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3.5 Oppsummering

4.2.1 Rekruttering

Nos estudos sobre gramaticalização, é importante dar enfoque a um fenômeno de importante interesse teórico: a polissemia. Os estudos sobre polissemia, ou multiplicidade de significados, são antigos e remontam aos estóicos, que já observavam a complexa relação entre o significado e as palavras. Foram os estóicos que chamaram a atenção para o fato de que um único conceito pode ser expresso por diferentes palavras e que, inversamente, uma palavra pode conter diferentes significados.

A visão tradicional qualifica de polissêmicas as unidades lexicais que fazem parte de uma mesma categoria sintática. Para lingüistas como Brugman (1983 apud SHYLDKROT, 1999) e Traugott (1986), ao contrário, a polissemia é muito mais o resultado da organização conceptual lingüística, não coincidindo, necessariamente, com uma categorização sintática. Assim, a polissemia não está limitada aos itens lexicais pertencentes a uma mesma categoria sintática. Brugman (1983) sugere que os processos sincrônicos que determinam a polissemia podem esclarecer os processos diacrônicos. Já Traugott considera que a polissemia independe de uma categorização formal e deve ser introduzida em uma teoria semântica, o que permitiria uma reconstrução semântica interna.

Seguindo a mesma abordagem, Fuchs (1991), ao estudar a polissemia do verbo pouvoir (poder), chega à conclusão de que a polissemia de uma unidade gramatical não deve ser descrita somente em termos de uma pluralidade de significações separadas. Fuchs acredita ser possível encontrar, nas diversas significações de uma unidade gramatical, uma cadeia, na qual se percebem sentidos deriváveis de outro. No inglês, estudos sobre o mesmo verbo detectaram que o sentido epistêmico se desenvolve a partir do sentido deôntico.

Ravin e Leacock (2002) explicitam que testes lógico, lingüístico e definicional são usados para identificar se uma palavra é ou não polissêmica, e que diferentes abordagens se propõem estudar esse fenômeno lingüístico, a saber: a abordagem clássica, a abordagem prototípica, a abordagem relacional e a abordagem computacional. Teceremos breves comentários apenas sobre as duas primeiras, considerando que nosso objetivo é apenas relacionar polissemia e gramaticalização.

A abordagem clássica tem suas bases na Lógica e na Filosofia e caracteriza-se por relacionar o significado a condições de verdade, mundos possíveis e estados de coisa. Por essa

abordagem, a polissemia é vista como uma similaridade na representação de dois ou mais sentidos de uma palavra, sendo governada por processos produtivos, como a transferência metonímica e a relação sistemática.

A transferência metonímica é a responsável pela criação de sentidos como o de pé em pé

da montanha; e a relação sistemática é exemplificada por Ravin e Leacock (2002) como a relação

que há entre palavras que denotam recipientes e a quantidade que esse recipiente suporta, como

colher – utensílio – e colher – colherada, em uma colher de açúcar.

Na abordagem prototípica, a polissemia é um caso especial de categorização, onde os sentidos de uma palavra são exemplos de uma categoria. Desde os trabalhos de Brugman (1983) sobre a preposição inglesa over (sobre, em cima de) que a polissemia despertou interesse dos cognitivistas. Essa abordagem difere da clássica por sua visão psicológica e por enfatizar o significado como parte de um amplo sistema cognitivo e relacioná-lo a representações mentais, modelos cognitivos e experiências corpóreas.

Lakoff (1987), sem usar o termo polissemia, discutiu o conjunto de significados que uma palavra pode ter como resultado do processo de extensão de significado. Tomando como exemplo a palavra mother, Lakoff (1987) usou o termo radial, para expressar a existência de uma categoria central a qual se relacionam várias categorias marginais. Essa extensão de significados de conceitos radiais é governada por princípios gerais, a metáfora e a metonímia38.

Por essa visão, as palavras polissêmicas são categorias complexas ou radiais, pois possuem uma estrutura interna que inclui uma constelação de sentidos com diferentes graus de representatividade. Isso leva Cuenca e Hilferty (1999) a dizer que, em semântica léxica, a polissemia representa a regra e não a exceção, e que a monossemia e a homonímia representam pontos finais de dois contínuos que se entrelaçam com a polissemia.

Assim, a monossemia não é tão corrente como imaginamos, pois é difícil encontrar uma palavra que tenha apenas um significado. Cuenca e Hilferty (1999, p. 128) apresentam o caso da palavra hamster que parece ter só um significado – pequeno roedor – mas é possível uma construção do tipo Mamãe é um verdadeiro hamster, formada pela extensão semântica motivada pela metáfora ‘PESSOAS SÃO ANIMAIS’.

