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Kapittel 1: Problemstilling, sentrale begrep, teori og metode

1.3 Metode og kildemateriale

1.3.1 Kildemateriale

Meu avô costumava dizer: “A vida é espantosamente curta. Para mim ela agora se contrai tanto na lembrança que eu por exemplo quase não compreendo como um jovem pode resolver ir a cavalo à próxima aldeia sem temer que – totalmente descontados os incidentes desditosos – até o tempo de uma vida comum que transcorre feliz não seja nem de longe suficiente para uma cavalgada como essa”.170

Aproveitamos essa pequena narrativa para comentar a relação de Benjamin e o poeta Bertolt Brecht a respeito de Kafka. As criações artísticas de Brecht foram alvo de muitos escritos e anotações de Benjamin. A admiração mútua existente não descartava opiniões bem divergentes, especialmente em relação ao escritor tcheco. A leitura de Kafka já é em si bastante incômoda, acrescenta-se a isso a dificuldade que alguns leitores mais engajados politicamente, como por exemplo Brecht e Lukács, encontram para encaixá-lo dentro de uma estética marxista. Mas era próximo de Brecht que Benjamin se encontrava na época da conclusão do seu ensaio sobre Kafka e lhe entrega seu texto para possíveis discussões. Nas “Anotações de Svendborg, Verão de 1934”, escritas por Benjamin quando este visitava Brecht na Dinamarca, temos o testemunho desse momento de debate intelectual sobre o papel da arte moderna.

Nas suas próprias palavras, Brecht recusa aceitar Kafka, mas reconhece a grandeza de sua obra. Ele atribui o fracasso de Kafka ao fato de não poder enquadrá-lo na sua distinção entre os dois tipos literários, o visionário, que é sério e não escreve ficção, e o reflexivo, que pode permitir-se não ser completamente sério. O escritor tcheco não pode ser nenhum dos dois, pois: “Em Kafka, a parábola está em conflito com o visionário. Como visionário, entretanto, como Brecht diz, Kafka viu o que estava por vir sem ver o

                                                                                                               

169 BENJAMIN, Walter. “Experiência e pobreza”. In: Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. Trad.: Sergio

Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. P. 119.

170 KAFKA, Franz. “A próxima aldeia”. In: Um médico rural: pequenas narrativas. Trad.: Modesto Carone. São Paulo:

que está por aí”171. Apesar da resistência inicial de Brecht, Benjamin o convence a

interpretar “A próxima aldeia”. A análise brechtiana, é estritamente lógica. A história de Kafka se equivale ao paradoxo de “Aquiles e a tartaruga”, ou seja, o trajeto a ser percorrido por Aquiles pode ser divido em partes até o infinito, tornando o caminho impossível de ser percorrido durante uma curta vida humana. O erro, diz Brecht, está em dividir apenas o trajeto. Pois ao dividirmos a cavalgada, é preciso dividir também o cavaleiro. As partes do cavaleiro não podem ser tomadas como uma vida una, portanto não morrem e o enigma acaba. Ele soma ao paradoxo, o famoso fragmento heraclitiano, ao dizer que não importa o quão curta uma vida pode ser, pois aquele que chega ao destino final é sempre diferente daquele que saiu. É uma interpretação interessante, logicamente correta e não podemos dizer que ela não tenha passado pela cabeça de Kafka ao escrever. Mas vejamos a bem distinta leitura feita por Benjamin:

Da minha parte, proponho a seguinte interpretação: a verdadeira medida da vida é a recordação. Como um relâmpago, ela perpassa a vida em retrospectiva. Tão rápido quanto alguém folheia algumas páginas de trás para frente, ela parte da próxima aldeia e chega ao local em que o cavaleiro tomou a decisão de partir. Aquele que viu sua vida ser transformada em escrita, como os mais velhos, consegue ler esta escrita apenas no sentido contrário. Somente assim ele se reencontra consigo mesmo e apenas assim, fugindo do tempo presente, consegue compreendê-la.172

