Kapittel 1: Problemstilling, sentrale begrep, teori og metode
1.2 Teori og sentrale begrep
1.2.5 Religion
Neste capítulo sobre a interpretação benjaminiana de Kafka, começamos por passar sobre os pontos principais dessa interpretação para, no próximo capítulo, aprofundarmos a leitura com a análise de alguns contos. Durante todo o segundo capítulo a leitura de Benjamin será privilegiada, mas na parte da interpretação dos contos nos serviremos de outros comentadores de Kafka, como Theodor Adorno, Modesto Carone, Günther Anders, entre outros, que podem seguir, enriquecer ou confrontar a linha benjaminiana de base.
O trabalho de Benjamin sobre Kafka não pode ser considerado a sua palavra final sobre o tema, pois suas reflexões sobre o assunto ainda estavam quentes quando sua morte prematura o interrompeu. Mas é possível ver nas suas anotações e cartas que o interesse pelo autor tcheco era dos maiores (foi dito mesmo que o projeto de interpretar Kafka era, depois do trabalho das Passagens, um dos seus maiores projetos70).
Além de algumas anotações e cartas temos três textos considerados chaves na interpretação feita por Benjamin sobre Kafka; uma rádio conferência de 1931 sob o título “Franz Kafka. A grande muralha da China”, o ensaio de 1934 chamado “Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte” e uma carta decisiva a Gershom Scholem de 12 de junho de 1938.
O interesse de Benjamin para a obra ficcional de Kafka se inscreve no seu trabalho da “teoria narrativa” e as transformações sofridas em uma sociedade capitalista desenvolvida. Seu interesse pela literatura, não apenas de Kafka como também Baudelaire e Proust e pela arte, em especial Klee e os surrealistas, se deve a uma filosofia estética que pretende buscar nessas representações do mundo chaves imprescindíveis para uma leitura política. Benjamin se insere num restrito grupo de pensadores que
70 Cf. MAYER, Hans. “Walter Benjamin and Franz Kafka: Report on a Constellation”. In: SMITH, Gary (Org.). On Walter Benjamin: Critical Essays and Recolletions. First MIT Press, 1991. P. 185.
soube dar valor político e histórico aos fenômenos estéticos. No imaginário de Benjamin há espaço para os detalhes mais particulares do mundo contemporâneo, assim como há espaço para assuntos que parecem tão alheios à filosofia. Kafka tem um papel muito instigante nessa visão de mundo e podemos introduzir nossa leitura com uma definição da filosofia benjaminiana feita por Rolf Wiggershaus:
Era uma crítica do capitalismo feita por um olhar alegórico. Ele mostrava que o processo de desencantamento iniciado nas condições do capitalismo não diminuía o sombrio temor que cerca tudo que é humano, mas apenas o recalcava e deslocava. Os mitos perdiam sua forma abertamente ofuscante, mas, transferidos sob uma forma dilacerada para a infra-estrutura do cotidiano, eles modelavam impiedosamente o comportamento dos homens e seu mundo cotidiano. No instante crítico que assistia a uma relação fracassada com a técnica produzir um cotidiano mítico e forçar um declínio do homem e da terra, viam-se aparecer no passado (mais exatamente, no século XIX) aqueles momentos em que a técnica parecia apropriada a romper o aspecto bonachão e a satisfação tristonha do capitalista e surgiam formas artísticas que não desviavam os olhos do desenvolvimento (destrutivo) da técnica que se realizava às costas do século XIX, mas dali partiam para fazer da enorme aparelhagem técnica de seu tempo o objeto do sistema nervoso humano.71
Na conferência transmitida pela rádio de Frankfurt, Benjamin se pergunta sobre quem foi Kafka. Sem ter como responder essa pergunta de maneira suficientemente boa, ele nos chama atenção para o inegável fato que Kafka aparece no centro de boa parte de seus romances, mesmo que essas personagens sejam reduzidas à insignificância e à invisibilidade. São os personagens Josef K. de O processo, K. de O castelo e Karl Rossmann de O desaparecido ou Amerika, esse último seria a mais feliz encarnação de Kafka72, já verificável pelo seu nome completo. Mas, se é difícil afirmar algo sobre sua
pessoa, a sua obra, por outro lado, nos diz muito do mundo em que viveu e em que ainda vivemos. A extrema sensibilidade de Kafka fez com que ele percebesse o desmoronamento de sentido do mundo de forma exemplar. Para esse fenômeno novo (a destruição de paradigmas até então estáveis da tradição) ele teve de cifrar de maneira nova, sua escrita é a representação da emergência de um mundo novo. O mundo burocratizado, feito de relações reificadas e a alienação foi sentido e descrito por Kafka e
71 WIGGERHAUS, Rolf. A escola de Frankfurt: história, desenvolvimento teórico, significação política. Trad.: Lilyane
Deroche-Gurgel. Rio de Janeiro: Difel, 2002. P. 230.
72 BENJAMIN, Walter. “Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte”. In: Obras escolhidas I. Magia e técnica, arte e política. Trad.: Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. P. 145.
é isso que o torna, mais do que qualquer outra coisa, um escritor tão caro para uma análise do mundo contemporâneo.
Benjamin lia Kafka como uma bem-vinda guinada da língua alemã (numa carta a Scholem de 21 de julho de 1925, Benjamin diz que a pequena história “Diante da lei” é uma das melhores já escritas em alemão). Como também pôde lê-lo do ponto de vista da sua teoria da narrativa. A importância de Kafka a esse respeito é explicitada na conferência de 1931 quando ele afirma que Kafka aprendeu mais com os meros narradores anônimos do que com os grandes romancistas. Justamente por sua obra ser insuficiente em si mesma e carregar uma moral à qual ela nunca chega a dar luz, ela se difere do romance cujo sentido está encarcerado no seu próprio fim. Os textos de Kafka são como os relatos dos antigos narradores que podem ser lidos e relidos com o passar dos anos e ainda assim permanecem com sua força germinativa que pede interpretação. Mas o que é preciso entender é o que faz que Kafka, mesmo que distante dos romancistas, não poder ser considerado um narrador no sentido tradicional do termo. E, consequentemente, quais são suas marcas distintivamente modernas. Adiantamos algumas dessas marcas com as palavras de Luís Inácio Oliveira:
Se Benjamin diagnostica o declínio da narração na modernidade, ele reconhece em Kafka o narrador moderno por excelência. Não porque Kafka tenha pretendido recompor e restaurar a integridade de uma antiga forma de linguagem já extinta, mas, ao contrário, porque a narrativa kafkiana assinala , paradoxalmente, a destruição da tradição narrativa e a emergência de uma nova forma de narratividade. Para Benjamin, a modernidade radical do narrador Kafka reside no fato de ele ter buscado comunicar a experiência moderna do fim da narração e da ausência de conselho (Ratlosigkeit) numa linguagem da tradição – por isso, a obra de Kafka encontra-se, segundo Benjamin, a um só tempo sob o signo do fracasso e da abertura.73