O início da década de 50 é marcado pela pu- blicação da Mensagem da ANANGOLA (cf. Ma-
nuel Ferreira, 1968-II:26), em torno da qual se
acentuou o debate sobre as formas de gestação da
poesia angolana (f. Mário António, 1990:181).
Precisamente, um ponto fundamental que en- quadra toda a produção poética deste período é o da definição de critérios de nacionalidade literária. Francisco José Tenreiro, por exemplo, vem a dis- tinguir, no número de Abril de 1963 da Mensagem da CEI, e referindo-se ao ano de 53, os escritores “do exotismo” dos que “procuravam exprimir ne-
gritude (poesia da consciencialização) e ainda a poesia da amorabilidade, a cabo-verdiana, en- contro generoso de civilizações”.
Ora esta questão vinha sendo debatida também por Mário Pinto de Andrade que, em ensaios refe- rentes aos números de Jan-Jul de 1951 e de Jan de 1952, “A Literatura negra e os seus problemas” se opõe a Tomé das Neves por este considerar, como refere, que o homem negro não descreve o que sente, o que lhe vai no íntimo como negro. Chama igualmente à colação as experiências de Nicolas Guillén, Senghor e Césaire como vultos tutelares na definição da experiência humana de dimensão negra.
Em literatura negra, considera aquele teórico, a existência de uma literatura oral (transmitida nas línguas nativas) e de uma outra, escrita (nos casos africano — quando grafada — e americano). Den- tro da negra-africana, colocar-se-iam dois tipos de problemas: o da assimilação total ou parcial da cultura do europeu e o dos seus reflexos no con- teúdo da obra e no problema da língua.
Refere-se ainda à história da literatura negroa- mericana e à importância dos espirituais, sendo de ressalvar a importância que atribui a Guillén, a quem considera um poeta negro, fundamental pela denúncia das injustiças sociais. Por estes da- dos pode deduzir-se a construção de um quadro fortemente inspirado por posições negritudinistas. Parece-nos de facto poder afirmar que tais toma- das de posição vão inspirar a crítica e a criação li- terárias subsequentes, e de que aqui damos conta.
Lembrando palavras de António Neto, ilustrati- vas desta asserção, em “A decadência na poesia” (Jan-Jul 51), enunciam-se como sintomas dessa mesma decadência, “nostalgia de infância, evasão
da realidade, fechamento hermafrodita das castas, narcisismo embasbacado, pulverização anárquica
dos princípios fundamentais da vida, etc.”. Esta
crítica, por claramente selectiva, revela também, em nosso entender, o facto de este boletim e os seus mais directos colaboradores começarem a as- sumir opções formativas explícitas.
De facto, ao longo dos número saídos na déca- da de 50, torna-se mais sensível a existência de um projecto agora claramente radicado em África e dis- so são sintoma, por um lado, a natureza tendencial- mente homogénea das colaborações literárias (so- bretudo na temática e motivos seleccionados), por outro, como antes dizíamos, as implicações ideoló- gicas e formativas do texto de opinião e ensaio.
A afirmação de traços distintivos no discurso não deixa também de existir e revela-se pelo esfor- ço de dar a dimensão nacional dos vários contribu- tos. A separata de Jan-Jul de 1951, por exemplo, é integralmente dedicada à poesia moçambicana (com organização de Orlando de Albuquerque e Vítor Evaristo e incluindo poemas em grande par- te retirados de Itinerário).
“Poesia em Moçambique”, pretende ser dedi- cada à cultura moçambicana em geral, no entanto, por razões de ordem económica, restringe-se à poesia, de acordo com informação do próprio boletim.
Inclui “Poemas Nativos” (cantos de amor reti- rados de Usos e Costumes dos Bantos de Henry Junod, movimentos de um msaho de catini), estân- cias de construção clássica e seiscentista (de autor desconhecido) que relatam uma expedição contra o rei de Mombaça. Fecha com o poema de Orlan- do de Albuquerque “Surge et Ambula”, conforme anteriormente referido.
De permeio encontramos inúmeros contribu- tos, sendo de assinalar algumas diferenças estéti- cas importantes (nesse aspecto este número foge à regra que prevalece para os boletins de edição regular). Tal facto não será de estranhar uma vez que uma antologia poética tem necessariamente que se pautar por critérios de representatividade que neste caso se centraram numa selecção pano- râmica.