Outro fenômeno lingüístico que se confunde com a polissemia é a homonímia. A diferença entre elas reside na inter-relação de significados. A inter-relação está presente na

polissemia, mas não na homonímia. Esse último caso implica a existência de dois lexemas que compartilham a mesma forma fonológica, mas não há entre eles nenhum tipo de relação. O exemplo clássico é a palavra banco, cujos significados “entidade financeira” e “assento” não compartilham nenhuma relação semântica. O que há em comum é apenas a forma fonológica. A polissemia, ao contrário, é recurso lingüístico no qual se percebe uma relação intrínseca entre os significados de uma palavra.

Para Cuenca e Hilferty (1999, p. 174), a polissemia está relacionada à gramaticalização, em virtude de que esta, sendo um processo complexo, dinâmico e ativo, manifesta relações entre:

a. os diferentes significados de uma palavra, tanto se estão codificados (polissemia), como se não estão ou não estão ainda tão diferenciados para que sejam identificados separadamente (ambigüidade pragmática);

b. os diferentes estágios que percorre uma palavra, expressão ou construção no devir histórico (mudança lingüística).

A relação entre polissemia, ambigüidade pragmática e mudança lingüística, mas especificamente a gramaticalização, é mais bem explicada, de um ponto de vista diacrônico, no quadro, proposto por Cuenca e Hilferty (1994), apresentado a seguir:

QUADRO 04: Relação dinâmica entre monossemia, polissemia e gramaticalização Monossemia

(uma forma – um significado)

Ambigüidade pragmática

(polissemia inferida: uma forma – dois significados) Mudança semântica

(polissemia codificada: uma forma – dois significados) Mudança sintática

(gramaticalização: duas formas – dois significados)

monossemia

duas formas – dois significados uma forma – um significado

O quadro mostra que o processo inicia com uma correspondência monossêmica, uma forma para um significado, que se desdobra para vários significados. O novo significado pode ser apenas um produto de uma inferência discursiva, que se convencionaliza e dá lugar a uma

polissemia (sincrônica). O processo pode parar nesse ponto ou pode continuar. Se continuar, uma das formas se altera, e teremos duas formas e dois significados, chegando a um ponto de mudança não apenas de significado, mas também de mudança sintática. É nesse caso que observa o processo de gramaticalização.

É importante enfatizar que nem toda monossemia se transforma em polissemia, e nem toda polissemia implica uma mudança de categoria, ou seja, gramaticalização. O que queremos deixar claro é que há fenômenos que favorecem, que qualificam um item para a gramaticalização, mas não necessariamente acarretam a gramaticalização.

Se considerarmos o nosso objeto de estudo, o verbo chegar, observaremos usos polissêmicos 39, que o tornam candidato à gramaticalização, mas esses usos não implicam sua gramaticalização, pois assumimos que só ocorre gramaticalização quando há mudança categorial. Como percebemos que, em alguns contextos, o verbo chegar deixa de ser núcleo da predicação e passa a comportar-se como auxiliar, hipotetizamos que o verbo em causa está sofrendo um processo de gramaticalização.

SÍNTESE CONCLUSIVA

O processo de gramaticalização é compreendido como o processo por meio do qual alguns elementos que possuem conteúdo lexical sofrem modificações, ao longo do tempo, até se tornarem elementos gramaticais. Para melhor entendimento do tema gramaticalização, fizemos um breve histórico sobre os estudos desse processo, discutimos os principais conceitos, características, princípios e motivações que distinguem esse tipo especial de mudança lingüística. Levando em consideração o nosso objeto de estudo, discutimos, ainda, a relação entre polissemia e gramaticalização.

Diferentes usos atuais do verbo chegar levaram-nos a formular a hipótese de que o este verbo está passando por algumas mudanças que sugerem gramaticalização, pois, em alguns contextos, chegar parece funcionar com estatuto de verbo auxiliar. Para avaliarmos a nossa hipótese, discutiremos, a seguir, conceitos e critérios de auxiliaridade.

39 Cf. Capítulo 5.

Nosso objetivo, no capítulo seguinte, é, portanto, discorrer sobre os critérios de auxiliaridade apresentados por diferentes autores, para, a seguir, destacar aqueles que julgamos mais relevantes e aplicá-los nos diferentes usos de chegar recolhidos nos corpora e, assim, identificar o grau de auxiliaridade que chegar apresenta e o estágio de gramaticalização em que se encontra esse verbo.