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Kapittel 1: Problemstilling, sentrale begrep, teori og metode

1.2 Teori og sentrale begrep

1.2.2 Nasjonalisme

reatualização afirmativa do sentido já presente no Dom Quixote de Cervantes.53 Colocado o problema da narrativa tradicional e do romance, como podemos classificar a obra de Kafka? Se, a partir de Benjamin, declaramos a impossibilidade da primeira opção e sabendo também que não podemos classificar os textos kafkianos como romances tradicionais, nos sobra um espaço limítrofe entre uma coisa e outra que guardaria a resposta. A chave, talvez esteja em entender Kafka como um mestre da exposição do seguinte paradoxo contemporâneo: a impossibilidade de narrar e a demanda da narração, seja no romance ou em qualquer outra forma de comunicação. A pergunta, Kafka como romancista ou como narrador, deve ser reformulada. Ao entendermos a obra kafkiana como um romance realista nos termos de Adorno, sua classificação será tanto mais fácil, pois:

Se o romance quiser permanecer fiel à sua herança realista e dizer como realmente as coisas são, então ele precisa renunciar a um realismo que, na medida em que reproduza a fachada, apenas auxilia na produção do engodo. A reificação de todas as relações entre os indivíduos, que transforma suas qualidades humanas em lubrificante para o andamento da maquinaria, a alienação e a auto-alienação universais, exigem ser chamadas pelo nome, e para isso o romance está qualificado como poucas formas de arte.54

Seguindo nessa direção, podemos afirmar, que Kafka se encaixa perfeitamente na classificação de um romancista que, através da agudeza de seus textos, quebra a carapaça de alienação do mundo contemporâneo. Ele revela as relações reificadas por um movimento de inversões e deformações e com isso não compactua nesse realismo que apenas “reproduz a fachada”. Podemos, através de Benjamin e Adorno, sugerir uma caracterização da obra de Kafka que ficaria entre o romance realista contemporâneo e a narrativa moderna. Pois em Kafka ainda encontramos qualidades de uma narrador tradicional, mas na sua forma paradoxal, numa narratividade que contem em si sua impossibilidade.

I.5. A necessidade de narrar                                                                                                                

53 DAMIÃO, Carla Milani. Crise da narração, crise do romance : o contexto histórico-filosófico da teoria narrativa de Walter Benjamin. 1995 Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Pós-Graduação em Filosofia, PUC-SP, São Paulo, 1995. P. 150

54 ADORNO, Theodor. “Posição do narrador no romance contemporâneo”. In: Notas de Literatura I. Trad.: Jorge

A partir da constatação da impossibilidade de narrar surgem algumas perguntas que nos parecem inevitáveis: mesmo não podendo mais narrar no sentido tradicional ainda necessitamos narrar de alguma forma? São possíveis outras formas de narrar? Para onde apontam essas novas narrativas? Sem ter como responder a essas perguntas de maneira conclusiva, vamos tentar delinear o horizonte desses novos narradores e, mais especificamente, como a narrativa kafkiana se encaixa aqui.

O fio narrativo se rompeu e retomá-lo ainda não parece possível. Mais legítimo é reconhecer “as grandiosas aporias da literatura contemporânea”55, como podemos ver,

seguindo Benjamin, em Proust e Kafka. Se retornarmos a discussão anterior sobre o capítulo X de “O narrador”, no qual encontramos uma profunda mudança no pensamento de morte ao longo do século XIX, temos portanto, uma perda de força desse pensamento e seu consequente enfraquecimento da ideia de eternidade. Ao ressaltar os laços essenciais entre o narrar e o morrer, conclui-se então que se há uma impossibilidade narrativa algo na relação do homem com a morte deve ter mudado. Portanto, se procuramos novas formas narrativas podemos, segundo Jeanne Marie Gagnebin, “arriscar a hipótese de que a construção de um novo tipo de narratividade passa, necessariamente, pelo estabelecimento de uma outra relação, tanto social como individual, com a morte e com o morrer”56.

