizativo que não teria ocorrido anteriormente com nenhuma peça no cenário teatral italiano, afirma Antonucci, pois estava a serviço de um texto onde, pela primeira vez, o poeta e o dramaturgo conseguiram encontrar uma perfeita síntese.
49 Os três atos da Figlia di Iorio se desenvolvem em um lugar indefinido da terra de Abruzzo e em lugar longe de nós; mas a paisagem é vista da sacra Majella e os trajes e as paixões – exceto qualquer trágico resíduo de barbárie medieval- são aqueles dos atuais habitantes dos campos abbruzescos repletos de olivas e ondulações das colheitas de trigo. (Tradução própria)
Neste caso observamos o ethos dannunziano no que MAINGUENEAU entende por ethos pré-discursivo. Um público que já era leitor de textos do autor vai ao teatro com o olhar e uma pré ideia do que pode esperar daquele texto no palco.
Marilena Giammarco em seu artigo La figlia di Iorio e Il teatro dell‟invezione. Il drama di Aligi (2005), afirma que “Tra le molte opere cue D‟Annunzio scrisse per il teatro e furono rappresentate con esito più o meno felice, La figlia di Iorio è considerata il suo capolavoro, per unanime consenso della critica e per sucesso di pubblico51” (p. 98).
La figlia di Iorio foi rapidamente compreendida, pela crítica ou pelo público, como um evento ao mesmo tempo dramatúrgico e espetacular. A obra prima de um novo teatro que somente um artista da altura de D‟Annunzio poderia oferecer a cena italiana. Para Giammarco, esse é o texto dannunziano mais consistente tanto dramaturgica quanto teatralmente.
É possível observar tal fato, na primeira crítica saída no jornal La Stampa, no dia 3 de março de 1904, no63, após a primeira representação teatral, de autoria de Domenleo Lanza, intitulada “La prima della „Figlia di Jorio‟ al Teatro Lirico di Milano”
Quando si pensi che da tre mesi la nuova tragedia di Gabriele D‟Annunzio fu passolo (sic) quasi quotidiano della pubblica curiosità, fu inarrestabile fonte di insidenti, di speranze magnifiche e di casi inattesi, non farà meraviglia che la prima rappresentazione della Figlia di Jorio abbia trovato attorno a sè così ampio ed enorme cumulo di interesse da concedere ad un‟opera di teatro e di poesia l‟importanza di un avvenimento altissimo. Memorando spettacolo quello che ha presentato stasera al Lirico l‟importanza di un uditorio attorno all‟opera di un poeta.52
Também no mesmo artigo encontramos que essa representação foi assistida por literários, artistas e críticos como Michetti, Scarfoglio, Adolfo, Orvieto, Lodi della Tribuna, Alberto Franchetti, Carlo di Rudini, Edoardo Sonzogno il maestro Cilea,
51Entre as muitas obras que D‟Annunzio escreveu para o teatro e que foram apresentadas com êxito mais ou menos feliz, La figlia di Iorio é considerada a sua obra prima, por unanime consenso da crítica e pelo seu sucesso de público.
52 Quan
do se pensa que há três meses a nova tragédia de Gabriele D‟Annunzio foi um PASSALO quase cotidiano curiosidade pública, foi incontrolável fonte de acidentes, de esperanças magníficas e de casos inesperados, não tem ideia que a primeira representação da Figlia di Jorio tenha encontrado em torno de si um tão amplo e enorme acumulo de interesse para uma obra de teatro e de poesia a importância de um acontecimento altíssimo.
Colautti, Giacosa Butti, Testoni, Praga, Gianino, Antonia-Traversi entre outros. Tais espectadores só nos confirmam a teoria de MAINGUENEAU, quando este entende que o ethos é construído pelo público antes mesmo que o autor de determinado texto fale. Muito antes de ser lida, La figlia di Iorio, já contava com um público seletivo que vai ao teatro sabendo que assistirá um texto dannunziano. MAINGUENEAU (2013) entende isso como corporalidade, que é “associada a uma compleição corporal, mas também a uma forma de vestir-se” (p.72)
Por ter sido Gabriele D‟Annunzio um artista que levava sua vida como uma arte e isso é possível observar pelos locais que frequentava, mulheres que amava, maneira como se vestia, como andava pelas ruas, pessoas com quem conversava, ele acabou por criar em seus leitores uma certa expectativa. É natural, portanto, que seus leitores iniciam suas leituras esperando que leiam textos repletos de influência de pintura e costumes, como no caso do texto que estamos analisando, e, sempre, com um texto evidentemente focado na escolha precisa da palavra.