É digno de nota que um tipo de relação com o passado, certamente presente na leitura de Benjamin, é proveniente da teologia judaica. A saber, que o futuro está atrás de nós, pois não podemos enxergá-lo, e o que está diante de nós é o passado. A memória e a recordação são conceitos chaves para Benjamin, como fica claro aqui. Esse “olhar para trás” do avô nos lembra de outra bela imagem benjamina, isto é, do anjo da história. Nas teses “Sobre o conceito de história”, ele retrata um quadro de Paul Klee chamado “Angelus Novus”, no qual foi pintado um anjo de expressão surpresa e asas bem abertas. Benjamin o chama de “anjo da história”, pois seu rosto estaria voltado para o passado onde vê uma pilha de escombros que chega até o céu. Sua vontade é de ficar

                                                                                                               

171 BENJAMIN, Walter. “Anotações de Svendborg, Verão de 1934”. Trad. e nota introdutória: Luciano Gatti.

Disponível em: http://www.revistaviso.com.br/ Viso – Cadernos de estética aplicada. Revista eletrônica de estética, jul- dez. 2010, n. 9. P. 4.

para “despertar os mortos e recolher os destroços”173, mas uma tempestade sopra do

paraíso o impossibilitando de ficar e o empurrando para o futuro. Essa tempestade é o que chamamos de progresso, diz Benjamin. Tanto o avô quanto o anjo estão de costas para o futuro e olham para o passado, pois é o passado que importa para ambos. Nele se concentra toda a vida do velho avô que teve de tornar esta vida em escrita para poder folheá-la. Certamente Benjamin tinha em mente o final de seu texto sobre Kafka, no qual faz uma reflexão sobre a força da escrita. Nesse texto, ele chama o estudo de uma corrida contra a tempestade “que sopra dos abismos do esquecimento”174. Como foi

dito, a categoria (teológica) de estudo (das Studium) conduz para trás e converte a existência em escrita. Pois o vento que sopra para frente vem do esquecimento e se chama progresso, e retroceder seria o esforço de lembrar e estudar. Sobre a força da escrita e a interpretação benjaminiana da “Próxima aldeia”, Alter comenta: “A escrita exercia uma influencia tão peculiar sobre a imaginação de Benjamin, que ela logo deixa de ser uma simples metáfora, para assumir um valor de verdade na interpretação que ele faz do conto de Kafka”175. Como não podemos deixar de notar que a própria extensão

do texto aponta para a brevidade da vida. É como se o tempo de vida que resta para avô equivalesse ao curto tempo que demoramos ao ler este conto.

Ao comparar o tempo de uma vida com o breve caminho até a aldeia vizinha, o avô mede o tempo pelo espaço. O neto, por outro lado, enxerga um futuro sem fim e assim um espaço mais do que suficiente de ir para a próxima aldeia, mesmo que nessa cavalgada aconteça “incidentes desditosos”. A distância entre o neto e o avô é evidente, já que os mais novos só podem intuir intelectualmente o que o avô confessa por experiência. A situação daqueles que já percorreram a grande parte do caminho e por isso a vida se torna “uma espécie de matéria de memória”176, nessa situação a experiência

do tempo é quase inversamente distinta do jovem neto, que imagina o futuro enquanto infinitas possibilidades. A recordação é a nova medida do tempo e o tempo cronológico                                                                                                                

173 BENJAMIN, Walter. “Tese IX”. In: LÖWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Trad.: Wanda Nogueira Caldeira Brant. Rio de Janeiro: Ed. Boitempo, 2005. P. 87.

174 Idem. “Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte”. In: Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985. P. 162.