Em nossa opinião, dois grupos distintos são aqui apresentados: num primeiro, sem preocupa- ção pelo tratamento de motivos africanos, in- cluem-se Alberto de Lacerda, (com “Ao longe a Vida” e “Princípio”), Alberto Parente, Ana Pe- reira do Nascimento, António Rosado, Domingos Azevedo, Fernando Bettencourt, Manuel Aranda, Mário Vieira, Nuno Pessoa, Papiniano Carlos, Au- gusto dos Santos Abranches, Vítor Evaristo. Por
outro lado, temos Fonseca Amaral, José Mathias Ferreira Jr., Orlando de Albuquerque, Ruy de No- ronha, Vera Micaia, António de Navarro, etc.
Deve merecer-nos referência ainda, embora publicado em Fev de 59 e não nesta antologia, o poema “Oferenda” de Marcelino dos Santos.
No que diz respeito à colaboração angolana, podem nomear-se múltiplos contributos. António Neto e a sua coluna de crítica literária, excertos de
Etnografia do Sudoeste de Angola do Pe. Ester-
mann, textos de ensaio, poesia. Quanto ao ensaio deve lembrar-se “Panorama da Literatura em An- gola” de Pedro Sobrinho (Maio de 58?), que cons- tata o “lamentável atraso em que se encontra a li- teratura angolana”; para ele, a única virtude em termos de recepção desta literatura, reside no aco- lhimento favorável aos textos de Viriato da Cruz e Maurício Gomes, uma vez mais lembrados como pioneiros. E recorda ainda a importância de Agos- tinho Neto, na expressão de dramas do homem ne- gro, na definição da certeza num mundo em mu- dança (Mário António refere-se-lhe como o único poeta de facto negritudinista de Angola; 1990:89).
Por outro lado, Pedro Sobrinho lembra Antó- nio Jacinto por captar os anseios do povo angola- no através de uma linguagem baseada num Portu- guês já radicado na experiência angolana.
Quanto ao romance, considera que o maior problema é o de até aí só os brancos terem tido acesso à edição. E lembra Assis Júnior (o primeiro negro a oferecer um livro, O Segredo da Morta), Óscar Ribas (pelo retrato fundamental dos povos do Norte de Angola nos primeiros tempos da colo- nização portuguesa), apontando como o mais sig- nificativo Castro Soromenho, com Terra Morta. Finalmente, deixa uma referência a Mário Pinto de Andrade pelas suas traduções e versões de contos tradicionais.
De Mário de Andrade “Muimbu ua Sabalu” (Fev. de 59), em tradução do quimbundo, reitera a afirmação de uma escolha radicada em Angola e a existência de uma literatura grafada em línguas locais (tal como em Tomás Medeiros, que escreve em crioulo de S. Tomé e traduz “Maxibim Poçon”: Jan de 59), a amplificar as posições em torno da definição de ser africano e das consequências de uma postura africana na escrita e na leitura literá- rias.
Mário António mantém, em “Poema” (Jan de 59), a sua leitura lírica de Angola, e uma visão sempre comovida da terra angolana na sua dimen- são sobretudo urbana: “Noites de luar no morro
da Maianga/... e os sons do violão/e os cânticos da Missão/(...)”. Regionalizada, a poesia deste au-
tor reivindica a sua angolanidade por via de uma experiência que ele próprio definiria como crioula e que afirmou sempre como mais consentânea ao enquadramento da expressão literária angolana.
Para José Graça (Luandino) é também a cidade que se revela mas desta vez enquanto espaço de aculturações através das figuras típicas (a quitan- deira, sinédoque explícita de Luanda, aquela a quem vestiram panos americanos de várias co- res: Fev de 58). Dimensão idêntica é assumida por Cochat Osório em “Dominga”, criada de senhoras na cidade (Jan de 59). Nestes casos, é a dominante sociológica que perspectiva os fenómenos diversos de assimilação.
Nando Nangola (Costa Andrade), escreve “Ca- lema” (Mar de 58), um conto sobre a imagem mí- tica das águas que se elevam e arrastam o homem fazendo-o participar da sua natureza. António Fonseca centra a formulação da “Identidade” (Mar de 58), num sujeito transformável na definição de um homem futuro numa terra por alcançar: “ale- gria daquilo que serei”.