Domenico Lanza, do jornal La Stampa, nos informa que o primeiro ato começou às 21h e teve duração de trinta e cinco minutos. A principio, nas primeiras cenas, o público não se manifestou em tão alto grau, entretanto, já na segunda parte do primeiro ato “il pubblico comincia ad essere conquistato (...)53”.
No fim do primeiro ato, Lanza afirma que os aplausos são muitos e que se renovam quando os atores aparecem
(...) ma il pubblico vuole salutare il poeta, e Gabriele D‟Annunzio compare lieto e sorridente: una grande acclamazione si diffonde allora per la sala. Poi l‟applauso si ripete ancora una volta e il pubblico chiama l‟utore alla ribalta da solo come in un augurio di trionfo.54
Também no segundo e no terceiro ato, os aplausos continuam. Lanza faz atenção apenas ao fato de que no segundo ato os aplausos só tenham aparecido graças a cena final, mais violenta, pois, segundo Lanza, é um ato que representa
53 O público começa a ser conquistado.
54 Mas o público quer saudar o poeta, e Gabrie
le D‟Annunzio aparece feliz e sorridente: uma grande aclamação se propaga então pela sala. Depois o aplauso se repete ainda mais uma vez e o publico chama o autor à ribalta sozinho como em um augúrio de triunfo
muito mais “umanità di situazione e teatralità di quadri”55, o que teria provocado cansaço no público.
As personagens principais desta primeira representação tiveram como atores: Irma Gramatica, como Mila di Codra; Teresa Franchini, como Candia della Leonessa; Chiantoni, como Ornella; Lida Borelli, como Splendore; Ruggieri, como Aligi; Oreste Calabresi, como Lazaro di Rojo e os atores Cassini, como o Santo e Jena.
Segundo Antonucci, La figlia di Iorio foi um dos resultados mais altos de todo o teatro italiano do Novecento, de qualquer ponto em que seja observada e analisada. É uma peça ao mesmo tempo de “altissima poesia (uno dei vertici del D‟Annunzio lirico) e di mirabile teatralità, quella teatralità che D‟Annunzio aveva, in precedenza, solo parzialmente raggiunto56”. Foi essa peça, na verdade, a tragédia mítica e ritual a qual D‟Annunzio sempre aspirou com um objetivo fundamental e necessário em sua atividade como autor.
Antonucci acrescenta ainda que Gabriele D‟Annunzio ao escrever La figlia di
Iorio não se inspirou em um encanto literário, mas sim em um profundo impulso
irresistível: o quadro, de mesmo nome que a peça, de Paolo Michetti. Em uma carta à Michetti, D‟Annunzio revela
Queste settimane d‟estate resteranno memorabile per me. Non avevo mai lavorato con tanta violenza e non avevo mai sentito il mio spirito in comunione così forte con la terra. Quest‟opera viveva dentro di me da anni, oscura. Non ti ricordi? La tua Figlia di Iorio fece la prima apparizone or è più di vent‟anni col capo sotto un drama di nubi. Poi, d‟improvviso, si mostro compiuta e possente nella gran tela, con una perfezione definitiva che ha qualche analogia con la cristallizzazione dei minerali nel ventre della montagna. Tutta quella vita è circoscritta da linee geometriche invisibili. Un processo non dissimile s‟è svolto in me. Ho sentito vivere le mie radici nella terra natale, e n‟ho avuto una felicità indicibile. Tutto è nuovo in questa tragedia e tutto è símplice: tutto è violento e immutabile, parla il linguaggio delle passioni elementar. L‟indicazione del tempo è questa: “Nella terra d‟Abruzzi, or è molt‟anni” (...) La sostanza di queste figure è l‟eterna sostanza umana: quella di oggi, quella di duemila anni fa. L‟azione è quase
55 Humanidade de situação e teatralidade de quadros 56
Altíssima poesia (um dos vértices de D‟Annunzio lírico) e de admirável teatralidade, aquela teatralidade que D‟Annunzio havia, anteriormente, somente alcançado parcialmente.
