Kapittel 1: Problemstilling, sentrale begrep, teori og metode
1.2 Teori og sentrale begrep
1.2.7 Konstruerte tradisjoner
Se obra de Kafka suscita um incômodo nos seus leitores de forma geral, o que dizer de leitores engajados mais ferrenhamente em uma estética determinada pela revolução proposta por Marx? É de fácil conclusão, que Kafka não se encaixa dentro dos requisitos dessa estética e que ele teria criado, apesar da influência expressionista e dos fatores históricos-sociais certamente presente em sua obra, uma obra sem precedente na literatura. Lukács enquadrou o escritor tcheco juntamente com Proust e Joyce dentro de uma revolução na literatura que ficaria chamada de “literatura de vanguarda”. Se no caso de Proust ainda existia dúvida com respeito ao seu caráter “modernista”, pois muitos diziam que sua obra estaria vinculada à tradição clássica; em Kafka não existiu esse tipo de questionamento, sua obra definitivamente sempre foi encarada pela sua natureza inovadora. A discussão que a obra de Kafka gerou, por outro lado, foi com respeito a visão do mundo que sua obra representava. Não há dúvida que o mundo descrito por Kafka não desperta em ninguém o desejo de vive-lo, mas a questão colocada aqui é se seria essa obra tão prejudicial que deveria ser banida da sociedade.
Lukács tinha uma posição bem determinada, ele combatia a “literatura de vanguarda”, a qual Kafka era um representante, a favor de uma convergência entre o realismo crítico e realismo socialista. Em seu livro Realismo crítico hoje, ele contrapõe Kafka e Thomas Mann enquanto duas possíveis alternativas da literatura burguesa do século XX. Mann seria defendido pelo autor, pois sua obra representaria “um realismo crítico verdadeiro como a vida”; enquanto a obra kafkiana não passaria de “uma decadência artisticamente interessante”81 . A crítica de Lukács passava por sua
caracterização do autor tcheco como autor alegórico e, portanto, anti-realista. Segundo ele, “o objetivo final de Kafka seria indicar o ‘nada’ (o absurdo do mundo) como a essência da realidade” 82 . A distinção que Lukács faz de obra alegóricas são
surpreendentemente ideias retomadas de Benjamin no seu livro Origem do drama barroco
alemão. Mas, diferentemente de Benjamin, o filósofo húngaro acredita que o realismo kafkiano estava a serviço de uma linguagem alegórica. Por mais que ele nunca tenha negado a impressionante habilidade literária de Kafka, sua visão sobre o autor pode ser resumida nos seguinte termos:
Uma imagem da sociedade capitalista com um pouco de cor local austríaca. O alegórico consiste no fato de que toda existência dessa camada e de seus dependentes, bem como de suas indefesas vítimas, não é representada como uma realidade concreta, mas como reflexo atemporal daquele nada, daquela transcendência que – não existindo – deve determinar toda a existência.83 Se em Lukács a crítica é radical, em Anders no seu livro Kafka: pró e contra, como o próprio nome já diz, encontramos uma ambivalência da obra kafkiana. De certo, Anders soube enxergar muitos mais “prós” do que Lukács, mas como o próprio diz no seu prefácio, que não fará apenas o papel de advogado de defesa do autor tcheco e tentará responder com precisão a pergunta “Faut-il brûler Kafka?” – Kafka deve ser queimado? Do lado dos argumentos “pró-Kafka”, Anders reconhece a maneira como o autor desloca (ou deslouca84) a aparência do mundo para tornar visível a loucura deste.
Então, se Gregor Samsa se transforma em um inseto, não é para ressaltar a natureza
81 COUTINHO, Carlos Nelson. Lukács, Proust e Kafka: literatura e sociedade no século XX. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2005. P. 24.
82 Ibidem. P. 25.
83 LUKÁCS, Georg. Apud COUTINHO, Carlos Nelson. Op. cit.. P. 25.
84 Cf. Kafka: pró e contra de Gunther Anders, no qual encontramos a seguinte nota de Modesto Carone: “o autor
faz aqui um jogo de palavras entre verrücken (deslocar) e verrückt, particípio do verbo que, como adjetivo, significa
animal do homem, e sim para tornar visível a “desumanização” dos homens, que estão rebaixados a funções de coisa. Anders, assim como Benjamin, fala da “calma sobriedade” do autor e como “o mais espantoso, em Kafka, é que o espantoso não espanta ninguém”. A técnica da inversão da obra kafkiana sugere exatamente isso: “Se Kafka deseja afirmar que o ‘natural’ e ‘não-espantoso’ de nosso mundo é pavoroso, então ele faz uma inversão: o pavor não é espantoso”85. Uma das maiores críticas desse
livro consiste em dizer que Kafka era, sobretudo, um estranho ao mundo, um alienado; e que sua sina é uma espécie de “prisão negativa”, pois ele está preso por fora e seu desejo inalcançável, não é evadir, mas invadir o mundo. Essa carência de Kafka desemboca para Anders em um desejo de uma liderança totalitária. É assim que ele lê o conto “Durante a construção da muralha da China”, que o trabalho de construção da Muralha serviria para unir o povo num processo de desindividualização e dependência. Anders chega mesmo a dizer que:
Quem hoje lê desprevenidamente essas frases (o conto “Durante a construção da
muralha da China”) tem que considerá-las, em vista dos vocábulos de
organologia, um documento literário pré-fascista – um discurso de defesa da obediência cadavérica e do sacrificium intellectus. Na realidade, frases como essas são perigosas, quando não interpretadas.86
Mas o crítico esquece de levar em consideração o fato da Muralha no conto kafkiano ser um monumento inacabado e cheio de lacunas, que falha no seu propósito de proteger o território. Mas qual é a conclusão que chega Anders no seu “processo” contra Kafka? Chega-se a um meio-termo no qual não devemos queimar Kafka, mas “compreendê-lo à morte”, dizendo com isso que devemos acabar com a sedução niilista que a obra kafkiana possui e “herdar as advertências”, pois o “desenho do mundo, executado por ele, de como o mundo não deveria ser; das atitudes que não podem ser nossas, postas como placas de advertência em nossas almas, serão úteis”87.
85 ANDERS, Günther. Kafka: pró e contra. Tradução, posfácio e notas: Modesto Carone. São Paulo: Cosacnaify,
2007. Pp. 22/23.
86 Ibidem. P. 46.
87 ANDERS, Günther. Kafka: pró e contra. Tradução, posfácio e notas: Modesto Carone. São Paulo: Cosacnaify,