Sound med uttrykk for sjel
Eksempel 4. 3 Repetisjon og sekvensering med dramatisk fullstemmebruk
A direcção exterior do MPLA, sediada em Co- nakry (Guiné), necessitava desesperadamente de se aproximar de Angola, a fim de dirigir a activi- dade política e militar no interior do país, após os acontecimentos de 4 de Fevereiro, que marcou o início da luta armada.
No entanto, a reputação de organização mar- xista que o movimento tinha granjeado e as suas conotações notórias com os países socialistas le- vantavam dificuldades à sua instalação no Congo- -Leopoldville (Zaire), país onde a UPA de Holden Roberto beneficiava de fortes simpatias e alianças junto do governo zairense pró-ocidental e também junto das populações angolanas refugiadas ao lon- go da fronteira com Angola, de maioria kikongo. Nestas condições, a instalação do MPLA em terri- tório zairense constituía uma aposta extremamente difícil. Mesmo o número de militantes do MPLA organizados por Matias Miguéis, que conseguira escapar à prisão dos cinquenta em 1959 pela PIDE e que foi um dos fundadores do amplo MPLA, em 1956, era muito reduzido. Mas não havia, naquela época, outra alternativa.
Imaginou-se então um estratagema que permi- tiu introduzir no Zaire os elementos políticos
e militares do MPLA: o CVAAR, a “operação das batas brancas” por que ficou conhecida. Esta era uma organização constituída por médicos e enfer- meiros, todos eles voluntários e que tinha por fina- lidade a assistência às centenas de milhares de re- fugiados que a guerra em Angola tinha lançado para o Zaire. O CVAAR compreendia uma dezena de médicos angolanos, antigos estudantes da CEI (Américo Boavida, Eduardo dos Santos, Hugo de Menezes, João Vieira Lopes, Mário de Almeida, Videira, Boal, Carlos Pestana, Rui de Carvalho e o autor) os quais exerceram durante cerca de três anos um notável apoio assistencial aos refugiados e desenvolveram também uma importante acção política junto dessas populações, por vezes com o risco da própria vida, permitindo de facto a im- plantação do MPLA no Zaire.
Neto assume o poder, mas o MPLA é expulso do Zaire e refugia-se em Brazzaville. O CVAAR é encerrado, após uns três anos de um trabalho ex- traordinário junto das populações africanas. Foi a primeira ONG (organização não-governamental) que trabalhou gratuitamente para os angolanos. Os antigos estudantes da CEI que militavam no CVAAR viram-se obrigados a emigrar, a maioria para a Argélia, outros para França e Holanda e ou- tros para o Ghana e Marrocos.
No entanto, o afastamento não significou a ruptura total, pois muitos de nós reintegram o MPLA anos depois, tendo mesmo chegado a de- sempenhar papéis importantes na frente leste du- rante anos, ou tendo levado a cabo missões decisi- vas e determinantes durante a guerra entre os movimentos de libertação em 1975.
Conclusões
Esse amplo movimento político dos estudantes das diferentes colónias portuguesas no seio da CEI, radicalizado em 1957 com a criação do Mo- vimento Anti-Colonialista e, mais tarde, em 1959, com a organização do Movimento dos Estudantes Angolanos em Portugal e que culminou em 1961 com a “fuga dos cem”, o Congresso de Rabat, a sua projecção no movimento estudantil interna- cional e a participação na luta de libertação nacio- nal, teve profundas consequências.
1. A hemorragia de quadros políticos na CEI causada pela “fuga dos cem” deixou um enorme vazio e conduziu ao enfraquecimento do movi-
mento dos estudantes da corrente nacionalista pro- gressista. No entanto, os estudantes que ficaram em Portugal tentaram manter o espírito lutador da CEI e, com efeito, três meses após a “fuga dos cem”, reúnem em pleno mês de Agosto, uma im- portante Assembleia presidida por Júlio Correia Mendes, que remodela os estatutos — imposição governamental — e assume medidas provisórias até à eleição em fins de Dezembro/61 do grupo conduzido por Carlos Ervedosa e Paulo Jorge, o qual celebrou em Janeiro/62 com extraordinário êxito uma semana cultural, presidida por Arménio Ferreira.
Entretanto, a actividade das massas estudantis das colónias portuguesas inquieta cada vez mais o poder fascista e colonialista. Em 1965 a CEI en- cerra definitivamente as suas actividades por im- posição governamental.
Muitos jovens africanos que não puderam parti- cipar na “fuga dos cem” por razões técnicas ou de engajamento político, manifestaram sentimentos de ressentimento e de frustração, desconhecendo eles os caminhos tortuosos, repletos de espinhos, de de- cepções, de conflitos e de traições, de amores des- feitos e de carreiras interrompidas, que aqueles que saíram de Portugal em 1961 foram obrigados a per- correr durante quinze anos. Nem tudo foram rosas, nem todos subiram ao altar da glória.
2. O grande movimento dos estudantes africanos em Portugal, tendo como epicentro a Casa dos Estu- dantes do Império, teve aspectos marcantes, consti- tuindo ao longo de duas décadas um dos pólos do desabrochar da consciência nacionalista de centenas de jovens e que foi determinante na luta de liberta-
ção nacional e na conquista das independências. Es- se movimento foi marcado por várias etapas.
Com efeito, os anos de 50 a 57 foram essen- cialmente de maturação, de consciencialização, e de afirmação da nossa identidade africana. Fo- ram os ANOS DO VERBO, movimento esse ini- ciado pela geração dos “mais velhos” e prossegui- do pelas gerações seguintes.
Depois, a criação do Movimento Anti-Colonial em 1957 e do Movimento dos Estudantes Angola- nos em 1959 marcaram uma etapa nova e superior, demonstrando a necessidade e a possibilidade duma mobilização política da juventude da Casa dos Es- tudantes do Império no contexto fascista-colonia- lista português, no coração mesmo do opressor. Fo- ram os anos do PANFLETO POLÍTICO.
Enfim, o início da luta armada de libertação nas colónias e a pronta e generosa resposta dos es- tudantes africanos da CEI atestada pela “fuga dos cem”, o engajamento no CVAAR de uma dezena de médicos angolanos e o envolvimento nas lutas político-militares de libertação, demonstraram um elevado grau de consciência política, em perfeita consonância com a época histórica.
A participação da juventude africana da Casa dos Estudantes do Império nas lutas de libertação das colónias portuguesas, tanto nas actividades clandestinas em Portugal como mais tarde na luta política e armada, situados em quadrantes ideoló- gicos diferentes e com graus de engajamento mui- to variado, confere a esses jovens e à CEI um lu- gar inesquecível na história de todos os países colonizados por Portugal.
* Escritor e sociólogo angolano. Professor na Universidade Agostinho Neto. Colaborador da Mensagem (CEI).