Ocorre por outro lado, agora de modo mais explícito, a referência ao contrato, à natureza coer- civa das disposições sobre propriedade e cultivo (como em “O beijo do cacimbo já se foi”, de Hen- rique Guerra; Fev de 59). Também António Jacin- to em “Carta de um Contratado” (Fev de 59) assu- me claramente uma posição crítica, embora sem omissão lírica, face à situação de despojamento afectivo e de ruptura dos laços impossíveis do contratado, aqui representados metaforicamente na imagem do iletrado.
Ainda desta vez em representação de S. Tomé, Alves Preto em “Um homem igual a tantos” (Fev 59), lembra “êsse terra de S. Tomé é mais pior que
tudo, dizia. Manguço vai na roça contrato; vem na cidade, Manguço é vadio. É mais pior que tu- do.”. Do mesmo modo ocorre, em “1619” (Jan de
52), de Francisco José Tenreiro, que sobre a escra- vatura privilegia também a dimensão do sofrimen- to do afastamento da terra-mãe: “e já os teus olhos
estavam cegos de negrume/já os teus braços arro- xeavam de prisão/já não havia deuses, nem batu- ques/para alegrarem a cadência de sangue nas tuas veias...”. Tal evocação é igualmente reiterada
por Maurício Gomes com “Estrela Pequenina” (Mar de 58) (Olhai a noite que chega,/Veludo ne-
gro tecido/De mil pedaços de pele/Arrancados a chicote”.
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Alda do Espírito Santo enfileira por seu turno com os cabo-verdianos ao lembrar imagens da vi- vência crioula de S. Tomé “Para lá da praia” (Fev de 59), “Mamã minha serena/na venda do peixe.”
Ainda para a definição de universos crioulos insulares há que lembrar de Luís Almeida Cabral o conto “Dor de Consciência” (Jan-Jul de 51), re- trato da fome em Cabo Verde, de Gabriel Mariano “Calendário” (Mai de 58?) (“A fome é o oitavo
dia/ do calendário das ilhas/Há quem descanse aos domingos/nós descansamos na morte.”) e de
Aguinaldo da Fonseca a permanência da estiagem, da solidão, da ilha enquanto espaço tendente à via- gem e à saudade como em “Canções dos rapazes da ilha” (Jan de 58).
Toda esta diversidade de contributos remete pa- ra o que, em Abril de 1957, Marques Mano de Mesquita designava como o pioneirismo deste bole-
tim no mundo do espírito reiterando a intenção de dar a conhecer as províncias, esforço que a direc-
ção considerava conseguido durante a década então finda. Por outro lado, relembrava a intenção expres- sa desde a primeira hora de aproximar os ultramari- nos e os metropolitanos (cf. Nov de 1957).
Durante os anos 50 são visíveis algumas afini- dades ainda com os boletins de 40 nas intenções aí expressas. Reside precisamente na incompletu- de do processo de constituição de um cânone de arte específico deste conjunto de participações aquilo que o distingue do que durante os anos de 60 se fez e que é notório pela quantidade de teste- munhos trazidos a público em apenas quatro anos e até ao encerramento da CEI.
Fácil é deduzir, por este quadro, que se proce- de de modo visível à procura de formação de um quadro de gosto e produção que eleja como refe- rências primeiras os pioneiros de uma literatura de raiz angolana e que claramente acolha pressupos- tos estéticos de conciliação com os universos cul- turais originais e os de base urbana mas caldeados em referências de dimensão nacionalizante.
Prefigura-se por outro lado com alguma noto- riedade a definição de uma semântica da liberta-
ção com base nas matrizes de um discurso africa-
nizado e progressivamente tendente a abandonar o traço temático europeu.
Anos 60: fixação do cânone
Durante os anos de 1960 a 1964 revelam-se muito importantes nos números da Mensagem o
ensaio e o texto de opinião, a reforçar uma compo- nente mais claramente opinativa e posições nítidas sobre literatura e empenhamento e nacionalidade literária.
A postura oficial do boletim não deixa no en- tanto de ser a de reforçar o diálogo e o encontro de consensos no debate entre ultramarinos e metropo-
litanos (cf. nota de abertura do número de Jan de
1960). A par de tal princípio, refere-se a geração universitária de 62 como protagonista dos valores da CEI, por particularmente empenhada no comba- te e reivindicação de direitos associativos.