fuor del tempo, retrocessa in una lontananza leggendaria, come nelle narrazione popolari. Le canzioni del popolo e del contado mi hanno dato i modi e gli accenti.57 (Pág.3215)
D‟Annunzio não havia, antes de La figlia di Iorio, afirma Antonucci, encontrado as verdadeiras razões de um teatro ritual. É essa obra a mais alta e completa expressão de uma concepção mítica e religiosa e havendo, como diz Antonucci, um preciso referimento às tragédias de Esquilo e Sofocles.
Segundo Antonucci, os objetivos do teatro dannunziano nesta peça jamais teriam sido obtidos se o autor não houvesse encontrado uma linguagem coerente e congenial ao tempo passado. “Il raffinato arcaismo, esemplato sui nostri scrittori del Duecento e del Trecento, che egli aveva già sperimentato nella Francesca da Rimini, raggiunge nella Figlia di Iorio vertici insuperati” 58.
Antonucci acrescenta que nesta obra não há somente o virtuoso artífice da palavra, mas, sobretudo, há uma consonância entre a matéria e a expressão. “Il teatro di poesia diventa finalmente una realtà concreta e definitiva” 59.
O drama que se desenrola é um drama de sentimentos violentos e primitivos. Está para acontecer o casamento entre o pastor Aligi e Splendore. Todos estão na casa, menos Lazaro di Roio que está no campo trabalhando, esperando os parentes chegarem. Neste tempo, se ouvem os gritos dos Mietitori di Norca e uma mulher entra de maneira desesperada na casa da família. Ela suplica, sem mostrar o rosto, que a salvem, pois desejam abusar sexualmente da mulher e depois matá-la.
57 Estas semanas de verão serão memoráveis para mim. Não havia nunca trabalhado com tanta violência e não havia nunca sentido o meu espirito em comunhão tão fortemente com a terra. Esta obra vivia dentro de mim por anos, obscura. Não te lembras? A sua Figlia di Iorio fez a primeira aparição há mais de vinte anos atrás com a cabeça sob um drama de nuvens. Depois, de repente, se mostrou completa e poderosa na grande tela, com uma perfeição definitiva que possui qualquer analogia com a cristalização dos minerais no ventre da montanha. Toda aquela vida é circunscrita por linhas geométricas invisíveis. Um processo não diferente ocorreu em mim. Senti viver as minhas raízes na terra natal, e tive uma felicidade indizível. Tudo é novo nesta tragédia e tudo é simples: tudo é violento e imutável, fala a linguagem da paixão elementar. A indicação do tempo é esta: “Na terra do Abruzzo, há muitos anos”
58
O refinado arcaísmo, exemplado em nossos escritores do ‟200 e do ‟300, e que ele já havia experimentado em Francesca da Rimini, alcança em La Figlia di Iorio vértice insuperáveis.
La sconosciuta Gente di Dio, salvatemi voi! La porta! Chiudete la porta! Mettete le spranghe! Son molti, Hanno tutti la falce. Son pazzi, Son pazzi di sole e di vino, (...) Mi vogliono prendere, me Criatura di Cristo, me Sventurata che male non feci. (…)60 (Ato 1, cena 5, p.30) Ornella, irmã de Aligi, fecha a porta e impede que a desconhecida seja encontrada.
(...) Ornella si precipiterà alla porta, chiuderà le imposte, metterà la spranga. (...) La Sconosciuta Ah dimmi come ti chiami, Ch‟io porra lodare il tuo nome Quando me n‟andrò per la terra, Tu che alla pietà fosti la prima, Tu che sei la più giovanetta!61
(Ato 1, Cena 5, p.31) Os Mietitori depois de muitas ameaças gritam informando que a mulher desconhecida é Mila di Codra, filha do mago Iorio. E avisam também a Candia della Leonessa, mãe de Aligi, que seu marido mais cedo estava no campo brigando com outro homem por causa de Mila.