Há um emblemático conto de Kafka, intitulado “Uma mensagem imperial”, que conta a história de um imperador chinês no seu leito de morte que confidencia a uma mensagem ao leitor (a “você”, o “súdito lastimável”). O moribundo transmite, com muito cuidado, a mensagem ao mensageiro, e este, “um homem robusto”, se pôs rápida e avidamente ao seu caminho. Mas seu caminho é infinito e a multidão atravanca suas largas passadas, tornando sua tarefa impossível. A mensagem do morto perde-se no caminho sem fim e nós, leitores, esperamo-la mesmo na sua improbabilidade57. O

moribundo no leito de morte que confidencia uma experiência nos remete à parábola                                                                                                                

55 GAGNEBIN, Jeanne Marie. “Não contar mais?” In: História e narração em Walter Benjamin. São Paulo:

Perspectiva/Unicamp, 1994. P. 64.

56 Ibidem. P. 65.

57 Cf. KAFKA, Franz. “Uma mensagem imperial”. In: Um médico rural. Este conto será analisado mais detidamente

contada por Benjamin em “Experiência e pobreza”. Mas aqui essa transmissão já não é mais possível, seu aberto fracasso permite chama-la de “a mais perfeita narração contemporânea da impossibilidade de narrar”58.

Kafka não é um narrador no sentido tradicional, pois o que chega até ele não são ensinamentos e conselhos. Mas, ao mesmo tempo, ele se entrega a essa tradição agonizante e descreve o que sobrou dela. Ele retoma de certa forma o fio narrativo, mas encontra-o como o fio do carretel chamado Odradek59, rompido e remendado. É nessa

direção que Benjamin caracteriza a obra kafkiana como típica da “doença da tradição”60.

Em Kafka as qualidades do narrador tradicional aparecem de maneira deformada (deformações que podemos reconhecer em toda sua obra). O narrador tradicional recebia os elementos da então segura tradição que lhe servia de chão, já Kafka teve de buscar com muito esforço o que sobrou dessa tradição em migalhas. Podemos comparar essa tradição ao imperador chinês moribundo de seu conto, ambos agonizam e têm como importância capital a transmissão de suas mensagens. Como também, eram outrora inquestionáveis e todo-poderosos. Mas mesmo que a obra de Kafka se reporte à inexiqüidade da tradição nos tempo de hoje, de maneira alguma, estaria ela (como concluem alguns intérpretes teológicos de Kafka) a procura de um porto seguro de novas crenças.

Muitos não conseguem suportar essa nova situação e por isso buscam na ausência de Deus, na experiência do nada, algum recurso que transforme isso em seu contrário, como, por exemplo, a teologia negativa. Benjamin quer mostrar como o seu Kafka, diferentemente de interpretações edificantes, como a de Max Brod, procura no “avesso desse nada, no seu forro (...), apalpar a redenção. Por isso qualquer tentativa de superação desse nada, como a entendem os intérpretes teológicos em torno de Brod, teria sido para ele um horror”61. Ele suportaria o desmoronamento da tradição sabendo

                                                                                                               

58 GAGNEBIN, Jeanne Marie. “Não contar mais?”. In: História e narração em Walter Benjamin. São Paulo:

Perspectiva/Unicamp, 1994. P. 66.

59 Cf. KAFKA, Franz. “A preocupação de um pai de família”. In: Um médico rural: pequenas narrativas. São Paulo:

Companhia das Letras, 1999. Pp. 43-45.

60 Cf. carta de Walter Benjamin a Gerhard Scholem de 12.6.38. trad. bras. Modesto Carone, em Novos Estudos

CEBRAP, mar. 1993, n. 35. Pp. 100-106.

61 BENJAMIN, Walter. Briefe, vol. II, p. 614. Trad. bras. Jeanne Marie Gagnebin, “Não contar mais?”. In: História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva/Unicamp, 1994. P. 66. P. 68.

da impossibilidade de voltar para um mundo harmonioso. Mas essa permanência no nada tem seu preço. A galeria kafkiana é repleta de figuras deformadas e de animais (como também suas personagens femininas) que surgem das profundezas do esquecimento. Figuras recalcadas que emergem do “pântano dessas experiência”62, dirá

Benjamin.

Mas esse esquecimento em Kafka é um esquecimento comum, e não individual. Por isso, ao trazer a tona, de maneira deformada certamente, personagens do esquecimento, Kafka exerce o trabalho “apocatastatico”63 do verdadeiro narrador.

