MÁRIO PINTO DE ANDRADE**
* Jornal Magazine da Mulher. Lisboa, 24 Junho 1951.
** Político e ensaísta angolano (1928-1990), um dos fundadores do Centro de Estudos Africanos (Lisboa). Primeiro presidente do MPLA.
A
Secção de Cabo Verde da Casa dos Estu- dantes do Império está de parabéns pela edição de “Linha do Horizonte” — Poesia de Aguinaldo Fonseca.Aguinaldo Fonseca reúne neste seu primeiro livro 30 poemas que ultrapassam o horizonte das ilhas de Cabo Verde, e o seu valor real, quanto a mim, reside essencialmente nesta mensagem de esperança e de luta que nos transmite desde o princípio ao fim do livro:
O fim dum sonho é o começo doutro, Cada horizonte outro horizonte aponta,
E uma esperança morta outra esperança aquece. (I — «Círculo») Parece-me que até à data, desde os primeiros ensaios dos jovens poetas de Cabo Verde, se tinha tornado quase proverbial que a poesia cabo-verdia- na era aquela que cantava a prisão das ilhas. Íamo- -nos habituando a auscultar o coração dum povo no vento que soprava esses poemas, na desesperança de ter que ficar, quando o sonho era partir... Era a evasão das cadeias marítimas, das saudades de menino, da lembrança da Mamã-Grande cochilando na sua cadeira de balanço. A nossa reacção humana seria talvez a solidariedade com a «desgraça»: O Mar!
Dentro de nós todos, No canto da Morna.
No corpo das raparigas morenas, Nas coxas ágeis das pretas,
No desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!
Este convite de toda a hora Que o Mar nos faz para a evasão. Este desespero de querer partir E ter que ficar!
(de “Poema do Mar” — Jorge Barbosa)
Já fogem, contudo, desta “poesia fechada” al- guns poetas como Nuno Miranda e António Nunes.
Claro que é patente ainda na obra de Aguinal- do Fonseca a influência ambiental da sua terra, quando nos fala de marinheiros e a construção me- tafórica do poeta é feita de velas, ondas, dunas, ventos e navios:
Uma luzinha distante E um farol cuspindo luz Na cara negra da noite. Tudo é salgado e saudoso. Ventos com ondas às costas Fazem tremer a taberna, Que é um navio ancorado. ...
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Ele quis deixar inscrita a saudade pelos temas do mar, mas uma saudade que reveste um outro carácter mais geral. Porque Aguinaldo Fonseca emigra, não para as terras da América, mas para o humano, para o fundo comum de energias que há em todos nós, quer latentes — por despertar, quer despertas — por exprimir-se. E este é o ver- dadeiro caminho duma poesia humana da hora presente, uma “poesia aberta”. O que interessa, afinal, fundamentalmente, é que o poeta, sem a ne- cessidade expressa de ser impessoal, se apresente como intérprete das aspirações do seu povo, re- criando os seus problemas.
Note-se que a chamada literatura do Ultramar, geralmente produzida por europeus ou nativos eu- ropeizados sem formação cultural e social dos pro- blemas da sua região, não consegue enquadrar no “seu” conjunto, esta poesia cabo-verdiana. E ainda bem. Alguma coisa se salva. A literatura cabo-ver- diana não tem qualquer ponto de contacto com a chamada do Ultramar porque o autor cabo-ver- diano funda-se nas suas realidades ambientais. A própria história da colonização do Arquipélago é diferente da das outras possessões africanas. Daí resulta também que a realidade cultural e social se apresenta de modo diverso. Não deixa de ser notó- ria a identificação do cabo-verdiano “tout court” com as suas presenças virtuais. Apraz recordar sempre um caso único no Ultramar Português: Baltazar Lopes da Silva, um nativo, cultor dos crioulos cabo-verdianos, bastamente preparado na ciência filológica.
E quando o europeu tenta, por vezes, escrever de dentro, observando Cabo Verde de fora, a obra (poética ou de ficção) sai-lhe artificial, mesmo que ele ame com toda a sua potencialidade, o humano de Cabo Verde. Para além das roupagens estilísti- cas, o que deve ficar vibrando na obra de arte lite-
rária é a interioridade do artista. Veja-se a propósi- to, “Morna” — Contos de Cabo Verde, de Manuel Ferreira. Como este autor europeu nos seus contos se distancia de Baltazar Lopes da Silva no seu be- lo e muito humano “Chiquinho”. Veja-se a propó- sito de “Morna”, a crítica redondamente falsa de João Gaspar Simões.
O poeta de “Linha do Horizonte”, que não con- segue ainda em muitas das suas composições o melhor aproveitamento do ritmo das palavras, é, contudo, duma sensibilidade nova noutros poemas como este, não incluído no volume presente:
Corpos e corpos no chão Hirtos e silenciosos. Corpos e corpos em fila Com suas covas ao lado. Chora o Povo, chora Chora abertamente Como criança magoada. Desfolha a sua saudade Sobre brancas ligaduras Cobrindo corpos de sangue ...
Como escrevi a princípio, Aguinaldo Fonseca ultrapassa o horizonte de Cabo Verde. Mas para este “ultrapassar” ele bem pode e deve servir-se da alma e dos anseios do próprio Povo. Ao preferir um extremo impessoal a contrapor àquele extremo insular, a sua virtualidade poética perde um pouco. Para chegar à universalidade humana, partamos de nós, das ansiedades circundantes.
Entretanto, “Linha do Horizonte” representa satisfatoriamente um dos muitos esforços de ex- pressão da consciência do Poeta, aquela consciên- cia que “é a de todos e por todos fala”.
* Excerto de ”O contexto histórico-cultural de criação literária em Agostinho Neto: memória dos anos cinquenta” África: Revista do Centro de Estudos Africanos. USP, S. Paulo, 14-15 (1): 55-61, 1991/1992. Título da responsabilidade do Editor.
** Sociólogo e professor universitário brasileiro. Director da Secção de Estudos Ultramarinos e da Biblioteca da CEI.