60 A desconhecida: Gente de Deus, me salvem! A porta! Fechem-na! Coloquem as trancas! São muitos, todos possuem a foice. São malucos, são malucos de sol e de vinho. (...) Querem prender- me, eu criatura de Cristo, eu desventurada que mal não fez.
61 Ornella irá até a porta, fechara as trancas, colocará a tranca. (...) A desconhecida: ah me diga como você se chama, para que eu possa louvar o seu nome quando me for para a terra, você que foi a primeira a ter piedade, você que é a mais jovem.
Il Mietitore (...) Aspetta, aspetta, Candia, il tuo uomo: E vedrai. Stamane, nel campo Di Mispa, Lazaro ha fato lite Con Rainero dell‟Orno, Per chi? Per la figlia di Iorio. (Ato 1, cena 5, p.40)62 Depois de muitas ameaças e tentativas de invasão, Candia della Leonessa, mãe de Aligi, decide entregar Mila e diz a Aligi que abrirá a porta e que ele deve colocar a feiticeira para fora de casa. Aligi, entretanto, já está encantado por Mila e sua mãe percebe
Candia Aligi, Aligi, non odi? Che fai? Dove sei? Fuor di mente? Che nasce nell‟anima tua?63 (Ato 1, cena 5, p.47) Aligi, ainda que fora de si, obedecerá a sua mãe. O camponês procura um pedaço de madeira e vai para cima de Mila, mas ela consegue escapar e se esconde próximo a fogueira.
Forsennato il pastore prenderà per un de‟ polsi la vittima che si divincolerà gridando.64
De repente, Aligi grita e cai de joelhos e com os braços abertos. Neste momento, o pastor acredita ter visto um anjo que chorava junto a Mila.
62 O mietitore: (...) Espera, espera, Candia, o seu marido: e verá. Esta manhã, no campo de Mispa, Lazaro teve uma briga com Rainero dell‟Orno, por che? Pela figlia di Iorio.
63 Candia: Aligi, Aligi, não ouve? / O que faz? Onde está? Fora de si? / O que nasce na sua alma? 64 Possesso o pastor pegará com um dos pulsos a vítima que se desvinculará gritando.
Aligi Mercè di Dio! Fatemi perdonanza! L‟Angelo muto ho visto, che piangeva; Che lacrimava come voi, sorelle, Che lacrimava e mi guardava fiso (...)65 (Ato 1, cena 5, p.51) Aligi está completamente encantado por Mila e convence, então, os Mietitori a irem embora. Ele abandona a família e a própria noiva para seguir com a feiticeira Mila.
Os dois vão morar em uma caverna na montanha e é lá que Mila entende que não pode separar Aligi de sua família e decide que o melhor a fazer é ir embora.
Mila (...) Venuta è l‟ora della dipartita Per la figlia di Iorio. E così sia.66 (Ato 2, cena 1, p.62) Como não tem coragem de ir embora, pede a uma maga que a entregue uma planta para que a faça morrer. Enquanto tenta convencer a maga, Lazaro aparece.
O pai de Aligi, que já estava apaixonado por Mila, não aguenta seu ciúme e deseja prende- la. Chega a sua casa com uma corda e afirma que ela irá embora junto com ele
Lazaro di Roio (...) Or tu verrai meco senz‟altre Parole, figlia di Iorio (...)67 (Ato 2, cena 6, p.92)
65 Aligi: Meu Deus! Me perdooe! / Eu vi o anjo mudo, que chorava; / que chorava como vocês, irmãs/ que chorava e me olhava fixo (...)
66 (...) Chegada é a hora da partida / para a filha de Iorio.
No momento em que Lazaro vai para cima de Mila, Aligi chega e a defende.
Aligi apparirà sul limitare. Scorgendo il padre, perderà ogni colore di vita. Lazaro s‟arresterà per volgersi a lui. Il padre e il figlio si guarderanno fisamente68. (Ato 2, cena 7, p.94)
É iniciada uma forte discussão, pois Lazaro está decidido a levar consigo Mila, mas Aligi o desacata e a defende. Lazaro decide assim mesmo agarrar Mila e Aligi, vencido pelo ciúme, mata o pai.