A partir do primeiro número deste período (Jan de 60) inaugura-se então uma série de deba- tes que é forçoso lembrar.
Neste caso, e em texto da autoria de Fernando Mourão, aí se dá notícia e comenta a “Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa” de Má- rio de Andrade com relevo para as suas ideias fundamentais segundo aquele crítico: o orgulho de
ser negro e opressão colonial figuram a par na de-
finição de uma poesia que pressupõe o engaja-
mento político revolucionário e que se vê prova-
velmente condenada a atingir apenas as minorias africanas.
Ainda “Acerca da Literatura Negra”, Francisco José Tenreiro (Jun 63), distingue caboverdianida-
de (assimilação: fusão de todos os elementos em
contacto no arquipélago) e cubanidade (acultura- ção: equilíbrio de culturas numa mesma área), conceitos que vê como necessários a uma adequa- da compreensão dos fenómenos literários africa- nos particulares.
Por outro lado, em conversa com Arnaldo San- tos (Fev 60), Angolano de Andrade (Costa Andra- de) interroga-o sobre a situação da literatura ango- lana, ao que aquele escritor responde evocando influências da Mensagem na poesia de então e ci- tando como nomes mais representativos Viriato da Cruz e Mário António seguidos de Tomás Jorge e Ermelinda Xavier. Angolano de Andrade conclui referindo que Arnaldo Santos é um dos nomes mais importantes da nova geração de Angola. (Pa- ra Mário António ele será de facto o mais repre- sentativo pela originalidade e maturidade literária precoce).
No mesmo número, encontramos dois poemas deste autor (“Recordação” — Um velho ardina) “E eu, menino,/Não via a tua mão pendente/Defi-
nhada torção marca da sorte/Balançando ao rit- mo do teu canto...//-Uola mono, uola tala,/-Uola mono, uola mono...” e um outro não titulado:
(“A marcha lenta dos teus passos...”). No número de Abril de 63 o conto “A Menina Vitória”, hoje sobejamente conhecido, é um retrato assinalável da dimensão de fenómenos de segregação vividos por dentro da própria realidade angolana, através de motivos que hão-de ser profusamente retoma- dos e em que a Escola é lugar eleito para a defini- ção dos limites fortemente codificados das dife- renças social e racial.
De Viriato da Cruz, por ele evocado, iremos encontrar “Serão de menino” (Fev 60) a fazer-nos lembrar as noites de antigamente, junto às avós, entre cantos bantus, nesse efeito recorrente da me- mória que este poeta tão bem recupera. No núme- ro de Mar-Abr 60 reproduz-se o poema “Namo- ro”, de inesquecível sensibilidade e beleza rítmica. Sobre este poeta diz Mário António (números 516 de 60): “O seu vulto preenche as décadas dos
anos 30 e 40, em Angola, alcançando projectar no futuro, em valores míticos, as mais brilhantes des- cobertas da sua sensibilidade. Quem não conhece ou não terá repetido ou não terá sentido, uma vez, modelar-lhe como um arquétipo, a afectividade ou o pensamento, versos como estes, que ficaram constituindo símbolos?”.
Em uma outra entrevista, com Carlos Ervedosa e conduzida por Tomás Medeiros (Mar-Abr 60) reforça-se o facto de aquele autor ser organizador de antologias de poesia e contos angolanos, com preocupação pelo património cultural de Angola e refere-se que a ideia de publicação destas colec- tâneas vem da necessidade sentida de ultramarini-
zar a Casa.
Entrevistado e entrevistador, discutem os crité- rios seguidos para a antologia publicada em Nova Lisboa por considerarem que nela há muitos escri- tores que não deveriam figurar como angolanos. Aqui, uma vez mais, se verifica um esforço de conduzir o entendimento da nacionalidade na cria- ção literária (sobre esta mesma ideia Alfredo Mar- garido irá pronunciar-se adiante, como referire- mos).
Diz Ervedosa: “Considero intelectuais angola-
nos todos os brancos, negros ou mestiços, naturais ou não de Angola, que numa simbiose natural das duas culturas em contacto, a europeia e a africana, se irmanam nos mesmos problemas e aspirações, no mesmo amor à terra e suas gentes, na mesma autenticidade e no mesmo anseio de construção du- ma sociedade cada vez mais perfeita”.