175 ALTER, Robert. “Revelação e Memória”. In: Anjos necessários. Tradição e modernidade em Kafka, Benjamin e Scholem. Trad.: André Cardoso. Rio de Janeiro: Imago, 1992. P. 131.

faz pouco sentido. Como poderia então alguém fazer o caminho até a outra aldeia se o tempo que existe é um tempo que só se demora se voltado para o passado? Esta é a limitação e, ao mesmo tempo, a riqueza do avô. Sua concepção do tempo se distancia do tempo homogêneo e vazio, que é alvo de críticas de Benjamin nas teses:

O tempo, ao qual os adivinhos perguntavam o que ele ocultava em seu seio, não era, certamente, experimentado nem como homogêneo, nem como vazio. Quem mantém isso diante dos olhos talvez chegue a um conceito de como o tempo passado foi experienciado na rememoração: ou seja, precisamente assim. Como se sabe, era vedado aos judeus perscrutar o futuro. A Tora e a oração, em contrapartida, os iniciavam na rememoração. Essa lhes desencantava o futuro, ao qual sucumbiram os que buscavam informações juntos aos adivinhos. Mas nem por isso tornou-se para os judeus um tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia entrar o Messias.177

Esse tempo, que Benjamin denomina de Jetztzeit ou tempo-de-agora, se relaciona com o passado de maneira similar ao avô. Para ele não é desejável olhar para o futuro, pois ele é praticamente inexistente. Sendo assim, a ambição de fazer uma viagem para a aldeia vizinha se torna algo incabível nesse futuro. Ele, que já chegou ao seu destino, sabe que sua próxima viagem é a derradeira. Tantos desdobramentos para tão pequeno texto, faz com que Modesto Carone o chame, com razão, de um “épico em miniatura”178.

Temos ainda um história sobre um mendigo que, segundo Benjamin, mantém relações muito próximas de parentesco com o velho avô de Kafka. A história se passa numa aldeia hassídica, onde todos os judeus que ali estavam eram moradores da aldeia, exceto um desconhecido que aparentava muito pobre e vestia-se precariamente. Alguém propõe uma brincadeira que consiste em dizer o que cada um gostaria de ganhar se lhes fossem concedido um único desejo. Falou-se em dinheiro, em casamento, entre outras coisas que se podia esperar de tal pergunta. O último, que com alguma relutância, revelou seu desejo foi o mendigo:

“Gostaria de ser um rei poderoso, governando um vasto país, e que uma noite, ao dormir em meu palácio, um exército inimigo invadisse o meu reino, e que antes do nascer do dia os cavaleiros tivessem entrado em meu castelo, sem encontrar resistência, e que acordando assustado eu não tivesse tempo de me vestir, e com uma simples camisa no corpo eu fosse obrigado a fugir, perseguido sem parar, dia e noite, por montes, vales e florestas, até chegar a

                                                                                                               

177 BENJAMIN, Walter. “Apêndice B”. In: LÖWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Trad.: Wanda Nogueira Caldeira Brant. Rio de Janeiro: Ed. Boitempo, 2005. P. 142.

este banco, neste canto, são e salvo. É o meu desejo”. Os outros se entreolharam sem entender. “– E o que você ganharia com isso?” perguntaram. “– Uma camisa”, foi a resposta.179

O pedido que o mendigo faz não consiste em mudar sua situação presente nem futura, coisa que esperaríamos dada sua situação. Seu desejo inesperado é mudar o seu passado. Seus olhos, assim como do avô e do anjo da história, estão voltados para o passado, somente ele que importa para os três. Benjamin também fala de uma outra dimensão dessa história. Vale lembrar o começo do ensaio sobre Kafka, no qual Benjamin sugere que o autor tcheco pensava em Weltalter (“idades do mundo”) e, a partir disso, tentamos demonstrar no capítulo anterior que essa concepção de tempo não era cronológica. Neste aspecto, o tempo pensado por Kafka assemelha-se com um tempo messiânico, também não linear. Ao ressaltar as deformações temporais na obra de Kafka, nos parece que Benjamin traça semelhanças entre a maneira do autor escrever e uma certa concepção de tempo messiânico. É preciso ressaltar que tal discussão ultrapassa o alcance da presente dissertação. Mas é digna de nota para pensar uma outra relação com o tempo, com a memória e com o esquecimento.