Enquanto na doutrina herege de Orígenes, a apocatástase, todas as almas seriam salvas e admitidas no paraíso, no trabalho do verdadeiro narrador, todos os acontecimentos e criaturas são salvas e mantidas na memória. Nessa luta a favor de todas as criaturas, o narrador encarna de maneira profana a figura religiosa do “Justo”, que é “o defensor da criatura e, simultaneamente, sua encarnação mais alta”64. Os Justos na mística judaica

são os pilares do mundo (uma vertente bem aceita da tradição diz que são trinta e seis Justos no total) e de maneira tão oculta que nem eles saberiam que cumprem uma função sagrada e, assim, justificariam nossa existência aos olhos de Deus65. Como os

Justos que carregam o universo em suas costas, as costas dobradas é um importante gesto kafkiano:

Mas esses personagens de Kafka se associam, através de uma longa série de figuras, com a figura primordial da deformação, o corcunda. Entre as atitudes descritas por Kafka em suas narrativas nenhuma é mais frequente que a do homem cuja cabeça se inclina profundamente sobre seu peito. (...) É claro que a ideia de estar carregado tem relação com a de esquecer – no sono. Uma canção popular – O homenzinho corcunda – concretiza essa relação. O homenzinho é o habitante da vida deformada; desaparecerá quando chegar o Messias, de quem um grande rabino disse que ele não quer mudar o mundo pela força, mas apenas retificá-lo um pouco.66

                                                                                                               

62 Idem. “Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte”. In: Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. Trad.: Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. P. 156.

63 Cf. BENJAMIN, Walter. § XVII de “O narrador. Observações sobre a obra de Nikolai Leskow”. In: BENJAMIN,

Walter et alli. Textos escolhidos. Trad.: Modesto Carone. São Paulo: Abril Cultural, 1980. A teoria da apocatástase feita por Orígenes de Alexandria (185-253 d.C.) e repudiada pela Igreja, é baseada na admissão de todas as almas ao paraíso. Evento posterior ao apocalipse que salvaria todos os seres, terminando com o repouso definitivo em Deus.

64 Ibidem. P. 71.

65 Cf. SCHOLEM, Gershom. O Golem, Benjamin, Buber e outros justos: Judaica I. Trad.: Ruth Joanna Solon. São

Paulo: Perspectiva, 1994.

66 BENJAMIN, Walter. “Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte”. In: Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. Trad.: Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. P.159.

Elas representam uma culpa imemorial assim como um peso que é preciso carregar, um peso similar à tradição. Mas se lembrarmos do conto “O novo advogado”67 no qual

Bucéfalo, antigo cavalo de Alexandre da Macedônia, aposenta das batalhas para se dedicar aos estudos das leis, podemos pensar em dois pontos principais. O primeiro que este conto serve para confirmar a observação de Benjamin que “de todos os seres de Kafka são os animais os que mais refletem”68. De fato, não faltam exemplos de

personagens humanos que aparecem tão vazias de reflexão e reduzidas à condição animal, quanto existem animais que têm questões existenciais e morais. O segundo ponto é notar a semelhança com as consequências do fim da experiência no ensaio “Experiência e pobreza”. Ambas consequências se referem a possibilidade de se viver livre do peso do passado, Bucéfalo “sem a pressão da virilha do cavaleiro sobre os flancos” e o “contemporâneo nu, deitado como um recém-nascido nas fraldas sujas de nossa época”. É esta abertura, contrária a uma melancolia tantas vezes estimulada, que procuramos enxergar para apontar para um novo tipo de narrativa. Kafka nos servira de guia nesse difícil caminho tão cheio de desvios. A renúncia de Kafka vem com um preço alto, como diz Benjamin no fim do seu ensaio de 1933:

Em seus edifícios, quadros e narrativas a humanidade se prepara, se necessário, para sobreviver à cultura. E o que é mais importante: ela o faz rindo. Talvez esse riso tenha aqui e ali um som bárbaro. Perfeito. No meio tempo, possa o indivíduo dar um pouco de humanidade àquela massa, que um dia talvez retribua com juros e com os juros dos juros.69

                                                                                                               

67 KAFKA, Franz. “O novo advogado”. In: Um médico rural: pequenas narrativas. Trad.: Modesto Carone. São Paulo:

Companhia das Letras, 1999. Pp. 11/12.

68 BENJAMIN, Walter. Op. cit.. P. 157.

69 Idem. “Experiência e pobreza”. In: Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. Trad.: Sergio Paulo Rouanet.