A propósito da mesma questão, Francisco José Tenreiro em “Processo Poesia” (Abr 63) interroga-
-se sobre o sentido de poesia ultramarina: poetas
ou poesia nascidas nos territórios portugueses de África ou de Ásia? Ou de todos os poetas vividos naquelas terras? Ou ainda de todos os que aí fo- ram publicados?
Não considera que exista ainda um movimento literário organizado, por falta de ambiente propício, por falta de jornais e publicações. Lembra como ex- cepção os “Novos Intelectuais de Angola” e a sua
Mensagem (Pena que só tenha sobrevivido dois anos por timidez de uns e incompreensão de ou- tros) e nomeia Viriato da Cruz, António Jacinto
e Agostinho Neto como os vultos a considerar na li- teratura angolana, e por esta ordem de importância.
Adianta que, como a poesia do Brasil, a de Angola é produto de mestiçagem e pode ser uma base de entendimento preferencial em sociedades pluriraciais: “Na minha opinião, tirando a poesia
tradicional dos povos africanos, tudo o que se tem rotulado de negro é já uma poesia mestiça.”
(O número de Junho de 63, irá incluir o seu poema “Amor de África” (”Aqui estou agora de
coração em África/nesta noite fria e nu do capote das ilusões/ouvindo este sábio que tudo sabe tudo sabe de África...), que reafirma as inquietações
que lhe conhecemos sobre o futuro da sua terra). Em comentário de Abril de 63 ao 1.oEncontro
de Escritores, em Sá da Bandeira, contesta-se a sua natureza, considerando que dele participaram sobretudo autores que não podem considerar-se angolanos. Sem a presença de António Jacinto, Luandino ou António Cardoso, reforça-se, como aí se diz, a ideia de afastamento das autênticas realidades angolanas e de esquecimento das refe- rências autóctones.
Nos números 5/6 de 60, Agostinho Neto, por seu turno, em “Introdução a um colóquio sobre poesia angolana” refere o desconhecimento das línguas africanas como um fenómeno que impede a aproximação do intelectual ao seu povo, cavan- do-se um fosso cada vez mais nítido entre assimi- lados e indígenas: “A poesia que neste momento
podemos conhecer, é moldada nos mesmos qua- dros estéticos da poesia portuguesa, acompanhan- do esta na sua evolução e sendo quase sempre poesia de compromisso. O poeta angolano, quase sempre toma uma posição perante a realidade so- cial. Vêmo-lo revoltado, ansioso, rejubilante por contribuir para a construção de uma vida harmo- niosa entre os homens”.
Considera ainda a importância dos laços de fraternidade existentes entre os negros de todo o
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mundo e admite também a existência de um mun- do cultural de miscigenação.
Da autoria de Alfredo Margarido vamos en- contrar (Ago 62) “Crítica Literária”. Aqui se refe- re sobretudo a Rodrigues Júnior, considerando-o um epígono das teorias luso-tropicalistas (que, em sua opinião, não resistem a um exame profundo) preocupado apenas com os aspectos superestrutu- rais da sociedade. Em Abril de 63, no texto “A poesia moçambicana e os críticos de óculos” discute o conceito de negritude para Rui Knopfli a partir da sua crítica à edição dedicada à poesia de Moçambique e considera que ele tem precon- ceitos de cor que não lhe permitem ser mais claro. Rui Knopfli, no n.o 1 do ano XIV de 61(?),
e no poema “Naturalidade”, interrogava-se sem preconceito sobre a sua formação europeia e a sua vivência africana: “(...) Não sei se o que escrevo
tem a raiz de algum/pensamento europeu./É pro- vável... Não. É certo,/mas africano sou./ Pulsa-me o coração ao ritmo dolente/desta luz e deste que- branto...
Na continuação do primeiro texto, Alfredo Margarido, em “do poeta Knopfli à cultura mo- çambicana” preocupa-se agora sobretudo com a questão da língua “quem escreve em Portu-
guês”, “quem fala a língua portuguesa”, refor-
çando a importância da poesia comprometida co- mo a única capaz de definir o ponto de encontro entre as formas da poesia erudita e as formas da