O velório é iniciado e todos acusam e julgam Aligi pelo assassinato do pai. Quando o filho chega a casa diz a todos que a culpa é sua e que está pronto para ser julgado pelo povo.
Entretanto, la figlia di Iorio, entra na casa e atribui a culpa da morte de Lazaro a si própria.
Mila Aligi figliuolo di Lazaro È innocente. Commesso non ha Parricidio. Ma sì, il suo padre Ucciso da me fu con l‟asce.69 (...) (Ato 3, Cena 3, p.125) Aligi tenta, em vão, tirar a culpa de Mila, mas ela diz a ele que o enfeitiçou e que, na verdade, ele estava encantado por conta de seus feitiços e apenas o usou para matar Lazaro, mas que era ela quem ordenava.
O povo, então, decide que Mila deva ser queimada e ela aceita seu destino
68 Aligi aparecerá sobre o limiar. Avistando o pai, ficará pálido. Lazaro se apressará para virar para ele. O pai e o filho se olharam fixamente.
69 Mila: Aligi filho de Lazaro / é inocente. Não cometeu / parricídio. Mas sim, o seu pai / foi morto por mim com uma faca.
Mila Sì, sì, popolo giusto, sì, popolo Di Dio, piglia vendeta su me. E l‟Angelo apostatico mettilo Nella catasta con me, Che faccia la fiamma per adermi, Che si consumi con me.70 (Ato 3, cena 3, p.132) Ornella, que entende o amor de Mila por Aligi e sabe que ela não matou seu pai, dá o último adeus a filha de Iorio dizendo que o paraíso a espera. A tragédia termina com a exclamação de Mila diante da fogueira que a consumirá
Milla, di mezzo alla turba La fiamma è bella! La fiamma è bella!71
(Ato 3, cena 3, p.135) Mila é uma pecadora, é a figura do mal que surge na vida pura dos pastores. Sem ela, Aligi teria se casado com a noiva e não teria matado o pai. De fato, ela é nas palavras de Iona “figlia di mago, / fa nocimento a chiunque”72 (p.41)
Entretanto, ela não permanece no mal. Redime-se quando lhe nasce na alma o amor verdadeiro, o amor por Aligi. Consciente de ser a causadora da tragédia, morre no lugar do amante.
O amor existente entre Mila e Aligi é tão puro que eles não chegam a ser entregar um ao outro, pois sonham primeiro ir à Roma obter autorização para o casamento. Mila diz
Verso Roma farà viaggio Aligi, andrà dove si va per tutte strade,
70 Mila: Sim, sim, povo justo, sim povo / de Deus, façam vingança comigo/ e o Anjo apostático o coloquem/ na lenha comigo / que faça a chama para me arder / que se consuma comigo.
71 Mila, em meio a multidão: A chama é bela! A chama é bela! 72 Filha de mago, faz mal a qualquer um.
con la sua mandra verso Roma grande, a pigliar perdonanza dal Vicario, dal Vicario di Cristo Signor Nostro Perchè quegli è il Pastore dei pastore.73
(Ato 2, cena 1, p.59) Aligi é profundamente religioso. Quando Mila lhe aparece pela primeira vez, tem consciência do mal que ela lhe causará e mesmo assim a defende de seus perseguidores, pois tem a visão de um anjo, símbolo da piedade cristã que quer redimir uma alma pecadora.
Podemos entender que D‟Annunzio obtém a redenção de Mila com um crime, o patricídio de Aligi. É necessário, entretanto, compreender que o catolicismo de La
figlia di Iorio é primitivo, camponês e rude e para Mila, o ato de morrer no lugar de
Aligi salva sua alma e redime Aligi do crime.
Mila é uma mulher de sentimentos bons e comove-se com a piedade de Ornella, irmã de Aligi, quando ela não a repele. É Ornella que a todo momento a defenderá. Quando Mila já nas montanhas com Aligi entende que separou seu amado da própria família e decide se matar é com Ornella que tem um diálogo sincero.
A personagem de Lazaro di Roio, pai de Aligi, é de fundamental importância.