5. Discussion Chapter
5.6 Emerging theoretical perspective; an implication to the program
Ex.5: Astérix chez Rahàzade
O título do álbum é resultado de uma modificação de fronteira entre as palavras. Como já foi dito anteriormente, O nome da personagem na qual a princesa do álbum foi baseada é Shéhérazade (FR) ou Sherazade (BR), os autores fizeram uma separação da primeira silaba da versão francesa do nome e trocaram de lugar as duas sílabas seguintes. Dessa forma, o resultado obtido foi a palavra she, homófona da palavra chez que em língua francesa significa a casa, a moradia ou ainda o país de origem de alguém. O tradutor substituiu o jogo de palavras pela expressão As 1001 horas, pretendendo fazer uma alusão ao Conto das mil e uma noites. Nesse caso a escolha feita pelo tradutor exclui outros jogos de palavras que surgem no decorrer da narrativa e que foram excluídos na tradução.
Ex.6: Abraracourcix: C’est vrai! J’oubliais qu’Assurancetourix a une nouvelle corde à sa harpe! (Astérix chez Rahazade, p. 10)
(Trad): É verdade! Esqueci que Chatotorix tem o poder de encher até um rio! (As 1001 horas de Asterix, p. 10)
Nessa passagem, Panoramix descobre a razão da visita do faquir, ele acredita que o bardo tem o poder de fazer chover e pretende levá-lo a seu país. Em francês existe uma expressão (avoir plusieurs cordes à son arc) que significa ter diversos recursos para se sair bem em diferentes situações. O tradutor optou por fazer alusão ao fato de Assurancetourix fazer chover quando canta. Ao optar pela expressão encher até um rio, o tradutor perdeu a oportunidade de usar o verbo encher no sentido de acabar com a paciência de alguém.
Ex.7: Serviçal romano 1: - Cesar et le médecin sont couchés et dans leur délire ils parlent de je ne sais quels gaulois irréductibles!
Serviçal romano 2: - César a vraiment pris les Gaulois en grippe! (Astérix chez Rahàzade, p. 17)
(Trad): Serviçal romano 1: - César e o médico estão deitados e deliram! Falam de uns tais de gauleses irredutíveis!
Serviçal romano 2: - Eu sempre disse que a Gália ia dar o maior galho! (As 1001 horas de Asterix, p. 17)
A expressão prendre en grippe significa ter ou tomar antipatia por alguém.19 Trata-se de um jogo de palavras homófonas e homógrafas no qual a mesma palavra apresenta níveis de leitura diferentes. O tradutor preferiu usar duas palavras de raízes aparentemente próximas para criar o efeito humorístico.
A partir do sentido cômico citado por Bergson (2010), é possível observar nos exemplos 1 a 6 a forma como o francês é visto pelo próprio francês e como o outro (bretões e romanos) é visto por esse francês.
Ex.8: Soldados romanos: - Vive la Rome, vive l’arome du bon vin! (Astérix chez les Bretons, p. 23)
(Trad): Soldados romanos: - Vamos a Roma… Vamos a Roma… Sentir o aroma do bom vinho! (Asterix entre os bretões, p. 23)
Esse é um exemplo em que a mudança de fronteira da palavra gerou o jogo de palavras. A letra a, que fazia parte da palavra la (artigo definido singular feminino) foi agregada à palavra Rome (substantivo que indica o nome de uma cidade) dessa forma, obteve- se como resultado a palavra arome antecedida pela letra l’ (artigo definido singular usado em palavras que comecem por vogais ou pela letra H). O tradutor repetiu a terminação da palavra Roma quando optou pela palavra aroma, mas não levou em consideração que as duas palavras não são pronunciadas da mesma forma na língua portuguesa falada no Brasil. Mesmo que o leitor fosse um genuíno “carioca da gema”, que ao falar pronuncia a letra “r” como se fosse um dígrafo, a frase traduzida não surtiria o efeito alcançado no texto original.
19
Ex.9: Narrador: (…) nous ne sommes qu’à trois cent heures de l’heure “H” l’heure du sacrifice de la princesse Rahàzade. (Astérix chez Rahazade, p. 25)
(Trad): Narrador: (…) e faltam apenas trezentas horas para a hora “H”, hora do sacrifício da princesa Jade.
Nesse caso a imagem faz parte da formação do trocadilho, a palavra hache (machado) é homófona do som da letra H e logo abaixo da fala do narrador é apresentada a imagem de um machado, objeto reconhecido como ferramenta de sacrifício em várias culturas. Nesse caso o tradutor não teve outra escolha se não ignorar o desenho que fazia parte do enunciado.
Ex.10: Assurancetourix: - Percer un tapis en Perse, faut le faire! (Astérix chez Rahàzade, p. 26)
(Trad): Chatotorix: - Essa é boa, furar um tapete na Pérsia! (As 1001 horas de Asterix, p. 26)
Aqui é possível considerar que foi feito um jogo de palavras baseado em homofonia mesmo que as palavras percer e Perse não sejam realmente homófonas. O tradutor considerou apenas a ironia do destino observada por Assurancetourix, uma vez que, os tapetes persas são reconhecidos no mundo inteiro. Em alguns casos a ironia pode figurar na origem da situação cômica. Nesse caso o jogo de palavras é a origem da situação cômica.
Ex.11: Kiwoàlàh: - Hé! Hé! La clepsydre nous indique que nous ne sommes plus qu’à cent quatre-vingts heures de L’heure ‘’H’’!
Mercikhi: - De l’heure hache sur le billot, mon divin maître! Hi! Hi! Hi! (Astérix chez Rahàzade, p. 27)
(Trad): Khenvenlah: - Rê! Rê! A clepsidra indica que faltam apenas cento e oitenta horas para a hora “H”! O tempo foi-se!
Khiorassam: - Foi-se como o machado do carrasco, divino mestre! Ri! Ri! (As 1001 horas de Asterix, p. 27)
Novamente observa-se um jogo de palavras com a palavra hache (machado) e a letra H. A frase dita por Mercikhi é um exemplo de trocadilho resultante de modificação de fronteira e homofonia ao mesmo tempo. A frase: De leur hache sur le billot (do seu machado (deles) sobre o cadafalso) seria uma homófona da frase dita pelo faquir. As palavras ditas foram: l’ (artigo definido singular usado antes de substantivos que comecem pela letra H) e o substantivo heure (hora), com a mudança de fronteiras obteve-se a palavra leur (adjetivo possessivo que indica um objeto e vários possuidores). O tradutor fez um jogo de palavras a partir da homofonia das palavras foi-se e foice, associando essa última ao machado por serem ambas instrumentos usados em sacrifícios.
Ex.12: Rahàzade: - Soit confiant, père! Kiçah n’est pas n’importe qui! (Astérix chez Rahàzade, p. 30)
(Trad): Jade: - Tenha fé! Khenhé sabe quem é! (As 1001 horas de Asterix, p. 30)
O tradutor compreendeu o jogo de palavras existente nessa passagem, no qual a palavra o nome do personagem foi alvo de duas leituras simultaneamente, como seu nome realmente e como forma interrogativa (Qui ça?) que poderia ser seguida da resposta n’importe qui. Na tradução foi possível criar um trocadilho a partir da homofonia da frase quem é o nome do personagem em português (Khenhé).